O ponto que se trata agora, não importa a posição que ocupe na hierarquia de procedimentos, está na origem do processo, pois tem a ver com os atores e com os problemas a resolver, tendo como pano de fundo a sustentabilidade.
Uma questão preliminar é que mudanças imprevistas no estilo de vida podem ocorrer e isso é importante no caso do Backcasting.
Um dos pontos que integram o programa é o da quebra de tendências. E não se devem confundir tendências de comportamentos atuais com leis da natureza. A abordagem alternativa (Backcasting)
Ferramentas como o Quest Entendimento dos especialistas Compreensão e prática da sustentabilidade melhorada Valores da comunidade, atitudes, preferências e crenças
descreveria o fortalecimento ou enfraquecimento de uma tendência como escolha de parte das autoridades formadoras de políticas. Ambientes sujeitos a mudanças devem ficar abertos a alternativas mais apropriadas ao contexto.
A lição a se tirar é que uma mudança na política pública pode não afetar apenas algumas variáveis exógenas de política (taxas de impostos sobre combustível), mas mudar as regras de todo o jogo. A suposta regularidade entre aumentos na renda, aumentos na posse de carros ou outro bem ou modo ou prática de viver pode não se segurar muito mais.
Existem também outros tipos de incerteza sobre fenômenos sociais que constituem um sério problema para o Forecasting de longo prazo. Um desses tipos tem a ver com a impossibilidade de prever decisões futuras, já que são influenciadas pelo conhecimento futuro.
As intenções e decisões de um agente numa situação são determinadas em grande parte pelas ideias e pelo conhecimento para ele disponíveis naquele momento. Um novo conhecimento pode desequilibrar a balança em favor de uma das alternativas. Mais interessante, entretanto, é o fato de que novas ideias podem levar à identificação de algumas opções totalmente novas.
Dreborg (1996) concorda que nenhum modelo causal humano é suficiente para prever uma ideia genuinamente nova. Nem esse tipo de incerteza pode ser dissolvido com mais pesquisa, por mais cuidadosa que seja. Admite que é predicativo da humanidade ser incapaz de prever o conhecimento e as ideias futuras e que, quando existe uma inovação, algumas tendências da sociedade serão afetadas (em alguns casos, muito afetadas). Assim, o desenvolvimento a longo prazo da sociedade também não pode ser previsto.
Para essas posições – novas ideias e novo conhecimento como empecilhos de previsão do desenvolvimento de um sistema social (sociedade) no longo prazo, ou influência do novo conhecimento sobre comportamentos – a análise marginal da economia neoclássica ainda pode ser a mais adequada.
A questão, no entanto, não é o tipo de incerteza ou indeterminação que de fato ameaçam o significado de qualquer verdadeira investigação de longo prazo, já que o futuro sempre traz surpresas. A questão depende da concepção de para que servem os estudos de futuros. Se for para entender o que realmente vai acontecer, então a indeterminação pode ameaçar o projeto. Não haverá sensibilidade suficientemente capaz de evitar esse perigo. A posição sobre Backcasting, portanto, e as razões para adotá-lo são outras.
Mas se um estudo de futuros tem por finalidade principal definir uma estrutura conceitual mais ampla para discutir o futuro, o estudo é menos vulnerável à mudança imprevista. Os resultados podem ainda ser de grande valia mesmo quando novas opções forem adicionadas. Na realidade, estudos desse tipo podem dar um impulso à busca por novo conhecimento, por exemplo, sobre soluções tecnológicas, e assim contribuir para a emergência das novas opções imprevistas.
Face à incerteza genuína, uma perspectiva de processo sobre estudos de futuros e mudança social de longo prazo deve ser empregada. Estudos de Backcasting podem dar uma importante contribuição ao processo de formação da sociedade futura ao ampliar o escopo de soluções para problemas sociais estratégicos que estão sendo discutidos.
Por isso, os elementos essenciais que se transformarão em diretrizes na linha de planejamento, com vistas ao futuro desejado, são: • foco de interesse (questões relevantes a serem estudadas);
• tipo de soluções consideradas relevantes (previsões do desenvolvimento numa área ou possíveis soluções para um problema social);
• a quem os estudos devem ser dirigidos.
Dessa forma, a perspectiva de Backcasting é imagem do futuro, não previsão de futuro. Não o que pode acontecer. Mas o que e como se quer que aconteça.
O Backcasting pertence, definitivamente, ao campo da pesquisa aplicada e também é multidisciplinar. A perspectiva é caracterizada por uma orientação a problemas de longo prazo, como os efeitos detrimentais do tráfego no meio ambiente. O caráter de solução de problemas torna natural o interesse no que é chamado de contexto de descoberta, e a abordagem para tornar um estado futuro diferente como ponto de partida para discutir o desenvolvimento da sociedade.
Essa operação de tomada de decisão e de escolhas, de ações constantes e monitoradas, necessárias para atingir um ou outro (ou uma mescla) desses estados futuros é obra de muitos e não de poucos decisores (sociedade científica, decisores do setor público ou um público geral informado, também diversas vezes mencionado como atores não especialistas).
Consequentemente, ao não imediatismo do processo importam políticas no sentido de todas as causas de uma ação e não somente uma norma formal escrita, ou no sentido de regras que determinam a tomada de decisões. Para isso são necessários dados, principalmente porque
Backcasting pretende ser um esquema do futuro desejável e não um plano de ação fechado.
O papel dos valores nos estudos de futuros e a escolha do problema a ser estudado são elementos que devem completar a visão do
Backcasting.
Quanto a valores, o raciocínio parte do princípio da ciência cujo papel é produzir novos conhecimentos (dos quais derivam novos conceitos e perspectivas). Tais conhecimentos, segundo sua natureza, embora pertençam à dimensão cognitiva, têm por tarefa a busca determinada por interesses. Isso quer dizer que são guiados por valores. Ora, o problema de dependência de valores deve ser tratado abertamente e seu maior princípio deve ser a luta pela sinceridade e clareza.
Quanto à escolha do problema a ser estudado, o princípio é de que não pode ser aleatório.
Em síntese, determinar a viabilidade física do futuro, de acordo com Dreborg (1996), comporta, fundamentalmente, os seguintes aspectos:
a) O produto – O resultado de um estudo de Backcasting são imagens alternativas do futuro, cuidadosamente analisadas quanto à sua viabilidade e consequências. São escolhas estratégicas da sociedade por serem de seu interesse específico, decisões que podem abrir ou fechar a porta para algumas das soluções futuras identificadas. b) Para quem – Os estudos são direcionados para muitos agentes, tais
como partidos políticos, autoridades governamentais, municípios, organizações, empreendimentos privados e um público geral informado – isto é, não existe apenas um único decisor bem definido. c) Para quê – As imagens do futuro devem servir como exemplos bem
trabalhados de como pode ser, por exemplo, a sustentabilidade, com o objetivo de ampliar as percepções de possíveis soluções entre vários agentes. Outro propósito é destacar as consequências de escolhas estratégicas na sociedade (a abertura ou o fechamento de opções futuras). O resultado de um estudo de Backcasting não deve formar uma base para uma única decisão, nem é um plano ou um projeto. É essencial que os estudos forneçam imagens alternativas do futuro. Além disso, cada alternativa deve parecer coerente e a análise das consequências para a vida social deve ser crível. Então, os resultados podem funcionar como um material científico num processo, facilitando aos agentes valores e objetivos diferentes para formarem uma opinião e uma visão do futuro.
d) Como – Este aspecto, a rigor pertence a projetos específicos. Estabelecidos os princípios gerais, a resposta a essa pergunta, assim
como as respostas ao para quê e ao para quem, se tornarão progressivamente mais específicas à medida que se particularizar o problema ou projeto, num processo do geral para o particular (país, região, estado, cidade, bairro, população).
Um estudo de Backcasting precisa de novas ideias sobre soluções para o problema em questão. Ter ideias é um processo não lógico. Métodos, como painéis de especialistas, podem funcionar, mas também é possível se ter uma ideia brilhante sem qualquer método específico. É o resultado que conta. Entretanto, um conhecimento sadio dos aspectos relevantes da sociedade e da tecnologia é uma base necessária.
Como os estudos cobrem campos tão amplos de conhecimento, será requerida uma equipe interdisciplinar. Quando se trata da análise de imagens do futuro (o contexto de justificativa), deve-se tentar encontrar condições-limite e investigar o escopo por escolhas sociais. Aqui, as condições institucionais para mudança são de relevância. Tanto as conexões causais quanto as relações-meio para fins são importantes. Essas últimas são o tipo mais essencial de resultados, pois os estudos são direcionados para os agentes, mas as primeiras são cruciais para a credibilidade dos resultados.