2. TEORI
2.6. O PPSUMMERING
No século XX, com a psicanálise, o estudo das origens voltou-se para o interior do homem. Segundo Eliade (1972), o inconsciente apresenta a estrutura de uma mitologia privada: pode-se dizer que houve um paraíso (estado pré-natal até a ablatação) e uma catástrofe ou ruptura (traumatismo infantil), em termos do pensamento arcaico, e tais eventos primordiais são constitutivos do adulto, independentemente de sua atitude em relação a eles.
Enquanto as demais ciências apresentam a origem do ser humano como precária e imperfeita, corrigida pelo desenvolvimento, a psicanálise apresenta a idéia de que o começo do ser humano é beatífico, uma espécie de paraíso. Por isso, pode-se estabelecer uma analogia entre a concepção arcaica da beatude e da perfeição original e a psicanálise, pelo fato de Freud descobrir o papel do “tempo primordial e paradisíaco” da primeira infância e a beatude anterior à ruptura, momento anterior à conversão do tempo em “tempo vivido” para cada indivíduo.
Outra idéia freudiana que justifica uma analogia com os comportamentos arcaicos é o “voltar atrás” que permite a reatualização de determinados eventos decisivos e traumatizantes da primeira infância. Nos mitos das sociedades arcaicas, há diversos relatos que ressaltam a crença na possibilidade de se reatualizar ou reviver os eventos primordiais. Entretanto, com raras exceções, tais exemplos ilustram um retorno coletivo, pois era a comunidade inteira ou parte importante dela que revivia os acontecimentos míticos por meio de rituais. É a técnica psicanalítica que vai possibilitar um retorno individual ao tempo da origem.
Longe de querer comparar a psicanálise com as crenças primitivas, Eliade (1972) considera que o “voltar atrás”, importante para a compreensão do homem e para sua cura, percebido por Freud, já era conhecido e praticado em algumas culturas primitivas. Na psicanálise, o retorno individual à origem é concebido como possibilidade de renovação e regeneração de quem o empreende.
Confrontando a psicanálise com os métodos arcaicos e orientais, Eliade (1972) procura demonstrar que o retorno existencial à origem, embora específico da mentalidade arcaica, não se restringe a ela apenas.
Esse “retorno à origem” pode ser utilizado para várias finalidades e com os mais diversos significados, entre eles o simbolismo dos rituais iniciáticos, que implica um regresso ao útero materno. A iniciação dos adolescentes, desde as culturas mais primitivas, abarca uma série de rituais simbólicos o neófito pode ficar recluso numa choça, ser engolido por um monstro ou penetrar num terreno sagrado os quais, representando um regressus ad ut erum , transformam o neófito em embrião para que possa renascer, pois a iniciação equivale a um nascimento, é por meio dela que o noviço nasce para um novo modo de ser ou regenera-se, tornando-se um adulto socialmente responsável e culturalmente desperto.
Seja em culturas mais primitivas ou em sociedades mais complexas, os rituais de retorno ao útero materno são uma constante. Esse “voltar atrás” era o único meio de se anular a obra do tempo, segundo o pensamento arcaico. Abolindo-se o tempo decorrido, recomeça-se a existência com suas virtualidades intactas. Entretanto, nem todos os ritos ou mitos de retorno às origens têm a mesma função. Apesar do mesmo simbolismo, deve-se considerar sempre o contexto, pois ele é que revelará sua verdadeira significação. Em cada situação os simbolismos se enriquecem de novos valores e se revestem de novos significados.
Segundo Eliade (1972), em diversas épocas e culturas, há uma certa continuidade de comportamento humano no que se refere ao tempo, que ele
assim define: “para curar-se da obra do Tempo, é preciso ‘voltar atrás’ e chegar ao ‘princípio do Mundo’”. (ELIADE, 1972, p. 81).
A fim de permitir a recuperação do conteúdo de certas experiências originais, segundo Eliade (1972), Freud elabora técnica análoga. Entre as diversas possibilidades de retorno, as mais importantes são a reintegração direta e rápida à situação de origem e o retorno progressivo, remontando o tempo a partir do presente até o início absoluto. No primeiro caso, observa- se uma regressão precipitada ao caos e reintegração da cosmogonia, com a abolição instantânea do Cosmo ou mesmo do ser humano como resultado de uma temporalidade. No segundo, observa-se a rememoração meticulosa dos eventos históricos e pessoais. Para Eliade (1972), também, nesses casos, o objetivo é queimar tais recordações e, ao revivê-las, aboli-las e destacar-se delas. Em vez de apagá-las instantaneamente para incorporar-se rapidamente à origem, o importante é a rememoração de cada detalhe da existência, atual ou anterior, pois tais recordações é que permitem que se “queime” o passado, domine-o e impeça-o de intervir no presente.
Nesse caso, a memória desempenha papel fundamental, pois é por meio da rememoração que se torna possível a libertação da obra do tempo. É fundamental que todos os acontecimentos testemunhados no curso da duração temporal sejam recordados. Tal técnica relaciona-se à concepção arcaica que valoriza o conhecimento da origem e da história das coisas para que se possa dominá-la.
Certamente, percorrer o tempo em direção contrária implica uma experiência que depende da memória pessoal, ao passo que o conhecimento da origem se reduz à apreensão de uma história primordial exemplar, de um mito. Mas as estruturas são homologáveis: trata-se sempre de recordar, detalhada e precisamente, o que se passou no princípio e a partir de então. (ELIADE, 1972, p.83).
Assim, o conhecimento de sua história confere ao indivíduo o domínio do próprio destino e o conhecimento da história coletiva identifica esse indivíduo com o grupo a que pertence.
Além de Freud, na psicanálise com o psiquismo dominado pelas recordações inconscientes, pela história oculta dos indivíduos num passado distante, a infância —, dedicaram atenção ao passado, no campo da filosofia e da literatura, principalmente, Bergson e Proust. E foram esses intelectuais, segundo Le Goff (1996), que contribuíram, com o alastramento dos estudos sobre a memória, para as convulsões do século XX.
Enquanto para Freud (1987b) a memória está ligada ao inconsciente e a serviço do princípio do prazer, para Bergson (1999) ela é a memória- lembrança, memória de acontecimentos, memória “souvenir” que está a serviço da adaptação à vida.
Bergson (1999) considera o tempo como duração, como um prolongamento do passado “roendo” o futuro e não como uma sucessão de instantes. O passado conserva-se integralmente avançando para o presente, o que faz com que a memória seja constituída de lembranças cuja substância é pura duração.
Para Bergson (1990), a noção de imagem é fundamental na relação entre memória e percepção. Sob a memória superficial, ligada ao hábito, o filósofo observa a existência de uma memória profunda, pura, realçando os laços entre memória e espírito. Tal teoria tem grande influência na literatura, principalmente em Proust, em seu Em busca do tem po perdido (1988). Com ele surge uma nova abordagem da memória no romance.