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“Nasci no Rio de Janeiro. Aliás, no que hoje chamam de Rio de Janeiro! Naquela época, era estado da Guanabara. Minha infância foi boa... Convivi com minha família até os dezenove anos, quando saí de casa para morar num terreiro de Umbanda. Meu pai era funcionário público e minha mãe, dona de casa. Tiveram eu, o único filho homem, e mais duas mulheres, minhas irmãs, que ainda hoje moram por lá.”

“Larguei o estudo cedo por causa de farra. Na época tinha discotecas, seresta, samba... Tudo perto de casa, vizinho... A gente conhecia de tudo! Não tinha coisa certa! Muita bagunça! Por causa disso. tive de começar a trabalhar cedo também.”

“Minha mãe vivia na Umbanda e eu sempre acompanhava. Certo dia, por causa de briga e bebida, fiquei com um inchaço muito grande no braço... Ela me levou vou a um terreiro, para rezar. Daí eu gostei e fiquei”!

“A mãe-de-santo se chamava Sílvia. Lá era uma mistura! Porque ela era de Candomblé e o marido dela, meu padrinho era de Umbanda. Para não desfazer dele, ela misturou. Daí ficou, como se chama: Omolocô. Ficou aquela Umbanda traçada... Candomblé traçado”...

A fala de Sérgio me remete à constatação de Prandi quando, ao abordar o cenário religioso no sudeste brasileiro, diz:

Durante os anos 1960, alguma coisa surpreendente começou a acontecer. Com a larga migração do Nordeste em busca das grandes cidades industrializadas no Sudeste, o candomblé começou a penetrar o bem estabelecido território da umbanda, e velhos umbandistas começaram e se iniciar no candomblé, muitos deles abandonando os ritos da umbanda para se estabelecer como pais e mães-de-santo das modalidades mais tradicionais de culto aos orixás. Neste movimento, a

umbanda é remetida de novo ao candomblé, sua velha e "verdadeira" raiz original, considerada pelos novos seguidores como sendo mais misteriosa, mais forte, mais poderosa que sua moderna e embranquecida descendente. (Prandi, 2009)

Este movimento de adesão ao Candomblé por parte dos umbandistas fez com que o próprio rito umbandista absorvesse elementos rituais próprios do Candomblé. Esse movimento elevado à máxima potência deu origem a religiões híbridas, chamadas de Umbandomblé, Omolocô ou Umbanda traçada.

“Foi lá que eu conheci a Hárima. O ex-marido dela era meu irmão-de-santo. Ela era da marinha e viaja muito. Foi viajando que eles se conheceram. Quando ele convidou-a para conhecer a casa da Madrinha Sílvia, eles já tinham o Hassam. Foi aí que fizemos aquela amizade... Algum tem depois, eles viajaram para Fortaleza e fizeram o convite para eu ir também. Eu vim só e estou aqui até hoje. Fiquei morando! Desde a década de 70! Nesse tempo que passou, fiquei pelo menos uns vinte anos morando fora. Casei, tive filho, saparei, voltei a morar no terreiro... Assim: passei vinte anos só morando fora, porque deixar as funções, nunca deixei. Sempre vinha, ajudava e voltava para casa. Também nunca saí do bairro, morava aqui próximo”.

“O terreiro ficava no meio do quarteirão, onde é hoje, e a gente morava mais para lá, numa outra casa, na esquina. Com o tempo, foi preciso vender a casa e usar o dinheiro na reforma e na construção de outras instalações. A estrutura era totalmente diferente: onde hoje é o terreiro, ficavam o quarto da Oxum, o quarto de Oxalá e a camarinha. Os trabalhos eram realizados no local onde hoje em dia é a garagem e a escada que dá para os cômodos superiores. Mais para trás ficavam o quarto de Exu e o quarto do Seu Gérson”.

“O ritual também era diferente... Antes era mais puxado na Umbanda pura, tradicional. Principalmente a abertura: vinham os rondas abrir o trabalho. Passavam três rondas, às vezes quatro... Variava! Dependia muito de como a casa estivesse na ocasião. Quando nós chegamos do Rio, já começamos a modificar alguma coisa. O ritual era mais voltado para os caboclos, os orixás vieram com a mistura”.15

“Hoje em dia, ela começa despachando Exu. Louva Ogum, que é o homem da casa. Xangô, as santas e, no final, Oxalá. O pessoal até se admira porque, se Oxalá é o supremo, deveria ser o primeiro. Mas Oxalá é sempre o último. Porque primeiro sempre vem o povo da rua, que é quem toma conta do trabalho e da casa. Eles que são os guardiões da casa, por isso tem que cantar pra eles primeiro”.

“A gente saia pouco, passava mais tempo dentro do terreiro, fazendo as obrigações. Antigamente, tinha baia três vezes na semana: na terça, na quinta e no domingo. A macumba acontecia a partir da orientação do Seu Gérson, que dizia em qual linha trabalhar: se era mata, se era água, se era Ogum... Aos domingos, geralmente aconteciam os desenvolvimentos e, na última baia do mês, geralmente era Exu”.

“Ela desenvolveu muita gente! Tem pai e mãe-de-santo desenvolvido por ela até morando no exterior. Gente com terreiro aberto, gente que desenvolveu gente... Hoje em dia, o terreiro é pequeno. Uns se foram, outros morreram, outros deixaram a religião, outros abriram casa”...

“Agora ela não dá mais cruzo, porque não tem médium com preparo para receber cruzo. Eu não sei o que acontece... Parece que os caboclos estão mais maneiros hoje. Não duvido dos caboclos, não é questão de fé, não é isso! A minha fé está mantida! Mas não vejo mais, hoje em dia, caboclo fazer como fazia antigamente. No canto em frente à dispensa, fica a pedra da peia. Quando o caboclo queria disciplinar o filho por alguma coisa que estivesse fazendo de errado, batia com as mãos deste na pedra até sair sangue. A pancada era forte. A gente olhava e se arrepiava todo, sentia a energia...16 Sabia que o caboclo estava lá mesmo! O cavalo ia embora com as mãos inchadas, tal quilo um sapo cururu: grossa e cheia de bolha das pancadas. Hoje eu não vejo mais isso... O caboclo pede licença pra disciplinar o filho e só faz alisar a pedra. Parece que está só limpando, tirando a poeira... Quando a gente ia trabalhar fora, na encruzilhada ou nas matas, tinha Exu que matava galinha no dente. Tinha um filho- de-santo que trabalhava com o Exu Gato Preto... Diversas vezes ele despertava em cima de uma árvore, porque o Exu subia e não descia mais. Hoje não tem mais isso”.