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Quando analisamos o aniquilamento de Margarida na tragédia goetheana, percebemos o quanto a figura do feminino é importante para o poeta, principalmente porque ele não a censura, mas, sim, enfatiza todo o sofrimento humano. Por meio do feminino, Goethe consegue abranger as mais profundas esferas da penúria do homem no que diz respeito às perdas, ao amor que não vigora, a uma vida condenada à morte. Mas de onde se origina essa percepção mais requintada do poeta? Origina-se provavelmente do contato com as mulheres que sempre fizeram parte da vida de Goethe, desde a mocidade, como afirma Fróes: “[...] as mulheres deixaram marcas flagrantes ou veladas em algum enredo ou passagem da obra imensa e multiforme de Goethe” (FRÓES, 2009, p. 38). Por não separar vida e obra e estar sempre atento ao mundo, “[...] o horizonte social de Goethe torna-se cada vez mais abrangente, sua visão da dialética trágica da vida burguesa moderna aprofunda-se cada vez mais; [...]” (LUKÁCS, 2011, p. 87), fazendo-o exaltar tanto o masculino na figura de Fausto como o feminino na personagem de Margarida. Porém o modo sagaz de compreensão do feminino apareceu ao poeta como uma forma de dom ou graça. Diz Goethe, numa conversa com Eckermann: “As mulheres são como bandeja de prata em que colocamos maçãs de outro. O meu conceito das mulheres não abstrai da realidade, mas é em mim inato, ou recebido sabe Deus como. Os caracteres de mulheres dos meus livros são, por isso, aceitáveis e melhores do que se encontram na realidade” (GOETHE apud ECKERMANN, [s.d], p. 194) – isso porque, muitas vezes, na vida real, a crueldade domina; nem sempre é o amor ou o perdão que vence.

Assim como Goethe tem um olhar refinado para o feminino, apresentado em sua complexidade e culminando, em muitos casos, no esfacelamento e na destruição de todas as instâncias da mulher (de filha a irmã, de mãe a amante), visto na desdita de Gretchen como em outras mulheres de suas obras (Estela, Otillie e Cecília, por exemplo)152, o poeta também mostra

o feminino audacioso, sem regras e limites; desvela o eterno feminino gratuito, infinito, abrangente, acolhedor e, antes de tudo, sincero. É evidente que Goethe não é o primeiro a retratar o elemento feminino; os tragediógrafos gregos representam muito bem essa esfera. Por exemplo,

Antígona, de Sófocles – repleta de dor e emoção, luta e empenha-se até a morte para prestar os

últimos deveres ao cadáver do irmão (Polinice). As suplicantes, de Eurípedes, nada mais são do que mães que perderam seus filhos desesperadamente implorando aos tebanos para devolverem os corpos de seus estimados entes, a fim de terminar os rituais fúnebres. Há ainda o sacrifício em benefício do outro ou do seu povo que cometem certas mulheres, como Alceste, de Eurípedes; a jovem Macária, em Os Heraclidas, e Andrômaca, em interesse pela vida de seu filho. Todos esses exemplos são ações que exaltam o verdadeiro feminino afável, farto de amor e que, no entanto, poucos escritores souberem reconhecer e tornar evidente. O que mais se encontra é o feminino exibido de forma irônica ou à maneira caprichosa, de modo que a mulher torna-se puro ser de sentimentalismo ou de “fricotes”.

Em uma das faces do feminino mostrado pelos poetas trágicos, nos dramas antigos, percebemos personagens suplicarem e se sacrificarem pelo ser querido – em outros momentos há o feminino mais vingativo, como a figura de Medeia e o feminino destruidor e ameaçador, simbolizado pelo mito de Helena, “dispersos por toda a literatura grego-latina” (BRANDÃO, 1991, p. 66). Isso mostra que nem sempre a tradição da Grécia clássica é simpática com e favorável à mulher; o feminino, não raro, é uma forma de submeter a mulher ao homem. Na Atenas do séc. V a.C, por exemplo, tanto a mulher como os escravos, eram, perante a lei, “incapazes permanentes” (Ibidem, p. 36), destituídas de qualquer tipo de direito, sempre “caseiras, caladas, laboriosas, econômicas” e ainda submissas; o sofrimento, portanto, era inevitável. Diz Medeia, na tragédia homônima de Eurípedes:

De todos os seres viventes e pensantes, somos nós, as mulheres, as criaturas mais sofredoras. Primeiro, somos obrigadas a gastar muito dinheiro para comprar um marido e (além disso, a) dar um senhor ao nosso corpo, mal ainda mais grave que o primeiro. E vem o problema mais sério: será ele bom ou mal? Pois é uma vergonha para as mulheres abandonar o marido nem lhes ser possível repudiá-lo (Med. 230-237 apud BRANDÃO, idem).

Além disso, alguns pensadores contribuíam para “a mulher descer mais um degrau” (Ibidem, p. 22), como por exemplo Platão. De acordo com Brandão, a mulher na Hélade era um ser tão aviltado e desprezível que Platão, em sua teoria da transmigração da alma, “ameaça aqueles que não se distinguirem pela coragem e não atingirem a catarse dialética de se

reencarnarem em mulher, fato que deve ter atemorizado muitos homens e as oprimidas mulheres gregas” (Ibidem, p. 63, grifo do autor). Abaixo da mulher, conforme a teoria platônica da

metempsicose153, havia apenas “animais ferozes e imundos, aves e peixes” (Idem). No Timeu,

acentua o filósofo:

-aquele que houver feito bom uso do tempo que lhe foi concebido para viver voltará a habitar o astro que lhe foi destinado e terá existência feliz e semelhante à desse astro; mas aquele que persistir no erro será transformado em mulher em seu segundo nascimento e, se ainda perseverar na iniquidade, a cada novo nascimento será metamorfoseado, consoante sua culpa, num animal a que se assemelhará por seus hábitos (Tim.42 b-c apud BRANDÃO, p. 64).

Dessa forma, a mulher grega, ao contrário do que vemos em algumas peças, em que aparece como forte, ativa, guerreira e sujeita a qualquer tipo de renúncia, era, na realidade, sinônimo de terror, punição e fraqueza. Nêmesis, Leda, Pandora, Helena, Clitemnestra, e tantas outras personagens, exemplificam o “nexo entre mulher e punição, e que a feminilidade, quando concebida em seu aspecto biológico e numa só unidade com o mundo dos animais, parece traduzir uma experiência primordial, onde sempre fermenta algo de ameaçador e inexorável” (Ibidem, p. 72).

Com Goethe, o feminino aparece, em alguns momentos, com certo desdém, como podemos observar nesta fala de Mefistófeles referindo-se a Gretchen de modo sarcástico: “[...] Basta! lá dentro teu benzinho espera,/ [...] Coitada, não lhe sais da mente,/ Tem-te ela amor arquipotente./ [...] De noite, o dia todo, em quebranto./ Anda alegre uma vez, quase sempre em negrume,/ Mais outra de choro prostrada,/ De novo, após, calma, ao que se presume,/ E sempre apaixonada” (v. 3303-3323). No entanto, o poeta sabe operar a essência do feminino figurando-o de modo elevado; aos poucos, Goethe vai desabrochando a alma da mulher, e, por mais que ela seja humilde, simples, submissa a uma sociedade masculinizada ou sofra e padeça, não é depreciada, pois prevalecem, na caracterização, os dons do amor, da renúncia e do perdão. Na apresentação da substância do feminino, Goethe inova, mais uma vez, na tragédia de Margarida, diferentemente de como fez a tradição antiga grega – que parece limitar a figura do feminino. O poeta alemão vai além, pois mostra duas fases de um mesmo elemento: primeiro, exibe o feminino aniquilado em todas as suas dimensões; segundo, representa o feminino abençoado, que não mede esforços para interceder, rogar pelo outro, mesmo que este outro não seja digno de compaixão, como é o caso de Fausto.

Contudo, quando falamos que Goethe instaura uma nova concepção do feminino, é porque ele soube ir além, mostrando, no caso de Gretchen, não apenas uma mulher que sofre e se angustia, mas que também aprende verdadeiramente a amar; é seduzida e seduz, ousa e transgride barreiras, mas, no entanto, não perde a sua principal característica: o feminino que doa e que é terno e que sempre acolhe, um acolhimento exclusivo e operado de forma sublime.

O acolhimento é feminino. O masculino também pode acolher, mas dentro de algumas limitações: não o possui em sua natureza. [...] Constroem-se templos, grutas, mas essas construções nada mais são do que tentativas de se reproduzir um retorno àquele estado de alma, que só o feminino pode propiciar: o acolhimento. [...] Por isso essas construções são lugares onde se vai buscar desde que o mundo é mundo, nada mais do que um conforto. Um colo (ANDRADE, 2005, p. 67, grifo do autor).

É por saber acolher e perdoar que Margarida suplica, no Fausto II, por alguém que lhe oferece momentos de deleite, mas que também lhe faz mal, que destrói sua família e – o mais grave: devasta a sua existência. Como Una Poenitentim, Gretchen intercede pela alma de Fausto: “Inclina, inclina,/ Ó Mãe Divina,/ À luz que em ilumina,/ O dom de teu perdão infindo!/ O outrora-amado/ Já bem fadado,/ Voltou, vem vindo” (v. 12069-12075). Trata-se do eterno feminino excelso, constituído no belo e na força “purificadora destinada a conservar a elevação espiritual” (RINTELEN, 1949, p. 74); ou, como afirma Schöne, de forma contrária à constituição interna da tragédia, “[...] o amor salvífico, prestimoso, que doa a graça, revela-se aqui no símile

do Eterno-Feminino” (SCHÖNE apud MAZZARI, 2011, p. 652154

). E é dessa maneira sagaz que Goethe termina o Fausto com a figura de Gretchen – que de trágica torna-se abençoada e agraciada pelo Divino. Com os últimos dizeres do Chorus Mysticus, o poeta revela o verdadeiro sentido da vida, da existência, de ser humano: “Tudo o que é efêmero é somente/ Preexistência;/ O Humano-Térreo-Insuficiente/ Aqui é essência;/ O transcendente-Indefinível/ É fato aqui;/ O Feminil-Imperecível/ Nos ala a si”155 (v. 12.104-12.111). Assim, com uma marca final e especial do feminino, transformado em uma junção do amor humano com o amor divino, Goethe “transporta o reino da tragicidade para penetrar no reino da misericórdia, [...] deixando para trás toda causalidade”, todo o limite do ser, para “defrontar” e vigorar “o amor perfeição”, ou – em outras palavras – “a potência dadivosa, o eterno Amor Divino” (RINTELEN, op.cit., p. 98) ilimitado.

154 Nota 42. Fausto II.