6 ToR c. Further development of the framework for surveillance and
6.4 Surveillance and monitoring needs and best practice
6.4.2 Power analysis
Foi dito no início do trabalho que os registros escritos e tipografados, para além de se constituírem como marcas operadas por ferramentas ou tecnologias de produção, são
também fixações ou materializações das convenções histórico-culturais que regulam estéticas e práticas, e que promovem relações de sentido e de memória em torno das formas. Essa no- ção de materialidade, que se comunica com o paradigma indiciário proposto por Ginzburg (2007) sobre os objetos como extensões contextuais, é tomada como centro de discussão do movimento contemporâneo da Ciência da Informação chamado “neodocumentação”, notada- mente pelos estudos promovidos por Frohmann (2006; 2008). O neodocumentalismo é de origem anglo-saxã e teve iniciado seu trabalho na década de 1990, promovendo o resgate e a atualização de conceitos clássicos da Documentação, ciência inaugurada por Paul Otlet na França, em meados do século XX (ORTEGA; LARA, 2010; ORTEGA; SALDANHA, 2017).
Ao propor o retorno à ideia primeira de documento no lugar da informação objeti- va que se tornara forte no campo, o grupo busca, segundo Araújo (2017, p. 18), não apenas uma substituição terminológica, mas reconciliar os estudos informacionais à realidade social, tendo em vista que os documentos trazem consigo “as marcas de seu contexto, de quem o produziu, do suporte em que está inscrito, de suas dimensões e tamanho, de seus aspectos estéticos, entre outros”. Com isso, promove-se “um reencontro com as dimensões contextuais às quais o documento encontra-se vinculado e seu uso”, pois o “documento possui as ‘marcas’ de sua origem, e é a noção de ‘materialidade’ que permite identificar essa ligação” (ARAÚJO, 2017, p. 18). De acordo com Frohmann (2006, p. 3), contrapondo-se ao conceito mental de informação, isto é, à informação como forma abstrata e independente da interação social:
[...] o conceito de materialidade traz um entendimento muito mais rico do caráter público e social da informação em nosso tempo. Para mim, [...] muito do caráter pú- blico e social da informação depende dela. Estou convencido de que, sem a atenção à materialidade da informação, grande parte das considerações sociais, culturais, po- líticas e éticas, tão importantes para os estudos da informação, se perdem.
O documento pode, então, ser compreendido como um fenômeno material advin- do de práticas humanas. Nesse tocante, a Documentação, área historicamente debruçada sobre essa problemática, torna-se “o meio de materialização da informação”, e estudá-la é buscar compreender “as conseqüências [sic] e os efeitos da materialidade da informação” (FROH- MANN, 2006, p. 3). A relação entre matéria e conteúdo simbólico via Documentação está presente desde Otlet, conforme pode ser observado em outro texto de Frohmann (2008), em que o documento já era interpretado como algo “at the centre of a complex process of com-
institutions10” (RAYWARD, 1991 apud FROHMANN, 2008, p. 75). Segundo o autor, a téc- nica documentária, para Otlet, era a maneira científica, logo, disciplinar e rigorosa, de siste- matizar fatos sociais e naturais em vista de promover um desenvolvimento social universal.
Os fatos, cada qual dotado das particularidades de seu meio, deveriam ser objeti- vados pela atividade da Documentação e, uma vez “purificados” das interferências autorais, isto é, uniformizados, padronizados, classificados e catalogados, tornar-se-iam operantes “to
collaborative scientific labour in the form most useful for knowledge production11” (FROH-
MANN, 2008, p. 81). Por sua vez, os documentalistas, diante da proposta modernista de O- tlet, seriam os atores responsáveis pelo exercício da força no sentido de estabilizar a cadeia polissêmica subjetivamente emanada desses fatos. Mesmo denunciada por seu direcionamento positivista, sintoma daquele tempo, o que a proposta documentária de Otlet revela, segundo Frohmann (2008), é que os documentos, desde a gênese de seu campo, podem ser entendidos como efeitos ou matérias que revelam organizações humanas de poder e de controle, em que a ordem que dita tal processamento dos fatos segue as diretrizes de alguém ou de algum grupo.
O mesmo ocorre com Suzanne Briet (2016). Responsável por dar continuidade à noção clássica da Documentação iniciada por Otlet, a autora afirma que documento diz res- peito a ensino ou à prova. Por suas palavras, pode ser “todo indício, concreto ou simbólico, conservado ou registrado, com a finalidade de representar, reconstituir ou provar um fenôme- no físico ou intelectual” (BRIET, 2016, p. 1). Assim, em sua visão, tudo pode ser considerado documento desde que tenha participado de um processo de representação que o tornará útil, viável às demandas científicas. Esse processo se manifesta como um conjunto de práticas e convenções que determinarão a tipologia do objeto, se ele será reconhecido como primário ou se integrará a rede de derivações de algum. Diante disso, estabelece-se uma práxis em que não apenas os fenômenos são materializados e ordenados por ações de classificação e catalogação, como também o próprio “homo documentator” surge “das novas condições da pesquisa e da técnica” (BRIET, 2016, p. 13, grifo da autora), manifestas pelo exercício da função junto às habilidades profissionais específicas que lhe são requeridas.
Apesar de ser diversa a noção dada a documento e à prática documentária que se seguiu após a fase de Briet (2016), nos diferentes territórios onde foi estudada, França, Espa- nha e América Latina, a versão clássica “se cristalizou fortemente via procedimentos de base empírico-normativa, portanto, alheios à abordagem comunicacional e ao instrumental metodo-
10Livre tradução: “no centro de um processo complexo de comunicação, da acumulação e transmissão do conhe-
cimento, da criação e evolução das instituições”.
lógico que permite realizá-la”, indicando uma “alienação que permeia, muitas vezes, a reali- zação destas práticas e os estudos que as norteiam” (ORTEGA; SALDANHA, 2017, p. 9). Assim, embora criticada como um movimento carente de uma melhor definição frente ao complexo percurso histórico-epistemológico traçado pela Documentação (ORTEGA; SAL- DANHA, 2017), tendo em vista que “as definições iniciais de documento e Documentação já continham, em germe, a noção de informação tal como entendida contemporaneamente” (ORTEGA; LARA, 2010, p. 11), a neodocumentação “privilegia o documento quanto às rela- ções de poder que o envolvem enquanto objeto produzido pelo homem, portanto, relações localizadas histórica, social e politicamente” (ORTEGA; SALDANHA, 2017, p. 18), diver- gindo, com isso, da vertente clássica que prioriza as relações de representação sistêmica.
Por reconhecer e buscar compreender as relações de poder exercidas nas e pelas produções e seleções documentais é que Frohmann (2006) recorre ao pensamento de Foucault acerca da materialidade dos enunciados. Segundo o autor, do mesmo modo que um enunciado foucaultiano deve ser analisado “pela via de sua existência [material]”, isto é, quanto ao modo que surge, pelas “regras de sua transformação, ampliação, as conexões entre enunciados, e seu desvanecimento até deixar de existir” (FROHMANN, 2006, p. 3 e 4, grifo do autor), assim os documentos também devem ser compreendidos, a partir de uma fonte de energia, força e po- der que acontece em âmbitos os mais diversos, tanto sociais como tecnológicos. Identificada tal fonte é que se torna possível perceber a maneira pela qual esses fenômenos documentais e discursivos se estruturam, estabilizam-se, tornam-se circulantes e promovem efeitos, signifi- cados ou informações.
Dos centros de poder, energia e massa dos documentos, Frohmann (2006) identi- fica quatro possibilidades: a institucional, a científica, a representacional e a tecnológica. Pela via institucional, o autor atrela o ganho de força ao grau de sua imersão nos processos e roti- nas das instituições. Como afirma, “vemos que os documentos que circulam através e dentre as instituições têm uma materialidade pronunciada”, sendo necessário “muito esforço [para] produzi-los, instituir práticas com eles, substituí-los por diferentes documentos, e instalar do- cumentos manufaturados e disponibilizados por uma instituição em outra” (FROHMANN, 2006, p. 5). Esses documentos variam em grau de importância ou impacto a depender dos usos, dos fluxos, das tramitações que ocorrem dentro desses locais e entre outros que os utili- zam. Além disso, o autor também observa a importância dos mecanismos de disciplina, outra categoria de Foucault, que opera junto ao monitoramento e às ações corretivas que ordenam as práticas discursivas e documentárias. Trata-se de um regime, que no tópico seguinte será definido como “de informação”, a estabelecer os “contornos” simbólicos da matéria, algo que
está além de sua fisicalidade, mas que também lhe torna reconhecível e executável. São, por exemplo, as já tratadas atividades documentárias realizadas desde a esfera clássica, além dos acordos públicos ou tácitos que ordenam a vida e as produções de uma sociedade. Assim:
[...] existe um caminho direto a partir da análise do discurso de Foucault (a análise dos enunciados) para o estudo da materialidade da informação. O conceito de liga- ção é a documentação. Práticas documentárias institucionais lhe dão peso, massa, inércia e estabilidade que materializa a informação de forma tal que ela possa confi- gurar profundamente a vida social (FROHMANN, 2006, p. 7).
Pela via científica, as informações se materializam e ganham força a partir das práticas metodológicas que asseguram a realização de experiências objetivadas. Conforme Frohmann (2006, p. 8), fora da “prática disciplinada de realização do teste, essa informação [científica] tem pouco peso”, estando o estabelecimento de um fato científico condicionado a uma prática “suficientemente disciplinada”. Já pela instância da representação ou mediação sistêmica, o autor analisa a questão da formação de tipos, categorias ou identidades a partir do registro documentário. Segundo ele, “não pode haver informação sobre algo de um tipo X se este tipo não existir”, logo, “se o tipo não pode existir sem documentação, então a documen- tação é necessária para que haja informação sobre ele” (FROHMANN, 2006, p. 9). O autor ainda afirma que, quando um enunciado é removido ou desmaterializado de algum sistema, ele pode vir a inexistir “não só de um largo escopo de práticas institucionais, mas [...] também num largo escopo de práticas individuais, sociais e culturais” (FROHMANN, 2006, p. 10).
Por último, Frohmann (2006) aborda a questão das tecnologias digitais e a manei- ra complexa e automatizada de como processam e conectam dados entre si, afetando a vida social. Trata-se de como os atuais mecanismos tecnológicos têm promovido uma materialida- de técnica das informações de uso cotidiano em que, nesse regime, o que importa não é a car- ga semântica das mensagens, mas a transmissão em si. No entanto, ainda que essa construção se dê, em vias finais, separada da ação do homem, trata-se de uma maneira particular de pro- longar as intenções advindas da consciência histórica e cultural anterior dos sujeitos que a programaram, como trataria McLuhan (1977), além de Flusser (2010) e Goody (1986; 1988), acerca da ideia dos sistemas de escrita como reflexo das motivações humanas. Todos os meios pelos quais a informação se materializa, conforme visto, seguem as regras disciplinares de seus meios produtores, condição pela qual ganham força e razão de existir, seja de ordem ins- titucional, científica, tecnológica, política, econômica ou da cultura. Assim, pelo viés da neo- documentação, é a pressão das tramas intencionais e seletivas exercida de múltiplas maneiras sobre os processos infocomunicacionais que germina as relações de poder nos e pelos docu-
mentos, marcando-os e promovendo marcas na sociedade que com eles se relaciona. Isso a- carreta toda uma rede de acontecimentos em que os fenômenos ficam subjugados, compreen- são que dialoga com a ideia da escrita e da tipografia como vestígios humanos e, ao mesmo tempo, como artefatos voltados para uma emancipação ou desenvolvimento social.