2.5. The Smart City
2.5.3. Potential of integrating blockchain technology into Stavanger Smart City Projects As previously discussed, the issue of climate change and carbon emissions on a global
Como vimos, um traço característico do realismo literário até o século XVIII foi a preferência pelas formas literárias ligadas ao humor e ao cômico. Assim, a apresentação dos costumes e dos comportamentos sociais, um procedimento muito comum nesses romances, carregava sempre a tinta do humor, seja através da ironia fina e comedida, seja através da apresentação cômica das ações dos personagens. Em Memórias de um sargento de milícias é evidente a pintura cômica que o narrador faz de quase todas as situações que se desenrolam desde o início da história. Todos os personagens, sem exceção, em algum momento da narrativa são “vítimas” do olhar zombeteiro do narrador, que não lhes perdoa qualquer ação que venha a ser ridícula. É cômica a descrição da aproximação que uniu amorosamente Leonardo Pataca e Maria da Hortaliça logo no início da narrativa: Leonardo, para travar primeiro contato com Maria, pisa- lhe “com tanta força com o pesado tamanco no dedo do pé direito que quase lhe arrancou a unha”. (ALMEIDA, 2004, p. 14). Também cômica é a forma como o narrador descreve o pontapé que Leonardo Pai dá no filho em momentos de dissabores com Maria: nosso Pataca suspende o menino pelas orelhas, ergue o pé direito e “assenta-lhe em cheio sobre os glúteos atirando-o sentado a quatro braças de distância.” (ALMEIDA, 2004, p. 19).
A história da conquista amorosa de Leonardo e Luisinha da narrativa também é comicamente relatada pelo narrador, que não deixa de pôr em evidência o ridículo dos atos do jovem casal tomado pela timidez e pela inexperiência: Leonardo, na primeira vez que vê Luisinha, ri de seus modos desengonçados; depois, quando a primeira má impressão passa, não sabe como se portar para se declarar a sua amada: todas as vezes que pensava em revelar seu amor, “banhava-se-lhe o corpo em suor”, um tremor de pernas apoderava-se dele e não lhe permitia levantar-se do lugar, e um engasgo lhe sobrevinha que “lhe impedia de articular uma só palavra”. (ALMEIDA, 2004, p. 130-131). Quando finalmente toma coragem, a declaração soa “desenxabida e sem graça”, acompanhada de uma risada “forçada, pálida e tola”. (ALMEIDA, 2004, p. 132).
O olhar sarcástico e judicioso do narrador não poupa nenhum personagem dentro da narrativa. Ricos ou pobres, jovens ou velhos, as ações e os comportamentos de todos eles são pintados de maneira alegre e bem humorada e sem fatalismos. Nenhuma classe ou grupo social escapa de seu olhar crítico, nem mesmo os padres ou a polícia, encarnados nas figuras do mestre de cerimônias e do Major Vidigal. Mesmo a rica e simpática dona Maria não deixa de ter seu lado vicioso e cômico. Apesar de ter bom coração, ser devota, benfazeja e amiga dos pobres, a velha tinha um grave defeito: a “mania das demandas”, que eram o alimento de sua vida; “acordada pensava nelas, dormindo sonhava com elas; raras vezes conversava em outra coisa”. (ALMEIDA, 2004, p. 100).
O mestre de cerimônias é protagonista de uma das cenas mais ridículas da narrativa: o contraste formado pela figura de um padre ridiculamente pego em roupas íntimas em uma festa profana na casa de uma cigana arranca risadas dos presentes. Assim relata o narrador a cena hilária (não sem um certo cinismo): “no mesmo instante [o Vidigal] viu aparecer o granadeiro trazendo pelo braço o Rev. Mestre de cerimônias em ceroulas, de meias pretas, sapatos de fivela, e solidéu à cabeça. Apesar dos apuros em que se achavam [os convidados da festa], todos desataram a rir [...]”. (ALMEIDA, 2004, p. 91-92).
Também o Major Vidigal não deixa de cometer seus pecados. A pintura cômica que o narrador lhe reserva acontece quando da visita da Comadre e suas companheiras para interceder em favor de Leonardo, a quem o Major havia encarcerado e pretendia dar algumas chibatadas. Da imagem de um Vidigal sisudo, carrancudo e bem alinhado fisicamente, passa-se a um ser ridículo, que perde todos os traços do caráter inflexível que até ali fora mostrado: o major deixa de lado toda a sua “autoridade policial” quando recebe as senhoras “de rodaque de chita e tamancos”; sua imagem ridícula arranca risos da Comadre, que, ao vê-lo assim, apesar dos apuros em que se achava, “mal pode conter uma risada que lhe veio aos lábios”. (ALMEIDA, 2004, p. 245).
Nessa alegre representação cômica dos costumes e ações da classe social livre e pobre do Rio de Janeiro de D. João VI, temos um narrador heterodiegético que, ao contrário do narrador realista do século XIX, não faz nenhuma questão de se esconder ou disfarçar suas posições em relação aos fatos que narra. Em toda a narrativa são comuns seus comentários irônicos, às vezes colocados de forma mais direta, às vezes muito sutil; o narrador chega até mesmo a marcar graficamente determinadas observações claramente cínicas, destacando em itálico certas palavras
e expressões. Eis alguns exemplos, dos muitos que poderíamos citar: “era a isto que naqueles
devotos tempos se chamava correr a Via-Sacra”. (ALMEIDA, 2004, p. 29). Neste trecho está implícita uma intervenção judiciosa não em relação à religiosidade, mas à maneira de praticá-la do tempo. “Entre todas as suas boas qualidades [José Manuel] tinha uma que infelizmente caracterizava naquele tempo, e talvez até hoje, positiva e claramente o fluminense, era a maledicência”. (ALMEIDA, 2004, p. 122). Aqui, a marcação em itálico mostra não só a intervenção judiciosa e cínica do narrador, mas a própria adjetivação e o uso de advérbios que deixam clara a opinião do narrador sobre o comportamento nomeado por ele de “maledicência”.
Relatando o caráter tímido e desengonçado de Luisinha, que de início ignora por completo as intenções amorosas de Leonardo, o narrador deixa evidente o tom moralista com que trata o comportamento das moças de “seu tempo”, e de quebra ainda deixa transparecer suas reservas em se tratando da religiosidade e de certos costumes da época da ação da narrativa:
[...] quem sabe mesmo se a pobre menina sabia lá dessas coisas de amor, se tinha mesmo a mais leve ideia disso: hoje uma menina nas circunstâncias dela estaria mais que muito em dia, e tomaria a parte que lhe devia competir ao negócio; naquele tempo porém de bons costumes e santidade isso era coisa com que ninguém devia contar. (ALMEIDA, 2004, p. 130).
A opinião do narrador é tão forte na obra que, mesmo se colocando em terceira pessoa, há determinados momentos de enunciação em que ele se manifesta em primeira pessoa, como que “se esquecendo” por momentos de sua colocação heterodiegética: “o que eles se diziam não posso dizê-lo ao leitor porque o não sei; [...]”. (ALMEIDA, 2004, p. 157).
A partir do caráter intruso desse narrador que a todo tempo toma posicionamento, observamos muito frequentemente críticas diretas a determinados costumes e à postura de alguns setores da sociedade de então. Mesmo que a narrativa construa de modo geral um “universo sem culpa”, isso não impede que o narrador emita juízos de valor sobre os fatos que narra, e as posturas “incorretas”, em desacordo com a boa moral da época, não deixam de ser marcadas com a tinta da ironia. As descrições físicas e morais dos personagens dão mais uma pista do caráter intruso do narrador: todos eles são descritos com adjetivos geralmente pejorativos, uma vez que, como dissemos, são caricaturas de certos grupos constituintes da classe média pobre e livre. Tome-se como exemplo a apresentação de dois personagens, Leonardo Pataca; “chamavam assim a uma rotunda e gordíssima [sic] personagem de cabelos brancos e carão avermelhado, que era o
decano da corporação [...]. A velhice o tinha tornado moleirão e pachorrento [...]”. (ALMEIDA, 2004, p. 13), e, também, José Manuel, o “rival” de Leonardo Filho:
Figure o leitor um homenzinho nascido em dias de maio, de pouco mais ou menos 35 anos de idade, magro, narigudo, de olhar vivo e penetrante [...]. Quanto à moral, se os sinais físicos não falham, quem olhasse para a cara do Sr. José Manuel, assinalava-lhe logo um lugar distinto na família dos velhacos de alto quilate. E quem tal fizesse não se enganava de modo algum; o homem era o que parecia ser” (ALMEIDA, 2004, p. 121-122).
Além destas, muitas outras passagens em que são apresentados os personagens da história são marcadas pela adjetivação pejorativa do aspecto físico e, em menor grau, do psicológico. Dos costumes, também há vários trechos em que o narrador deixa transparecer seu acordo ou desacordo em relação ao que relata. No capítulo em que apresenta ao leitor um ritual de feitiçaria do qual participa Leonardo Pataca, ele deixa claro pelos comentários sua posição em relação àquela prática mística:
Naquele tempo acreditava-se muito nestas coisas e uma sorte de respeito supersticioso era tributado aos que exerciam semelhante profissão. Já se vê que inesgotável mina não achavam nisso os velhacos!
E não era só a gente do povo que dava crédito a essas feitiçarias; conta-se que muitas pessoas da alta sociedade de então iam às vezes comprar venturas e felicidades pelo cômodo preço da prática de algumas imoralidades e superstições. (ALMEIDA, 2004, p. 31).