8. Conclusion
8.2. Potential implications
O tradutor do Políticas da Natureza para o português fala em “objetos de risco”, mas preferimos aqui uma tradução livre do original “attachements risqués” (que seria melhor
19 Ele chega mesmo a definir a Ciência como “a politização das ciências pela epistemologia com o objetivo de
traduzido como “vínculos de risco”) pois, além do attachement tratar-se de um conceito (Latour, 1998), já mostramos como referir-se aos produtos da ciência como “objetos” foge da perspectiva que adotamos: se não trabalharemos com a partilha natureza / cultura enquanto dado, o mesmo deve ocorrer com objeto / sujeito e, conseqüentemente, com fatos / valores.
A noção de “vínculo” deriva da colocação, em simetria, de humanos e não-humanos, e se liga aos conceitos de “feitiche” (Latour, 1996) e de “ator-rede” (Latour, 2005). É uma alternativa do autor para pensar os atores, tanto humanos quanto não-humanos, sem a idéia de “maîtrise”, e, portanto, sem uma definição a priori dos pólos ativo / passivo. Os atores em rede (ou “atores-rede”) não seriam assim nem objetos, nem sujeitos, mas apenas “bem ou mal vinculados” – ou seja, a relação é privilegiada no lugar de seus termos.
Nesta perspectiva, não cabe, assim, substancializar de antemão as entidades com a qual se lida. Em nosso caso, por exemplo, a soja transgênica e os embriões congelados não seriam a priori sujeitos, nem objetos: é a natureza dos vínculos entre eles e cada um dos outros atores-rede que definirá como, em cada contexto, eles se colocam – como mais ou menos “afetados”.
Isto implica, num plano mais geral, em uma nova sociologia, uma “sociologia dos feitiches” na qual
transpõem-se espaços que não encontram nunca nem o individuo, nem a sociedade, pois todas as movimentações dependem da natureza dos vínculos e do reconhecimento de sua capacidade de fazer ou não existir os sujeitos aos quais estão vinculados. (Latour, 1998) Mas a noção de vínculo pretende não só amarrar de uma nova forma os “fios da ação” ao distribuir as fontes da ação entre todos os mediadores, e não ao Indivíduo ou à Sociedade. Ela busca tipificar uma nova natureza da ação que não se cinda em ativo e passivo, em “aquilo que faz e aquilo que é feito”: o “faire-faire”.
Com esta nova fórmula ... ponho-me a percorrer uma cadeia de mediadores na qual nenhum causa exatamente o seguinte, mas onde cada um permite ao seguinte tornar-se, por usa vez, a origem da ação: literalmente, ‘fazer causar’ seu sucessor.
Não há, portanto, uma causa última da ação. A distinção entre sujeito e objeto, neste sentido, não designa dois domínios diferentes da realidade – um objetivo e um subjetivo – mas simplesmente remete a uma “fratura da ação” em um componente ativo e outro, passivo. Ao invés disto, caberia, para compreender o que se passa com os atores-rede, “voltar-se para aquilo que os vincula e que os coloca em movimento”.
(Latour, 1999a).
No Políticas da Natureza, Latour (1999a) retomou esta problemática ao qualificar os “vínculos de risco” em contraposição aos “objetos sem risco”. Estes últimos teriam por características: limites bem definidos (uma “essência”); uma vez prontos, ocorre a ocultação do processo científico-industrial que lhes deu origem; e, quando chegam a provocar efeitos catastróficos, eles “nunca reagem sobre ... sua essência, porque pertencem sempre a um
mundo sem medida comum com o dos objetos: o mundo da história imprevisível, da desordem política e social” (: 39; grifos meus).
Os vínculos de risco, por sua vez, têm o aspecto de “seres peludos, formando rizomas e redes” (: 40). Além disso, as redes nas quais estão envolvidos não são invisíveis: “a produção científica, técnica e industrial é, desde o início, parte integrante de sua definição”.20 Em terceiro lugar, eles se ligam a outros seres “tão pouco seguros como eles e que, por conseqüência, não compõem mais um outro universo, independente do primeiro.” Por fim, não podem se desligar dos riscos que implicam, por virtuais e longínquos que sejam; pelo contrário, seus efeitos são mesmo esperados, efeitos estes “sobre os quais eles aceitam a responsabilidade, dos quais tiram ensinamentos” (: 40-1). Isso não significa, porém, que necessariamente corremos mais riscos hoje do que antes; o que ocorre é que hoje “as conseqüências vinculam-se aos objetos de um modo interdito pelo modernismo”; ou seja, os vínculos de risco são os antigos objetos + os riscos a eles associados, responsáveis por evidenciar toda a rede na qual eles se envolvem.21
Uma conseqüência importante da proliferação destes vínculos de risco, e que nos interessa mais de perto aqui, é que a incerteza que eles envolvem acaba se estendendo também à hierarquia dos seres que compõem o mundo. Não há mais uma “grande cadeia do ser”, uma hierarquia pré-fixada de valores e atores, uma hierarquia entre humanos e não- humanos, entre meios e fins – não há mais uma natureza, enfim.22 A ecologia política – entendida por Latour como “aquilo que multiplica os vínculos de risco” – “perturba o ordenamento das classes de seres ao multiplicar as conexões imprevistas e variar brutalmente sua importância relativa” (: 43).23
20 No Glossário do livro, Latour enfatiza justamente este aspecto ao referir-se aos vínculos de risco: eles servem
para lembrar que “as crises ecológicas não referem-se a um tipo de seres (por exemplo, a natureza, os ecossistemas), mas à forma de fabricar todos os seres: as conseqüências inesperadas, bem como o modo de produção e os fabricantes, permanecem ligados aos vínculos de risco, ao mesmo tempo em que aparecem desvinculados dos objetos propriamente ditos (Latour, 1999a: 358; grifos meus).
21 Latour (1999a: 308-9) credita a Beck esta caracterização dos objetos de risco, e ainda associa a noção à dos
entangled objects na Antropologia (cf. Strathern, 1992 e Thomas, 1991).
22 Latour (1999a: 42) define natureza, a este respeito, como “o termo que permite recapitular, em uma só serie
ordenada, a hierarquia dos seres”.
23 Em termos mais gerais, parte da pesquisa antropológica tem se dedicado a contemplar etnograficamente estes
A tarefa de reordenar, de refazer a hierarquização dos seres é eminentemente política, no sentido que Latour passa a atribuir ao termo – que, apesar de não se limitar ao Estado, o inclui. O processo de composição da Lei de Biossegurança no Congresso foi, acreditamos, uma atualização concreta desta reorganização das hierarquias, diante da “crise de objetividade” suscitada pelos desenvolvimentos da engenharia genética. Houve que se fazer uma nova Lei para regulamentar a pesquisa e utilização de organismos transgênicos e células- tronco, pois as antigas hierarquias não funcionavam mais – ou mesmo sequer existiam.
Além disso, repensar a dicotomia sujeito / objeto no caso da produção tecno-científica impõe que se repense, também, o problema da representação no caso de sua regulamentação política. Latour (1999a: 144) o fez evidenciando a falta de operacionalidade, no contexto contemporâneo, da sua “dupla face” moderna: de um lado, a epistemologia, às voltas com o problema de como obter a representação precisa da realidade exterior (a “representação epistemológica”, dos não-humanos, que lida com fatos); de outro, a filosofia política, que busca como um mandatário pode representar fielmente aqueles que lhe delegaram o poder (a “representação política”, dos humanos, que lida com valores). A perspectiva simétrica da ecologia política implica, por outro lado, que parlamentares e cientistas realizam ambos um trabalho de representação política do mesmo tipo; e mesmo que estes últimos realizam um trabalho político ainda mais importante que os primeiros:
Se definimos a política ... como a composição progressiva de um mundo comum a compartilhar, perceberemos que a divisão entre as qualidades primeiras e as qualidades segundas já realiza a maior parte do trabalho político (Latour, 1999a: 69; grifo do autor). Ora, a classificação das qualidades primeiras (aquilo que compõe objetivamente o universo) e qualidades segundas (aquilo que é apenas percebido subjetivamente) dos seres sempre foi tarefa dos cientistas. E eles continuam a executá-la; mas cabe avaliar como vem se dando esta triagem no caso dos vínculos de risco – onde a incerteza que os envolve implica em uma desorganização das antigas hierarquias – e, ainda, em uma interação com o Estado: idealmente o representante dos humanos e guardião de seus valores.