“Sim, agora já posso provar pra qualquer brasileiro que sei ler e escrever” Raul, 44 anos.
No grupo de alunos concluintes podemos observar que ocorreram mudanças semelhantes na vida de Ademir e Raul. Os dois relataram que as condições de vida melhoraram, pois a partir do conhecimento da leitura e da escrita estão desenvolvendo novas atividades profissionais, melhorando suas condições de trabalho e salário.
- Tá bem melhor esse ano, viu?... porque eu saí do emprego lá da usina e agora tô contratado numa construtora e tô trabalhando de pedreiro. Assim no financeiro melhorou muito pra mim. Quando o chefe não tá sou eu que fico responsável por tocar a obra. (Ademir, 38 anos, pedreiro)
- Com o diploma eu já consegui melhorar de emprego lá na firma... sai da parte da limpeza e agora tô como operador de caldeira, porque já nesse serviço precisa anotar as coisas no relatório... eu agora eu já tô sabendo, né? Nessa parte melhorou. (Raul, 44 anos, operador de caldeira)
Os dois alunos consideram que o estudo ajudou na mudança de emprego, pois se não soubessem fazer os cálculos, escrever e ler não iriam conseguir desempenhar as novas funções. Nesse sentido, a expectativa de melhorar as condições de trabalho, por meio da escolarização, apontadas pelos dois sujeitos foi concretizada. Ademir e Raul admitem que ainda possuam um pouco de dificuldade para escrever, pois, às vezes, trocam algumas letras nas palavras, mas se consideram preparados para cursar o os anos finais do ensino fundamental. Com relação à mudança provocada a partir do retorno à escola Raul considera que:
- Hoje eu me sinto mais reconhecido na sociedade... porque quem não tem estudo a sociedade não aceita... que nem aconteceu com o Tiririca porque ele teve que provar pra sociedade que sabe ler e escrever. Eu não votei nele, mais já que ele conseguiu o cargo lá eu torço pra ele ajudar a população que votou nele, né? E tem que saber ler e escrever mesmo porque se não ele não vai conseguir ajudar ninguém. (Raul, 44 anos, operador de caldeira)
Nesse sentido, mais do que a aquisição do diploma para melhorar as condições de trabalho, a certificação também representa para os sujeitos uma maneira de fazer parte da sociedade. Segundo Nogueira:
Além disso, e como parte das exigências sociais, enxerga-se nos certificados escolares (o diploma), o meio necessário para escapar às condições mais precárias de existência. E a confiança depositada na escola para esses fins não se esgota na busca de um posto mais qualificado na divisão técnica do trabalho (e, portanto, melhor remunerado), mas expressa ainda a aspiração a um lugar simbólico (ser alguém na vida) que afaste a ameaça da desqualificação social. (NOGUEIRA, 1991, p. 91)
Os alunos também apresentavam a expectativa de tirar a carteira de habilitação. Raul concretizou a expectativa, mas Antônio declarou que ainda está lendo o livro preparatório do exame para estar mais seguro quando for realizar a prova escrita. De acordo com Manzato:
Os que não adquiriram a linguagem escrita têm o direito de “ir e vir” ofendido, uma vez que, embora tenham habilidades para dirigir, não conseguem passar no exame solicitado para a retirada da carteira de habilitação devido à prova escrita. (MANZATO, 2007, p. 110)
O depoimento de Ademir nos chamou a atenção sobre a atitude tomada com relação à escolarização do filho. Com as melhorias na condição salarial, alcançadas no ano de 2010, Ademir decidiu incentivar seu filho a parar de trabalhar para se dedicar somente aos estudos.
- Eu incentivei meu filho a parar de trabalhar e ir estudar... ele terminou o curso do SENAI e agora tá fazendo outro curso no industrial [escola técnica]... porque não quero que o trabalho atrapalhe o estudo dele. (Ademir, 38 anos, pedreiro).
Os dois alunos interromperam, mais uma vez, suas trajetórias escolares para se dedicarem somente ao trabalho. A principal justificativa que provocou a interrupção foi o horário de trabalho.
A aluna Rita de 23 anos também recebeu o certificado de conclusão dos anos iniciais do ensino fundamental, mas considerou que ainda não está preparada para cursar os anos finais do ensino fundamental e decidiu procurar outro núcleo do Projeto para se preparar para dar continuidade aos estudos. A aluna considerou a mudança de núcleo necessária, pois acredita que o núcleo onde estudava já havia oferecido tudo o que tinha para oferecer. A aluna também declarou que está procurando uma professora particular para ajudá-la a se
desenvolver mais na escrita e, assim, realizar a prova escrita para tirar a carteira de habilitação. A expectativa de arrumar um emprego melhor ainda não foi concretizada e, segundo a análise da aluna, isso se deve a falta de estudos. Nas palavras da aluna: “ainda não consegui um emprego melhor porque é muito difícil ir pro mercado de trabalho sem estudo” (Rita, 23 anos, empregada doméstica).
3.4.2 Grupo de alunos que continua em processo de alfabetização no Proeaja
Dos doze alunos entrevistados no ano de 2009, cinco continuaram matriculados no Projeto. De modo geral todos declaram ter obtido avanços em relação à leitura e a escrita, mas na maioria dos casos são avanços ainda muito pequenos para oferecer a essas pessoas plena autonomia no uso da leitura e da escrita. Como pode se perceber nos depoimentos abaixo:
- Ah... melhorei sim, já consigo escrever meu nome que antes eu não conseguia... Escrevo o nome do meu marido, do meu filhinho, Araraquara eu já sei fazer [escrever]... Acho muito difícil escrever, né? Palavrinha pequena eu escrevo, exemplo: pato. (Carla, 20 anos, do lar)
- Melhorei, mas foi bem pouco viu. Por exemplo, tô conseguindo fazer o meu nome inteiro e o nome dos meus filhos. Lê eu não leio muito não, tá igual... mais as letras eu conheço. Na matemática eu sou bem melhor... gosto de fazer conta de mais [adição]. (Sebastiana, 60 anos, aposentada)
- Outro dia mesmo a professora passou ditado pra gente fazer e eu acertei quase todas as palavras. Tô escrevendo mais algumas coisinhas sem olhar na lousa. A leitura tá mais ou menos... Tem palavra que é mais complicada que outra, né? Bom, mais um pouquinho tá dando pra me virar. (Nair, 66 anos, pensionista/diarista)
- Teve uma pequena melhora, mas muito pouca. Teve muita mudança de professora, isso atrapalha muito a gente... Porque a gente tá acostumado com uma professora e depois vem outra e aí a gente demora pra pegar o jeito da professora nova e nisso demora pra gente aprender. Esse ano não aprendi muito mais não... e olha que eu sou o que menos falta aqui da escola. (Sebastião, 60 anos, pedreiro)
A aluna Celma foi a única representante desse grupo que declarou ter obtido uma melhora significativa na aprendizagem da leitura e da escrita. De acordo com a declaração da aluna:
- Deu uma melhorada... na letra principalmente. A leitura está ótima... agora consigo ler aquelas letras mais difíceis “lh”, “nh”, palavras grandes. Consigo escrever frase, bilhete... acho que melhorei bem esse ano...
De acordo com os depoimentos, os alunos ainda apresentam muitas dificuldades em aprender a ler a e escrever. Esses depoimentos podem de certa forma, anunciar que a educação oferecida para esse contingente não está dando conta de atender a expectativa maior do grupo que é a de aprender a ler e a escrever.