“Sempre que pensamos, somos um eu que se orienta para um cognoscível, um sujeito que se dirige a um objeto”, sentenciou Jaspers (201036) em sua Introdução ao Pensamento Filosófico. Pensamento, sujeito e objeto – temas centrais a filosofia ocidental, de elevada importância desde a antiguidade. Entretanto, desde o “cogito, ergo sum“ esta tríade será fundamental para a constituição da própria questão da existência a partir da modernidade.
Existimos verdadeiramente, enquanto sujeitos em busca de objetos que vêm a nosso encontro ou se colocam diante de nós? Antes que o busquemos, é preciso que o objeto exista para nós; com efeito, não temos consciência de nós mesmos senão a partir do momento em que nos encontramos tendendo para objetos. Não há eu sem objeto, nem objeto sem um eu. Em outras palavras, não há objeto sem sujeito, nem sujeito sem objeto. (JASPERS 2010, 37)
Do “Penso, logo existo” de Descartes passamos ao “penso, pois os objetos me solicitam” de Jaspers. Não é nosso objetivo por meio dessa justaposição insinuar alguma continuidade entre as distintas correntes de pensamento, porém é indispensável deixar claro o impacto do pensar e do conhecer como peças fundamentais para a concepção do sujeito e da existência na modernidade e mesmo na contemporaneidade. Neste sentido é interessante retomar a referência que Delruelle faz a Hegel, ilustrando a importância da proposta cartesiana: “Descartes é, na realidade, o verdadeiro impulsionador da filosofia moderna, na medida em que esta eleva o pensamento à condição de princípio”.63
Isto é, ao colocar em dúvida a existência de um mundo fora de nossa mente (mundo este que será tomado como objeto de conhecimento – abordagem que não constituía um problema para a filosofia pré-moderna), e mesmo “objetos” que habitam apenas o domínio do inteligível (como a geometria e matemática), tem como resultante que a sua dúvida radical (a dúvida sobre a existência de todas as coisas exteriores ou interiores à mente) se transforme em uma certeza radical, no sentido de que se duvido é porque penso, e se penso é porque existo, enquanto que determinação deste último a partir do pensar. O pensamento é elevado assim à princípio da existência, esta ancorada ao pensar. Como decorrência disto, o sujeito será compreendido perante a
evidência de seu ser enquanto fundamento, como “substância cuja essência ou natureza é apenas pensar”.64
A reflexão cartesiana propõe a res cogitans (a coisa pensante, a qual também será entendida por extensão como o sujeito pensante) que encontra seu obstáculo e anteparo em uma res extensa (coisa extensa), tendo o corpo como modelo exemplar e primeiro e, a realidade deste mesmo ou matéria, servindo como a base formal para todo e qualquer objeto do mundo exterior. Estabelece-se, portanto, um dualismo, cuja leitura de Delruelle sobre a construção de Descartes apresenta e fundamenta como um dualismo ontológico entre alma (substância espiritual que tem como característica essencial o pensamento) e corpo (substância material que tem como atributo a extensão). Neste sentido o autor observa que “o dualismo de Descartes é completamente diferente do de Platão, pois coloca em oposição não dois ‘mundos’ (o sensível e o inteligível), mas o sujeito face ao objeto, isto é, o homem (que é um ‘Eu’ que pensa) face ao mundo (que é mera ‘extensão’ física)”. (DELRUELLE 2009, 192)
Eis aí uma distinção fundamental, o sujeito pensante e o objeto a ser pensado, que possuem suas existências em planos completamente separados. O sujeito circunscrito ao pensamento enquanto os objetos definidos por sua extensão. Entretanto, o objeto está presente na consciência, ainda que não a seja, não se confunda com esta. Trata-se aqui de uma ideia de alguma coisa, objeto imediato do pensamento65:
Essa coisa é um objeto dado na consciência por uma representação. É a ideia de alguma coisa que se configura como um objeto ou uma “coisa” distinta. Portanto, é um objeto ou uma “coisa”, não como imagem de um objeto extenso – mesmo que represente um algo com valor objetivo, existindo atualmente –, mas sim enquanto um conteúdo representacional da consciência. (GUIMARÃES 2007)66
Tal representação se diferencia do próprio sujeito, e num movimento duplo, torna-o consciente de si ao mesmo tempo em que o torna consciente de que algo se encontra diante dele. Assim, o ato de representar, no sentido de operar uma substituição de um objeto exterior por uma ideia, faz parte da tomada da consciência e, portanto, do pensar enquanto tal. Esta proposta implica em um sujeito individuado, autônomo e racional, ou seja, um sujeito pensante que conhece o mundo a partir de si e das representações que faz do mundo que o circunda.
Segundo Delruelle, com o passo cartesiano o questionamento filosófico sofre uma alteração fundamental: “o problema filosófico fundamental já não é o que é o ser?, mas sim o que é o conhecimento?”. (2009188) O fato de ter ideias, de ter acesso aos objetos somente mediante representações, é o que determina, para o autor, o percurso de uma nova teoria do conhecimento
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Cf. Descartes, apud DELRUELLE (2009), p. 192.
65 Apesar de Descartes separar as duas substâncias, alma e corpo, o pensar (essência da alma) está preso a uma extensão (um corpo). A alma age sobre o corpo e este age sobre ela. Para o filósofo, o ponto de aplicação da alma ao corpo é a glândula pineal, ainda que isso não esclareça a união da alma e do corpo.
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Disponível em http://e-revista.unioeste.br/index.php/tempodaciencia/article/download/1689/1373. Acessado 16/07/2010.
tendo o sujeito como seu núcleo67. Dela deriva toda uma concepção de sujeito a partir do
conhecimento.O ceticismo de Descartes, em certo sentido, possibilitou ancorar a produção de conhecimento em novas bases, agora tendo por referência, não mais o pensamento teológico- metafísico medieval, mas as ciências empírico-matemáticas. Tal perspectiva processava-se no sentido de que incide sobre os modos operatórios do pensar a evidência do pensamento, eliminando assim a necessidade de outros pressupostos. Assim, como veremos a diante, esta ausência de pressupostos está ligada à proposição do cogito cartesiano.