Do que foi exposto nas seções anteriores, ressalta-se que é adotada neste estudo a concepção de letramento enquanto prática social de uso da leitura e da escrita. Acrescenta-se a essa visão a ideia de que no ambiente virtual é construída uma nova forma de uso da língua. Tendo esses dois pontos em vista, chega-se à necessidade de pensar a relação entre práticas de letramento e a leitura, assim como o uso da escrita em ambiente virtual.
As práticas de letramento devem levar em consideração as novas formas de interação com a língua e os novos espaços em que ela opera. Com o desenvolvimento da tecnologia informatizada, a linguagem sofreu várias modificações em sua forma, conteúdo, veículo e uso. Um novo espaço formou- se, definido em um plano imaterial, que denominamos neste estudo “ciberespaço". O ciberespaço é um novo lugar no qual a língua é utilizada para a comunicação, de forma dinâmica, ultrapassando barreiras físicas, distâncias geográficas e temporais.
Nesse novo contexto de comunicação, o internauta busca reproduzir a velocidade da conversação fazendo uso de diversos recursos linguísticos, caracterizados por uma forma mais dinâmica, abreviada dos itens lexicais, por diferentes construções , apropriando-se de siglas, onomatopeias, abreviaturas etc... no corpo do texto.
Bagno (2002, p. 55-56) reporta-se a este fenômeno diferenciado de comunicação ao afirmar que a tela do computador se tornou em novo portador de textos (e de hipertextos), suscitando novos gêneros, novos comportamentos sociais referentes às práticas de uso da língua oral e escrita.
Desta forma, podemos afirmar que o uso do computador possibilitou ao homem novas formas de se comunicar e romper barreiras espaciais, um mundo que não é concreto no sentido de ser sensível, palpável, mas o é, por ser a concretização da comunicação.
Embora o ciberespaço se constitua a partir de uma estrutura virtual, isso não significa dizer que o ambiente onde se processa a linguagem entre os internautas, neste caso, falantes nativos de sua língua materna e até de uma segunda língua, seja uma ilusão. A virtualidade, longe de ser uma ilusão, é real: é um mundo “desmaterializado”, no sentido de que não existe um território concreto, geográfico, palpável em que as informações são veiculadas.
É neste espaço virtual que o processo de interação linguística vai ocorrer, e onde os falantes e a linguagem transformam-se em entes virtuais.
Intenta-se através desta exposição a respeito deste espaço esclarecer que, embora o ambiente seja diferenciado, o processo de comunicação entre os falantes usuários das salas de bate papo concretiza-se, e isso é real.
Podemos até afirmar que alguns usuários destas salas de bate-papo podem projetar avatares que representem quem eles gostariam de ser. Trata- se de uma forma diferente de se apresentar a amigos de grupos distintos e ser aceito a partir de qualidades e comportamentos que não possuem. Esse fenômeno é interessante e fundamental para compreender as interações no ciberespaço. Determinado falante pode conversar com outro em uma sala de bate papo, ambos possuem um nome, características, nacionalidade, preferências, que os identificam, porém nada comprova a veracidade desses falantes no mundo real; eles podem não existir empiricamente, sendo uma criação virtual de um indivíduo real. Todavia ressaltamos que este espaço é comumente usado também por pessoas que se conhecem, e este meio de comunicação pode se configurar somente em mais uma forma de manter contato independentemente de espaço físico.
O texto que é produzido em um ambiente virtual dentro das salas de bate-papo é a projeção da fala. Por ser um espaço descontraído e que oportuniza de alguma forma a troca de informação com a interação de ambos os falantes, diferentemente de um e-mail, um texto escrito é produzido por alguém que escreve e recebido por outra pessoa quase que imediatamente. Esta forma de comunicação se dá em tempo real, situação que se configura como se sujeitos de produção escrita estivessem sentados lado a lado ao amigo, batendo papo. Nessa prática virtual, eles não usam o som da fala, mas o representam no texto escrito. Sendo assim, a “fala virtual” utilizada nas conversações constitui-se em um texto misto que possui características da fala e da escrita. Esse é um fenômeno distinto na história: um texto que mescle fala e escrita simultaneamente.
A “fala virtual” se materializa em um texto escrito, porque se organiza estruturalmente na forma escrita, utilizando-se do código alfabético
escrito e suas regras de combinação para formar sequências de signos, que darão origem aos enunciados, textos e discursos. E é um texto falado porque se utiliza da estrutura da fala, uma vez que se representam as palavras da forma coloquial, utilizando-se de gírias, onomatopeias; porque é marcado pela espontaneidade, pela sincronia.
Neste sentido, a “fala virtual” não pode ser definida como a modalidade escrita da língua, porque possui características da fala, porém não pode ser definida como modalidade da fala, porque possui características da escrita; estamos diante de uma nova forma de pensar as modalidades da língua como atuantes na criação de um novo gênero, de natureza virtual (LIMA; SANTIAGO, 2009, p.950)
As práticas de letramento não devem deixar de lado o mundo tecnológico e digital; antes devem participar ativamente desse novo espaço de interação que se ambienta no ciberespaço. Os conteúdos e metodologias devem ser elaborados tendo em vista a linguagem virtual. O hipertexto, os links, as homepages, as hipermídias podem ser materiais e objetos de estudo para viabilizar um ensino de língua que atenda às transformações sociais e tecnológicas.
Os indivíduos devem desenvolver práticas de letramento que visem ao uso do internetês nos mais diferentes microespaços virtuais, tais como Orkut, Facebook, MSN, Skype, e-mail, bate-papos, sites, programas e ferramentas, etc. O desenvolvimento das capacidades e habilidades de uso da língua no meio virtual é atualmente uma necessidade social; portanto, faz-se necessário que, durante o processo de ensino-aprendizagem, ensinem-se práticas de letramentos que visem à construção de comportamentos linguísticos que atendam ao contexto virtual, como, por exemplo, saber utilizar um site para preencher um currículo padrão de uma empresa e pleitear a uma vaga nesse estabelecimento empresarial.