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POSSIBLE AREAS FOR IMPROVEMENTS OF THE CFU PROGRAMME

A noção de ideologia é essencial para a ACD. Por ser bastante complexa e aberta a diferentes interpretações, faz-se necessário apresentá-la e definir conscientemente qual será a perspectiva adotada nesta dissertação, isto é, determinar qual abordagem de ideologia se adequa aos interesses do que está sendo proposto.

Em primeiro lugar, ressalta-se que o conceito de ideologia é central para os analistas críticos do discurso na medida em que, segundo Wodak (2004, p. 235), “a ideologia é vista como um importante aspecto da criação e manutenção de relações

dentro da linha teórica: o poder. Este, por sua vez, está intimamente relacionado à concepção de hegemonia.

É necessário lembrar que a relevância de tais questões tem relação direta com o teor crítico da ACD e com o objetivo do analista, isto é, deve-se ter em mente que, em uma análise crítica do discurso, a ideologia, o poder e a hegemonia são questões que influenciam diretamente o contexto de produção e recepção dos textos, muitas vezes escondendo relações de desigualdade e opressão vistas ou mascaradas como naturais ou justas.

O discurso tem a capacidade de legitimar ideologias e relações de poder. Assim,

devem ser funções do analista revelar e desfazer a opacidade da linguagem: “[...] muitas

relações entre linguagem e as estruturas sociais são opacas, ou seja, pouco visíveis, passam despercebidas pelos indivíduos. Entretanto, os textos apresentam traços e pistas

de rotinas sociais (Fairclough, 2001)40 que revelam essas relações” (MELO, 2012, p. 67).

Dessa maneira, tem-se que:

[...] o objetivo metodológico do analista crítico do discurso é investigar esses

traços e pistas na intenção de tornar visíveis as relações entre linguagem e outras práticas sociais, que são dadas como naturais. Significa dizer que

a ACD se propõe a desconstruir os significados não óbvios ou “agendas culturais” presentes nos textos, expondo elementos indiciais reprodutores da organização social, que privilegia certos grupos e indivíduos em detrimento de outros, por meio de formas institucionalizadas de ver e avaliar o mundo (ideologias) ou preservação de poderes (hegemonia) de grupos dominantes. (MELO, 2012, p. 68, grifos do autor).

Neste momento, é preciso retomar alguns desdobramentos importantes sobre o termo ideologia. A carga semântica da palavra já esteve a serviço de diferentes correntes de pensamento ao longo da História e sofreu variações diversas na literatura de vários pensadores e pesquisadores das Ciências Sociais, Políticas, da Filosofia, da Linguagem e do Discurso. Alguns grandes nomes que se debruçaram sobre o assunto foram: Althusser, Pêcheux, Bakhtin, Thompson e Eagleton.

De modo geral, o que pode ser observado é que, à parte diferenças mais específicas na definição do conceito, a noção de ideologia foi vista a partir de duas principais perspectivas na História: uma perspectiva neutra e uma perspectiva crítica. Tal análise é defendida por Thompson e assim explicitada por Silva (2009, p. 167):

Conforme Thompson ([1990] 1995)41, na literatura da teoria social e política das últimas décadas há vários conceitos de ideologia que podem ser agrupados em duas categorias gerais: “concepções neutras de ideologia” e “concepções críticas de ideologia” (p. 14, 72).

As acepções neutras retiram qualquer sentido negativo do termo ideologia, que significa “sistemas de pensamento” (“sistemas de crenças”, “sistemas simbólicos”) pertencentes às ações sociais e políticas (p. 14). Nessa perspectiva, a ideologia pode estar tanto nas tentativas de manutenção como nas de subversão da ordem social; é utilizada por dominantes ou dominados. As acepções críticas de ideologia assemelham-se por considerarem que os acontecimentos denominados ideológicos são enganadores, ilusórios. Contudo, essas acepções diferem quanto aos fundamentos que transformam a ideologia em algo negativo; utilizando a expressão de Thompson, há diferentes “critérios de negatividade” (p. 73) [grifos do autor].

Em síntese, ideologia pode ser entendida como algo neutro, ou seja, um conjunto ou sistema estruturado de ideias que pode pertencer tanto às classes dominantes quando às classes dominadas, isto é, pode refletir expectativas de manutenção ou ruptura das relações de poder estabelecidas socialmente; ou pode ser entendida necessariamente como algo negativo no sentido de que sempre representaria apenas os interesses e os valores da classe dominante, dos que têm interesse em manter relações de desigualdade para continuar no poder. De acordo com a primeira perspectiva, por exemplo, tanto o machismo poderia ser visto como uma ideologia quanto o feminismo, que, por sua vez, é um ideal de oposição a uma realidade social de opressão. Já conforme a segunda perspectiva, o machismo pode ser entendido como uma ideologia, ao passo que o

feminismo não – este seria, no máximo, chamado de contraideologia.

No caso da ACD, dois pesquisadores paradigmáticos apresentam pontos de vista distintos sobre o tema: Van Dijk tende à vertente que vê a ideologia de modo neutro. Assim, também chama de ideologia os sistemas de crenças e valores de grupos dominados. Para esse autor,

[...] as ideologias são a base “axiomática” das representações sociais de um grupo e através de atitudes sociais específicas e de modelos mentais pessoais, controlam os discursos individuais e outras práticas sociais dos membros do grupo. Dessa forma, elas também são o recurso necessário da cooperação, coordenação e coesão intergrupal, assim como são responsáveis pelo gerenciamento das relações internas do grupo. (VAN DIJK, 2012c, p. 21). Já Fairclough encara o termo de maneira negativa, vinculando-o aos interesses exclusivos das classes dominantes. Segundo o pesquisador:

As ideologias são representações de aspectos do mundo que contribuem para estabelecer e manter relações de poder, dominação e exploração. Elas podem

41 THOMPSON, J. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Trad. Grupo de Estudos sobre Ideologia, Comunicação e Representações Sociais da Pós-Graduação do Instituto de Psicologia da PUCRS. Petrópolis: Editora Vozes, 1995 [1990].

ser postas em prática em maneiras de interagir (e, portanto, em gêneros) e inculcadas em maneiras de ser ou identidades (e, portanto, em estilos). (FAIRCLOUGH, 2004, p. 218, tradução livre).42

De um modo ou de outro, o que não se pode perder de vista, dentro do escopo da ACD, é que: “Ainda que adotem conceitos diferentes de ideologia, as teorias críticas pretendem despertar nos agentes a consciência de que, com frequência, eles são enganados a respeito de suas próprias necessidades e interesses” (WODAK, 2004, p.

236). Sendo assim, é importante ressaltar que a ACD se preocupa, sobretudo, em: “[...]

investigar como o exercício do poder hegemônico se mescla com práticas discursivas no mundo contemporâneo, ou seja, analisar e revelar o papel do discurso na (re)produção da dominação” (MELO, 2012, p. 69, grifos do autor), o que nos leva às noções correlacionadas de poder e hegemonia. Fairclough define hegemonia da seguinte forma:

O conceito de ‘hegemonia’ é central para a versão do marxismo associada a Antonio Gramsci (Gramsci, 1971). Na visão de Gramsci, a política é vista como a luta por hegemonia, um modo particular de conceber poder que, entre outras coisas, ressalta como o poder depende de consentimento ou pelo menos de aquiescência mais do que de ter recursos para usar força, e a importância da ideologia em sustentar relações de poder. O conceito de ‘hegemonia’ tem sido, recentemente, tomado como um tipo de teoria discursiva na teoria política pós- marxista de Ernesto Laclau (Laclau e Mouffe, 1985). A luta hegemônica entre forças políticas pode ser vista como parte de uma disputa onde as partes conflitantes requerem que suas visões e representações de mundo particulares obtenham um status universal (Butler et al., 2000). (FAIRCLOUGH, 2004, p. 45, tradução livre).43

Dessa maneira, a hegemonia está ligada ao poder – entendido como “a

possibilidade que os indivíduos, ou instituições que representam, têm de fazer uso de algum tipo de recurso para agir em determinado contexto social” (GIDDENS, 2003 apud

MELO, 2012, p. 69) – e à dominação, ou seja, à posse ou ao acesso desigual a recursos

materiais e imateriais. Assim, segundo Melo (2012, p. 69): “[...] na ACD, podemos falar em poder hegemônico quando o poder está a serviço da continuidade da liderança e

42 No original: “Ideologies are representations of aspects of the world which contribute to establishing and maintaining relations of power, domination and exploitation. They may be enacted in ways of interacting

(and therefore in genres) and inculcated in ways of being or identities (and therefore in styles)”.

43 No original: “The concept of ‘hegemony’ is central to the version of Marxism associated with Antonio Gramsci (GRAMSCI, 1971). In a Gramscian view, politics is seen as a struggle for hegemony, a particular way of conceptualizing power which amongst other things emphasizes how power depends upon achieving consent or at least acquiescence rather than just having the resources to use force, and the importance of

ideology in sustaining relations of power. The concept of ‘hegemony’ has recently been approached in terms of a version of discourse theory in the ‘post-Marxist’ political theory of Ernesto Laclau (LACLAU

and MOUFFE 1985). The hegemonic struggle between political forces can be seen as partly a contention over the claims of their particular visions and representations of the world to having a universal status

dominação de uns sobre outros”. É preciso ter em mente, no entanto, que a hegemonia existe, mas não é estável; ela é passível de mudança e, por isso, está sempre em risco.

Por uma questão metodológica, nesta pesquisa será adotado o ponto de vista de Van Dijk (2012c) a respeito da ideologia. Tal opção foi feita levando em consideração o corpus analisado e seu caráter flutuante, que mescla discursos feministas e traços de discursos sexistas reproduzidos pela mídia. Sendo assim, a revista Tpm, por reproduzir traços de ideologias distintas na medida em que recupera representações de mundo conflitantes, constitui um discurso próprio, uma ideologia particular que estabelece uma coesão “intergrupal” com suas leitoras (Nós) e caracteriza um grupo de oposição externo, formado pelas outras revistas e suas leitoras (Eles). Nessa perspectiva, é possível afirmar que a leitora da revista Tpm tem uma ideologia diferente da ideologia da leitora das demais revistas e também da ideologia feminista, pois mistura discursos que estão a serviço da dominação com outros que estão a serviço do questionamento e da mudança nas relações de poder no tocante às questões de gênero. Com essas características, seria complicado considerar o ponto de vista faircloughiano, pois não se trata de sistemas de pensamento estanques, sendo difícil atribuir um caráter negativo ou positivo em sentido absoluto para o discurso analisado nesta dissertação. Tendo isso em vista, a perspectiva de Van Dijk parece se adequar mais ao corpus e aos objetivos aqui pretendidos.

Isso posto, serão ressaltadas, a seguir, mais algumas das características atribuídas por Van Dijk (2012c) à ideologia:

 Ideologias não são positivas nem negativas, são inerentes a qualquer grupo social.

 Uma ideologia é tanto cognitiva quanto social, está ligada ao conhecimento.

 Ideologia é um tipo especial de sistema de crenças social e está localizada na

Memória de Longo Prazo.

 Não há ideologias pessoais ou individuais, apenas usos pessoais ou individuais

de ideologias.

 Sistemas ideológicos formam a base axiomática de crenças mais específicas ou

representações sociais de grupos, como seus conhecimentos, opiniões ou atitudes.

 Não são todas as crenças compartilhadas por um grupo social que são

crenças em comum para poderem se comunicar, ou seja, conhecimento compartilhado socioculturalmente, o que é pré-ideológico.

 A ideologia representa uma das dimensões da identidade social de um grupo

ou de sua autoimagem.

 Ideologias são relativamente estáveis, diferentemente de representações sociais

menos fundamentadas e modelos pessoais variáveis.

 A ideologia estabelece a cooperação e a coesão interna de um grupo social.

 Muitas das estruturas mentais das ideologias são polarizadas com base na

diferenciação de grupo interno e externo: Nós e Eles.

Ainda segundo o autor, os discursos ideológicos apresentam algumas estratégias do chamado quadrado ideológico, apresentadas na Figura 2 a seguir:

Figura 2. Quadrado ideológico (com base em Van Dijk, 2012c, p. 32).