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3.4.2.1. Questionário Sobre Necessidades Espirituais (QSNE)

O primeiro instrumento de colheita de dados utilizado neste estudo foi baseado no Cuestionario sobre Necesidades Espirituales, desenvolvido por Puigarnau, et al.89, publicado na Revista de Medicina Paliativa, em 2008 (Anexo VII). O questionário original é composto por uma só página, estruturado em duas partes distintas. Este pretende ser respondido de

forma individual (auto-preenchimento) e voluntária, assegurando a regra da confidencialidade e/ou anonimato.

O instrumento que construí não resultou de uma tradução directa do questionário supramencionado, com validação efectiva dos seus autores. Apesar deste facto, acabei por me corresponder via correio electrónico com um dos co-autores do questionário original – Jorge Maté Mendez (Psicólogo na Unidade de Cuidados Paliativos do Instituto Catalão de Oncologia, em Barcelona), expressando-lhe o meu desejo em desenvolver a minha tese de mestrado na área da espiritualidade. O referido técnico sugeriu-me algumas leituras, incluindo um pequeno Guia construído pelo Grupo de Trabalho sobre Espiritualidade da SECPAL49 (do qual o mesmo faz parte), que faz menção aos referidos artigo e questionário. Estes serviram de mote à construção de um dos instrumentos utilizados neste estudo, sendo importante referir que partilhei com o autor todo o processo de construção do mesmo, incluindo a sua versão final. Como poderemos verificar, este resultou mais extenso, talvez pela curiosidade e necessidade de aprofundar um pouco mais os mediadores que poderiam influenciar directa ou indirectamente a caracterização e abordagem das necessidades espirituais do doente em final de vida. Tal como no questionário original, este obedece às mesmas regras de resposta e anonimato (Anexo V).

O QSNE é constituído por 5 páginas, nas quais se procede, em primeira instância, à inventariação dos dados sócio-demográficos dos participantes, seguidos de 24 questões deliberadamente simples, claras, objectivas e concisas.

As duas primeiras debruçam-se sobre a caracterização/definição das necessidades espirituais do doente em final de vida, de acordo com a visão integrada dos profissionais respondentes, e as procedentes, à sua abordagem (avaliação e intervenção), incluindo, entre outros aspectos, o levantamento dos recursos utilizados por estes técnicos e as limitações sentidas pelos mesmos, ao abordar este tipo de necessidades.

Das 24 perguntas colocadas, 4 são perguntas abertas (em que a informação recolhida será trabalhada qualitativamente, mediante uma análise sistemática de conteúdo, que permita classificar e categorizar essa mesma informação), 10 mistas, por serem perguntas fechadas seguidas de perguntas abertas, consideradas exploratórias/esclarecedoras dos motivos da escolha efectuada (como tal, sujeitas a análise qualitativa e tratamento estatístico) e 10 perguntas fechadas (compostas por respostas pré-definidas em que o participante poderá seleccionar a que mais se aproxima da sua realidade, sendo estas sujeitas a tratamento estatístico posterior).

No total de 20 perguntas fechadas, 15 utilizam uma escala de Likert de 5 pontos (de 1=Não/Nenhum(ns)/Nunca/0% a 5=Todos/Sim/Sempre/>76%), 2 apresentam possibilidades de resposta de 1=Não a 2=Sim, e finalmente, 2 utilizam uma escala de Likert de 3 pontos, em que 1 poderá corresponder a Menor ou Não, 2 a Igual ou Talvez e 3 a Maior ou Sim.

Esta escala permite-nos descrever a frequência de ocorrência de cada item solicitado, de forma a explorar o grau de dificuldade dos profissionais das várias áreas de especialidade e/ou voluntários, em identificar, reconhecer e responder às necessidades espirituais do doente em final de vida. Pretende-se, igualmente, aceder ao nível de impacto e espaço que a espiritualidade ocupa, quer no trabalho diário desenvolvido por estes profissionais e/ou voluntários de Cuidados Paliativos, quer a título pessoal.

Os motivos que me levaram a optar por este questionário, recaem sobre o facto de este me parecer bastante abrangente, completo e capaz de explorar a importância conferida às supramencionadas necessidades, bem como, modo como estas têm vindo a ser abordadas e cuidadas pelos profissionais e/ou voluntários de Cuidados Paliativos (portugueses), teoricamente despertos para lhes dar resposta.

3.4.2.2. Spiritual Well-Being Questionnaire (versão portuguesa)

Tal como o reportado anteriormente, Fisher53 conceptualiza o conceito de Bem-estar Espiritual (BEE) como uma forma de estar dinâmica, que se reflecte na qualidade das relações que o indivíduo estabelece, em quatro domínios da existência humana: consigo próprio, com os outros, com o ambiente e com algo ou Alguém que o transcende. A partir desta definição (empiricamente confirmada em entrevistas com professores) e com base numa revisão de definições e medidas pré-existentes do conceito, Gómez & Fisher50 desenvolveram o Spiritual Well-being Questionnaire - SWBQ. Esta nova operacionalização para o constructo, avalia as quatro dimensões referidas (pessoal, comunitária, ambiental e transcendental) e permite obter uma medida global de BEE, resultante da adição dos diferentes domínios.

Em 2008, Gouveia, et al.53 apresentaram os resultados psicométricos preliminares da adaptação portuguesa deste questionário para a população normativa, referindo-se mais concretamente às propriedades estruturais do SWBQp (versão portuguesa) e em 200954, a análise confirmatória da sua estrutura factorial.

O SWBQp é um questionário de auto-preenchimento, constituído por 20 itens, distribuídos de igual forma (5 itens) para avaliarem cada uma das quatro sub-escalas de BEE (pessoal, comunitária, ambiental e transcendental). Assim, para a sub-escala “pessoal” correspondem os itens 5, 9, 14, 16 e 18; para a sub-escala “comunitária”, os itens 1, 3, 8, 17 e 19; à sub-escala “ambiental”, os itens 4, 7, 10, 12 e 20; e finalmente, para a sub-escala “transcendental”, os itens 2, 6, 11, 13 e 15.

Ao respondente é pedido que identifique em que medida sente que cada afirmação reflecte a sua experiência pessoal actual. Os itens são avaliados numa escala de 5 pontos (variando de 1=muito pouco a 5=totalmente). Todos os itens são formulados positivamente e o resultado é obtido pela média das respostas atribuídas aos itens de cada sub-escala.

Os autores originais apresentam bons resultados de fiabilidade e validade para todas as sub-escalas, com valores de consistência interna para diferentes sub-amostras variando entre α=.76 e α=.95.50,51

A opção relativamente à utilização deste instrumento para avaliar o bem-estar espiritual dos profissionais que aceitaram participar neste estudo, prendeu-se, essencialmente, com o facto de se tratar de um instrumento de fácil e breve aplicação. Nesta medida, solicitei autorização (via correio electrónico) para utilização do referido questionário, aos autores que adaptaram este instrumento para a população portuguesa, apresentando esse documento em anexo, acrescido de comprovativo de publicação da análise confirmatória da sua estrutura factorial (Anexo V).

No capítulo seguinte apresentam-se os resultados com as análises (qualitativa e quantitativa) dos dados obtidos.

4. RESULTADOS