Esta região compreende a margem direita do Rio Paraguai, percorrida em várias etapas, assim distribuídas: do Canal do Tamengo até o Porto da Manga; do Porto da Manga até o distrito de Albuquerque; do distrito de Albuquerque até o Porto Esperança; do Porto Esperança até o Forte Coimbra.
Na margem direita do Rio Paraguai, na cidade de Corumbá/MS, no Canal do Tamengo (Porto Aurora) registrou-se a presença do cacto Cereus Bicolor. No Porto Figueira e no Porto Limoeiro encontrou-se a Formação Xaraiés, registrada sob um imenso paredão de rochas calcárias. Descendo o rio pode-se registrar o corixo Furna da Onça que dá acesso a hotéis pesqueiros e o corixo de entrada às Lagoas Negra e do Arroz. No Morro do Rabichão, encontra-se a foz do Rio Rabicho, onde foi registrada a presença do cacto Cereus Bicolor. Pode-se visualizar o encontro das águas dos rios Paraguai Mirim, Negrinho e Taquari com o Rio Paraguai. E por fim o Porto da Manga e o distrito de Albuquerque.
Neste trecho do Rio Paraguai tem-se uma vista parcial de toda a morraria, da região próxima à cidade de Corumbá/MS. No distrito de Albuquerque, no Morro do Luizinho e na Baía do Periquito há incidência do cacto Cereus Bicolor.
No trecho do Rio Paraguai entre o distrito de Albuquerque e o Porto Esperança registrou-se a foz do Rio Miranda, na margem esquerda. No Porto Morrinho, registrou-se tanto no primeiro morro, quanto no segundo o cacto Cereus Bicolor.
Entre o Porto Esperança e o Forte Coimbra há vários grupamentos de morros, assim denominados: Morro da Puga e Morro do Conselho, na margem direita, e o Morro do Marinheiro, na margem esquerda, registrou-se a presença do cacto Cereus Bicolor em todos os morros. No Forte Coimbra também há incidência do cacto Cereus Bicolor. Entre o Porto Esperança e o Forte Coimbra registrou-se nos barrancos das margens direita e esquerda, o solo da Formação Pantanal, que é dominante nesta região.
Ao longo de todo este percurso, tanto na margem direita, quanto na esquerda pode-se observar a existência da uma área de tensão ecológica, área de contato entre a Savana e a Floresta Estacional (BRASIL, 1982) que constitui um dossel emergente, pois ao longo das margens encontra-se uma área de Floresta Semidecidual Aluvial, com o registro da presença da Embaúva (Cecropia pachystachya), dando a impressão ao viajante que na margem direita há uma vegetação mais densa, com espécies arbóreas e na margem esquerda aparece uma vegetação de menor porte, com espécies arbustivas.
Na região percorrida aparecem à Formação Xaraiés no Porto Figueira e no Porto Limoeiro, os Aluviões Atuais entre o Canal do Tamengo e o Morro da Puga e, entre o Morro da Puga e o Forte Coimbra está a Formação Pantanal. O Projeto RADAMBRASIL (BRASIL, 1982) considera a Formação Xaraiés depósitos superficiais em áreas próximas e/ou de ocorrências de rochas calcárias; a Formação Pantanal está em áreas de depósito fluviais e lacustres periodicamente inundáveis e/ou sujeitas às inundações ocasionais; e os Aluviões Atuais constituem as Planícies e os Pantanais Mato-Grossense.
O Projeto RADAMBRASIL (BRASIL, 1982) evidencia que a margem direita do Rio Paraguai constitui uma planície fluvial, área plana resultante de acumulação lacustre, de cobertura arenosa periódica ou permanentemente alagada, incorporada a rede de drenagem de forma precária.
As evidências encontradas e documentadas nesta região são: a Formação Xaraiés, a Formação Pantanal e os Cactos. As fotos 25 e 26 apresentam essas evidências.
Foto 25: Cactos Cereus Bicolor no Porto
Morrinho em Corumbá/MS em Outubro/2010. Foto 26: Cactos Cereus Bicolor no Morro da Puga na margem direita do Rio Paraguai em Outubro/2010.
A foto 25 mostra o cacto Cereus Bicolor no Porto Morrinho em Corumbá/MS. Este tipo de cacto é abundante nesta região de morros calcários. Este ponto é evidenciado na figura 9 (S19º29’653”/W057º25’715”; S19º30’317”/W057º25’940”; S19º27’512”/W057º24’682”; S 19º27’512”/W057º24’682”).
A foto 26 apresenta o Morro da Puga na margem direita do rio Paraguai, região de morros calcários, onde o cacto Cereus Bicolor aparece de forma abundante, no detalhe da foto. Este ponto está evidenciado na figura 9 (S19º37’454”/W057º28’292”).
Os trabalhos de campo expostos tiveram como respaldo bibliográfico os Mapas de Vegetação, de Geologia e de Geomorfologia do Projeto RADAMBRASIL (BRASIL, 1982).
Esses mapas pertencem a Folha SE.21 Corumbá e parte da Folha SE.20 Campo Grande. Essas informações possibilitaram a construção do Mapa das Evidências Vegetacionais e Litológicas da Região Sudoeste do Município de Corumbá/MS. A figura 9 mostra as evidências vegetacionais e litológicas encontradas na área analisada.
Figura 10 – Quadro das Evidências Vegetacionais e Litológicas da Região Sudoeste do Município de Corumbá/MS
Sub-Regiões Evidências Vegetacionais e Litológicas Pantanal do
Nabileque
Não houve registro de evidências.
Morro do Sajutá 1. Superfícies Intermontanas. 2. Cactáceas. 3. Barrigudas.
Morraria do Urucum 1. Superfícies Intermontanas. 2. Crostas Lateríticas. 3. Cactáceas. Albuquerque 1. Superfícies Intermontanas. 2. Crostas Lateríticas. 3. Cactáceas. Jacadigo 1. Lagoas. 2. Formação Xaraiés. 3. Formação Pantanal. 4. Cactáceas.
5. Barrigudas.
Rio Paraguai 1. Formação Xaraiés. 2. Formação Pantanal. 3. Cactáceas. Fonte: Barbosa, (2011).
O Quadro das Evidências Vegetacionais e Litológicas da Região Sudoeste do Município de Corumbá/MS mostra as 7 sub-regiões da áreas analisada e as evidências vegetacionais e litológicas encontradas em cada uma destas sub-regiões. A figura 9 representa e localiza as evidências vegetacionais e litológicas listadas na figura 10.
Os trabalhos de campo e os levantamentos bibliográficos permitiram algumas conclusões: 1. Foram encontradas nas regiões percorridas as seguintes evidências vegetacionais e
litológicas: os cactos, as bromélias e as barrigudas distribuídas nas Florestas Estacionais Decidual e Semi-Decidual; as superfícies intermontanas; as crostas lateríticas; a Formações Xaraiés e do Pantanal; e a Lagoa do Jacadigo e as Lagoas Negra e do Arroz;
2. Foram registrados vários tipos de cactos na área pesquisada. O cacto Cereus Bicolor é comum a todas as regiões acima especificadas, aparecendo de forma abundante em todos os níveis topográficos das Florestas Estacionais Decidual e Semi-decidual; 3. As superfícies intermontanas encontradas são inselbergers, pedimentos e pedimentos
inumados, alçadas tectonicamente no Terciário;
4. As crostas lateríticas registradas estão próximas a Morraria do Urucum, incluindo a Estrada Parque do Pantanal Sul MS 228, a rodovia MS 432 e a área do Parque Natural Municipal de Piraputangas em Corumbá/MS;
5. A Formação Xaraiés e a Formação Pantanal constituem verdadeiros depósitos de idade Pliopleistocênica. A Formação Xaraíes aparece em torno da cidade de Corumbá/MS (margem direita do Rio Paraguai) e na região da Lagoa do Jacadigo; e a Formação Pantanal aparece na área das Lagoas Negra e do Arroz e no Pantanal do Nabileque, região sul da área pesquisada.
6. A Lagoa do Jacadigo está próxima às serranias fronteiriças com a Bolívia, região de Formação Xaraíes de idade Pliopleistocênica, constituindo um depósito de pedimento antigo; As Lagoas Negra e do Arroz, em Ladário/MS, próximas a margem direita do Rio Paraguai, estão em uma região de Formação Pantanal e Aluviões Atuais, área de depósitos das planícies de inundação do Pantanal Mato-Grossense.
O levantamento das evidências paleoclimáticas visaram demonstrar como ocorreu à retração das matas tropicais e a expansão da semi-aridez com a Caatinga e os núcleos de Cerrados que se processaram no decurso do Pleistoceno Terminal, buscando explicar que os restos de cactos existentes na região de Corumbá/MS são significativos relictos de Caatingas
do Nordeste Brasileiro. Para tal, fez-se uso de bibliografia diversificada de autores que discorrem sobre as flutuações climáticas e suas consequências na formação das paisagens do Pantanal Mato-Grossense.
Segue abaixo algumas reflexões importantes relacionadas às consequências das flutuações climáticas na formação das paisagens do Pantanal Sul-Mato-Grossense:
1. O Mapa dos Esquemas Comparativos entre as Condições Climáticas Atuais e Paleoclimáticas para a América do Sul (VIADANA, 2000) evidencia os esquemas comparativos entre as condições climáticas atuais e paleoclimáticas, durante o último ressecamento no Pleistoceno Terminal, de condições glácio-eustáticas demonstrando que neste período havia em toda a região intertropical do Brasil, um clima semi-árido. Neste período as formações resistentes ao baixo déficit hídrico expandiram, formando um corredor que ligava a atual Caatinga com a região do Chaco Argentino.
2. O Mapa dos Domínios Naturais da América do Sul há 13.000 e 18.000 A. P., Ab’Sáber (1977a) mostra os efeitos do último período glacial, sobre a produção das paisagens que resistiram a este período. Esta é uma reconstituição paleoambiental do Pleistoceno Final que se fundamenta na distribuição da flora e da fauna atuais e nas evidências geomorfológicas, sedimentares e climáticas, comprovando que o Pantanal Mato-Grossense está em uma área de grandes núcleos de cerrados com enclaves de caatingas, em um eixo de expansão da semi-aridez existente entre 13.000 e 18.000 anos A. P.
3. Ab’Sáber (1967) apresenta o Mapa dos Domínios Morfoclimáticos Brasileiros que reproduz o patrimônio florístico que prevalecem até hoje no território brasileiro. Esses domínios são espaços com aspectos paisagísticos e ecológicos complementares que ocorrem em áreas integradas, com características fisiográficas e biogeográficas complexas e homogêneas. O Pantanal Mato-Grossense está situado em uma Faixa de Transição. Ab’Sáber (1967) afirma que a Faixa de Transição afeta de modo mais sensível os componentes da vegetação, os tipos de solos e sua forma de distribuição e, até certo ponto, as próprias feições de detalhe do relevo regional, como é o caso da região da Morraria do Urucum.
4. Prado e Gibbs (1993) afirmam que as Florestas Tropicalmente Secas são parte de formações residuais de climas secos do Pleistoceno. Esses autores comentam que as maiores áreas de Florestas Tropicalmente Secas na América do Sul são encontradas
no nordeste do Brasil e no Brasil Central, nos núcleos Missiones e Piedmont na Argentina, na Colômbia e na Venezuela. Salis et al. (2004) considera a vegetação decídua dos morros adjacentes à cidade de Corumbá/MS parte integrante do Núcleo de Missiones.
5. Prado (1993a, 1993b), Oliveira Filho e Ratter (2000) e Pennington, Prado e Pendry (2000) confirmam que as Florestas Tropicalmente Secas (Florestas Decíduas) formavam no passado, um continuum que ligava a Caatinga nordestina ao Chaco argentino, e por sua vez, à região de Santa Cruz de La Sierra no sudoeste da Bolívia e noroeste da Argentina. As Florestas Tropicalmente Secas apresentam padrões de distribuição fragmentários e disjuntos, que, segundo Prado e Gibbs (1993) são vestígios de uma formação florestal sazonal que já foi extensa e em grande parte contígua, que pode ter atingido a sua extensão máxima durante um período de seca e frio entre 18.000 e 12.000 A. P., coincidindo com a contração da Floresta Úmida. 6. Estas Florestas Decíduas ocorrem dentro de um complexo de tipos de vegetação,
dependendo das condições locais de solo, clima e topografia. Prado e Gibbs (1993) acreditam que o alto grau de isolamento em diferentes posições geográficas ao longo de um gradiente latitudinal, pode ter levado ao estabelecimento de uma vegetação característica nos remanescentes. As diferenças climáticas e edáficas, associadas aos diferentes graus de influência da vegetação predominante na região, provavelmente resultaram na separação, a nível florístico, dos fragmentos (ALMEIDA; MACHADO, 2007).
7. Rizzini (1997) confirma que as Florestas Decíduas estão presentes em pequenos remanescentes distribuídos como encraves, em geral sobre afloramentos de calcário e solos de alta fertilidade, como a vegetação decídua de Corumbá/MS. Rizzini (1997) deduz que se houve aridez no Brasil, o corredor árido argentino estendeu-se para o Brasil, com penetração do scrub xerófilo, perfeita réplica do scrub suculento nordestino.
8. Em recente estudo, Damasceno Júnior et al. (2009) mapeou as principais formações vegetais e contatos florísticos do Bioma Pantanal, informando a existência dos seguintes tipos vegetacionais: Floresta Estacional Semi-Decidual, Floresta Estacional Decidual e as Áreas de Tensão Ecológica. No Pantanal Sul-Mato-Grossense existem onze áreas de contatos florísticos. Na região desta pesquisa são quatro áreas, a saber:
Mata da Lagoa do Jacadigo, Mata do Morro do Chapéu, Mata do Morro do Rabicho e Mata do Morro do Urucum. Essas Matas (Florestas Decíduas) ocupam pequeno espaço dentro do Pantanal Mato-Grossense, mas de importância estratégia, pois são formações-relicto, testemunhos de uma possível conexão com a Caatinga durante o clima seco do Pleistoceno. Os autores citam a presença do Cereus Bicolor e da Barriguda (Ceiba Pubiflora).
9. As crostas lateríticas existentes na região da Morraria do Urucum são ambientes de vegetação xérica de grande heterogeneidade em relação à composição florística, semelhantes à dos granitos do Nordeste (TAKAHASI, 2010). A autora acredita que a relação florística entre as crostas lateríticas de Corumbá/MS e a Caatinga brasileira fortalece a hipótese de uma ligação pretérita entre a vegetação xérica que estenderia desde a Caatinga brasileira, passando pelo Centro-Oeste e chegando até os vales secos da Bolívia e Argentina.
A flora e a fauna do Pantanal Mato-Grossense apresentam o modelo de distribuição biogeográfico da América do Sul, resultando em um rico mosaico de paisagens advindo de flutuações climáticas ocorridas no Quaternário. Na região analisada aparece um mosaico diversificado de formações vegetais, litológicas e geomorfológicas, reflexo dessas mudanças climáticas ocorridas no Pleistoceno. Esse rico mosaico de paisagens estabeleceu relações com os fatores abióticos e culturais, mostrando, assim, uma visão ampla e complexa do todo. Quando se considera a paisagem como um todo, pode-se extrair dela informações sistemáticas da sua estrutura, entendendo os processos morfodinâmicos, pedogenéticos e fisiológicos. O levantamento das evidências paleoclimáticas da região sudoeste do município de Corumbá/MS teve o cunho de visão ampla do todo, explicando a estrutura da paisagem atual, para poder entender a evolução das paisagens pretéritas.
O atual quadro paisagístico, ecológico e fisiográfico do Pantanal Mato-Grossense pode ser visto como resultado das mudanças climáticas ocorridas no Quaternário. Pois, no município de Corumbá/MS entre as encostas da Morraria do Urucum, os Carandazais e os Parques Chaquenhos do Pantanal do Nabileque estão distribuídos cactos, bromélias e barrigudas e outras espécies xerófilas e espinhentas, oriundas de antigas expansões de caatingas arbóreas que, atingiram a borda dos pantanais, formando relictos de uma flora que conseguiu resistir, localmente, ao aumento da umidade e das precipitações.
Assim, conclui-se que o regime hídrico, a vegetação, o solo e o relevo, determinam à diversidade e complexidade dos diferentes espaços existentes no Pantanal Mato-Grossense, considerando as condições climáticas que os mesmos estão sujeitos e as peculiaridades geológicas, geomorfológicas, paleoclimáticas e históricas que incidiram no estabelecimento da paisagem de cada ‘pantanal’ da grande Depressão Pantaneira.
As reflexões sobre as evidências paleoclimáticas da região sudoeste do município de Corumbá/MS foram de suma importância, pois, tiveram como intuito demonstrar que são documentos paleoclimáticos da retração das matas tropicais e da expansão da semi-aridez com a Caatinga e os núcleos de Cerrados, que se processaram durante o Pleistoceno Terminal. Podendo assim afirmar que os restos de cactos existentes nesta região são relictos da Caatinga do Nordeste brasileiro. As fotos tiradas em campo, os mapas de vegetação, geológico, geomorfológico e das evidências vegetacionais e litológicas, bem como a extensa bibliografia, comprovam que houve grandes mudanças climáticas no Pleistoceno Terminal no Pantanal Mato-Grossense.
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta pesquisa buscou fundamentação teórica no método interpretativo possibilitado pela Teoria dos Refúgios Florestais, tendo como escopo realizar uma pesquisa biogeográfica que permitisse a constatação das evidências paleoclimáticas existentes no sudoeste do município de Corumbá/MS, região entre o Rio Paraguai e a Bolívia. Com o intuito de demonstrar como ocorreu a retração das matas tropicais e a expansão da semi-aridez com a caatinga e os núcleos de cerrados que se processaram no decurso do Pleistoceno Terminal.
Para atingir este fim foram desenvolvidos conhecimentos concernentes a área de pesquisa, tais como: a caracterização do ambiente físico, incluindo as unidades fitogeográficas e as unidades litológicas (geologia e geomorfologia); as evidências paleoclimáticas, elencando os documentos vegetacionais, geomorfológicos e geológicos das flutuações climáticas modernas ocorridas na região sudoeste do município de Corumbá/MS.
Os trabalhos de campo dividiram as regiões percorridas em 7 sub-regiões, elencando as evidências paleoclimáticas encontradas em cada uma destas, através de fotos que documentaram as evidências, produzindo o mapa das evidências vegetacionais e litológicas encontradas à campo, demonstrando serem documentos significativos das flutuações climáticas ocorridas no Quaternário.
O Pantanal Mato-Grossense possui diversos ambientes que são oriundos de fatores físicos e ecológicos e suas interações. Nestes ambientes os processos físicos condicionam o desenvolvimento e a manutenção da flora e da fauna.
A diversificação de paisagens do Pantanal inclui relevantes restos de cactos existentes no sudoeste de Corumbá/MS, considerados por Ab’Sáber (2006) significativos relictos de Caatingas do Nordeste Brasileiro. As evidências paleoambientais das flutuações climáticas que ocorreram no Pleistoceno Terminal, levantadas nesta pesquisa indicam que esses restos de cactos são verdadeiros e significativos paleoindicadores de flutuações climáticas outrora ocorridas.
O Pantanal Mato-Grossense tornou-se importante para a Teoria dos Refúgios Florestais porque agrupa conhecimentos essenciais de modelos de distribuição da flora e da fauna da América do Sul, pois esta teoria estuda as consequências das mudanças climáticas quaternárias sobre o quadro distributivo biogeográfico, em tempos definidos ao longo de diferentes espaços paisagísticos.
A flora e a fauna atual da América do Sul refletem a oscilação climática do Quaternário, onde os ciclos glaciais estiveram intercalados com períodos frios e secos, com intervalos de clima úmido e quente. Neste momento as formações vegetais resistentes ao déficit hídrico se expandiram, formando um corredor que ligava a atual Caatinga com a região do Chaco Argentino.
Assim, esses sucessivos ciclos de expansão e retração das florestas sul americanas, originados em períodos alternados de abundância e escassez pluviométrica, permitiram a expansão do Cerrado sobre as terras baixas, antes ocupadas por formações florestais.
Durante o ressecamento do Pleistoceno Terminal havia em toda a região intertropical do Brasil, um clima semi-árido que agravava a situação do sertão nordestino, tornando-o mais seco em relação ao atual. Quando o Nordeste seco esteve ampliado ao máximo no território intertropical, entre 13 e 23 mil anos antes do presente, os padrões da Caatinga arbórea e arbustiva chegaram à região, onde hoje, se situam os grandes pantanais da Depressão Pantaneira.
Os efeitos do último período glacial podem ser percebidos nas paisagens que resistiram a este período. A reconstituição paleoambiental do Pleistoceno Final se apóia na distribuição da flora e da fauna atuais e nas evidências geomorfológicas, sedimentares e climáticas, comprovando que o Pantanal Mato-Grossense está em uma área de grandes núcleos de cerrados com enclaves de caatingas, em um eixo de expansão da semi-aridez existente no Pleistoceno.
O patrimônio florístico que predomina no território brasileiro está representado pelos domínios morfoclimáticos brasileiros. Esses domínios ocorrem em espaços paisagísticos e ecológicos integrados com características fisiográficas e biogeográficas complexas e homogêneas. O Pantanal Mato-Grossense está situado em uma faixa de transição. A faixa de transição influencia diretamente a vegetação, o solo e as formas do relevo regional.
As paisagens do Pantanal Mato-Grossense foram afetadas pela fase seca de condições semiáridas e de baixos recursos hídricos do Quaternário. Com a redução da tropicalidade as florestas tropicais encolheram e as formações vegetais contínuas ficaram reduzidas a pequenas manchas regionais de florestas, com aspectos dos atuais brejos do Domínio das Caatingas no sertão nordestino.
O desenvolvimento desta pesquisa comprovou a existência de evidências vegetacionais e litológicas, consideradas relíquias documentais deste período de ressecamento
e de expansão da Caatinga que houve no Quaternário. Estas evidências são: os cactos, as bromélias, e as barrigudas, distribuídas ao longo das Florestas Estacionais Decidual e Semi- Decidual; as superfícies intermontanas; as crostas lateríticas; a Formações Xaraiés e do