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6. STRATEGIC ANALYSIS

6.9 Porters Five Forces

No terceiro conto do livro Cada homem é uma raça, do moçam- bicano Mia Couto, a personagem central é Rosalinda, a “nenhuma”. Na juventude, ela era daquelas mulheres que “explicam o amor”. Mas, depois do casamento, icou feia, desconjuntada, triste. Apanhava do marido, que, além de beber muito e ter outras, chegou a lhe dizer: “Teu nome, Rosalinda, são duas mentiras. Nem rosa, nem linda”. Quando se tornou viúva, percebeu, nas visitas ao cemitério, que inalmente reali- zava o verdadeiro casamento com Jacinto. Sentia que ele era somente seu, exclusivo. E assim passou a viver, “em subterrâneo namoro”.

Pode-se dizer que Rosalinda encontrou, ao seu modo, um jeito de “usar o passado”. Como era de se esperar, ela não sustentou por muito tempo a leveza de sua memória. Veio a surpresa, exatamente quando ia, mais uma vez, acomodar lores no túmulo do esposo. Apareceu, de re- pente, uma moça “bela e ligeirenta”: “— Essa deve ser Dorinha, a outra última dele”. A solução que Rosalinda encontrou para provocar novas utilizações no espaço do patrimônio tumular foi a seguinte:

Rosalinda se decidiu, pronta e toda. Dirigiu-se ao serviço fune- rário e solicitou que mudassem o lugar do caixão, trocassem o ‘aqui jaz’.

— A senhora pretende transladar os restos mortais?

E, logo, o funcionário lhe mostrou os longos papéis que a supe- ravam. A viúva insistiu: era só uma mudançazita, uns metritos. O empregado explicou, havia as competências, os deferimentos. A viúva desistiu. Mas apenas se ingiu vencida. Pois ela se en- chera de um novo pensamento. Voltou à noitinha, trazendo Sa- lomão, o sobrinho. Às vistas da intenção, o miúdo se assustou: — Mas, tia, é para fazer o quê? Desenterrar o titio Jacinto? Não, sossegou ela. Era só para trocarem as inscrições dos vizi- nhos túmulos. [...]

Jacinto, translapidado, devia de se admirar daquelas andanças. Agora, só eu sei qual é sua verdadeira tabuleta, malandro. Rosa- linda sacudiu as mortais poeiras, se administrou o devido perdão. Que esse gesto de aldrabar a intrusa lhe fosse minimizado por Deus. A outra paraviúva, que dedicasse seus ranhos ao vizinho, o de morte anexa. Porque aqueles olhos de Jacinto, aqueles olhos que a terra se abstinha de comer, só a ela, Rosa e Linda, estavam destinados.248

Rosalinda voltou a se reconciliar com uma memória sustentável. A tática de Rosalinda se fez no aperto do cotidiano, em nome do pre- sente vivido. Ela manipulou a capacidade de ver da “ligeirenta”, que invadia o seu museu particular de fantasias. Rosalinda fez a sua “as-

sepsia” na calada da noite, porque os mecanismos mais profundos de manipulação do passado não costumam se expor à luz do dia, nem aos deferimentos da burocracia.

Entre o patrimônio pessoal de Rosalinda e o patrimônio coletivo, tal como há em praças públicas na atualidade, é possível encontrar uma íntima relação: a necessidade das placas, ou melhor, a potência de dei- nição que uma placa pode ter. Evidentemente, a relação entre palavra e objeto é muito vasta nesse campo patrimonial, mas não consigo deixar de citar aqui mais um escrito de Mia Couto, no romance O outro pé da sereia, que trata de um modo especíico de “emplacar”:

A mulher se espantou: o adivinho mudara de aparência dos pés à cabeça. As tranças deram lugar a um cabelo curto e penteado de risca, a túnica fora substituída por uma blusa desportiva. De- baixo do braço trazia uma tabuleta e foi assim, surpreendido e meio torcido, que saudou a visitante:

— Acabo de chegar de Vila Longe! Fui lá buscar esta tabuleta que mandei fazer para colocar aqui, na entrada do estabelecimento. Colocou a tábua no chão de modo a que o letreiro se tornasse legível. Estava escrito: “Lázaro Vivo, notável das comunidades locais, curandeiro, e elemento de contacto para ONGS”.249 Por diversas razões, vinculadas sempre a certos posicionamentos políticos e procedimentos interpretativos, o destino atual do patrimônio é ser cada vez mais emplacado. Diante da astúcia de Rosalinda, ressalto a indagação do historiador Manoel Luiz Salgado ao abordar questões sobre a transição da Religião do Pai (escrita) para a Religião do Filho (imagem): “Como então compatibilizar escrito e imagem como possi- bilidades iguais de acesso a uma verdade, antes concebidas apenas pelo caminho do escrito, lugar da verdade?”.250

Em uma perspectiva histórica, a escrita não é simplesmente fruto de um amadurecimento de técnicas ou o avanço de habilidades propi-

249 COUTO, Mia. O outro pé da sereia. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 21.

250 GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado. Vendo o Passado: representação e escrita da história. São

ciadas pelo desenvolvimento de certas competências. O que faz a es- crita existir depende de demandas especíicas, conforme exigências e expectativas que negociam com certas conigurações de legitimidade e poder. A (des)coniança diante da palavra escrita, como bem mostra Foucault, não é homogênea em todos os tempos:

[...] perguntava-se como reconhecer que um signo designasse realmente aquilo que ele signiicava; a partir do século XVII, perguntar-se-á como um signo pode estar ligado àquilo que ele signiica. Questão à qual a idade clássica responderá pela aná- lise da representação; e à qual o pensamento moderno respon- derá pela análise do sentido e da signiicação. Mas, por isso mesmo, a linguagem não será nada mais que um caso parti- cular da representação (para os clássicos) ou da signiicação (para nós). A profunda interdependência da linguagem e do mundo se acha desfeita. O primado da escrita está suspenso. Desaparece então essa camada uniforme onde se entrecru- zavam indeinidamente o visto e o lido, o visível e o enunci- ável. As coisas e as palavras vão separar-se. O olho será desti- nado a ver e somente a ver; o ouvido somente a ouvir. O discurso terá realmente por tarefa dizer o que é, mas não será nada mais que o que ele diz.251

Outro caso que pode ser citado, no âmbito da literatura, está em Bonequinha de luxo, de Truman Capote. Não gira em torno propriamente do nome de um artefato. A questão é o sentido de deixar um animal no ano- nimato, ou melhor, a necessidade do nome para a posse da coisa nomeada.

Continuava a abraçar o gato. “Pobre trapalhão”, continuou, co- çando a cabeça dele, “pobre trapalhão sem nome. É um tantinho inconveniente, isso de não ter nome. Mas não tenho o direito de dar um nome: ele vai ter que esperar até pertencer a alguém. Nós nos encontramos perto do rio, só isso, ninguém aqui é de nin- guém: ele é independente, eu também”.252

251 FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. São Paulo: Marins Fontes, 1999, p. 59. 252 CAPOTE, Truman. Bonequinha de luxo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 38.

O modo pelo qual o gato aparece no decorrer dos aconteci- mentos vai deixando indícios sobre a ilusão de Holly a respeito dessa mútua independência. No inal, em uma circunstância de despedida, vem tudo de uma vez: não adiantou deixar o gato desprovido de nome, a convivência havia costurado relações mais profundas. Não interessa aqui a falta de sucesso da estratégia articulada pela personagem, que, antes de tudo, não queria nenhum tipo de dependência. O que importa é perceber o poder que se atribui às palavras na deinição do animal. Sugere-se, no caminhar dos fatos, que a palavra pode, mas nem tanto. Diante da potência dos afetos, o poder do nome pode ser ludibriado.

Obviamente, não é minha intenção fazer um inventário de es- critos sobre o nome ou a sua falta. Quero apenas pôr em evidência que essa preocupação da icção contemporânea pode ajudar a uma sistema- tização de dúvidas que, no meu entender, deveria ser parte constitutiva do ato de escrever para (nas) exposições museológicas. Por outro lado, não posso deixar de ressaltar que a própria escrita, ou melhor, sua re- lação com as coisas a que ela se refere tem-se tornado uma espécie de obsessão da literatura no século XX, não somente nos próprios textos em que os escritores se dedicam ao pensamento sobre o que é escrever, mas também no decorrer das tramas. A icção, em suas entranhas, tem assumido não raramente o papel de pensar sua própria possibilidade de existir: sua (in)utilidade, sua relação com o “real”, seu sentido educa- tivo e sua conexão com outras áreas. É nesse ponto que vejo brechas através das quais a icção pode contribuir para retirar das plaquetas mu- seológicas o sentido de pura “informação”.

“Pintura a óleo, séc. XIX, autor desconhecido”. Uma identii- cação? Não somente, mas, também, uma maneira de propor leituras por meio de palavras. Trata-se de uma forma de classiicar e, ao compor o cenário expositivo, assume tom educativo. O que se escreve não vem simplesmente da coisa que a escrita pretende descrever. A escrita não está inscrita no objeto. É preciso entender a escolha que dá às placas as razões do emplacamento.

A vitrine

“Numa noite”, escreve Edmar Morel, “entrou na redação um se- nhor de porte prussiano, alto, e que olhava seus semelhantes de cima para baixo”: “— Quem é? — É o Dr. Gustavo Barroso. Vou te apre- sentar. — Não, pelo amor de Deus...”. Para o jovem jornalista, recém- -chegado do Ceará, recém-admitido na redação do Jornal do Brasil, “aquilo só podia ser uma visão”: “Como era possível ver o Dr. Gustavo Barroso em carne e osso? [...] Na minha mocidade havia lido um dos seus livros, Terra de sol, e o povo dizia que ele era o maior escritor da língua portuguesa”. A narrativa do encontro faz parte de um livro de memórias e se refere aos tempos em que, aos olhos do jornalista, ainda vigorava o peril positivo do conterrâneo Gustavo Barroso. A passagem dos anos faria cair por terra a imagem ilusória do grande escritor. No lugar do gosto, icaria o asco. Mas, a recusa de conhecê-lo, quando ainda havia admiração, não se vinculava aos pudores da reverência, como ele mesmo fez questão de frisar: “Seu pai [...] entregou-me uma carta recomendando-me ao ilho, juntamente com dois queijos e duas latas de doce de caju. Tive fome, comi as gulodices e, assim, não foi possível entregar a missiva”. Em seguida, ica explicada a mudança de visão: “Numa conferência que realizou, defendendo o integralismo do qual era um dos expoentes máximos, trazia tantas medalhas que o jeito foi colocar algumas nas mangas”.253

Em tom diferente, mas com a mesma sonoridade de crítica, uma crônica veio à luz no Correio da Manhã do dia 19 de abril de 1923, pouco tempo depois da criação do Museu Histórico Nacional. Escondido sob a proteção do pseudônimo, alguém conta que, andando pela Rua Gonçalves Dias, foi “agarrado pelo pulso valente do dr. Gustavo Barroso” e levado à vitrine da Casa Soares Maia. Induzido a vê-la com mais vagar, o cronista observa, em exibição, uma casaca de cor verde bordada a ouro, “como a dos diplomatas”. Gustavo Barroso explica: “[...] está em exposição. Tive um trabalho enorme para conse-

guir da casa esse favor. É o meu uniforme para a Academia de Letras”. A peça estava identiicada com uma etiqueta ixada pelo alfaiate: “Dr. Gustavo Barroso”. Logo abaixo, as medidas.

— Que me diz da beleza do uniforme?

— Está, realmente bonito; mas ainda melhor icará quando for adaptado ao manequim deinitivo.

O dr. Gustavo Barroso sorriu, sem se mostrar zangado; e, depois, levou-me para a Colombo, pagando-me um chá com torradas. — Eu queria fazer-lhe um pedido, disse-me [...]. Desejaria que você falasse no jornal da minha casaca. Muitas pessoas a têm visto, isso é verdade, mas uma notinha da imprensa parece-me necessária para completar o efeito...

— Esteja tranquilo, que será atendido. Diga-me porém uma coisa: por que preferiu o Soares Maia? [...] Antes da eleição da Academia, cabalou muito em favor de Otto Prazeres, seu adversário.

— Você tem razão [...]. Além do mais, sendo eu um homem elegante, condecorado por todas as Repúblicas, desde a [de] Honduras até a da Tchecoslováquia, deveria encomendar a ca- saca verde a um dos alfaiates da moda, o London Taylors ou Nagib David, mas se o izesse seria prejudicado...

— Eles têm, realmente, uns preços de tirar couro e cabelo. — Não é isso. O preço seria o menos. É que ambos são al- faiates que funcionam em sobrado; e eu perderia, nesse caso, a vitrine.254

O tom de comicidade diante da farda é um indício dos conlitos que faziam a vida dos letrados. Ter ou não ter distintivos — a polari- dade tanto incomodava como acomodava, somando ou subtraindo va- lores em torno de pessoas e instituições. “Que são as itinhas da Legião de Honra e as comendas do Gustavo Barroso?” — perguntava Monteiro

254 HELIODORO, Bárbaro. Para ler no bonde. Correio da Manhã. 19/04/1923. Biblioteca do Mu-

seu Histórico Nacional. Apud MAGALHÃES, Aline Montenegro. Troféus da guerra perdida: um estudo histórico sobre a escrita de si de Gustavo Barroso. 2009. Tese (Doutorado em História) - Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2009.

Lobato numa entrevista sobre um convite para entrar na ABL. “Latas”, explicava, “pois a láurea acadêmica é também uma lata com que os homens se enfeitam para icarem diferentes dos outros”.255 Assim como

Gustavo Barroso, Monteiro Lobato havia concorrido a uma vaga na ABL mais de uma vez. A diferença é que, de tanto insistir, Barroso entra. Sem a paciência e sem a ânsia do concorrente, Lobato desiste, e abandona a disputa.

É que, para Gustavo Barroso, o fardo do passado parecia ser compensado pela farda da história. Passado dele e da nação, história dele e do Brasil. O gosto de Gustavo Barroso pelos uniformes era tanto que ele chegou a publicar um livro sobre a indumentária do exército, com abundância de ilustrações coloridas (aquarelas confeccionadas sob sua orientação detalhada e exigente). Seu maior sonho, acalentado desde a infância, ele não se cansava de lembrar: pertencer ao exército. A sedução que as armas exerciam sobre ele era tão avassaladora que irá nutrir a sua paixão pelo integralismo e sua ênfase ao tema militar no es- paço expositivo do Museu Histórico Nacional — pelo menos é isso que ele dá a ler nas suas memórias, dando a si uma coerência no decorrer do tempo, não apenas no sentido biográico, cujo cerne se localiza na evolução pela experiência acumulada a partir de certas tendências, mas também com uma recorrência à temporalidade da hagiograia, em seu encadeamento de fatos subordinados ao que já é dado na origem e, portanto, independe dos aprendizados constitutivos da noção moderna de história. De qualquer modo, o gosto por medalhas, fardas, guerras, armas, militares. Preferências que, sem sombra de dúvida, combinam com o integralismo. Mas o que aqui quero destacar não é essa faceta. Isso, porém, não signiica desconsiderá-la. Muito pelo contrário: já a tenho como elemento de base.

Se o “lugar” deve ser estudado em interação com “procedi- mentos” e “escritas”, como indica Certeau, nunca se deve esquecer que

255 LOBATO, Monteiro. Prefácios e entrevistas. In: Obras completas de Monteiro Lobato. São

Paulo: Brasiliense, 1961, p. 201. v. 13. Apud Magalhães, Aline Montenegro. Troféus da guer-

o passado, com ou sem poeira, com ou sem cheiro, pode-se vincular à dinâmica dos espaços institucionais. Mas, se esta é uma via fértil, trata- -se, também, de algo a ser encaminhado com alguns cuidados. Entre eles, talvez o mais exigente seja o olhar atento ao nariz do historiador, ou de qualquer outro operador do passado, farejando, sentido e inven- tando suas máquinas de escrever. Daí podem emergir relações de poder tão fortes quanto escorregadias e avessas ao discurso explicativo. Mas, se vale a pena tentar, certamente, a tentativa acredita que cabe ao co- nhecimento histórico o questionamento a respeito das divisões estabe- lecidas a partir de instituições e outras pressões. Só assim se pode per- guntar pela sorte de quem avalia o avaliador.