5.14. Management Area L
5.14.1. Porcupine Bank (FU 16)
Antes, porém de instaurar o novo método para a aquisição do conhecimento, Bacon aponta a necessidade de superar o que ele denomina de ídolos. É a parte destrutiva de
61 O termo dialética é usado por Bacon no sentido próprio da escolástica, como uma das partes do Trivium, ou
ars sermocinales (artes do discurso) junto com a Gramática e a Retórica, e que correspondia a lógica formal, compreendendo o estudo do raciocínio dedutivo. Nesta afirmação, feita no Aforismo XXIX, associando a dialética às antecipações da natureza, Bacon aproxima-se do sentido de dialética proposto por Aristóteles, de
lógica do provável que gera um conhecimento inócuo (ver tópico 7.3). 62 Novum Organum, Livro I, Aforismo XXXI
sua filosofia, imprescindível para que seja possível edificar uma nova via cognoscitiva. Para ele,
Os ídolos e noções falsas que ora ocupam o intelecto humano e nele se acham implantados não somente o obstruem a ponto de ser difícil o acesso da verdade, como, mesmo depois de seu pórtico logrado e descerrado, poderão ressurgir como obstáculo à própria instauração das ciências, a não ser que os homens, já precavidos contra eles, se cuidem o mais que possam.64 (BACON, 1973, p. 26-27).
Os ídolos, para Bacon, podem ser agrupados em quatro espécies: Ídolos da Tribo, Ídolos da Caverna, Ídolos do Foro (ou do Mercado), e os Ídolos do Teatro. A explicitação destes ídolos e a afirmação da necessidade de se precaver contra eles são o prenúncio da exigência de objetividade do conhecimento científico, a qual marcará todos os ramos da ciência moderna e será assumida plenamente pelo positivismo.
Os ídolos da tribo referem-se às limitações próprias da natureza humana, tanto dos sentidos como do intelecto. Aponta como possíveis causas dos ídolos da tribo a própria uniformidade do intelecto humano, os preconceitos, as limitações do intelecto ou a sua instabilidade, e ainda a interferência dos sentimentos e a deficiência dos sentidos para receber as impressões. Concebe o intelecto como semelhante a um espelho, que reflete de forma desigual a imagem recebida, distorcendo-a e corrompendo-a, pois “[...] facilmente supõe maior ordem e regularidade nas coisas que de fato nelas se encontram.” 65 (BACON, 1973, p. 29). Igualmente discorda da concepção naturalista, de que os sentidos humanos são a medida das coisas, pois “[...] todas as percepções, tanto dos sentidos como da mente, guardam analogia com a natureza humana e não com o universo.” 66 (BACON, 1973, p. 27)
Quanto aos ídolos da caverna, Bacon os denomina numa correlação metafórica ao mito da caverna, de Platão, referindo-se aos obstáculos próprios de cada indivíduo, que atuam como uma cova na qual a luz da natureza se perde ou é corrompida. Citando Heráclito, Bacon adverte que muitos estudiosos abandonam o mundo, o universo, e voltam-se para o seu pequeno mundo. Os ídolos da caverna podem se originar da constituição do corpo ou do intelecto de cada pessoa, bem como da educação recebida, das leituras feitas, e principalmente dos mestres que o influenciaram e que se tornaram autoridades, provocando apego a determinadas ideias ou autores. Não somente os discípulos, mas também os mestres devem
64 Novum Organum, Livro I, Aforismo XXXVIII 65 Novum Organum, Livro I, Aforismo XLV 66 Novum Organum, Livro I, Aforismo XLI
precaver-se, pois mesmo os que se dedicam à produção do conhecimento podem ser ofuscados pelos ídolos da caverna. Pode agir como ídolo alguma tendência predominante em seu estudo, o excesso de síntese ou de análise, o zelo por determinadas épocas, ou por fixar sua pesquisa em objetos muito amplos ou muito reduzidos.
Como todo conhecimento é exteriorizado em forma de discurso e por meio de palavras, também estas podem se tornar um ídolo que bloqueia a inovação e fragiliza o conhecimento. Bacon denomina-os como ídolos do foro (ou do mercado), pois o discurso é estabelecido no encontro e no intercâmbio entre os homens e é em vista dele que as palavras são cunhadas.
E as palavras, impostas de maneira imprópria e inepta, bloqueiam espantosamente o intelecto. Nem as definições, nem as explicações com que os homens doutos se munem e se defendem, em certos domínios, restituem as coisas ao seu lugar. Ao contrário, as palavras forçam o intelecto e o perturbam por completo. E os homens são, assim, arrastados a inúmeras e inúteis controvérsias e fantasias. 67 (BACON, 1973, p. 28)
Bacon aponta dois tipos de palavras, cunhadas pelo vulgo e aceitas normalmente no convívio cotidiano, que são impostas ao intelecto, reduzindo-o às definições e impedindo-o de alcançar as coisas por elas referidas. Existem as palavras atribuídas a coisas que não existem, como sorte, primeiro móvel, e outras ficções, e que são mais fáceis de identificar e extinguir. Outras, porém, são atribuídas a coisas existentes, mas de modo confuso e abstraídas inadequadamente, como as que indicam ações: gerar, corromper; ou qualidades: leve, denso, tênue.
E finalmente nomeia os ídolos do teatro, referindo-se às doutrinas filosóficas que, à semelhança das fábulas, ocupam o intelecto em discussões e controvérsias sobre realidades fictícias, impedindo que se alcance um conhecimento sobre o mundo real, pois
[...] em geral, supõe-se para matéria da filosofia ou muito a partir de pouco ou pouco a partir de muito. Assim, a filosofia se acha fundada, em ambos os casos, numa base de experiência e história natural excessivamente estreita e se decide a partir de um número de dados muito menor que o desejável. 68
(BACON, 1973, p. 37)
Bacon enumera como falsas filosofias, que conduzem ao erro, a filosofia sofística, a empírica e a supersticiosa. Esta última é a que causa maior corrupção por mesclar a filosofia
67 Novum Organum, Livro I, Aforismo XLIII 68 Novum Organum, Livro I, Aforismo LXII
com a teologia, como fizera Pitágoras, Platão e alguns modernos, pretendendo fundamentar as ciências na invocação de espíritos e gênios. Para ele, “[...] dessa mescla danosa de coisas divinas e humanas não só surge uma filosofia absurda, como também uma religião herética. Em vista do que é sobremodo salutar outorgar-se, com sóbrio espírito, à fé o que à fé pertence.” 69 (BACON, 1973, p. 40)
O exemplo mais facilmente notado da filosofia sofística é Aristóteles por, entre outros motivos apontados por Bacon, formar o mundo tendo por base as categorias e impor à natureza das coisas, de forma arbitrária, inúmeras distinções. Bacon critica-o porque “[...] estabelecia antes as conclusões, não consultava devidamente a experiência para estabelecimento de suas resoluções e axiomas. E tendo, ao seu arbítrio, assim decidido, submetia a experiência como a uma escrava para conformá-la às suas opiniões.” 70 (BACON, 1973, p. 39)
Ênfase maior dedica Bacon à crítica da filosofia empírica, pois reconhece ser necessário reformulá-la, a fim de implantar a verdadeira indução. O problema mais grave dos filósofos empíricos da época era de submeter-se às demonstrações falhas, indo diretamente dos sentidos e das coisas aos axiomas e às conclusões. Tal processo de produção do conhecimento, realizado em quatro etapas, apresenta sérias limitações em cada uma delas:
Em primeiro lugar, as próprias impressões dos sentidos são viciosas; os sentidos não só desencaminham como levam ao erro. É pois necessário que se retifiquem os descaminhos e se corrijam os erros. Em segundo lugar, as noções são mal abstraídas das impressões dos sentidos, ficando indeterminadas e confusas, quando deveriam ser bem delimitadas e definidas. Em terceiro lugar, é imprópria a indução que estabelece os princípios das ciências por simples enumeração, sem o cuidado de proceder àquelas exclusões, resoluções ou separações que são exigidas pela natureza. Por último, esse método de invenção e de prova, que consiste em primeiro se determinarem os princípios gerais e, a partir destes, aplicar e provar os princípios intermediários, é a matriz de todos os erros e de todas as calamidades que recaem sobre as ciências.71 (BACON, 1973, p. 44)