1. Introduction
2.9 Populism and Democracy
A questão do paradigma de estudo, ou seja, o modo de produzir um determinado conhecimento e os métodos usados para fazê-lo, relaciona-se diretamente com a natureza do objeto de estudo e com a concepção desse objeto. Se mudamos o objeto de estudo, devemos mudar igualmente o que procurar e como procurar. No caso desta pesquisa, o campo da Lingüística Aplicada é o seu objeto de estudo. É claro que, como um lugar onde se realiza uma atividade humana, ele é atravessado pela linguagem, entendida como uma prática social realizada por indivíduos em interação, portadora de valores e situada social e historicamente.
Como, então, abordar esse objeto de estudo? Que ancoragem metodológica adotar? A que tradição paradigmática remeter?
Bakhtin (2003) nos oferece várias orientações metodológicas para responder a esses questionamentos, quando se trata de realizar uma investigação científica. Segundo ele,
O texto (escrito ou oral) [...] é o dado (realidade) primário e ponto de partida de qualquer disciplina nas ciências humanas.
Onde não há texto não há objeto de pesquisa e pensamento (BAKHTIN, 2003, p. 307, 319).
Assim, partimos do texto, considerando-o como um acontecimento no qual múltiplas vozes sociais se encontram e se enfrentam na tarefa de constituir um discurso.
Por vozes sociais, entendemos os pontos de vista, posicionamentos valorados socialmente, dos autores dos textos que, por meio de seus enunciados, respondem a outras vozes e com elas interagem nos múltiplos discursos que circulam na esfera do campo de conhecimento em que se entrecruzam (BAKHTIN, 1990, 2003).
Nessa perspectiva dialógica, cabe oferecer ao texto mais do que uma interpretação. Cabe oferecer-lhe uma compreensão responsiva, uma réplica ativa, ou seja, uma resposta na qual possamos cotejar posicionamentos e ampliar perspectivas.
No entrecruzamento dos enunciados do texto, estabelece-se uma dinâmica segundo a qual as vozes podem concordar ou discordar parcial ou completamente, iluminar ou obscurecer outro ponto de vista, parodiar outra voz ou fundir-se com outras, polemizar ou complementar pontos de vista diferentes (FARACO, 2003). Essa dinâmica, ou dialogicidade das vozes sociais, define a idéia de diálogo e caracteriza o mundo da cultura no qual intervimos e interagimos pela linguagem que se revela para nossa análise sob a forma de texto e de seus enunciados.
Segundo Bakhtin, esse movimento dialógico é inerente ao funcionamento da linguagem e, por isso, a todo e qualquer tipo de discurso:
A orientação dialógica é naturalmente um fenômeno próprio à todo discurso. Trata-se da orientação natural de qualquer discurso vivo. Em todos os seus caminhos até o objeto, em todas as direções, o discurso se encontra com o discurso de outrem e não pode deixar de participar, com ele, de uma interação viva e tensa. (BAKHTIN, 1990, p.8)
Assim, para compreender esse movimento, é preciso compreender que todo discurso ancora-se em discursos já-ditos, ou seja, palavras de outros que antes dele falaram sobre aquele objeto, cobrindo-o de sentidos e de juízos de valor que, ao serem buscados na memória discursiva, são levados em conta e participam da construção do novo discurso . Desta forma, compreendemos que todo discurso é uma resposta a outros discursos (BAKHTIN, 1990).
Mas todo discurso orienta-se, igualmente, para discursos ainda não ditos, ou seja, réplicas que virão de outros sujeitos e de outros discursos que com ele irão interagir e que exercerão profunda influência na constituição do enunciado de um autor sobre dado objeto. Assim, todo discurso também é uma antecipação à réplica de outros discursos (BAKHTIN, 1990).
É, portanto, nesse movimento dialógico e nesse processo interacional com as vozes alheias que o sujeito consegue individualizar seu discurso afirmando sua singularidade. A resposta como princípio ativo, quer seja aos já-ditos ou às possíveis respostas futuras, faz emergir os sentidos dos enunciados como ação e como ato ético, na medida em que as vozes que ecoam nos enunciados constituam-se como pontos de vista nos quais a unidade da responsabilidade e da responsividade de cada sujeito faça-se presente.
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Ao adotarmos as orientações do pensamento bakhtiniano, estamos posicionando-nos, epistemológica e metodologicamente, diante de nosso objeto de estudo, em uma perspectiva discursiva, interpretativista e dialógica.
Entretanto, no campo dos estudos da linguagem e da pesquisa científica, perceber o objeto de estudo dessa forma significa realizar o deslocamento, desta vez, do pólo da língua para o pólo do discurso. No pólo do discurso, significa entender, com a ajuda de Bakhtin, que a linguagem e, portanto, os discursos dos falantes, constituem-se nas relações dialógicas que são nada mais do que relações de sentido, ou seja, compreender que os discursos constituem-se como “inter- relações responsivas entre posições sócio-avaliativas” (FARACO, 2006). Não sendo, portanto, neutros, estão sempre remetendo a discursos anteriores, antecipando respostas futuras, sem ter como objetivo último, necessariamente, a concordância de idéias, mesmo que esta possa ser sempre desejada.
Os discursos, ou o conjunto de enunciados que permitem ecoar múltiplas vozes sociais, para usar uma metalinguagem do círculo de Bakhtin, representam posições de sujeito e são, portanto, singulares. E, para estudar esses discursos, buscando dar-lhes visibilidade, iluminar as vozes que os atravessam e os constituem, nenhuma abordagem ou paradigma científico que busque apenas regularidades será suficiente.
Na busca das singularidades apontadas pelas vozes que atravessam e constituem os enunciados discursivos, devemos ir em busca do outro a quem o texto se dirige. Assim, coloca-se, em uma perspectiva metodológica, a importância da alteridade no jogo discursivo. A linguagem, sob a forma de ato comunicativo, de texto, de discurso, instaura o outro.
Um olhar dessa natureza sobre dados lingüísticos empíricos significa que, metodologicamente, estamos propondo a interpretação da palavra enunciada. Por si próprio, o conceito de enunciado implica uma figura de alteridade pois ele é sempre dirigido a alguém, antecipa uma resposta e é resultado de uma interação entre sujeitos. Por outro lado, um olhar dessa natureza sobre dados lingüísticos empíricos significa, epistemologicamente, que tomar a palavra como enunciação implica a busca do sentido (singularidades), e não apenas a busca do significado, que pode ser encontrado na análise da estrutura formal, da forma do texto, da norma que se aplica, ou seja, naquilo que o texto apresenta sob a forma de regularidades.
Nosso trabalho de análise propõe-se a questionar: a quem o enunciado se dirige? Os textos de pesquisa tomados nessa investigação como objeto de análise dirigem-se a quem? Remetem a que outro ou outros? Respondem a que outro ou outros?
Na perspectiva deste estudo, entendemos que somente a compreensão da alteridade e uma abordagem dialógica podem oferecer elementos de resposta para essas questões. A alteridade marca-se pelas vozes sociais do texto, as quais correspondem a toda e qualquer forma de linguagem escolhida por sujeitos que possam, axiologicamente, expressar seus pontos de vista específicos sobre o mundo.
O enunciado como elemento de análise dialógica traz em si o modo de funcionamento da linguagem humana:
Todo enunciado – da réplica sucinta (monovocal) do diálogo cotidiano ao grande romance ou tratado científico – tem, por assim dizer, um princípio absoluto e um fim absoluto: antes do seu início, os enunciados de outros; depois do seu término, os enunciados responsivos de outros (ou ao menos uma compreensão ativamente responsiva silenciosa do outro ou, por último, uma ação responsiva baseada nessa compreensão). (BAKHTIN, 2003, p.275).
No entanto, segundo Amorim (2001, p.16) “o dialogismo é uma proposta de análise, uma via de investigação, uma maneira de interrogar e não um método de pesquisa”.
A alteridade, o papel do outro no discurso, considerando-se para o propósito deste trabalho o discurso do texto científico, presentifica-se no reconhecimento das vozes do texto de pesquisa sob a forma de outros textos, outras teorias, outros pontos de vista, outras ciências e outras fronteiras. Com esses outros, a pesquisa se encontra, se enriquece, se reconhece ou deles discorda, amplia-se e transforma-se. Uma abordagem dialógica do texto de pesquisa, nesse sentido, pode permitir um olhar metodológico sobre a atividade científica considerando a alteridade presente no texto um elemento constituinte da produção do conhecimento.
Ainda segundo Amorim, buscar o outro a quem o texto se dirige é
[...] buscar as instâncias criadoras. Aqueles que, por oposição ou por acordo, compõem com o autor um diálogo permanente que atravessa o texto e constitui sua tensão de base. É também buscar as escolhas do autor: aqueles a quem ele escolheu responder e
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aqueles a quem ele escolheu não responder (AMORIM, 2001, p.16- 17).
Em seus trabalhos recentes, a autora tem discutido a temática da alteridade em textos de pesquisa nas Ciências Humanas, ancorando-se nas proposições de dois grandes teóricos que privilegiam o papel da enunciação na compreensão do texto, Benveniste e Bakhtin. Embora esses dois autores percorram caminhos diferentes em suas propostas teóricas, ambos colocam em evidência a importância da alteridade no processo enunciativo. Para Benveniste (apud Amorim, 2002), “A linguagem põe e supõe o outro”, o que é complementado por Bakhtin ao afirmar que
Nosso discurso, isto é, todos os nossos enunciados [...], é pleno de palavras dos outros [...]. Essas palavras dos outros trazem consigo sua expressão, o seu tom valorativo que assimilamos, reelaboramos e reacentuamos (BAKHTIN, 2003, p.294-295).
Apoiando-se, assim, nas idéias desses dois teóricos, Amorim (2002) propõe uma teoria das vozes como categoria analítica para a leitura crítica e compreensão dos textos nas Ciências Humanas, ressaltando o fato de que, longe de tentar realizar um trabalho de análise lingüística ou literária, seus objetivos configuram uma “tentativa de identificar os limites, os impasses e a riqueza do pensamento e do saber que são postos em cena no texto”.
Essa proposta de identificar as vozes do texto, estabelecendo uma categoria de análise para o trabalho de pesquisa nas Ciências Humanas, segue os princípios do dialogismo da linguagem defendido por Bakhtin ao longo de sua obra teórico- filosófica: o texto como um conjunto de enunciados faz circular inúmeras vozes sociais que tecem uma rede de sentidos múltiplos possíveis de serem compreendidos dentro do contexto social, cultural e histórico no qual ele se inscreve. Em sendo relações de sentido, as relações dialógicas, que, em seu conjunto, identificam o dialogismo da linguagem, acontecem sempre que enunciados são confrontados no plano do sentido, na interação verbal.
Assim, em uma proposta de análise dessa natureza, é preciso seguir os passos que permitam identificar o destinatário do texto, aquele a quem este se dirige, que pode ser tanto o destinatário real, aquele que lê ou que escuta, mas igualmente o destinatário suposto – uma instituição, um grupo ou uma comunidade científica – que remete o texto à dimensão histórica em que se situa.
Outrossim, considerando-se o movimento dialógico, também é preciso identificar as vozes que se fazem presentes no objeto antes mesmo de ele se tornar objeto de estudo. Todo objeto já vem falado e, uma vez confrontado, há de se levar em consideração aqueles que já falaram sobre ele para que se possa contribuir e dizer algo mais.
Esse mecanismo explica o funcionamento das relações dialógicas, porém é preciso não desmerecer o alerta de Bakhtin (1990; 1994) que, em várias ocasiões, reafirma o fato de que a compreensão dos discursos emerge do confronto entre enunciados. Os confrontos devem ser vistos como espaços de tensão nos quais as vozes se enfrentam, o que nem sempre acontece de modo harmônico. Entretanto, mesmo nos confrontos em que a discordância for o único resultado possível, ainda assim estarão atuando as relações dialógicas pois estas são constitutivas do funcionamento da linguagem.
É, portanto, com base nessas orientações que desenvolveremos as análise apresentadas daqui por diante. Iniciamos esse percurso olhando para o espaço de divulgação e circulação de conhecimentos que os CBLAs constituem no que se refere à organização dos congressos, às áreas temáticas privilegiadas em cada evento, aos títulos propostos e, finalmente, para o que representa considerar a área da Lingüística Aplicada como um objeto de estudo.