Durante a realização das entrevistas a frase que mais se destacou foi a afirmação de um dos proprietários da IES BETA:
... acreditamos que no cenário atual da educação superior a gestão profissional e a adoção de uma governança corporativa positiva são fatores preponderantes do sucesso. (Sócio da IES BETA)
O estudo de casos ora concluído, objetivou analisar a relação entre as estruturas de propriedade e práticas de GC com o desempenho acadêmico e financeiro das IES pesquisadas.
O resultado das análises e comparações traz indicativos da existência de relações entre a GC nas IES e seus desempenhos, sendo possível verificar que estruturas estáveis de GC, ou seja, aquelas em que a forma de constituição e as práticas de GC não sofrem alterações relevantes ao longo do tempo, contribuem diretamente para o bom desempenho financeiro, como demonstraram os casos ALFA e DELTA, que possuem grande estabilidade em suas estruturas de GC e apresentam os melhores desempenhos financeiros.
Da mesma forma, estruturas instáveis, aquelas em que os estatutos são constantemente alterados, as políticas de médio e longo prazo são modificadas e não priorizadas, ou o próprio controle muda de mãos, expõe as IES a riscos, comprometendo seus desempenhos financeiros e acadêmicos. A perda de alunos quando da mudança de controle de BETA, e a baixa dos desempenhos financeiros e acadêmicos, quando da intervenção na estrutura de propriedade e controle, sofrida por GAMA, são indicadores que reafirmam essa constatação.
Das IES pesquisadas, duas são fundações filantrópicas, ALFA e GAMA, e, segundo os casos apresentados, demonstraram situações opostas, especialmente em seus desempenhos financeiros. Entretanto, apesar da mesma forma de constituição, a estrutura e as práticas de GC adotadas por ambas são bem diferentes. ALFA apresenta conselho que atua mais no campo normativo, e apresenta grande estabilidade em suas estruturas e práticas de GC, o que pode ser um fator de influência positiva para o bom desempenho financeiro apresentado. Já GAMA, além de assistir seu conselho, por vezes, atuar como órgão executivo, passou por mudanças em sua estrutura de controle em dois dos exercícios pesquisados, e também, por alterações em suas práticas de GC. Tais fatores podem ter contribuído para o desempenho financeiro desfavorável.
O caso de BETA, que passou por mudança no controle acionário, contribui com duas importantes conclusões. A primeira é o indicativo de que investimentos em GC trazem retorno para as IES. Os novos proprietários assumiram a IES com uma política de valorização da GC. É a única IES que já adota comitês para assessorar o conselho. Passada a fase de instabilidade, quando há a perda de alunos, verifica-se a recuperação financeira nos anos seguintes à aquisição, bem como o aumento do número de alunos. Tais eventos indicam que os investimentos em boas práticas de GC contribuem com a credibilidade da instituição junto ao mercado, e conseqüentemente, influenciam no seu desempenho. A segunda conclusão é a de que as IES privadas têm mais agilidade para alterar suas estruturas e práticas de GC, em comparação com as IES constituídas como fundações filantrópicas e comunitárias, tornando- se mais competitivas.
Por outro lado, não foi possível verificar, com tanta nitidez, uma relação direta entre a GC e o desempenho acadêmico em todas as IES pesquisadas, o que não significa que
ela não exista. Os depoimentos dos dirigentes indicam a preocupação da GC com a área acadêmica, mas somente em um dos casos observou-se, a partir de mudanças na estrutura de BETA, impactos da GC no desempenho acadêmico.
A referência, também vem da análise da mudança de controle ocorrida em BETA. Como a venda do controle foi conseqüência das dificuldades financeiras enfrentadas pela IES, quando nas mãos dos antigos proprietários, as práticas de GC anteriormente adotadas por BETA podem ter contribuído diretamente para seu insucesso financeiro. Entretanto, observou-se, pelo resultado da avaliação dos cursos, que o desempenho acadêmico de BETA era superior antes da venda. Isto pode ser um indicativo de que a GC anterior influenciava, ou privilegiava, mais a área acadêmica, despreocupando-se da área financeira.
Outra observação, que reforça a existência de relação entre a GC e o desempenho das IES, é a análise das práticas de delegação das decisões. Nas IES em que as decisões são descentralizadas, seja na área acadêmica, seja na área financeira, pela delegação de poder, constatou-se um melhor desempenho. A hipótese que surge, e apresenta-se como algo a ser pesquisado, é que Conselhos Deliberativos que não delegam ações executivas tornam a organização mais lenta e menos flexível, prejudicando o desempenho da mesma.
Outra conclusão, a partir da relação das análises com a teoria da ecologia populacional, está relacionada aos fatores conjunturais que afetam o cenário atual da educação superior no Brasil. Estudos indicam que a demanda vem desacelerando seu crescimento. Já são percebidas falências de IES, fusões e aquisições, como o próprio caso de BETA, como alternativas estratégicas para o não encerramento das atividades de IES. O processo guarda relação com a teoria da ecologia populacional, onde os mais aptos sobrevivem e aqueles que
não se adaptam às mudanças são extintos. Neste sentido, a comparação dos casos com a teoria da ecologia organizacional contribui com certezas de que suas variáveis nos processos demográficos, ecológico e ambiental compõem o constructo competitividade.
Ao identificar as estruturas e elucidar o desempenho das IES, no campo financeiro e acadêmico, fica a contribuição para o debate sobre as práticas de GC nas IES e de fortes indicativos da relação da GC e o desempenho.
Também, como contribuição, fica a sugestão para as IES desenvolverem suas práticas de GC e planejarem suas estruturas em conformidade com as boas práticas de GC recomendadas pelo IBGC e pela CVM. Nesse sentido, a adoção de comitês especializados que auxiliem os conselhos na administração das IES apresenta-se como uma prática que traz retornos já no curto prazo. Da mesma forma, o acompanhamento dos indicadores financeiros e acadêmicos apresentados servem como informação gerencial valiosa para o processo de gestão.
A pesquisa sofreu limitações decorrentes da falta de banco de dados em uma das IES, que não teve como fornecer informações sobre o ano de 2001. Também não foi possível pesquisar sobre a estrutura, práticas de GC e desempenho de IES confessional, não tendo sido estudada qualquer IES constituída nessa estrutura.
Outra limitação está relacionada ao desempenho acadêmico, já que o mesmo foi analisado a partir das avaliações procedidas pelo MEC e da variação do número de alunos, professores e cursos ofertados. Não foi praticável a avaliação sobre a produção científica das IES pesquisadas, ou sobre o aproveitamento dos alunos formados pelo mercado de trabalho, indicadores que contribuiriam com a avaliação do desempenho acadêmico.
Este trabalho não pretende esgotar o assunto sobre o tema, e sim instigar novas pesquisas, quantitativas e qualitativas, especialmente explorando as formas de estruturas e as práticas de GC adotadas por outras IES e os impactos em seus desempenhos financeiro e acadêmico. A comparação dos diversos mecanismos de GC pode enriquecer a pesquisa sobre o tema, e a sua aplicabilidade no ambiente das IES.
Dentre as diversas pesquisas que podem ser desenvolvidas sobre o tema, destaca-se: Pesquisa quantitativa para explorar a relação entre GC e o desempenho
acadêmico, adotando os indicadores de desempenho acadêmico adotados, ou desenvolvendo outros indicadores;
Pesquisa quantitativa a partir do estudo das variações dos indicadores financeiros apresentados em relação às estruturas e práticas de GC das IES; Pesquisas qualitativas para aprofundar o estudo de GC nas IES.
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ANEXO A - Índices de performance
ÍNDICES FÓRMULA CÁLCULO O QUE REPRESENTA INTERPRETAÇÃO
TAXAS DE RETORNO · Investimento Total Resultado Líquido/ Ativo Total O quanto a empresa obtém de lucro a cada R$ 100 de investimento total
Quanto maior, melhor
· Margem Líquida
Resultado líquido/ Receita Líquida
O quanto a empresa obtém de lucro a cada R$ 100 vendidos
Quanto maior, melhor · Retorno s/ Patrimônio Líquido Resultado Líquido/ Patrimônio Líquido O quanto a empresa obtém de lucro a cada R$ 100 de capital próprio investido.
Quanto maior, melhor
ÍNDICE DE SOLVÊNCIA · Liquidez Corrente Ativo Circulante/Passivo Circulante O quanto a empresa possui de Ativo
Circulante para cada R$ 1 de Passivo Circulante
Quanto maior, melhor
· Liquidez Seca (Ativo Circ. - Estoques)/Passivo Circulante
O quanto possui de Ativo Circulante Líquido (Ativo Circ. - Estoques) para cada R$ 1 de Passivo Circulante
Quanto maior, melhor
· Liquidez
Imediata Disponibilidades/Passivo Circulante O quanto a empresa possui de Disponibilidades para cada R$ 1 de dívida total
Quanto maior, melhor
ÍNDICE DE ENDIVIDAMENTO
· Curto Prazo Passivo
Circulante/Patrim. Líquido
O quanto o Patrimônio Líquido está
comprometido em relação ao Passivo Circ.
Quanto menor, melhor
· Total (Passivo Circ. + Exig. Longo Prazo)/Patrimônio Líquido O quanto o Patrimônio Líquido está comprometido em relação a Dívida Total
ÍNDICE DE EFICIÊNCIA
· Período de Cobrança
Clientes/Faturamento Bruto*360 dias
O prazo médio entre as vendas e o recebimento
Quanto menor, melhor · Imobilização do Patrimônio Ativo Permanente/Patrimônio Líquido O quanto a empresa aplicou no Ativo