• No results found

rua interditada para carregamento de caminhão. Reinaldo Tronto, 2007.

A ideologia do trabalho é incorporada pela sociedade como um todo. Ao mesmo tempo, a identidade local é fundada por representações que fundamentam uma ética e uma moral sobre o trabalho, desde o início da produção de Sertãozinho e de sua cultura. Um exemplo a ser citado é o título Ordem do Mérito do Trabalho, no grau de Comendador, recebido por João Marchesi, importante figura econômica e industrial de Sertãozinho e região:

Por sua vida dedicada ao trabalho foi indicado para receber a Ordem do Mérito do Trabalho, no grau de Comendador. A homenagem foi oficializada através da publicação no Diário Oficial da União, no dia 5 de maio de 1981, cujo teor é o seguinte:

Ministério do Trabalho – O Presidente da República, na qualidade de Grão-Mestre das Ordens Brasileiras e de acordo com o Regulamento aprovado pelo Decreto nº 62.819, de 4 de junho de 1968, alterado pelos decretos nºs 68.583, de 4 de e 84.893, de 3 de julho de 1980, maio de 1971, 7.196, de 15 de março de 1973, resolve conceder a Ordem do Mérito do Trabalho, no grau de Comendador, ao Sr. João Marchesi. Brasília, em 4 de maio de 1981; 160º ano da Independência e 93º da República.

É interessante ressaltar que o título de comendador foi também agraciado a Francisco Matarazzo, figura importante para a industrialização de São Paulo e do Brasil. Aliás, a trajetória social e econômica dos Biagi (Pedro e Maurílio) e a de Marchesi na região de Ribeirão Preto e Sertãozinho são muito semelhantes à de Matarazzo no Brasil, a começar pela mesma origem italiana e principalmente pelo império econômico constituído por essas figuras e suas famílias. Portanto, o desenvolvimento do capitalismo em Sertãozinho não se mostra como um projeto estranho ao movimento do mundo. Esse processo – esse projeto – obedece à lógica capitalista no Brasil e no mundo.

As oportunidades colocadas pela nova terra, a disciplina para o trabalho, a busca constante por inovações, o envolvimento em diversos empreendimentos econômicos e financeiros, a estreita ligação com o Estado, a concepção de empresa familiar, o empresário- operário são exemplos comuns a esses imigrantes empreendedores, que fizeram da história econômica dos espaços que frequentavam sua própria história, a história de suas vidas.

Ao analisar o Conde Matarazzo, José de Souza Martins, em seu livro Conde

Matarazzo, o empresário e a empresa: estudo de sociologia do desenvolvimento, destaca, em relação à análise sobre o empresário: o papel centralizador e concentrador nos negócios; a relação estreita com os empregados do chão-de-fábrica, por um lado, e com a elite, por outra; a ajuda recebida de conterrâneos; a criação de um sistema de negócios em diversos segmentos econômicos; a ideologia do sucesso pelo trabalho. Essas características são também encontradas quando analisamos a biografia de Maurílio Biagi, figura de suma importância para o desenvolvimento econômico e industrial de Sertãozinho e da região de Ribeirão Preto e da cultura que ali se desenvolveu.

A figura simbólica do empresário diante da sociedade e do sistema ideológico local e regional pode ser exemplificada pela lendária figura de Maurílio Biagi, como apresenta Miceli:

Em momentos de emoção, evidentemente, vários motivos podem alimentar a inspiração de quem pretende fazer comércio de sentimentos. Maurílio Biagi, entretanto, deixou toda uma legião de admiradores, composta inclusive de trabalhadores que, sentindo-se privados de sua liderança, compareceram à Usina Santa Elisa para chorar a morte do ex-patrão, reverenciado por quase todos quantos acederam em contar sua história.

Quando Maurílio morreu, em 1978, os jornais de Sertãozinho e Ribeirão Preto trouxeram farto material a respeito de suas atividades. Como era de se esperar, trata- se, o mais das vezes, de textos emocionados e de crônicas enaltecedoras, que

chegam a projetar do empresário uma imagem de candidato à beatificação. Esses textos, entretanto, dão ideia aproximada da forma como sua vida inscreveu-se na história de toda uma época e de toda uma região, onde, através de sua liderança, Maurílio ajudou a criar fatos de sucesso empresarial e de realizações de trabalho, materializadas em inúmeros empreendimentos, compondo ativamente sua imagem histórica. (MICELI, 1984, p. 83)

Maurílio Biagi foi “pintado” pela ideologia construída hegemonicamente pela elite local/regional como um empresário desbravador, de sucesso, trabalhador, empreendedor, inovador, aberto para o futuro e o novo, que luta contra o subdesenvolvimento. Um homem “eleito”. Na obra de Miceli, encontramos alguns trechos de artigos de jornais, da época da morte de Maurílio Biagi, que reforçam essa imagem construída em relação a esse empresário:

(...) Era um homem simples. Afável, tido por muitos como fechado, não gostando dessas exibições tolas de um falso society, embora um perfeito gentleman, que ao lado de sua dedicada esposa D. Edilah Lacerda Biagi formara uma família admirável, gente do trabalho, com a preocupação do bem-estar coletivo e sabendo se impor pelo amor à tradição, aos princípios de família, na labuta diária, sem esse toque agressivo que distancia o capital do trabalho.

Suas realizações de assistência social, nos diversos setores de suas múltiplas atividades, são paradigmas da preocupação permanente de que o colaborador bem- tratado, e vivendo dentro de um meio humano, produz mais e não cria problema. Assim na Santa Elisa, na Zanini, na Ipiranga.

Na orientação segura recebida do grande chefe que foi Pedro Biagi, seguindo a mesma trilha de probidade, retidão e bom senso, Maurílio Biagi foi um criador de riqueza, um bandeirante abrindo novas fronteiras de trabalho, incentivando, perseguindo incessantemente o ideal de ser útil, de bem servir e de contribuir para o progresso geral na luta tremenda contra o subdesenvolvimento.

(...) a personalidade de Maurílio Biagi é de tal dimensão que foge do comentário comum, para se projetar como um gigante que só soube contribuir, cujo feitio era o trabalho contínuo, cuja ação era a de transmitir fé, coragem e firme disposição de caminhar para frente, sem temer antolhos, óbices ou empecilhos.

(...) Lacuna difícil para ser preenchida, porque os homens eleitos constituem uma elite que raramente surge, mas quando aparece é como estrela de primeira grandeza dentro da constelação universal59. (MICELI, 1984, p. 84)

59 Trechos do artigo de SANT’ANNA, Antônio Machado. “Lacuna difícil de ser preenchida: Morreu Maurílio Biagi: um líder”, Diário de Notícias, Ribeirão Preto, 22 de fevereiro de 1978.

Os empreendedores agroindustriais do começo do século XX e os empreendedores industriais das últimas décadas e os trabalhadores de todos os períodos econômicos de Sertãozinho são ao mesmo tempo seguidores, produtores e disseminadores dos valores relacionados ao trabalho. “Assim, em uma civilização que tem no trabalho a categoria econômica e social dominante e seu único valor, é possível pessoas afirmando, com uma ponta de orgulho, que são ‘viciadas em trabalho’”(CARMO 1992, p.12). A cultura regional e de Sertãozinho, como já dissemos, é fundamentada ideologicamente, junto com outros pilares ideológicos, no conceito de valorização do trabalho. Carmo (1992) aponta a importância da ideologia mundial produzida a partir de valores relacionados ao trabalho:

A supervalorização do trabalho se dissemina por todos os estratos sociais: a redução da jornada de trabalho é condenada sob a alegação de que “o país precisa crescer”; os políticos quase sempre elegem o tema “trabalho” para suas plataformas de campanha; os meios de comunicação bombardeiam a cabeça da população, levando a crer que a delinquência é oriunda da falta de vontade de trabalhar. O Estado considera delito social “a vadiagem e a ociosidade” ao tratar essas condutas como caso de polícia. Uma parte da população acredita que a imposição de trabalhos forçados nas prisões seria uma forma de atenuar a criminalidade. Para a polícia a carteira de trabalho chega a ser, algumas vezes, o único documento válido. (CARMO 1992, p.12)

E Carmo afirma a finalidade dessa exaltação do trabalho para fins de dominação:

Em síntese, consideramos aqui a ideologia uma representação imaginária do real, de que os homens se servem para agir, ou um conjunto de ideias impostas para o exercício da dominação, e, também, uma falsa consciência. Naturalmente, o trabalho não poderia ficar alheio a ela. (CARMO 1992, p.16)

Essa ideologia global em relação ao trabalho é adaptada à cultura de Sertãozinho e aos interesses de sua elite e difundida pela sociedade local. Em todos os espaços e instituições locais de sociabilidade essa ideologia é difundida: família, escola, empresa, lazer, das crianças aos aposentados. Carmo justifica, então, o papel da ideologia nesse processo social:

Isso porque – como podemos adiantar – ideologia, em seu sentido amplo, pode ser considerada uma visão de mundo (um conjunto de doutrinas, ideias, crenças, normas, procedimentos, valores) que uma sociedade, classe ou grupo social tem da

realidade e da qual se serve para agir sobre essa realidade e alterá-la. (CARMO 1992, p.16)

A religiosidade da sociedade de Sertãozinho, outro traço cultural importante, contribuiu para esse processo de construção de uma ideologia do trabalho. Apesar de a população local ser majoritariamente católica, seus valores cristãos-capitalistas estão fortemente fundamentados nos valores protestantes, no sentido weberiano. Carmo (1992) analisa essa contribuição do protestantismo para o espírito do capitalismo:

Para o protestantismo, é condenável o desfrute dos bens e tudo o que disso advenha, como a ociosidade e as tentações da carne. Não se deve, pois, desperdiçar o tempo, considerado dádiva divina. A maior produtividade no trabalho e a recusa ao luxo deram origem a um estilo de vida que influenciou o espírito do capitalismo, criando um clima propício para a acumulação de capital. Sendo o trabalho a melhor oração, a obtenção de êxito e prosperidade através dele revela a condição de “eleito” para entrar no reino de Deus. Trabalhar passou a ser a própria finalidade da vida. (CARMO 1992, p.27)

Max Weber, em seu importante livro Ética protestante e o espírito do capitalismo, desenvolveu uma análise sobre a conduta dos homens revelada na condição de eleito para o Reino de Deus: êxito, perseverança e vigor moral. Dessa forma, o sucesso na vida econômica terrena garantiria o acesso ao “Reino de Deus”. Localmente, como já foi afirmado, predomina a família católica, o catolicismo, apesar de os empresários e os trabalhadores seguirem uma ética do trabalho que é fundamentada em preceitos comuns ao protestantismo. Na nossa análise sobre Sertãozinho, interessam-nos os valores cristãos-capitalistas na produção da ideologia da valorização do trabalho.

4.1. Eficácias da ideologia do trabalho em Sertãozinho

A importância dada ao trabalho em Sertãozinho é um elemento essencial para a estruturação e a efetivação da cultura local. Entendemos essa condição como parte da cultura local produzida ideologicamente.