3. Experimental work and results
3.1. Polymer gel for conformance control
Como foi dito anteriormente, no ínterim entre o estudo expográfico preliminar de março de 2006 e o de agosto de 2006, é possível identificar uma controvérsia que mudaria todo o curso de formação da Sala da Exaltação e do próprio museu: a descoberta (ou revelação) das câmaras. Na ata de reunião do dia 12 de maio de 2006, consta que o arquiteto Mauro Munhoz apresentou aos membros da Fundação Roberto Marinho e do CONDEPHAAT39 as plantas de
39 Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico - Órgão que regula as alterações feitas no Estádio do Pacaembu, uma vez que o monumento é tombado pelo estado e município de São Paulo.
demolição e das intervenções propostas para a fachada e saídas de emergência do museu. No ponto “6. Prospecções e sondagens” da ata, menciona-se a aprovação das aberturas de parede para prospecções e sondagens. Essa ata possui a planta com o indicativo dessas intervenções como anexo. É possível notar que duas janelas seriam abertas exatamente nos locais em que se encontram as câmaras, uma do lado oeste e outra do lado leste da fachada do estádio, sendo que essa última foi ocupada pela Sala da Exaltação anos depois.
Figura 14 – Indicativo das prospecções e sondagens
Fonte: Museu do Futebol, 2006b
Munhoz (2017) esclarece que ao iniciar as pesquisas da arquitetura do Pacaembu para as intervenções, o ponto que mais lhe chamou atenção foi a mescla de materiais utilizados para a construção do estádio e o aproveitamento da topografia do terreno para as arquibancadas. Como vimos no ponto 3.1, o estádio havia sido projetado primeiramente para ter uma fachada simples, que foi substituída com a chegada da Era Vargas por uma entrada monumental. No primeiro projeto, as arquibancadas leste e oeste ficariam exatamente sobre os taludes laterais dando a sustentação inicial para a formação da fachada simples, não exigindo matérias-primas diferentes das já utilizadas no país para sua execução. Entretanto, a controvérsia da mudança de governo e novas perspectivas arquitetônicas surgiram, dando a fachada o formato e tamanho que possui hoje.
Para o arquiteto, o planejamento inicial seguia uma tradição das construções no Brasil. “Os minerais resistem à compressão e a madeira é usada quando você precisa resistir à tração – grandes vãos, balanços [...] isso aqui está relacionado com saberes e fazeres que tinham aqui no Brasil há 450 anos” (MUNHOZ, 2017, informação verbal, Apêndice B). Para a construção da fachada monumental, Severo & Villares, responsáveis pelo projeto do estádio, trouxeram da França o concreto armado. Assim, deveria haver uma construção feita com esse material que conectaria as arquibancadas leste e oeste com a arquibancada norte/fachada.
O que causou a curiosidade na equipe de arquitetura, desde seu envolvimento no projeto em 2005, foi o questionamento de como eles passaram de uma construção de madeira que utilizava o declive do terreno para uma estrutura com vários andares feita em concreto armado. Onde estaria escondida essa passagem/registro de um estilo para o outro? Começaram a supor que deveria existir uma área entre as arquibancadas laterais e a fachada que estaria inexplorada.
O arquiteto percebeu que a fachada tinha como ponto de partida geométrico a marca do pênalti, como se esse local fosse o centro do compasso para a marcação da curva que a fachada seguiria. O talude que sustentava as arquibancadas laterais não fazia essa curva para dar a sustentação inicial da fachada, que começava em uma parede exatamente sob um ângulo de noventa graus. Com isso, supôs que deveria existir um espaço ali que não estaria preenchido por terra, pois o talude já havia acabado naquele ponto, que diria exatamente dessa transição de um modelo de construção para o outro.
Figura 15 – Croqui da fachada – suposição da área desconhecida
Fonte: WENZEL; MUNHOZ, 2012, p. 142 e intervenções da autora
Não rastreamos documentos que digam sobre a data exata da abertura desses espaços. O relatório de atividades de junho de 2006 faz referência às câmaras já abertas e possui algumas
imagens das prospecções com a data “9 6 2006”, e o depoimento de Munhoz (2017), também diz da abertura dos espaços no mês de junho. Nas palavras do arquiteto “um dia a gente foi lá, pegou uma marreta e abriu. Pegou uma lâmpada de 200 watts com um fio, colocou lá e viu aquela galeria impressionante” (MUNHOZ, 2017, informação verbal, Apêndice B).
Figura 16 – Prospecções e sondagens nas câmaras – primeiro e segundo pavimentos
Fonte: Museu do Futebol, 2006c e Felipe Tassara
Cada câmara possui mil e quinhentos metros quadrados, muita umidade que era sugada através da terra e liberada para o ambiente em forma de mofo e cheiro forte, mas, o que mais nos impressiona no espaço é o registro histórico que ele revela. Ali é possível notar exatamente a estrutura de vigas e pilastras em concreto armado de 1940, que dão sustentação para a transição entre as arquibancadas leste/oeste e fachada, agenciando uma espécie de “microclima histórico”.
Em afirmação que encontra a ideia de associação discutida a partir da TAR, Munhoz (2017, informação verbal, Apêndice B) explica que:
O concreto e a tecnologia, permite que a gente construa e transforme o território sem fazer a leitura do próprio território. É muito fácil hoje, você tem uma oferta de serviços, técnicas e materiais que podem transformar completamente um território e perder os vestígios da história humana e da história das coisas, da natureza. E é
interessante que esse momento ali da Sala da Exaltação é justamente quase uma tensão que existe entre um momento histórico e uma técnica, que era obrigada pela sua própria limitação, talvez, a conversar com a memória: o uso da madeira, o aproveitamento da topografia como um elemento de arquitetura.
Com a revelação desses espaços ocultos da construção, Munhoz propôs que eles fossem utilizados no circuito expositivo, despontando assim uma controvérsia com os órgãos fomentadores da instituição e da própria prefeitura. As dimensões do museu e a verba já haviam sido aprovadas considerando os projetos iniciais da arquitetura, em que as câmaras ainda “não existiam”. Segundo o arquiteto, este assunto virou uma espécie de tabu na constituição do museu, permanecendo em segundo plano na elaboração dos estudos preliminares da expografia do ano de 2006, como explorado no tópico 4.2.1.
Com a abertura das câmaras, mesmo não utilizando aqueles ambientes para que não fosse necessário ampliar as dimensões do museu ou a disposição do circuito expositivo, algumas questões estruturais precisaram ser consideradas no que diz respeito à revitalização das vigas e dos pilares de sustentação existentes nos espaços. No documento “Museu do Futebol - Relatório de atividades de janeiro a julho de 2006”, consta o seguinte depoimento:
Após a abertura de 'janelas' nas alvenarias que delimitam os pavimentos térreo, 1º e 3º, feitas para possibilitar o acesso e análise das condições que se encontra a estrutura de concreto da arquibancada, as fundações e o terreno nos taludes nas extremidades da área norte do estádio, onde será implantado o Museu do Futebol, foi constatado que de cada lado existe um grande vão entre o talude e a laje da arquibancada, sem a existência de lajes entre os pavimentos. Aparentemente o terreno mantém a inclinação e condição original, com poucas interferências junto às bases dos pilares (MUSEU DO FUTEBOL, 2006c, p. 5).
Além disso, algumas questões sobre a estrutura desses espaços deveriam ser revistas para a própria segurança do museu e estádio, uma vez que “após vistoria técnica, foi constatado [...] que as estruturas de concreto das arquibancadas existentes nestes vazios encontram-se com armaduras expostas, enferrujadas e incompletas e dessa forma precisam sofrer recuperação estrutural” (MUSEU DO FUTEBOL, 2006c, p. 6).
Munhoz (2017) explicou que os pilares das câmaras possuíam infiltrações e que a terra do espaço era úmida e apresentava alguns pontos de onde, literalmente, brotava água do chão. Tudo conforme o esperado, já que o Pacaembu foi construído em cima de “terras alagadas”, onde é possível observar algumas nascentes de água (como explicitado no capítulo anterior). Então, os humanos (envolvidos na requalificação do estádio e na criação do projeto cenográfico e expográfico do MF) e os não humanos (os outros espaços do museu e os meios de acesso à instituição), associaram-se buscando algumas soluções para a utilização e revitalização daquele
ambiente. Como fazer uso de suas caraterísticas em favor do museu e do circuito expositivo, sem que fosse necessário extrapolar os recursos financeiros?