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3. Methods and source criticism

3.5 Pollen analysis

Os acontecimentos políticos da Quarta Era da história maya, tida como a Era da degeneração e barbárie, são relatados de forma muito mais detalhada que os acontecimentos de Eras anteriores na obra de Carrillo y Ancona. Essa Era seria inaugurada pela gradual corrupção

138 dos Cocom, sucessores de Kukulcan como reis de Mayapan, e, portanto, de Yucatán. Tomados pela sede de poder, tiranizam seus “vassalos” e contrataram “mercenários” estrangeiros para reprimir qualquer resistência, plantando a semente do que viria a ser a Era conseguinte. De acordo com o autor:

La grande y antigua monarquía yucateca recibió como el peor y más decisivamente fatal de todos sus males, la tiranía de los emperadores de Mayapan, porque de allí resultó que se arruinaran para siempre, una en pos de otra, las ricas ciudades y provincias del Imperio; de allí resultó que vinieran en gran número indios del dominio mejicano, como soldados aliados para apoyar la tiranía (ANCONA, Crescencio Carrillo Y, 1883, p. 441).

O período de instabilidade inaugurado pela opressão dos Cocom e pela resistência que a mesma gerou seria, então, responsável pelo arruinamento das cidades monumentais que tanto fascinavam intelectuais de todo o mundo. Além disso, teria corroído uma instituição crucial para a história do povo maya: a monarquia que unificava o povo da península126. A monarquia enquanto forma de governo é bastante idealizada pelo autor, refletindo os seus interesses e valores políticos para o tempo presente. No entanto, o caos do período, marcado pela fragmentação política e social após a queda dos Cocom na mão de seus vassalos, liderados por Tutul Xiu, levaria, segundo o autor, à drásticas mudanças em todos os aspectos da sociedade maya:

El desenfreno de las pasiones y la conducta irresponsable de tantos tiranuelos habían herido de muerte el adelanto de las artes, de las ciencias y de la moral, porque en lugar del respeto y temor del cielo, en lugar del bello ideal levantado y nobilísimo que hacen la regla del hombre y la inspiración del artista, del poeta y aun del sabio, los mayas, faltando a sus antiguas tradiciones, preferían en esta malhadada época como los otros pueblos americanos más bárbaros, la ignorancia á la ciencia, el vicio áa la virtud y la horrible fealdad de las estatuas á la belleza antigua de ellas (CARRILLO Y ANCONA, 1883, p. 479).

O final dessa citação revela algumas das dicotomias hierárquicas e opositoras que compõem o sistema classificatório utilizado pelo autor. Podemos dizer que todas essas dicotomias, como ignorância/ciência, vício/virtude, arte bela/arte grotesca, monarquia/tirania, fazem parte de uma grande dicotomia civilização/barbárie. O fato de que a monarquia, até então tida pelo autor como uma das características civilizadoras da sociedade maya, tenha sido responsável pela

126 Como expresso na seguinte citação: “la raza, la lengua y la monarquía presentan sin embargo un carácter tan

139 derrocada que levaria os mayas “à beira do abismo” parece ir contra a crença conservadora na monarquia como sistema ideal de governo. No entanto, creio que Carrillo y Ancona via a monarquia maya, assim como a religião maya, como uma instituição com possibilidades de civilização e barbárie dependendo das características de seus governantes políticos. Sob a tutela de líderes iluminados, na visão do autor, como Kukulcan e Zamná, a monarquia maya teria possibilitado o desenvolvimento dos mayas até o ápice de sua civilização. No entanto, a falta de uma filosofia verdadeira e incorruptível fez com que os “reis” mayas fossem suscetíveis às tentações da tirania.

Em outras palavras, o autor atribuía a tirania à falta de um compasso moral baseado na “religião verdadeira”, ou seja, o catolicismo romano. Sem o cristianismo como guia, os reis mayas foram deixando se levar pelas suas “paixões desenfreadas”, opostas à razão sagrada, se tornando autocratas violentos. Se Kukulcan e Itzam-Ná eram líderes sábios, era pelo fato de sua filosofia e religião se aproximarem tanto do cristianismo. Já os tiranos Cocom haviam perdido completamente essa sabedoria, e impunham seus desejos pessoais sobre a classe que deveria apoiar a monarquia, a elite aristocrática maya formada pelos nobres e sacerdotes.

Outro aspecto fundamental da filosofia conservadora que desponta na obra é o ideal anti- revolucionário. Apesar de reconhecer a justiça da luta contra os Cocom, que escravizaram o povo da península de Yucatán em seu reino tirânico, Carrillo y Ancona lamenta a fragmentação decorrida desse levante, que levaria a península a um estado ainda maior de caos. De acordo com o autor:

Podemos calificar de justo aquel levantamiento general de verdaderos. y legítimos reyes, caciques o condes, que juntamente con sus leales vasallos se proponían sacudir el inicuo yugo que a todos quería imponer el autócrata de Mayapan; pero vemos a la vez que se arruinó para siempre la solidez y grandeza de la monarquía, pues no hubo otro Kukulcan […] [que] pacificara a todos los señores que se habían conjurado, y formara de la confederación de todos los pequeños reinos y cacicazgos, un solo imperio, una solo nación, como lo eran por origen, por idioma, por leyes y por la tierra que ocupaban (ANCONA, Crescencio Carrillo Y, 1883, p. 442–443).

Para o autor faltou, nesse momento, a liderança de alguém como Kukulcan, que chegou à península em um momento similar, no caos causado pela queda do governo dos Reis de Chichén Itzá. Isso apesar de descrever Tutul Xiu, principal líder no combate aos Cocom, como um

140 representante da civilização, como podemos ver nessa passagem, em que Tutul Xiu se nega a executar ou sacrificar os mercenários mexicanos de Cocom:

Por lo que toca al ejército mejicano que se hallaba en alianza con el de Mayapan al tiempo del asedio y ruina de esta ciudad, y a cuyos soldados todos pudiera creerse que Tutul Xiu hubiese sacrificado cruel y bárbaramente, en venganza de la ruina de Uxmal, fueron perdonados noble y generosamente, dejándolos en libertad de regresar a su país o permanecer en éste con ciertas conciliaciones (CARRILLO Y ANCONA, 1883, p. 459).

Apesar da moralidade que o autor atribui à Tutul Xiu127, ele não conseguiu unificar a planície sob o seu reinado, inicialmente pela sobrevivência dos Cocom e porque vários batabes teriam escolhido se alinhar aos mesmos. Segundo o autor:

Antes bien, llenos de ambición los vencedores de Mayapan y embriagados con el regocijo de su victoria, ya no quisieron reconocer superior alguno, ni al mismo Tutul Xiu, que era entre todos los reyes el más considerado y querido: aun por esto mismo, á fin de que no llegase a pretender el predominio general, más se recelaban de él y de sus vasallos, y tuviéronle por enemigo, después de acompañarle en la guerra contra Mayapan. No hay para qué decir a este respecto, que principalmente los adeptos de Cocom (el descendiente del tirano destronado y muerto) como directamente ofendidos, eran los más grandes y mortales enemigos de los Tutul Xius. Landa expresamente dice que aquellos, para denigrará éstos y desconceptuarlos, si fuese posible, ante el cuerpo todo de la nacionalidad yucateca, hacían de ellos ludibrio, echándoles en cara que eran extranjeros y traidores matando á su señor natural, y robándoles su hacienda; pero que los Xius declaran ser tan buenos como ellos y tan antiguos y tan señores, y que no fueron traidores sino libertadores de la patria, matando al tirano (CARRILLO Y ANCONA, 1883, p. 442–443).

Nesse discurso, a fragmentação política é um fator que determina o restante da história maya a partir desse momento, pois sem a presença da autoridade central para pacificar os ânimos e providenciar um ambiente próprio para o desenvolvimento da economia, das artes e ciências, cada reino maya procurou sua subsistência na guerra contra os demais. Essa guerra constante seria fruto de uma série de fatores. Por um lado, havia o colapso da economia e do tecido social, causado

127 A ligação dos Tutul Xiu com o lado “bom” na crise de Mayapan tem haver com uma série de fatores: a aliança dos

Xiu aos conquistadores espanhóis, o fato de um dos principais informantes de Diego De Landa ser um Xiu, Gaspar Antonio Chi (algo que pode ser questionado pelo fato do outro grande interlocutor indígena de De Landa ser Nachi Cocom), e o fato de Carrillo ter baseado a sua cronologia geral da história maya no Chilam Balam de Maní, capital dos Xiu nos tempos de conquista, são três possibilidades que vêm à mente.

141 pela própria guerra anterior e pelo gosto (ou mesmo vício) que os mayas haviam desenvolvido pela mesma:

La necesidad, en fin, de satisfacer las pasiones de tanta gente, para la cual el combate era ya un elemento como indispensable (ANCONA, Crescencio Carrillo

Y, 1883, p. 467).

Aqui vemos aparecer novamente a correlação entre a degeneração social e as “paixões” de indivíduos ou populações. Se antes eram descritos pelo autor como pacatos e ordeiros, os mayas da Quarta Era haviam se tornado vítimas dos próprios desejos carnais, que agora incluíam o derramamento de sangue humano. Esse estado de caos e violência teria também coincidido com uma série de pestes e catástrofes que destruíram as safras e a força de trabalho dos mayas deste período. Esses desastres naturais não eram entendidos pelo autor como coincidências infortunas, mas sim como uma espécie de punição divina, avisando os mayas que deveriam mudar de costumes:

[el pueblo maya] apenas respira en la tregua de las horribles plagas com que la justicia del cielo castigaba sus crímenes y le convidaba á más suaves y humanas costumbres (CARRILLO Y ANCONA, 1883, p. 478).

Todas essas penúrias passadas pelos mayas na Quarta Era configuravam um ciclo vicioso: a fragmentação política e o recrudescimento religioso levavam a guerras intermináveis e à paixão pela violência, que fazia com que os mayas fossem castigados com pestes e desastres naturais que, por sua vez, agravavam a situação dos reinos mayas, que promoviam mais guerras contra os outros reinos, e assim por diante. O autor descreve da seguinte forma esse processo de degeneração e afastamento da civilização:

Por esto, mientras más sufrían los pequeños reinos y cacicazgos, más cruda guerra se hacían entre sí, y más y más se alejaban de su antigua civilización; y puede decirse que más indignos se hacían también de que el cielo hiciera resplandecer sobre ellos la aurora de la regeneración cristiana (CARRILLO Y ANCONA, 1883, p. 478–479).

Podemos ver, então, o papel importante que a organização política dos mayas tem na narrativa proposta pela Historia Antigua. Em uma espécie de determinismo político/religioso, Carrillo y Ancona acreditava que o declínio de um dos pilares que sustentavam a civilização maya era o bastante para que os demais rapidamente colapsassem. E nenhum colapso é julgado de forma

142 negativa do que a degeneração da religião maya em direção à prática que é o símbolo máximo da barbárie no discurso desse autor: o sacrifício humano. Essa degeneração religiosa será tratada a seguir.