Notícias da produção nacional de filmes silenciosos continuavam a aparecer com alguma regularidade e as novidades publicadas falavam da finalização de As rosas de
Nossa Senhora (1930), produção da Astro Filmes com direção de Pasquale Di Lorenzo;
O Dominó negro(1930), produção da Épica Filmes com direção de Cléo de Verberena;
Sangue mineiro (1929), da Phebo Brasil Filme de Cataguazes e direção de Humberto Mauro. Outra novidade deste período era a exibição do documentário silencioso O
grande encontro de futebol (1930) sobre a decisão do campeonato brasileiro de futebol,
255 Antônio Marques Costa Filho, segundo o IMDB – The Internet Movie Database. Apenas Antonio
num jogo entre paulistas e cariocas. A produção era da Empresa Brasil de Cinemas, proprietária dos cines Rosário e Alhambra de São Paulo e do Cine Eldorado do Rio de Janeiro, onde se exibia o documentário. As filmagens dos jogos eram feitas pela Santa Therezinha Filme. Outro filme produzido nos mesmos moldes foi O carnaval carioca
de 1930, documentário silencioso que também foi especialmente produzido pela Empresa Brasil de Cinema e exibido com grande publicidade no Cine Rosário.
Em uma matéria especialmente escrita para a Folha da Manhã, o escritor Guilherme de Almeida descreve com uma riqueza muito grande de detalhes a visita que havia feito dias antes aos estúdios da Cruzeiro do Sul, onde se realizavam as filmagens do filme silencioso As armas (1930)256, de Otávio Gabus Mendes. O estúdio ficava na
Rua Fernão de Magalhães, 7, no Brás, em um salão de 15 por 40 metros e estava devidamente equipado com poderosos refletores de arcos-voltaicos, seis camarins, almoxarifado e os laboratórios de revelação e secagem com tambor giratório automático, sala de cópias, uma seção de viragem para coloração de películas, cabine de projeção e dependências para corte, enquadramento e colagem. Equipe de administração: Joaquim Garnier, Francisco Gouvéa, José Carrari e Américo de Freitas. Os astros eram Diva Tosaca, Maria Cobus, Lili Ferraz, Nilo Fortes, Américo de Freitas, José Soares e Calvu Reys. Vale a pena ressaltar que o escritor Guilherme de Almeida escreveu os letreiros do filme
As armas.
O jornal Folha da
Manhã publicou uma nota
256 “Cruzeiro do Sul”. Folha da Manhã, São Paulo, 13 mai. 1930, p. 6.
Figura 40: Messalina
informando que o cineasta Luiz de Barros havia “acabado de adquirir um poderoso apparelho de filmagem e synchronisação de fitas [...]”257 e que estava produzindo Messalina e Lua de mel, as primeiras produções da Synchro-Cinex, companhia brasileira produtora de filmes. Esse equipamento era de marca alemã e, segundo outra notícia, “era utilizado pela maior parte dos produtores americanos. Esse aparelho oferece a fotografia mais perfeita que o nosso cinema já apresentou, além de sincronizar as fitas como é feito nos Estados Unidos”258. Messalina (Figura 40) era uma fita
silenciosa dirigida por Luiz de Barros e com fotografia de José del Picchia, que tinha no elenco Gerta Valkyria, Nelson de Oliveira e Vicente Caiaffa, e estreou no mesmo programa que Lua de mel, “toda falada e cantada em português”, no Cine Santa Helena (o mesmo cinema onde havia estreado Acabaram-se os otários), no dia 21 de abril de 1930259. No elenco de Lua de Mel, Genésio Arruda, Vicente Caiaffa e Tom Bill.
No dia 12 de janeiro de 1931 estreava na Sala Vermelha do Cine Odeon e no Braz Polytheama O babão (1930), filme sonoro nacional de Luiz de Barros com Genésio Arruda no papel principal. O filme era uma paródia de O pagão (The pagan, 1929), de W. S. Van Dyke, filme sonoro com Ramón Novarro que havia inaugurado um ano antes o Cine Rosário do edifício Martinelli. Havia experiências de produção de curtas metragens sonorizadas no Brasil, porém na Folha da Manhã as notícias sobre cinema sonoro produzido por aqui eram os longas de Luiz de Barros que, ao que tudo indica, era o único que detinha conhecimentos técnicos em seu sistema especial de produção. Mesmo a Cinédia, fundada em março de 1930 no Rio de Janeiro por Adhemar Gonzaga, estava anunciando apresentar ao público paulista, neste início de 1931, Lábios sem beijos (1930), filme de Humberto Mauro ainda silencioso. O filme estreou em São Paulo na primeira Semana de Cinema Brasileiro, promovido pela exibidora Empresa Brasil de Cinema Ltda., que aconteceu em São Paulo entre os dias 9 e 15 de fevereiro de 1931, nos cines Rosário, Alhambra e Paratodos260. Além de Lábios sem beijos, a programação apresentou o documentário Nos Sertões do Amazonas (1931)261 e O mistério do dominó preto (1930), filme que Cléo de Verberena havia
dirigido para a Épica Filme.
257 “Cinema Brasileiro”. Folha da Manhã, São Paulo, 9 abr. 1930, p. 8. 258“Luiz de Barros”. Folha da Manhã, São Paulo, 11 abr. 1930, p. 7.
259 “Publicidade da estréia de Messalina”. Folha da Manhã, São Paulo, 18 abr. 1930, p. 8. 260 “A semana de filmes brasileiros”. Folha da Manhã, São Paulo, 5 fev. 1931, p. 12.
261 Não há referencia do diretor de Nos sertões do Amazonas na filmografia da Cinemateca Brasileira, que
Em 1932, mais novidades nacionais sonoras sincronizadas com discos: Anchieta,
entre o amor e a religião (1931), filme de Arturo Carrari, produzido pela Luz-Arte Filme, que estreou em março de 1932 no Cine Oberdan; Casa de caboclo (1931), produção da Capitol dirigida por Augusto Campos, que estreou em setembro de 1931 no Cine Fênix, e Campeão de futebol (1931)262, da Victor Filme com direção de Genésio
Arruda, haviam sido sincronizados em sistema de discos. Ao contrário, Iracema (1931), de Jorge S. Konchin e produção da Metrópole Filmes, estreava silenciosamente dia 6 de julho de 1931, na Sala Vermelha do Cine Odeon com grande divulgação na imprensa paulista, no que pese ser um filme silencioso. No dia 23 de novembro de 1931 entrava em cartaz, no cine Rosário, Coisas Nossas (1931), de Wallace Downey. A Folha da
Manhã deu grande destaque ao lançamento, inclusive publicando uma longa matéria sobre o que representava para a cinematografia nacional a parte técnica deste filme sonoro263.
Em 1932 foram poucas as novidades do cinema paulista. Em julho aparece uma notícia da Anhangá Filmes, empresa produtora nacional que, segundo o jornal, “tem organizado um belo programa de produções sonoras cinematográficas, tipo “complementos” ou shorts264. A Anhangá Filme já havia produzido O roubo do soldado de Itapira (1926) e Amor e patriotismo (1930), ambos dirigidos por Achille Tartari e agora, devidamente instalada no Palacete Campinas, na Praça da República, estava recrutando crianças, adultos e amadores para integrarem suas produções. A nova investida da empresa estava concentrada na finalização de Um sonho de amor (filme não finalizado), cuja parte sonora já havia sido “magistralmente gravada pela Fábrica de Discos “Arte-Fone””. A parte musical desta produção constava de uma “Serenata” e da valsa “Um sonho de amor”, ambas compostas pelo Maestro Léon Kaniefsky e que também estariam disponíveis em disco.
Durante a revolução constitucionalista de 1932 a São Paulo Sonofilmes, da Byington Cia, a mesma que comercializava os equipamentos projetores Fonocinex, saiu a campo e gravou um documentário sonoro que estrearia no Cine Paramount no dia 9 de outubro de 1934, sob o título Julho de 1932 (1934), com o registro do movimento e que ganharia grande repercussão na imprensa paulista.
262 O Filme Campeão de futebol estreou no Cine Alhambra no dia 5 de outubro de 1931. Cf. Folha da
Manhã, São Paulo, 04 out. 1931, p. 12.
263O que representa a parte técnica de “Coisas Nossas”. Folha da Manhã, São Paulo, 1 nov. 1931, p. 14. 264 “As Produções da Anhangá Filmes”. Folha da Manhã, São Paulo, 12 jul. 1932, p. 9.
É também em 1932 que aparecia a primeira experiência brasileira de um filme gravado em sistema Movietone, no curta da Cinédia intitulado Como se faz um jornal
moderno (1933), dirigido por Adhemar Gonzaga. Neste mesmo mês, o Cine Alhambra de São Paulo exibia Canção de primavera (1932), filme paulista sonoro em sistema Vitaphone da Alfa-Capitol, com direção de Fábio Cintra.
Ganga bruta havia sido concebido para ser um filme sonoro no sentido de que teria acompanhamento de uma trilha musical do maestro Radamés Gnatalli. Porém, quando o filme estava sendo concluído Adhemar Gonzaga resolveu acrescentar a ele algumas falas no sistema Vitaphone. Segundo a revista Cinearte265, Jorge Bichara, o
responsável técnico pelo som do filme realizou todo este procedimento de gravação com a RCA Victor porque a produção e captação das imagens haviam sido feitas no tempo em que a Cinédia ainda não havia adquirido seus equipamentos Movietone. A exibição de Ganga bruta no mercado paulistano foi fruto de uma negociação feita entre a Cinédia e Francisco Serrador266. O filme entrou em cartaz na Sala Vermelha do cine Odeon em
maio de 1933, mesmo período em que os cines Alhambra e Rosário exibiam, simultâneamente, King Kong (1933), de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsak.
Honra e ciúmes (1933), filme paulista da Iris Filmes produzido e dirigido por Antonio Tibiriçá, estreou simultaneamente no Alhambra, Astúrias, São José e Santo Antonio no dia 3 de julho de 1933 e na publicidade, “som Movietone gravado com aparelhos americanos”. Segundo a filmografia da Cinemateca Brasileira, o filme teve a participação da Cinédia e na câmera estava Humberto Mauro. No dia 29 de janeiro de 1934, no Cine Paramount, estreou outra produção paulista ainda em Vitaphone: O
caçador de diamantes (1933), da Rex Filmes, com direção de Vittorio Capellaro.
265 Cinearte Nº 362. 1º de março de 1933, p. 6.
266GATTI, André. Verbete “Exibição”. In RAMOS, Fernão; MIRANDA, Luiz Felipe (Orgs). Enciclopédia