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3 PRESENTASJON AV EN ANALYTISK MODELL

5.6 POLITISKE OMGIVELSER

Em Injustiças de Clio, o sociólogo Clóvis Moura já havia constatado a omissão de menções aos negros na historiograia nacional (MOURA, 1990). A princípio, o autor faz uma minuciosa análise da obra de alguns dos mais importantes e inluentes historiadores brasileiros, até as primeiras décadas do século XX, e demonstra como sua visão da história estava comprometida com a ideologia dominante e, portanto, subordinada aos interesses das classes dominantes.

Moura cita, entre outros, o Frei Vicente de Salvador, Rocha Pita, Varnhagen, Handelman e Oliveira Viana, considerados estudiosos clássicos e referência na historiograia nacional. Em todos, detecta um intencional desprezo pelo papel dos negros na construção do Brasil como nação e em determinados casos, chega a apontar um viés nitidamente discriminatório. Para ele, a “historiograia era cooptada para justiicar o modo de produção escravista, a sua necessidade econômica e a impossibilidade de se apresentar outro modo de produção capaz de substituí-lo”(MOURA, 1990, p. 31). Tal característica é mais lagrante durante o século XIX, e, ainda segundo o autor, se deve ao fato de que em sua maioria, os historiógrafos do período ocupavam cargos oiciais junto a órgãos e comissões mantidos pelo Governo Imperial.

O primeiro dos estudiosos mencionados por Moura é Frei Vicente do Salvador, que escreveu História do Brasil em 1627, mas que só foi descoberto em 1881. Nas palavras de Moura:

Nas referências aos negros, além de subestimá-los, não demonstra simpatia pelos mesmos, airmando a necessidade de tomarem providências ‘principalmente contra os negros de Guiné, escravos dos portugueses que cada dia se lhes rebelam e andam salteando pelos caminhos e se não fazem pior é com medo dos ditos índios, que com um capitão português os buscam e os trazem presos a seus senhores’. (MOURA, 1990, p. 42)

No livro do frei Vicente, os negros sempre eram tratados de forma coletiva e anônima, como se fossem uma “grande massa amorfa e sem nome”. E, nas raras vezes em que aparecem, como na parte em que se trata das Invasões Holandesas, os negros estão do lado “do inimigo”, ou seja, dos holandeses.

Outro nome que tem sua obra comentada por Moura é Sebastião da Rocha Pita, a quem atribui total omissão em relação aos negros. Só há referências a eles no período da segunda Invasão Holandesa e dá um tratamento até elogioso aos que participaram da resistência

portuguesa aos invasores, mas cita apenas supericialmente o nome de Henrique Dias. Rocha Pita foi o primeiro cronista da República de Palmares. A princípio enaltece a iniciativa de rebelião durante o domínio dos holandeses, mas depois que estes foram expulsos, os quilombolas eram vistos como ameaça ao país e, portanto, aos interesses de Portugal. Com isso, a igura do bandeirante Domingos Jorge Velho, que consegue derrotar e aniquilar Palmares, ganha status de herói.

Moura também se detém a esmiuçar a obra de Francisco Adolfo Varnhagen descrito como o autor “da maior obra historiográica individual de todo o período colonial do Brasil” (MOURA, 1990, p. 93), mas que também tem uma visão conservadora da escravidão defendendo-a como instituição normal e moral. Aliás, Varnhagen se vale de antecedentes históricos e apela até para o Evangelho para justiicar e apoiar o sistema escravocrata. Varnhagen especula que “os escravos africanos foram trazidos ao Brasil desde sua primitiva colonização; e naturalmente muitos vieram, com seus senhores a bordo dos primeiros navios que aqui aportaram, compreendendo os da armada de Cabral.” (MOURA, 1990, p. 104)

Varhagen também comentou sobre Palmares e cita Zumbi como sendo o líder do quilombo, mas exalta o papel de Domingos Jorge Velho com simpatia, sem se referir ao heroísmo dos palmarinos ou a morte heroica de Zumbi. O historiador relata a Revolta dos Alfaiates, mas condena os objetivos e métodos de ação.

No recente livro Três vezes Zumbi (FRANÇA; FERREIRA, 2012), os autores se propõem a fazer uma síntese de tudo o que já foi documentado sobre Zumbi e o Quilombo dos Palmares. Eles pesquisaram em todas as fontes mais conhecidas e confrontaram as versões entre si e tentaram extrair o que de verdade existe de fato sobre a controvertida igura daquele que teria sido o líder inal do Quilombo de Palmares. Como resultado da pesquisa, o livro apresenta três representações principais de Zumbi.

Há divergências, inclusive, sobre a existência de um único líder com esse nome ou se a denominação “zumbi” é um termo genérico que se refere ao líder militar, uma espécie de patente como capitão ou general.

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poucas páginas ao quilombo dos Palmares, em sua obra História da América portuguesa, de 1730, serviu de base para relatos posteriores e prevaleceu como versão histórica até o começo do período republicano. Os mesmos autores comentam sobre as outras versões históricas de Zumbi, inclusive a mais disseminada recentemente, a de Décio Freitas, que em seu Palmares: a guerra dos escravos, escrito em 1971, informa que Zumbi se chamava Francisco e teria sido criado por um padre, tendo, portanto, recebido educação formal. Acrescenta ainda que ao se tornar adulto fugiu para Palmares para se transformar em um guerreiro. França e Ferreira airmam que Freitas alegava ter tido acesso a documentos que, no entanto, nunca foram encontrados.

O fato é que, independente de ter existido ou não, Zumbi constitui um modelo idealizado de herói e é em homenagem a ele que se instituiu o Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado no dia 20 de novembro, pretensa data de sua morte, no ano de 1695.

O levantamento de Moura cita também historiadores estrangeiros como os ingleses Southey e Armitage e o alemão Handelmann, autores de livros sobre História do Brasil e que, invariavelmente, tratavam os negros como seres inferiores. Por im, Moura também cita Euclides da Cunha e Oliveira Vianna. O primeiro utiliza o racismo cientiicista para justiicar a condição de inferioridade dos negros enquanto para o segundo “negros e índios, por serem membros de ‘raças bárbaras’, estavam destinados a trabalhar e obedecer e os brancos dominadores, por serem de uma raça pura e superior, destinados a impor, por um mandato biológico.” (MOURA, 1990, p. 11)

Em face de todos esses problemas apontados, é natural que o primeiro caminho para se valorizar o papel do negro na sociedade seja resgatar sua importância histórica e tirar da situação que o próprio Clóvis Moura chama de “penumbra histórica” ao qual foi condenado pelos livros oiciais. Com o intuito de resgatar a importância que negros e mulatos tiveram em alguns dos episódios-chave da história brasileira, alguns autores empreenderam uma releitura e transformaram essa reinterpretação em quadrinhos.

Como já explicado, essa história foi construída e disseminada segundo o ângulo da classe dominante e, portanto, conhecer essa face oculta demandou uma nova interpretação dos fatos. Essa tarefa também é complexa e carece de registros coniáveis.