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3. F RAME OF R EFERENCE

3.2 Politics, rules and regulations

3.2.3.1 A Análise de Densidade de Ideias (AID)

A densidade de ideias de um fragmento discursivo (também denominada densidade proposicionalou P-density) consiste no número de proposições expressas dividido pelo número de palavras10 (BROWN et al.,2008). Ela tem por objetivo medir a quantidade de informação

que é transmitida em relação ao número de palavras utilizadas para transmití-la. Dessa forma, ela quantifica a eficiência com que a informação é sintetizada: maior densidade de ideias implica em compactidade no discurso, enquanto menor densidade de ideias implica em repetição e imprecisão (CHAND et al.,2010). Em termos semânticos, a densidade de ideias é o grau ao qual o sujeito realiza asserções ou perguntas, ao invés de simplesmente referir-se a entidades

(BROWN et al.,2008).

Proposições consistem, normalmente, de um predicador acompanhado de seus argumen- tos, de maneira semelhante à lógica formal, mas não sendo tão restritas quanto esta (CHAND et

10 Alguns trabalhos, comoKemper, Thompson e Marquis(2001) eChand et al.(2010), calculam a densidade de ideias como o número de proposições para cada 10 palavras do texto. Outros autores, comoBrown et al.(2008), dividem pelo número de palavras apenas. Neste trabalho, seguiremos a primeira convenção.

al.,2010). Mais especificamente, uma proposição pode ser de três tipos (CHAND et al.,2010): • Predicação: consiste de um predicador (por exemplo, um verbo simples como vender ou

um predicado complexo como tomar conta) acompanhado de seus argumentos (agente, tema, instrumento, beneficiário, etc.).

• Modificação: consiste de um atributo (um adjetivo) que modifica uma entidade (um substantivo).

• Conexão: consiste da ligação entre duas proposições, por meio de uma relação que se estabelece entre elas (pode ser realizada, por exemplo, por meio de uma conjunção coordenativa ou subordinativa).

A título de exemplo, a Tabela4mostra algumas sentenças, em língua inglesa, seguidas pelas proposições subjacentes a cada uma e pelo valor correspondente de densidade de ideias. No primeiro exemplo, a primeira proposição é uma predicação envolvendo o verbo ser (is, big, the house), enquanto a segunda é uma modificação (house, John’s). Na segunda sentença, vemos um refraseamento da primeira, em que há manutenção do número de proposições e elevação do número de palavras, resultando em menor densidade de ideias. No último exemplo, vemos uma proposição de conexão, a quarta proposição (so), que carrega ideia de causalidade.

Turner e Greene(1977) desenvolveram um manual, apresentando regras que possibilitam

extrair de um fragmento discursivo suas ideias. Neste manual, os conceitos são rotulados como agente, tema, objetivo, etc., seguindo-se a gramática de casos de Fillmore (1968),Fillmore (1969). Kemper e seus colaboradores realizaram modificações no manual deTurner e Greene (1977), adaptando-o para a análise de narrativas orais de pacientes com DA.Chand et al.(2010) utilizaram ambos estes manuais para criar seu próprio, voltado à análise da produção oral de idosos, tanto sadios quanto portadores de DA e CCL, com vistas à detecção do progresso da deterioração semântica, o que o torna adequado a uso neste trabalho e justifica sua escolha.

Conforme já mencionado, a análise de produção discursiva tem ganhado importância no cenário de avaliações clínicas de linguagem com vistas ao diagnóstico de demências. Um dos estudos que comprova esse fato é o Estudo das Freiras (SNOWDON et al., 1996), que acompanhou um conjunto de 678 freiras, realizando exames comportamentais, neurológicos e, após a morte, análises de neuropatologias no cérebro. Esse estudo empregou a medida de densidade de ideias para analisar narrativas escritas produzidas pelas participantes em sua juventude, e comprovou ser esta bastante eficaz na predição do diagnóstico de doenças como a DA 50 anos mais tarde (CHAND et al.,2010).

Ainda nesse estudo, a densidade de ideias se mostrou capaz não apenas de prever com acurácia as chances de o paciente desenvolver a DA no final de sua vida, mas também de deter- minar a presença de emaranhados neurofibrilares e de detectar mudanças mnésicas e cognitivas

3.2. Medidas Automatizadas 73

Tabela 4 – Exemplos de proposições e densidade de ideias (extraídos deChand et al.(2010)).

Sentença Proposições Palavras Densidade

John’s house is big. 1. is, big, the house 4 5,0

2. house, John’s

The house of John is big. 1. is, big, the house 6 3,3

2. of John

It was 80 years ago. 1. was, it, years ago 5 4,0

2. years ago, 80

I had a sister and 3 brothers so we were always busy.

1. had, I, a sister

12 5,0

2. had, I, brothers 3. brothers, 3 4. so

5. were, we, busy 6. busy, always

sutis que, apesar de induzirem mudanças comportamentais, não resultaram em diagnóstico de demência. Além disso, essa medida é a única que computa diretamente a habilidade do sujeito em usar seu conhecimento de mundo para estruturar proposições na fala espontânea

(CHAND et al.,2010).Brown et al.(2008) apontam ainda estudos na literatura que mostram

que a densidade de ideias também se relaciona a aspectos como inteligibilidade (KINTSCH,

1998; KINTSCH; KEENAN,1973), memória (THORSON; SNYDER, 1984), qualidade de

escrita de estudantes (TAKAO; PROTHERO; KELLY,2002) e ao envelhecimento (KEMPER;

THOMPSON; MARQUIS,2001;KEMPER; SUMNER,2001).

Manuais como o de Turner e Greene (1977) e o de Chand et al. (2010) descrevem mecanismos manuais de contagem de proposições. Porém, essa tarefa exige treinamento exten- sivo e demanda muito tempo. Por isso, foi desenvolvido um software denominado CPIDR11 (Computerized Propositional Idea Density Rater, pronunciado como “spider”) (BROWN et al., 2008), capaz de automatizar a contagem de proposições e o cálculo da densidade de ideias.

O CPIDR emprega um método bastante barato de cálculo da densidade de ideias, que necessita unicamente de um etiquetador morfossintático como ferramenta base. Sabe-se pela literatura que a densidade proposicional de um fragmento textual pode ser aproximada pelo número de verbos, adjetivos, advérbios, preposições e conjunções dividido pelo número total de palavras (SNOWDON et al.,1996). O CPIDR utiliza regras de reajuste para refinar o valor dado por essa aproximação, conseguindo, por meio desse pós-processamento, valores precisos de densidade de ideias (BROWN et al.,2008).

A Figura9mostra um exemplo de uso do CPIDR; do lado esquerdo, é colocada a entrada, “John’s house is big.” (a primeira sentença de exemplo da Figura4) e, do lado direito, são

Figura 9 – Exemplo de uso do CPIDR.

exibidos o resultado do etiquetador morfossintático, o número de proposições, o número de palavras e a densidade de ideias. O CPIDR possui também um modo fala, que rejeita repetições, preenchedores e hesitações, sendo assim apropriado para transcrição de fala não editada. A Figura10 mostra um exemplo, contendo a sentença “John’s house is uh is big.”; note que o número de proposições não varia, apesar do preenchedor uh e da repetição do is.

3.2.3.2 A densidade de CSU’s

Uma medida semelhante à densidade de ideias é a Taxa de CSU’s para cada 100 palavras (referida aqui apenas como taxa de CSU’s). Uma CSU (Clause-like Semantic Unit) é definida como uma cadeia de palavras gramaticalmente conectadas, e sua taxa mede a coesão semântica nas sentenças e a habilidade do sujeito em agrupar palavras em sintagmas e dar uma indicação do fluxo da fala (THOMAS et al.,2005;HOLMES; SINGH,1996). Usa-se o termo clause-like porque, na fala agramática (característica de alguns tipos de afasias), diversas cláusulas são deixadas incompletas pelo falante (HOLMES; SINGH,1996).

Para a separação em CSU’s, são utilizadas 13 regras, apresentadas no apêndice deBucks

et al.(2000).Holmes e Singh(1996) apresentam o seguinte exemplo de divisão, onde o sinal “|”

é utilizado como separador de CSU’s:

I went to the market where I met my friend | but I didn’t recognize him at first | I was hungry | and we had the money | so we went to a restaurant.

3.2. Medidas Automatizadas 75

Figura 10 – Exemplo de uso do CPIDR no modo fala.

Quanto maior a taxa de CSU’s, menores são essas unidades em número de palavras, o que indica maior dificuldade de articulação por parte do sujeito.