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Não é apenas Boff quem entende ser de extrema importância a elaboração de um conjunto mínimo de valores que sejam compartilhados por todos os povos a fim de garantir a sobrevivência da humanidade, a sustentabilidade do ecossistema e a possibilidade de vida às próximas gerações, Hans Kung, em sua obra Projeto de ética mundial, também aponta para a mesma necessidade ao dizer que

Todos os Estados do mundo têm, com certeza, uma ordem econômica e jurídica. Mas em nenhum Estado do mundo ela funcionará sem um consenso ético, sem uma ética dos

cidadãos, do qual vive o Estado de direito democrático. Também a comunidade internacional das nações já criou, entrementes, estruturas jurídicas transnacionais, transculturais e transreligiosas (sem o que os tratados internacionais seriam um auto- engano). O que, porém, é uma ordem mundial sem uma ética para toda a humanidade, que

interliga e a todos torna responsáveis? Sim, o que seria dela sem uma ética mundial? Não por último, o mercado mundial exige uma ética mundial. Hoje em dia, a comunidade mundial não pode mais se dar ao luxo de uma ética divergente e até contraditória em pontos centrais. O que adianta ter proibições eticamente fundamentadas em um determinado país se num outro país elas podem ser burladas? Pensemos somente em determinadas manipulações financeiras ou da bolsa de valores ou em arrojados projetos de pesquisa genética. Se a ética deve funcionar para o bem de todos, ela deve ser indivisível. O mundo não dividido necessita mais e mais de uma ética não-dividida! A humanidade pós-moderna necessita de valores, objetivos, ideais e visões comuns.287

Hans Kung considera a elaboração de uma ética global de fundamental importância para a garantia da sobrevivência humana, pois em sua perspectiva, “sem um mínimo de

consenso fundamental com respeito a valores, normas e posturas não é possível a existência de uma comunhão maior nem uma convivência humana digna”.288 Sua convicção a esse respeito transparece em todo o seu texto e, de fato, a sua obra se inicia com a declaração: “não haverá sobrevivência sem uma ética mundial”.289 Entretanto, para Kung, quais seriam as justificativas principais para que tal empreendimento seja, de fato, perseguido? Quais são os fatos que legitimariam o discurso defensor desta ética comum? Como conciliar as dificuldades implicadas em tal projeto? Como definir valores a partir da pluralidade de modos de vida e de conseqüentes interpretações éticas possíveis a partir de contextos sociais distintos? A quais grupos ou instituições seriam outorgados os direitos para o estabelecimento de tais valores? Sobre quais bases seriam eles estruturados e com quais critérios definidos? Deveria tal projeto ser construído sobre postulados religiosos, ainda que o fenômeno religioso seja de natureza plural na sociedade contemporânea? Ou este empreendimento poderia ser alicerçado meramente sobre a razão humana, ainda que tal reconhecimento tenha gerado como fruto duas guerras mundiais e outros conflitos armados que ainda hoje se apresentam insolúveis?

Kung reconhece a problemática envolta a esta proposição, bem como as suas próprias limitações para o exercício de tal empreendimento, e não pretende, portanto, ter respostas

287 Hans KUNG, Projeto de ética mundial, p. 69. 288 Ibid, p. 59.

plausíveis para todos os questionamentos implicados neste projeto. Sendo assim, o autor apresenta a sua obra apenas como sendo um “projeto” de ética mundial e não um documento com pretensas de ordem absoluta. Em suas palavras

Neste pequeno livro estou plenamente consciente dos meus próprios limites. Trata-se de uma tentativa multifacial, abrangente, que extrapola os limites de uma disciplina e que pode, portanto, ser atacada facilmente por todos os lados. Por isso, conscientemente, dei a este livro o título “projeto” de ética mundial. Pois seria absurdo querer que um teólogo sozinho crie algo como uma “ética mundial” ou mesmo crie a paz religiosa.290

Em se tratando dos fatos que justificam os seus argumentos e, portanto, a necessidade de uma ética mundial, Kung apresenta números globais que apontam para a eminência de uma catástrofe global já nas próximas décadas, e neste aspecto sua argumentação converge com as colocações de Boff. Para o autor, também um dos fatos primordiais em questão diz respeito ao meio ambiente. “Em termos concretos, o discurso-lema para este Terceiro Milênio deve ser o seguinte: responsabilidade da sociedade mundial em vista de seu próprio futuro!

Responsabilidade para com o meio ambiente, tanto hoje quanto no futuro”.291 No entanto, para Kung não é apenas em torno da questão ambiental que se faz necessário a discussão quanto à elaboração de um projeto de ética global, mas também em virtude dos constantes conflitos armados entre as nações motivados por razões, em sua maioria, religiosas, mas também econômicas e étnicas, lutas armadas cujos reflexos se vêem no aumento do número de refugiados, no alargamento das diferenças sociais gerando pobreza e miséria, e na precariedade de vida de indivíduos sem acessos as necessidades mínimas de manutenção da vida.292

Um aspecto peculiar da análise de Kung, à luz de suas constatações, apresenta como pressuposto prioritário para a elaboração desta ética o diálogo e a paz entre as religiões. Nas palavras do autor, “não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões. E sem paz entre as religiões não haverá diálogo entre as religiões”.293

290 Ibid, p. 11. 291 Ibid, p. 63.

292 Kung apresenta alguns números com base em pesquisas realizadas para os propósitos de seu estudo: “a cada

minuto, os países do mundo gastam 1,8 milhão de dólares com armamento militar; a cada hora morrem 1.500 crianças por causa da fome ou por causa de doenças provocadas pela fome; a cada dia deixa de existir uma espécie de animal ou vegetal; com exceção do tempo da Segunda Guerra Mundial, na década de 1980, a cada

semana foram presas, torturadas e assassinadas ou tiveram de fugir ou foram oprimidas de alguma outra maneira por governos repressivos mais pessoas do que em qualquer outra época na história; a cada mês são acrescentados pelo sistema econômico mundial mais 7,5 bilhões de dólares de dívida ao 1,5 trilhão de dólares de dívidas já existentes. Essa dívida já é hoje uma carga insuportável para o Terceiro Mundo; a cada ano é devastada para sempre uma parte da floresta tropical correspondente a 3 ou 4 vezes a área territorial da Coréia”. Ibid, p. 16.

Segundo o autor, “uma análise de conjuntura que exclua a dimensão religiosa é deficiente! Pois, vista dia-crônica e sincronicamente, a religião é um fenômeno universal, assim como a arte e o direito”.294 Ele segue dizendo que “não se pode por negligência, ignorância ou ressentimento excluir da análise este fenômeno geral da humanidade”.295

A necessidade de um diálogo entre as religiões com vistas à paz se dá em virtude dos constantes conflitos estimulados e fundamentados por convicções religiosas ocorridos nas últimas décadas, a despeito do desenvolvimento social e intelectual alcançado pela sociedade contemporânea

Tantos massacres e guerras não somente no Oriente Médio, mas também em outros lugares são indiscritivelmente fanáticos, sangrentos e impiedosos, porque foram religiosamente fundamentados. Assim podemos enumerar uma série de tais conflitos: entre cristãos maronitas e muçulmanos, sunitas e xiitas, entre palestinenses, drusos e israelenses, entre o Irã e o Iraque, entre indianos e paquistaneses, entre hinduístas e siks, entre budistas sengaleses e hinduístas do Ceilão, entre monges budistas e o regimento católico no Vietnã, entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte.296

O autor questiona sobre qual seria a lógica ou o que justificaria o sentimento de hostilidade que tem se colocado entre indivíduos de crenças diversas ao longo da história e apresenta a sua conclusão

Qual é a lógica? Se Deus está “conosco”, com nossa religião, confissão, nação, partido, então parece ser lícito fazer qualquer coisa contra o partido adversário, o qual necessariamente tem de ser do diabo. Então parece até ser permitido ferir, queimar, destruir e matar em nome de Deus.297

Em virtude das divisões entre os povos provocadas pelas religiões e da incapacidade que elas detêm de se organizarem promovendo uma vivência pacífica, respeitosa e que aceita o semelhante, ainda que este não compactue de um mesmo credo, questiona-se a respeito da necessidade desta dimensão para fins de uma ética global, ou seja, não seria preferível uma moral sem religião? Poderia a religião trazer alguma contribuição neste projeto uma vez que muitos conflitos modernos baseiam suas ações em postulados religiosos? Em se tratando desta problemática que, há de se considerar, é legítima, Kung apresenta as potencialidades das religiões para uma contribuição positiva neste projeto

294 Ibid, p. 83. 295 Ibid, p. 83-84. 296 Ibid, p. 124. 297 Ibid, p. 124.

As religiões também podem evidenciar-se de forma libertadora, orientadas para o futuro e fraternas no relacionamento com as pessoas. Assim aconteceu muitas vezes. Elas podem espalhar confiança de vida, calor humano, tolerância, solidariedade, criatividade e engajamento social, bem como promover uma renovação espiritual, reformas sociais e até a paz mundial.298

Para o autor, “a religião não pode possibilitar tudo, mas ela pode abrir e proporcionar um ‘mais’ em termos de vida humana”.299 Sendo uma dimensão presente de forma sólida na estrutura social contemporânea, o autor apresenta então aquelas que seriam as funções elementares da religião

A religião consegue transmitir uma dimensão mais profunda, um horizonte interpretativo mais abrangente diante da dor, da injustiça, da culpa e da falta de sentido. Ela consegue também transmitir um sentido de vida último ante a morte: o sentido de onde vem e para

onde vai a existência humana; A religião consegue garantir os valores mais elevados, as normas mais incondicionais, as motivações mais profundas e os ideais mais elevados: o

sentido (por que) e o objetivo (para que) de nossa responsabilidade; [...]. A religião pode fundamentar protesto e resistência contra situações de injustiça: isso já é o desejo

insaciável e atuante pelo “Totalmente Outro”.300

Portanto, para o autor, a participação das religiões mundiais neste grande projeto é de fundamental importância, pois não se trata do estabelecimento de uma moral única estruturada sobre pressupostos religiosos oriundos das principais tradições, mas sim de um conjunto de valores comuns que faz uso também da dimensão religiosa, não lhe ignorando a sua importância, para a sua elaboração.

Kung aponta para a realidade de um futuro diferente daquele que atualmente tem se projetado se os líderes das religiões mundiais desempenhassem um papel mais efetivo na promoção de uma convivência pacífica e respeitosa entre indivíduos que não compartilham da mesma fé

O que aconteceria para o mundo de amanhã se os líderes religiosos de todas as grandes e também das pequenas religiões hoje se pronunciassem decididamente em favor da responsabilidade pela paz, pelo amor ao próximo, pela não violência, pela reconciliação e pelo perdão? Se em vez de ajudar a provocar conflitos, elas se engajassem na sua solução? E isso de Washington a Moscou, de Jerusalém a Meca, de Belfast a Teerã, de Amitsar a

298 Ibid, p. 86. 299 Ibid, p. 98. 300 Ibid, p. 98.

Kuala Lumpur! Todas as religiões do mundo devem hoje reconhecer a sua co- responsabilidade pela paz mundial. Por isso, deve-se repetir sempre de novo a tese, para a qual eu tenho encontrado em todo o mundo apoio cada vez maior: não haverá paz entre as

nações sem uma paz entre as religiões. Repetindo: sem paz entre as religiões não haverá paz no mundo!301

As colocações de Kung e a sua sugestão de uma ética global em virtude da contínua manifestação de conflitos armados, projeto este cuja construção será possível apenas mediante uma aproximação entre as tradições religiosas a fim de que um acordo para uma vivência pacífica em espaços compartilhados seja possível, são relevantes e provoca todo leitor à reflexão contínua de suas propostas. De fato, a problemática por ele levantada é bastante legítima.

Não apenas a questão ambiental, mas também o estabelecimento da paz entre as religiões traduz-se como um empreendimento ou uma causa digna de persistência por parte de governos ao redor do mundo. Como citado, muitos conflitos políticos e civis ainda hoje são justificados com pretensas de ordem religiosa mais que econômica e mercadológica.

Lipovetsky, como já colocado, não se ocupa em discutir a problemática ética relacionada à questão ambiental, ainda que ele reconheça a questão bem como a necessidade de uma mudança nos hábitos de consumo a fim de não comprometer definitivamente a sustentabilidade do ecossistema. Também não é a questão central de sua obra os conflitos armados promovidos com motivações religiosas, no entanto, algumas de suas considerações são relevantes para que possíveis perspectivas possam ser vistas em torno da questão ética.

Para Lipovetsky, o momento atual da sociedade testemunha de um apego às novas espiritualidades e possibilidades de se fazer religião

...a época contemporânea é marcada pela reativação multiforme das espiritualidades; à medida que o mercado se desenvolve, crescem novos movimentos religiosos, novas expectativas, mobilizações e interrogações espirituais. Evidentemente, a dimensão espiritual não foi reduzida pela cultura-mundo do consumo e do mercado. Se ela está centrada na dimensão do presente e do curto prazo, nem por isso é menos concomitante com uma dinâmica espiritual que incita a memória religiosa, que mobiliza relatos fundadores e origens sacrais.302

301 Ibid, p. 126-127.

Evidentemente, quando Kung propõe um diálogo entre as religiões, ele se refere às grandes religiões mundiais e não a movimentos localizados em contextos específicos, com pouca estrutura de religião, limitados em sua capacidade de conquista de novos adeptos e, algumas vezes, sem representantes legais. Para Kung, “uma religião verdadeira, que se refere àquele uno absoluto (Deus), diferencia-se fundamentalmente de qualquer semi-religião ou

pseudo-religião, que absolutiza ou diviniza algo relativo”.303 São àqueles movimentos ou novas espiritualidades que Lipovetsky se refere quando faz a sua colocação, ou seja, à multiplicação de ofertas religiosas ou mágicas colocadas à disposição de um indivíduo desejoso por consumir experiências de caráter sobrenatural que possam satisfazê-lo em suas aspirações privadas. Tais movimentos, ainda que pequenos, se multiplicam e, por seu caráter descomprometido e em virtude dos objetivos a que se pretendem, satisfazem os indivíduos em tempos hipermodernos. São estes pequenos focos de espiritualidades ou de práticas mágicas que se adéquam às novas e constantes exigências de indivíduos que buscam nestes envolvimentos, respostas às suas demandas subjetivas. Adequando-se à lógica da variedade, de inovação e de troca a fim de satisfazer os anseios subjetivos dos indivíduos, esses pequenos grupos de pretensa religiosa aos poucos conquistam seu público e são aceitos com mais facilidade do que os grupos religiosos de tradição, pois conciliam suas ofertas com as necessidades dos indivíduos.

Considerando a colocação de Lipovetsky, questiona-se se na elaboração de um projeto de ética mundial não cabe uma reflexão a respeito do pluralismo religioso presente na sociedade atual e permitido em virtude do enfraquecimento dos absolutos. Estariam os grupos religiosos de tradição comprometidos em sua subsistência na medida em que tentam resgatar a posse de verdades absolutas? Seguramente, a convicção da posse de verdades absolutas tem afetado a liberdade de semelhantes com quem se divide o mesmo espaço, no entanto, um projeto de ética global não corre o risco de reclamar para si a posse de novos absolutos pré- determinado por grupos específicos? As implicações em torno desta questão podem suscitar novas problemáticas.

É fato já reconhecido a queda no número de adeptos das grandes religiões mundiais, exceto talvez naqueles grupos onde a pertença religiosa se dá desde o nascimento, sendo assim, como caracterizar de fato o público pertencente às principais tradições religiosas? São adeptos comprometidos com os valores da religião que professam ou indivíduos plenamente

engajados na dinâmica do consumo, da comunicação global e do mundo virtual e, portanto, que expressam uma fé religiosa sincrética e de convicção plural?

A falta de engajamento comprometido por parte de indivíduos que se declaram seguidores de uma religião de tradição pode ser conseqüência das influências da sociedade atual e dos valores que ela veicula, com suas variadas possibilidades de satisfação e de realização pessoal, e pode também revelar o enfraquecimento e a impotência dos líderes destas religiões de tradição em suas tentativas de orientarem e de serem ouvidos por seus adeptos. Sendo assim, o que garante o sucesso de uma ética global, ainda que se estabeleça um diálogo promissor entre as religiões, se o poder que estas religiões detêm de orientação de seus adeptos é questionável?

Por fim, a ética global a partir de um diálogo entre as religiões deve considerar o fenômeno do pluralismo religioso e da multiplicação das ofertas mágicas e de pequenas religiosidades, bem como a competência reclamada pelo consumo em satisfazer necessidades privadas de caráter religioso. Sua elaboração deve reconhecer a presença plenamente estabelecida de uma lógica do consumo determinante nos comportamentos dos indivíduos a fim de se precaver da promulgação de valores e objetivos que não considerem as influências desta realidade. Uma ética mundial não poderá ser interpretada de forma relativa, caso contrário ela não poderá ser adequada a contextos sociais e culturais distintos, portanto, seus valores estarão imbuídos de uma autoridade de caráter absoluto, cujas implicações podem suscitar novas problemáticas que precisam previamente de discussão e reflexão.

Para Lipovetsky, não há freios ou realidades alternativas à sociedade do consumo. As ofertas e possibilidades de realização pessoal que ele oferece sobrepuja as pretensas religiosas de tradição. Sendo assim, ainda que haja muita especulação em torno da necessidade de um diálogo entre as religiões mundiais por conta dos constantes conflitos presenciados nas últimas décadas, a análise de Lipovetsky revela que tais conflitos não refletem a emergência de um neofundamentalismo se projetando no cenário social, e também a capacidade que estes grupos detêm de agregar as massas em torno de seus postulados é ainda marginal.304

A constatação de Lipovetsky é bastante pertinente para uma discussão em torno da possibilidade de um futuro exílio de práticas fundamentalistas na medida em que a sociedade de consumo avança. Faz-se relevante apresentar mais uma vez a sua colocação acerca de movimentos de natureza fundamentalista

304 A constatação a respeito da fragilidade da hipótese relacionada à emergência de um neofundamentalismo foi

Não laboremos em erro; esse neofundamentalismo de modo algum nos reconduz ao antigo universo da tradição, pois também corresponde a uma faceta da liberdade individual, isto é, a uma procura da própria identidade, a uma livre opção que se caracteriza por casar a autoridade dos dogmas e a submissão à comunidade. [...] O mais significativo, porém, é o caráter fortemente estanque existente entre os dois pólos, quer dizer, a impenetrabilidade das maiorias silenciosas às investidas dos radicais. Doravante, os movimentos radicais se mostram incapazes de abarcar o coletivo, de trazer atrás de si as massas, ligadas aos valores de autonomia e de prudência. As porções periféricas extremadas desfraldam vistosas suas bandeiras, mas em profundidade isso pouco repercute.305

Deste modo, se os movimentos radicais também refletem o desejo de seus adeptos por contemplação de anseios subjetivos, de sentido para a vida, de reconhecimento existencial e dar vida a uma identidade interior pretendida, pode se cogitar se tais movimentos não tendem ao seu fim por conta dos avanços da sociedade de consumo, trazendo com ela novas possibilidades de satisfação de desejos privados através de suas mais variadas ofertas. Em suma, há alternativas para o alcance dos fins a que almejam os radicais fundamentalistas. Não é preciso a militância ao preço da própria vida se outros meios estiverem disponíveis, tendo em vista que os fins a que se destinam são os mesmos. Portanto, ainda que haja a discussão em torno da necessidade de uma ética mundial, ao que parece, a sociedade de consumo tem formado e promovido um “ethos do individualismo tranqüilo” nas consciências que alcança. Nas palavras de Lipovetsky: “por todos os lados, os extremistas conseguem semear a perturbação no seio do público, mas fracassam na tentativa de subverter o ethos do