Diário de Campo
Paralelamente ao processo da pesquisa foi elaborado um diário de campo, no qual foram anotados dados provenientes da observação da autora sobre aspectos verbais e não verbais de cada paciente que serviram como um auxílio para ampliar as possíveis interpretações dos aspectos subjetivos, que poderão contribuir com os conteúdos presentes.
É importante ressaltar que houve dificuldade em estabelecer contato telefônico com as mulheres encaminhadas pela DDM para a realização do atendimento psicológico no ambulatório. Muitas se apresentam desconfiadas mesmo tendo sido informadas anteriormente desta possibilidade, alegam não ter tempo, não ter condição financeira para pegar condução, não ter com quem deixar o(s) filho(s), medo que o companheiro descubra e até situações de marcarem a consulta e não comparecerem. Mas, as que vieram encaminhadas de outra maneira aderiram melhor ao tratamento.
Quando chegam para o atendimento são muito temidas no falar, expressam melhor corporalmente até que consigam criar um vínculo com a profissional. Porém, o contato físico é quase inexistente entre a paciente para com a profissional. Somente depois de terem o acolhimento completo
contar de suas vidas e mesmo assim, num processo lento e gradativo. Precisam se sentir respeitadas e, creio se sentir queridas. É um contato inicial onde precisam ser importantes para alguém.
Os atendimentos algumas vezes chegam a ser exaustivos por todo este conteúdo existente de suas histórias de vida. Escutá-las é necessário para então, compreendê-las. Esse material muitas vezes implica mais numa forma simbólica do que propriamente dita, verbalização no sentido real. Ou seja, algumas delas me contam suas histórias criadas em cima de outras histórias, mais ou menos como a idéia de falar sobre a vida de outra pessoa. Procuram ver se eu estou prestando atenção nelas.
O ambulatório tem como regra realizar os testes primeiro que qualquer outro procedimento. Foi observado que para estas pacientes, esse mecanismo é inviável porque não se constrói o vínculo e a entrevista não se concretiza porque acabam desistindo. Foi mudada a forma de atendê-las, conversou-se apenas sobre o que elas estavam dispostas a contar sobre elas. Foi dada continuidade a isso por mais dois ou três encontros, depois foi feita a proposta de participação à pesquisa e sequencialmente, ao processo psicológico e então, aplicou-se os testes e gravou-se a entrevista. O resultado foi melhor e obtive-se maior aderência ao tratamento.
Outro aspecto importante para este contexto foi que ao se iniciar a gravação das entrevistas todas se mostraram “econômicas” em seus dados. A maioria respondeu literalmente ao perguntado não acrescentando mais nada. Pareceu até que as entrevistas estavam empobrecidas no material colhido. Mas, após desligar o gravador algumas revelavam que elas iniciaram a violência doméstica por acreditarem ser muito nervosas e, às vezes, de terem começado com a agressão dando um tapa no rosto dele, beliscão,
arremessando algum objeto. E perguntavam se já havia sido desligado o gravador. Foi visível a sensação delas de alívio quando desligava o gravador. Deduziu-se que este objeto é motivo de ansiedade e dificultou em muito o desenvolver da entrevista. Obter dessas pacientes o conteúdo da sua realidade é algo muito mais complexo do que se possa imaginar. Nem sempre o que contam é a “verdade” do que de fato aconteceu, mas é o que elas querem acreditar que aconteceu, daí você ter que estar muito atento ao todo.
O sentimento de vergonha parece estar ali junto o tempo todo e temos a sensação de que isto se torna um impeditivo para contar sobre o que realmente sentem e o quanto tudo aquilo é e aflige suas vidas. Outro sentimento bastante presente nelas é a raiva. Mas uma raiva que chega ao máximo da sensação e expressão.
Narrar suas histórias é uma tarefa de extrema dificuldade porque parece que a toda hora foge algum aspecto importante para ser contado, mas que nem a escrita e nem a verbalização se tornam suficientes diante da subjetividade apresentada numa fala ou por um gesto delas.
Outro aspecto que foi considerado de extrema importância para este trabalho é a relação mãe-filha que mesmo sendo a mãe uma figura destrutiva na vida destas filhas, aparece protegida e apresentada como uma mãe idealizada, o que deu a idéia de que apesar de tudo que foi vivido ser ruim, “mãe é mãe”. Enquanto que, para a figura paterna, este era valorizado quando apresentava uma postura passiva e no contrário, tinham sentimentos diversos, principalmente, a raiva, o distanciamento, pouca ou
DISCUSSÃO
Uma leitura Junguiana
“...a finalidade única da existência humana é a de ascender uma luz na escuridão do ser.”
(C.G.JUNG, 1961)
O pré-conhecimento em psicologia analítica estimulou-me a buscar pela formação de especialista para que pudesse trazer a este estudo uma nova visão acadêmica quanto à temática proposta, uma vez que alguns autores junguianos abordam a condição da mulher em sua formação da identidade do feminino como também, a mulher inserida no social e a premissa cultural trazida por ela no aspecto psicológico que é tão pouco valorizado. Como idéia central de Jung, vale dizer que para visão junguiana o caminho é trabalhar o indivíduo no passado e fazer uma leitura no presente para que o mesmo lide com o passado e então, ir para o futuro = Prospectivo Sintético = a cada intercorrência na vida deve-se fazer a retrospectiva e prospectiva. Os conceitos são muitos, mas serão tratados aqui: sombra,
arquétipos, anima e animus. A seguir descrevo de forma sucinta os
Sombra tem sua formação a partir de estruturas psíquicas que determinam o
que pode e o que não pode ser expresso em nosso meio externo. São conteúdos reprimidos porque nos identificamos com características ideais de personalidade que são encorajadas pelo nosso ambiente familiar e social. O que não concordamos “enterramos” no inconsciente – sombra. Mas, nem sempre os conteúdos são conhecidos. (Yoshikawa, M.L., aula dia 15/12/2007)
Arquétipos são estruturas psíquicas universais, inatas ou herdadas que
trazemos ao nascer. Tem papel unificador na evolução da personalidade através da manifestação determinada pela nossa história pessoal e cultural para se manifestar como ação ou imagem. (Silva Jr., 2008, apostila do curso de Jung)
Anima é a personificação de todas as tendências femininas na psique do
homem. Assume um papel de guia ou de mediadora entre o mundo interior e o SELF (totalidade). Pode se apresentar positiva ou negativamente. Animus é a personificação masculina do inconsciente na mulher. É o pai que dará à filha a configuração do animus. Pode ser positivo ou negativo. (Tommasi, S. M.B., 2008, curso de Jung)
Uma das idéias do próprio Jung referente à sombra, onde ele diz: “Todo homem tem uma sombra e, quanto menos ela se incorporar à sua vida consciente, mais escura e densa ela será. De todo modo, ela forma uma trava inconsciente que frustra nossas melhores intenções.” Continuando essa idéia, os autores, Zweig e Abrams (1991), citam em seu livro “Ao
aceitamos em nós mesmos - a nossa agressividade e vergonha, a nossa culpa e a nossa dor – que descobrimos a nossa humanidade.” Talvez seja aqui uma possibilidade para começarmos a pensar na condição da violência doméstica como um conteúdo arquetípico que cada um traz a respeito de si mesmo através das vivências pessoais e coletivas preenchidas de emoções, mas que está encoberto e/ou negado pela nossa crítica e julgamento pessoal e coletivo.
Ou seja, cada um de nós carrega uma herança psicológica que é tão real quanto à herança biológica e este legado psíquico é tudo aquilo que arrecadamos do nosso ambiente familiar em valores, temperamentos, hábitos e comportamentos que nem sempre aprovamos e, por isso reprimimos até o que nem mesmo conhecemos. Portanto, o nosso desenvolvimento da personalidade tem como ponto de partida os nossos pais que são transmissores de informações do social e são os colaboradores para a formação de nossa sombra. Exemplos dos casos:
CASO J: “... a gente nunca teve brinquedo na vida...” “ ...nunca ia ninguém na nossa casa nem a gente ia na casa de ninguém..”
CASO R: “...pra mim foi horrível porque eu esperava que tinha que ser casada, como era a criação, tinha que casar virgem...” “ não podia fazer nada...até trabalhar fora, pra ele, eu já ia me prostituí, tinha que ficar em casa cuidando da casa e dos filhos”.
O conceito de anima a que Jung formulou significa imagem afetiva espontaneamente produzida pela psique objetiva. A anima representa o eterno feminino em qualquer um e em todos os seus quatro aspectos possíveis e suas variantes e combinações como Mãe, Hetaira, Amazona e Médium. Aqui, não vou me ater a trabalhar com estes significados, apenas
irei citá-los para auxiliar a construção da idéia do que seja o conceito no plano prático da figura feminina que surge em inumeráveis imagens de feminino encantadoras, amigáveis, úteis ou perigosas.
O autor Edward C. Whitmont como colaborador no livro Espelhos do
SELF (1991, p. 39) cita anima: a mulher interior, “como padrão de
comportamento, o arquétipo da anima representa os elementos impulsivos relacionados com a vida como vida, como um fenômeno natural, não premeditado, espontâneo, com a vida da carne, com a vida da concretude, da emotividade, dirigido para as pessoas e para as coisas. É o impulso para o envolvimento, para a conexão instintiva com as outras pessoas e com a comunidade ou grupo que as contém.”
E acrescenta ainda o que define melhor na sua funcionalidade em: “como padrão de emoção, a anima consiste nos anseios inconscientes do homem, em seus estados de espírito, aspirações emocionais, ansiedades, medos, inflações e depressões, assim como em seu potencial para a emoção e o relacionar-se. Quando um homem age em identidade com a sua anima – inconsciente dos estados de espírito que o “atraem” – ele age como uma mulher de segunda categoria. Sob essa forma, a anima representa o mundo relativamente inadaptado e, portanto, inferior do homem. Consequentemente, a psique objetiva apresenta-se ao homem em primeiro lugar como uma tentação caótica inteiramente irracional, perigosamente primitiva, como uma sedução encantadora.”(1991, p.40) Exemplos dos casos:
CASO P: Ela conta durante uma sessão que seu marido toda vez que chega do trabalho, cheira sua calcinha para verificar se ela não o traiu.
cabelos e a arrastava pela casa mostrando o que ele não tinha gostado e depois a espancava.
A idéia aqui é apresentar o feminino, que também existe no homem, mas na condição inconsciente, formada a partir da sua própria mãe, que é quem traz os padrões sociais e pessoais implicados através de seus comportamentos que transmite ao seu filho essa mulher que ele traz internalizada. Além disso, é importante dizer que, se esta condição permanecer em estado inconsciente seus meios de se expressar será através dos complexos, identidade, inflação e projeção. Então, essa condição aparecerá na relação com o outro, neste caso, com as mulheres em situação de violência doméstica.
O autor segue: “a identidade com a anima manifesta-se em todos os tipos compulsivos de melancolia, de autopiedade, sentimentalismo, depressão, retraimento ruminativo, acessos de paixão, hipersensibilidade mórbida ou efeminação, isto é, em padrões emocionais e comportamentais que fazem o homem agir como uma mulher inferior.” (p.40)
“A inflação pela a anima é um estado no qual: ambições, esperanças e desejos são confundidos com fatos e realidades acontecidos.”(p.40) “A
anima em projeção é responsável pelo fato de um homem estar amando ou
estar odiando a mulher ideal e única ou, ao contrário, uma megera absolutamente insuportável.”(p.41) Ou seja,“os relacionamentos com o outro sexo estão sujeitos a ser iniciados pelas projeções da anima ou do
animus. A verdadeira realidade da outra pessoa provavelmente estará em
desacordo com as expectativas projetadas; por isso enquanto as projeções continuarem a prevalecer, a pessoa ficará desapontada e será humilhada
pelo parceiro quando ele ou ela não se moldar à imagem.”(p.41) O exemplo que melhor representa este aspecto é a violência psicológica :
CASO M: “...me machucava muito ele me chamar de vaca, sua vaca...vagabunda, vagabunda....ele não cansava de tanto repetir..”
O autor conclui sua exposição da seguinte forma: “muitas vezes, o ego vivencia um vago sentimento de derrota moral e então se comporta de modo mais defensivo, desafiador e arrogante, construindo assim um círculo vicioso que só aumenta seu sentimento de inferioridade. Então, o âmago do relacionamento é destruído, pois como na megalomania, um sentimento de inferioridade torna impossível o reconhecimento mútuo e, sem isso, não há relacionamento.” (p.42) É preciso que se compreenda isso porque caso contrário, estaremos sempre como vítimas da ilusão de que dominamos nossas fraquezas de anima e animus, e caímos na inflação que prepara a próxima armadilha.
Helen Luke, também participa do livro Espelhos do SELF (1991, p.88), traz uma compreensão essencial para este tema, violência doméstica, quando diz: “existe uma diferença imensa entre a vivência mãe-filho e a vivência mãe-filha. No nível arquetípico, o filho comporta para a mãe a imagem de sua busca interior, mas a filha é a extensão de sua própria natureza essencial, devolvendo-a ao passado e à sua própria juventude e, mais tarde, à promessa de seu próprio renascimento numa nova personalidade, numa percepção consciente de seu todo.” E ainda continua nesse saber quando fala da relação do pai com os filhos: “é através do pai que a filha toma pela primeira vez consciência de quem é. Quando não existe uma imagem adequada do pai na vida de uma menina, a identidade entre filha e mãe
problema da mãe, de maneira peculiarmente profunda, às vezes assumindo- o pela vida afora, permanecendo incapaz de encarar seu destino de forma livre.” (p.89) Exemplos disto estão nas repetições das histórias, mãe que é agredida a filha também passa por isso:
CASO V: “...era horrível quando meu pai começava a bater na minha mãe... ele bebia muito e batia nela....(o primeiro casamento dela também teve um marido que bebia e batia nela).”
Diante do descrito até então, podemos dizer que o desenvolvimento da personalidade dos filhos consiste da relação com os pais e, a partir destes, a formação da identidade ocorre através dos parâmetros socioculturais e psicológicos apresentados pela figura paterna e materna, decorrente disto, há possibilidade de que a estrutura psíquica dos filhos se construa de maneira tortuosa, podendo desencadear quadros de agressividade que culminem em violência psicológica, moral, física, sexual e negligência, dependendo de como vivenciou na infância a dinâmica familiar que pode até agravar na sua vida adulta.
Porém, cabe ressaltar aqui o fato de que tanto o arquétipo do animus quanto o da anima são estruturados na dinâmica psíquica da mãe até os dois anos de idade da criança e é dela que estão 80% as influências da identidade do menino e da menina. Ou seja, o pai não contribui em quase nada para a formação do animus.
Especificando melhor a condição da mulher em seu desenvolvimento, observa-se que esta ainda não sabe bem o que deseja e pode ser enquanto feminino. Refletindo sobre isso, a autora Connie Zweig, colaboradora no livro Espelhos do Self (1991, p. 178) diz: “as mulheres são feitas, não nascem prontas. Sem terem atravessado as labaredas da individuação,
algumas permanecem meninas. Despreocupadas e talvez descuidadas, ficam atadas aos seus ideais da infância, à promessa da perfeição, ao sonho do potencial humano sem limites. Ficam boiando na superfície, sem contato com as profundezas, repletas de sorrisos otimistas, mas incapazes de suportar o peso da responsabilidade, as tensões do compromisso, a sóbria realidade da idade adulta. Outras tornam-se damas. Revestidas dos símbolos e comportamentos correspondentes à feminilidade tradicional, moldam-se de maneira a atender às necessidades dos outros.”
A autora apresenta um caminho para a conscientização das mulheres, “existem muitas vias de acesso ao feminino consciente. Estas se abrem contínua e simultaneamente para a mulher que estiver fazendo seu trabalho interior. Por exemplo, precisamos investigar as bases de nossas mágoas mãe-filha. O sentimento essencial que toda menina tem de si mesma, do seu corpo e de suas relações com as outras pessoas baseia-se no vínculo entre ela e sua mãe. Ela é nossa fonte, é o nosso modelo de como sermos mulheres.” (p.180)
Esse aspecto deve ser tratado com as devidas considerações uma vez que, se apresente como condição real em muitas das mulheres, independentemente de classe socioeconômica e idade cronológica.
Em continuidade ao pensamento da mesma autora, ela cita: “uma vez que a maioria das relações mãe – filha carece dolorosamente, seja de intimidade, seja de independência, encontramo-nos ansiando pela mãe que nunca houve e que nunca poderia haver. Buscar a retomada do vínculo com a menininha interior, o ser acolhida e orientada por uma mãe substituta tal
maioria das mulheres tem mágoas muito grande dos pais e esse sentimento pode mostar-se como ódio intenso ou transveste-se de adoração idealizada.” (p.180) Exemplo disso:
CASO T: “...até os nove anos fui molestada pelo meu pai....minha mãe ficou sabendo só quando todo mundo soube...não consigo culpá-la disso...meu pai se estivesse vivo eu já teria matado ele...sinto raiva dele...” Outro ponto a ser tratado aqui é o processo de se tornar mais consciente o arquétipo do feminino, assim como o arquétipo aliado, masculino, que também sofre modificações. Portanto, não confundiremos o princípio do poder patriarcal que controla e molda a natureza a qualquer preço com o próprio masculino que sofre de um desequilíbrio decorrente da perda do feminino. Também o homem, com o seu masculino, precisa ser renovado, esclarecido e renascido dentro de nós.
Então, podemos concluir que o homem também está perdido por conta do feminino perdido, pois de uma forma inconsciente ele age de acordo com este feminino presente na mulher porque sua mãe é a transmissora deste padrão.
Erich Neumann, no livro O Medo do Feminino (2000, p.9) trata deste assunto: “...após um ponto decisivo do desenvolvimento, a criança do sexo masculino experiencia a mãe como um “tu” dessemelhante, diferente dele próprio, ao passo que a criança do sexo feminino experiencia a mãe como um “tu” semelhante e não diferente.... por isso, temos que supor entre os sexos uma diferença biopsíquica que é manifestada de maneiras simbólicas e arquetípicas....ou seja, o indivíduo do sexo masculino não está preso aos padrões culturais uma vez que ele está acima disso, no sentido de que isto para ele lhe é favorável. Mas, lhe é conferida uma possibilidade de
desapego ao relacionamento com a mãe, logo no início de seu desenvolvimento, permitindo a ele a descoberta do Eu masculino e à estabilidade. Porém, quando isso não é conseguido, o indivíduo do sexo masculino permanece preso e castrado no incesto materno: fica inautêntico e alienado de si mesmo.
Com isso chegamos ao ponto de que mesmo este homem fica sujeito ao feminino ferido e desconstruído pela cultura e o social, pois a mãe não resolvendo suas questões internas cria codependência com seu filho, tornando-o um ativo de seu feminino perdido. Logo, este feminino identificado vai se apresentar na relação com a outra mulher, sua parceira, que por sua vez traz também um feminino destruído pela relação direta de identificação com o feminino de sua mãe que está compadecida dos flagelos socioculturais e psíquicos.
Jung fala no livro A Natureza da Psique (1971, p.78): “é o pensamento que nos diz o que a coisa é em si....eu me refiro a uma tonalidade afetiva especial que a coisa tem... podemos conceber o processo de reconhecimento essencialmente como uma comparação e uma diferenciação com o auxílio da memória.”
Seguindo o raciocínio a respeito da formação da identidade feminina em mulheres vítimas de violência doméstica, parece interessante que se pense quanto à condição de vítima. Lyn Cowan, colaboradora do livro Espelhos
do Self (1991, p.216), aborda esta questão na figura arquetípica da vítima
que é repleta de conotações sociais, associações religiosas e paradoxos psicológicos, mas tratará de dois aspectos presentes: o secular e o sagrado
“A imagem arquetípica da vítima é uma personificação de como a pessoa ou o grupo se imagina no seu sofrimento...essa é a vítima sagrada onde sua sacralidade da imagem da vítima refere-se, antes de mais nada, à sua qualidade apartada, à sua interioridade como figura psíquica e ao seu significado interior...todos somos vítimas, embora alguns, nos quais a figura interna da vítima é negada ou projetada, possam não ter consciência de uma ressonância psíquica mais profunda, em momentos de importância crítica em que o sofrimento é infligido...Por outro lado, um ato criminoso é um evento literal que força para alguém a condição de vítima, seja esse um