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As redes sociais constituem um mundo à parte. De fato, são sites que permitem a conexão de pessoas através de uma mesma plataforma, realizando uma série de ações através desta, e tendo ao mesmo tempo visibilidade das atividades de outras pessoas da mesma rede. Nesses sites, pessoas conectadas umas às outras podem jogar online, podem debater, publicar e compartilhar arquivos diversos e ainda obter num relance uma imagem do que acontece no seu “mundo virtual” ao seu redor. E são nesses ambientes derivados dos conceitos de conteúdo colaborativo da Web 2.0 que se concentram hoje milhares de pessoas online, e nos quais também residem as maiores audiências medidas na internet. As estatísticas vivem em revisão porque esse é o mais dinâmico dos mundos digitais. E pelo dinamismo das redes sociais e a oportunidade de fazer-se

presente e ouvido em vários lugares é que os adolescentes e crianças estão cada vez mais inseridos nesse meio.

As redes sociais exercem um fascínio facilmente compreensível numa idade em que a busca da popularidade é uma forma de reforçar a autoestima, e ainda, onde até mesmo os tímidos têm chance de utilizar um espaço de expressão.

Uma das preocupações dos pais nessas redes costuma ser a demasiada exposição de informações pessoais, dando margem a abordagens predatórias às quais crianças e adolescentes, na maioria das vezes, não têm maturidade suficiente para discernir ou identificar.

Para entender um pouco mais sobre onde residem os desafios, foram selecionadas informações de uma fonte americana de bastante expressão – a TRUSTe.com36 –, que realizou em 2010 uma pesquisa sobre o comportamento de pais e filhos adolescentes nas redes sociais.

Apesar da tendência dos pais a participarem das redes sociais com o intuito de acompanhar o que seus filhos publicam – 72% dos pais lá também monitoram as contas dos filhos adolescentes, sendo que 50% monitoram semanalmente e 35% diariamente –, existe uma falsa impressão de controle em ambientes digitais e isso vai além das informações pessoais postadas nas redes.

Embora 80% dos pais e 78% dos adolescentes sentirem que têm controle sobre essas informações, 18% dos adolescentes já foram repreendidos pelo que escreveram em redes sociais, 80% sabem usar as configurações de privacidade para esconder o que foi postado de certos amigos e/ou pais e, ainda, 68% desses

36 TRUSTe.com é líder no segmento de tecnologia para segurança e controle de privacidade online,

adolescentes assumem que às vezes aceitam convites de desconhecidos como “amigos”.37

Talvez pelas próprias características culturais do brasileiro, que tem predisposição a comunicar-se e é receptivo para fazer amizades, a popularidade das redes sociais no Brasil é gigantesca. Ainda, o público entre 6 e 14 anos já representa uma fatia considerável de visitantes únicos na web, conforme dados de maio/2010 da ComScore Media Metrix38.

Fração de Consumo de Internet no Brasil por Segmento de Idade Total do Público de Internet no Brasil*, Idade 6+ - Casa e Local de Trabalho

Total de Visitants Únicos (000) % Composição de Visitantes Únicos % Composição de Páginas % Composição de Minutos Total Internet 40,713 100.0 100.02 100.03 Pessoas: 6-14 4,825 11.9 1.8 1.9 Pessoas: 15-24 10,421 25.6 32.4 32.6 Pessoas: 25-34 12,408 30.5 31.6 31.0 Pessoas: 35-44 7,641 18.8 20.6 20.8 Pessoas: 45-54 3,782 9.3 9.8 9.8 Pessoas: 55+ 1,636 4.0 3.8 4.0

Figura 22 – ComScore: consumo de web no Brasil.

A análise de como essa faixa etária usa seu tempo online revelou que o Live Messenger, sites de entretenimento e redes sociais captam maior parte do tempo navegado. Os sites de entretenimento somam 25% do tempo online, seguidos de 22% trocando mensagens instantâneas e por 15% nas redes sociais. Ainda em agosto de 2010, a ComScore39 divulgou outro estudo relevante sobre o uso de

37 Disponível em -

<http://www.truste.com/about_TRUSTe/pressroom/news_truste_2010_survey_snsprivacy.html> acessado em 3 nov. 2010.

38 Disponível em - <http://www.comscore.com/index.php/por/Press_Events/

Press_Releases/2010/6/comScore_Expands_Capabilities_in_Brazil> acessado em dez. 2010.

39 Disponível em - <http://www.comscore.com/index.php/por/Press_Events/Press_Releases/2010/10/

redes sociais no Brasil, revelando que o tráfego dessas redes e microblogs aumentou 50% no último ano. Nesse caso, com foco em pessoas entre 15 e 24 anos, que lideram a audiência das redes sociais – principalmente no Orkut – ainda primeiro no ranking da audiência brasileira.

Os dados das tabelas da ComScore excluem dados de tráfego originado em computadores públicos (como lanhouse), celulares e PDAs. Como o acesso por meio de smartphones e similares não foi medido pela ComScore, arrisca-se a afirmar que os números podem ser ainda maiores no público mais jovem dada a sua facilidade no manuseio desses equipamentos – que engaja principalmente usuários de microblogs como o Twitter. Ainda segundo a ComScore, só no Brasil, o Twitter tem obtido números impressionantes – já alcança 23% da população de internet total, o maior índice de penetração no mundo todo.

Principais Sites de Rede Social no Brasil por Visitantes Únicos

Total Audiência da Internet no Brasil*, Idade 15+ – Casa & Local de Trabalho

Total Visitantes Únicos (000) Média de Minutos por Visitante Média de Páginas por Visitantes Média de Visitas por Visitantes Total Pessoas na Internet: 15+ 37,527 1,561.0 2,109 58.0 Redes Sociais 36,059 252.6 585 32.4 Orkut 29,411 275.8 657 35.8

Windows Live Profile 12,529 5.5 12 3.7

Facebook.com 8,887 29.3 55 6.6 Twitter.com 8,621 31.8 44 7.5 Formspring.me 3,638 34.8 57 9.0 Sonico.com 1,711 10.0 15 2.9 Ning.com 1,57 6.4 10 2.4 LinkedIn.com 1,471 10.7 26 2.6 Multiply.com 1,349 3.6 5 1.6 Vostu.com 1,13 2.2 2 1.7

Para concluir o tema do capítulo, esses dados reforçam a tendência ao uso da web para o entretenimento, reforçam sua penetração no público infanto-juvenil e reforçam as preocupações de pais e mães no que se refere ao uso de redes sociais x privacidade online. Uma vez que cada dia mais crianças têm passado seu tempo online, é inevitável a comparação entre os riscos dos dois mundos: online e offline.

A pesquisa do site “www.familiaplugada.com.br”constatou que a preocupação dos pais com relação aos riscos de predadores online já supera a preocupação com a violência no ambiente físico, como é possível observar-se no gráfico abaixo:

Figura 24 – Família Plugada: percepções de fatores de risco por parte dos pais.

Com a constatação de que as novas dinâmicas familiares confinam as rotinas das crianças em espaços físicos cada vez mais reduzidos e controlados – na ânsia de evitar-se a violência dos espaços urbanos – crianças e jovens são empurrados aos

A violência das

ruas da cidade Os riscos de pedofilia e conteúdo indevido para a idade presentes no mundo digital A influência dos jogos violentos de vídeo games A influência da programação televisiva de má qualidade A pouca ou baixa convivência social e compulsão digital O sedentarismo 13% 5% 26% 21% 24% 11% 26% 30% 10% 7% 11% 16%

Percepção diante de fatores de risco em potencial

novos riscos presentes nos mundos digitais, trazendo desafios antes inexistentes para pais e mães de gerações anteriores à geração X. Daí as propostas que serão apresentadas no capítulo oito, com relação à segurança online, a paulatina conscientização das crianças sobre o uso seguro da web e as diferentes recomendações de atividades por faixa etária.

CAPÍTULO 5

O PRECONCEITO DIANTE DA INFLUÊNCIA DIGITAL

Como discorrido ao longo do capítulo dois, o ser humano tende a rejeitar o novo e a criticar modelos que difiram do que tomou como certo. Alguns dos autores selecionados reforçam perspectivas que podem apoiar a desmistificação de conceitos pré-concebidos diante da influência da tecnologia. A perspectiva que essa dissertação buscou para o desenvolvimento teórico foi a rejeição à crítica emblemática, a abertura de possibilidades positivas diante de mitos populares que resultam, na maioria das vezes, de um amontoado de crenças sociais, religiosas ou pessoais.

François Mariet (1994) enfatiza, por exemplo, que a sociedade e os educadores acusam a TV de impedir as crianças de fazerem outras coisas quando, muitas vezes por não terem outras atividades para realizar, é que elas assistem à TV. As crianças não ligam a TV para evitar conversas apaixonantes, interromper jogos de cartas animados ou a leitura de um livro interessante. A TV impõe-se porque vai substituir uma atividade menos válida.

Nesse paralelo, usando o impacto da televisão na família, vê-se que o mesmo discurso crítico é amplamente adotado pela sociedade com relação a uma suposta “ruptura” introduzida pela tecnologia nos lares, ignorando ainda que os pais também possam se apoiar tanto na televisão como nos aparatos tecnológicos em geral, com o intuito de entreter e ocupar momentaneamente os filhos, facilitando o envolvimento da criança com essas mídias pela conveniência de obter, dessa forma, algum tempo disponível para si mesmo.

Há necessidade, porém, de se refletir a respeito de que “ruptura” seria essa – se na verdade já houve em algum momento o cenário de perfeita harmonia na convivência familiar que tenha sido abolida por conta dos efeitos da tecnologia no lar.

A pesquisa “Família Plugada” concluiu, através dos questionários coletados, que 68% dos pais acreditam ser hoje mais compreensivos com seus filhos do que seus pais foram com eles durante sua infância. Ainda 53% afirmam que em sua infância brincavam mais vezes sozinhos e menos vezes com seus pais. Ambos os dados reforçam que as crianças dessas famílias têm, segundo seus pais, uma proximidade maior com eles quando comparadas à sua infância. E pode-se dizer, então, que dentro dessa perspectiva existem ganhos afetivos.

Como Mariet (1994) bem coloca em relação à televisão, poder-se-ia trazer a mesma questão ao foco desta dissertação: a atração exercida pelos aparatos tecnológicos não estaria ganhando espaço justamente pelas limitadas opções – entre elas, como já descrito, a falta de espaço de lazer, a violência nas ruas, o trabalho em home office que ora oferece, ora rouba tempo de convivência familiar, entre outros.

A crítica pode vir da sociedade como um todo, mas ganha relevância por parte de uma camada formadora de opinião (TAPSCOTT, 2008).

No estudo de Tapscott (2008), os problemas mais comuns citados como parte da Net Generation (pessoas que em 2008 tinham entre 11 e 31 anos) vinham de pais e empregadores frustrados. Muitos desses são acadêmicos, jornalistas, entre outros graduados, que apresentam de forma cética, negativa e às vezes cínica sua visão a respeito dessa geração – incluindo entre eles estereótipos como

viciados em internet, baixa capacidade de convívio social, sem tempo para esportes ou atividades saudáveis, violentos, antiéticos etc.

No intuito de buscar respaldo teórico para os prós que a interação com essas tecnologias pode trazer, assim como encontrar pontos de similaridades com atividades realizadas online e offline (que constituam opções lúdicas), vale mencionar que Piaget (1976) descreveu o papel dos jogos na infância não apenas como uma forma de desafogo ou entretenimento para gastar energia, mas meios que contribuem e enriquecem o desenvolvimento intelectual das crianças.

Uma abordagem que ainda foi não detalhada nas fontes acadêmicas trata da questão do ambiente e contexto para a realização desses jogos. Piaget não especificou tipos de jogos – ainda que os eletrônicos na década de 70 tivessem menos expressão para que fossem mencionados –; o que se destaca é a capacidade lúdica de envolver a audiência em desafios coletivos ou individuais, a importância desses no processamento de regras e todo seu potencial em agir favoravelmente no desenvolvimento intelectual – uma vez que Piaget descobriu que crianças não raciocinam como os adultos. Essa descoberta levou à recomendação de pais e educadores a adotarem uma abordagem educacional diferente ao lidar com as crianças. Na visão dele, as crianças são as próprias construtoras ativas do conhecimento, constantemente criando e testando suas teorias sobre o mundo, e não donas de uma mente vazia à espera de conhecimento para preenchê-la (PIAGET, 1976). Grande parte desse conhecimento é adquirida por meio das zonas do conhecimento onde os jogos e brincadeiras infantis têm sua principal influência, onde as noções de regras são criadas, a socialização se faz presente, o simbólico é exercitado, além do físico e o mental.

No ambiente digital, muitos desses aspectos estão presentes e são privilegiados: a noção de regras, o exercício simbólico e mental. Ainda que a parte motora esteja restrita na maioria das opções disponíveis no mercado, já é possível ver a entrada de produtos como o Kinect40 da Microsoft que amplia as funcionalidades do XBox, propondo o uso do corpo como ativadores dos sensores de controle dos jogos, derrubando o grande temor do sedentarismo instalado a frente do computador ou videogame.

Figura 25 – Crianças jogando Kinect (Microsoft): onde o corpo substitui os controles.

Nossa busca, porém, estaria relacionada ao convívio social – que mesmo dentro da família pode ser abalado por conta do formato individual de parte dessas mídias.

Nesse sentido buscou-se direcionar esta pesquisa para as alternativas de perspectivas promissoras e positivas. Não se trata de novamente negar os impactos negativos que podem se evidenciar – mas de caminhar ao lado das mudanças com propostas positivas. Se o mundo em que se vive hoje é um mundo mediado tecnologicamente e isso influencia as atividades, percepções,

40 Kinect – lançado em 2010, a aposta da Microsoft no Kinect introduziu o que há de mais moderno em

consoles para videogames. Ele estende as funcionalidades do Xbox, permite que o jogador jogue sem o uso de controles mas através dos movimentos do corpo capturados pelas câmeras durante as atividades.

pensamentos e sentimentos, é preciso olhar para este mundo buscando identificar oportunidades que possam propiciar experiências positivas, nesse caso, dentro do lar, na relação com os filhos.

Por fim vale lembrar que, como bem definiu Galimberti (2006), a mídia não é um meio, mas um mundo – e é dessa forma que talvez seja necessário olhar para todo e qualquer ambiente virtual. Trata-se de um mundo à parte, um mundo que reúne uma “sociedade” de características próprias e pontos de interesse em comum. É preciso tratar cada um desses “mundos” buscando conexões que possam expandi-lo novamente, mas dessa vez para o ambiente “real” – desde que se procure conhecer e respeitar suas particularidades sem pré-julgamentos para então tornarem-se aptos a explorar todo o potencial de suas oportunidades.

CAPÍTULO 6

PERSPECTIVAS DA PSICOLOGIA DIANTE DO TEMA

Pela interdisciplinaridade desse tema com a psicologia, não haveria como deixar de fora um capítulo dedicado a algumas percepções que essa área vem desenvolvendo sobre a relação tecnologia e família.

Dentro da PUC-SP existe um canal precioso para a coleta de informações relevantes – o NPPI (Núcleo de Pesquisas de Psicologia em Informática). Além do atendimento à comunidade através de canais virtuais, o NPPI também estuda o efeito das novas tecnologias na sociedade de forma geral.

Para aprofundar o assunto com foco em família e tecnologia, foi realizada uma entrevista com a Prof.ª Rosa Maria Farah41 em novembro de 2010, havendo a oportunidade de tratar de alguns tópicos relevantes para o tema desta pesquisa.

A Prof.ª Rosa Maria – que em 2009 escreveu sua tese intitulada “Ciberespaço e seus navegantes: novas vias de expressão de antigos conflitos humanos”42, respondeu às diversas perguntas formuladas sob a ótica da psicologia e dos parâmetros adotados pelo NPPI, trazendo clareza a vários dos tópicos que remetem às questões investigadas neste estudo.

A seguir se tratará um pouco mais da perspectiva do NPPI e da Prof.ª Rosa sobre o assunto – que ressaltou desde o início que os pesquisadores e educadores ainda não sabem direito que opinião assumir sobre diversas das questões

41 Entrevista com Prof.ª Rosa Maria Farah – NPPI – Núcleo de Pesquisas de Psicologia e Informática da Clinica

de Psicologia da PUC – 1 nov. 2010.

relacionadas aos “efeitos da tecnologia” na formação das crianças. A maior parte ainda vive na tentativa de avaliar o rendimento escolar dos alunos usando os conceitos pré-internet, sobre o que é uma boa aprendizagem – com referências do passado. Esses conceitos precisam ser atualizados de forma que se possa ter uma visão desembaçada e em compasso com a realidade do momento.