Participam desta pesquisa seis mulheres solteiras e independentes financeiramente, formando um grupo etário entre 28 e 35 anos. Essas mulheres foram escolhidas por indicação de outros profissionais da área da saúde e das ciências humanas. A condição de ser solteira ou divorciada, sem filhos, é exigida para a seleção, por indicar uma situação social relativamente nova na vida da mulher dentro desta faixa etária. Esta condição diz respeito à situação social da mulher de não ter passado da família de origem para a construção de sua própria família, ritual comum ainda nos dias de hoje.
Consideramos esta faixa etária significativa na vida das mulheres, por ser um momento em que ocupam um posicionamento profissional e têm expectativas específicas por não ter construído suas próprias famílias. A escolha
dessas mulheres levou em consideração, então, a faixa etária, o estado civil — solteira ou divorciada — e as condições socioeconômicas semelhantes.
As participantes receberam um nome fictício, mas foram mantidas as idades e as profissões. Segue uma breve descrição de cada participante .
Antonia é arquiteta, 28 anos, separada, comunicativa. É a segunda
filha, tem um irmão mais velho e uma irmã mais nova. Chega ao consultório descontraída, vestida de maneira clássica e discreta. Mostra-se disponível e tranqüila para a entrevista. Apesar de se apresentar como uma pessoa tímida, participa da entrevista com aparente desenvoltura e tranqüilidade, o que pode ser percebido pela tonalidade clara e forte de sua voz. Este fato é de algum modo revelador de como Antonia se coloca no mundo: com firmeza e direcionamento. Permanece sorridente no decorrer de toda a entrevista.
Após a separação, passou a morar sozinha e a custear todos os seus gastos. Sobre a profissão, relata gostar muito da escolha que fez e afirma ter certeza de estar seguindo o seu caminho profissional.
Sua entrevista apresenta muitas informações e profundidade em sua autopercepção.
Beatriz é médica, com mestrado, tem 33 anos, é solteira. É a filha mais
velha. Tem uma irmã mais nova. Aparentemente tranqüila durante a entrevista, apresentou-se como uma pessoa tímida. A timidez é evidente no baixo tom de voz, às vezes, quase inaudível. Logo de início se acomodou na ponta do sofá e ali permaneceu perto do gravador, porque falava muito baixo. Essa maneira de se colocar parece descrever sua maneira de encarar o mundo: com certa insegurança e incertezas.
Carmem é auxiliar administrativa, cursa o último ano de Direito, é
solteira. Tem 30 anos e é a mais velha de três filhas. O irmão mais velho morreu. É muito comunicativa e sorridente. Apresentou-se muito disposta ao responder a todas as perguntas de maneira muito tranqüila. Parece não se contentar com as coisas como elas são ou estão, pois está sempre em busca de novas possibilidades, como é o caso do curso de Direito e também da revisão de algumas posturas em sua vida. Apesar de se considerar pouco ousada, apresenta uma maneira de encarar a vida diferente dos padrões familiares, aspecto este relatado por ela como sua eterna luta contra a passividade e a introversão.
Seu tom de voz, firme e constante, parece demonstrar como se posiciona diante da vida: de maneira firme, batalhadora e persistente.
Elisa é psicóloga, 33 anos, é solteira e mora sozinha. É a primogênita,
de três filhos. Veste-se de maneira elegante, com salto alto, decotes que valorizam o colo e está maquiada. Responde às perguntas com voz baixa, mas de modo firme e tranqüilo, mesmo quando emocionada. Costuma falar pausadamente. Sente-se desamparada afetivamente pela família e alega que, com isso, tem que cuidar de si sozinha, sem poder contar com ninguém. Isso talvez reforce seu jeito de encarar a vida: de maneira organizada, planejada e decidida.
Sobre a profissão, diz que a escolha não foi um processo consciente, mas decorrente de algumas influências de situações de vida.
Daniela, 30 anos é professora universitária com formação em dança,
solteira e mora sozinha. É a filha caçula e tem uma irmã mais velha. Veste-se de maneira simples, uma blusa esportiva com um pequeno decote. Muito comunicativa, responde a tudo de forma clara, num tom de voz mais alto e sem muitas pausas entre uma colocação e outra. Considera-se uma “guerreira” e assim parece se colocar diante da vida: com garra, com foco nos objetivos. Parece não se preocupar muito com sua aparência ou maneira de vestir; sua preocupação ainda está em vencer profissionalmente, pois sente que tem que provar para as pessoas que consegue sobreviver com a opção profissional que fez. Recentemente, tem se questionado sobre a escolha de um companheiro.
No que diz respeito à profissão, acredita ter feito a opção certa, apesar de os pais transmitirem receio sobre sua escolha, no que se refere a conseguir garantir sua sobrevivência.
Fabiana, 31 anos, é psicóloga, solteira e mora com os pais. É a caçula
de três filhos, sendo os outros dois homens. Fez sua escolha profissional no terceiro colegial, com base na certeza de não querer seguir a carreira do pai. Sua certeza era a de querer trabalhar com crianças. Muito comunicativa, com tom de voz firme e claro, buscou responder a todas as perguntas com tranqüilidade, questionando quando não compreendia alguma coisa. Veste-se de maneira clássica, mas simples e sempre com salto alto, como faz questão de dizer. Extrovertida, apresenta um olhar sobre a vida muito prático e objetivo e tem o senso de justiça como uma grande característica sua.
Talvez por ser extrovertida, a maneira de se relacionar com os problemas e dificuldades esteja marcada por essa característica, de tentar encontrar saídas no distanciamento dos problemas e na busca de uma solução, que passam a ser metas a serem conquistadas. Essa parece ser sua marca: desfocar o problema e focalizar numa saída.