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desenrolava a disputa bipolar EUA-URSS, um novo grande confronto internacional emergia entre a China Popular e a União Soviética - pelo que do início dos 1960 até ao final dos anos 1980, a Ásia Oriental conviveu com uma autêntica “dupla Guerra Fria”. Aproveitando a cisão entre as grandes potências comunistas, a Administração Nixon jogou a sua “cartada chinesa”, o que introduziu no xadrez asiático e internacional um novo figurino triangular. Embora a ideia de que as relações internacionais na Ásia-Pacífico entraram num «período

de tripolaridade» (Yahuda, 1996 e 2004) seja algo exagerada, a nova dimensão do eixo

Washington-Moscovo-Pequim produziu, de facto, impactos sensíveis em todo o ordenamento internacional, em particular, na Ásia-Pacífico.

IV.2.1. Conflito Sino-Soviético e “Cartada Chinesa”

Tanto antes como depois da proclamação da RPC e da aliança sino-soviética, Mao conduzira sempre o PCC e a China Popular de forma independente da URSS: afinal, não só o próprio Mao disputava a Estaline o estatuto de grande líder do movimento comunista mundial como a China era demasiado vasta e orgulhosa para ser um parceiro submisso da política soviética. Isto dava à relação entre Moscovo e Pequim um grande potencial de desunião, a que a destalinização à moda de Kruschev forneceu a ocasião. De facto, as rivalidades pessoais e, depois, ideológicas e nacionais, ganharam proeminência com a subida de Kruschev ao poder no PCUS e na URSS79, com o maoísmo a transformar-se numa espécie de “estalinismo anti-soviético”. A disputa ideológica brotou das origens e experiências dos dois Partidos e dos dois Estados Comunistas mas foi, sobretudo, a partir do XX Congresso do PCUS, em Fevereiro de 1956, que as divergências vieram ao de cima:

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Depois da morte de Estaline, em Março de 1953, a União Soviética viveu um curto período de “direcção colegial”, com o poder repartido entre as estruturas do PCUS e do Estado e personalidades como Beria, Malenkov, Kaganovitch, Molotov, Bulganine e Kruschev. Porém, tirando partido do cargo de Primeiro Secretário do PCUS (1953-1964), Kruschev impôs-se aos demais camaradas como grande sucessor de Estaline na liderança da URSS.

enquanto Kruschev implementava o seu “Novo Rumo”, Mao condenava a destalinização e apresentava-se como o guia avançado da revolução comunista mundial. A seguir, apesar de ter apoiado a intervenção soviética na Hungria (Novembro de 1956), Pequim abandonava os Planos Quinquenais e lançava a China no trágico “Grande Salto em Frente” (1958-1961)80. Nos anos que se seguem, os comunistas chineses e soviéticos trocam acusações de “revisionismo”.

Às questões pessoais e ideológicas juntaram-se os assuntos de Estado. Pequim temia que a “doutrina da Coexistência Pacífica” de Kruschev sacrificasse os interesses da China Popular, o que começou a ser severamente testado. Primeiro, a URSS não apoiou a RPC nas crises do Estreito de Taiwan de 1954 e 1958/1960, o que significava para Mao que os soviéticos “pactuavam” com os EUA na manutenção da divisão da China. A seguir, em 1959-60, Pequim viu os soviéticos renegarem, além de toda a juda económica e técnica, também o anterior compromisso de auxiliarem a RPChina no desenvolvimento de armas nucleares para, logo depois, a mesma liderança soviética recuar na “Crise dos Mísseis de Cuba”, em Outubro de 1962: Mao criticou duramente Kruschev, alargou à URSS a sua célebre expressão de tigres com garras de papel e acusou Moscovo de abandonar a estratégia revolucionária mundial, procurando a paz com os americanos a qualquer preço num “movimento revisionista e contra-revolucionário”. Em Outubro de 1964, a China Popular experimentaria com sucesso a sua bomba atómica, mas obtida pelos seus próprios meios. A cisão sino-soviética interligou-se depois à conflitualidade sino-indiana81 e indiano- paquistanesa, com o relacionamento entre a Índia e a URSS a fortalecer-se numa lógica anti-RPChina (em 1971, Moscovo e Nova Deli assinariam mesmo um Tratado de Amizade e Cooperação), enquanto a RPChina e o Paquistão se aliavam perante a mesma inimiga Índia82 - o que significa também que, desde o início dos anos 1960, a RPChina e os EUA passavam a ter no Paquistão um aliado comum, se bem que com motivações muito distintas. Entretanto, os dirigentes chineses tinham começado a apresentar reivindicações territoriais baseadas na denúncia dos tratados “desiguais” e a acusar os soviéticos de ambições imperialistas e de ingerência subversiva nalgumas áreas chinesas como o Xinjiang, a Mongólia Interior e a Manchúria.

80 Imposta com enorme brutalidade, esta iniciativa foi um desastre económico, resultando no que os autores do

“Livro Negro do Comunismo” descrevem como «a maior fome da História», provocando entre 20 milhões e 43 milhões de mortes. Ver Courtois et al., 1998: 552-561.

81 Depois da Índia acolher no seu território o Dalai Lama e dezenas de milhares de tibetanos fugidos da repressão

chinesa de 1958-59, intensificando as disputas fronteiriças e a tensão mútua, as relações entre a China Popular e a Índia deterioraram-se a tal ponto que, em Outubro-Novembro de 1962, ocorreu mesmo uma breve guerra entre elas, tendo a URSS acabado por se encontrar virtualmente ao lado dos indianos: escassos meses antes, tinha fornecido à Índia caças-bombardeiros Mig 21.

82 Em 1963, Pequim e Islamabad efectuaram uma “troca” de territórios na região da Caxemira reivindicada pela

Índia e, em 1965 e 1971, por ocasião das Segunda e Terceira Guerras Indiano-Paquistanesas, a RPChina apoiou material e diplomaticamente o Paquistão, ameaçando abrir uma nova frente na guerra contra a Índia.

É neste quadro que os dirigentes chineses articulam, desde o início dos anos 1960, a sua “Teoria dos Três Mundos”, particularmente bem sintetizada mais tarde por Deng Xiaoping em nome de Mao: «Em resultado da emergência do Social-Imperialismo, o campo Socialista

que existiu durante algum tempo após a Segunda Guerra Mundial já não existe…. o mundo actual comporta três partes, ou três mundos... Os Estados Unidos e a União Soviética formam o Primeiro Mundo. Os países em desenvolvimento da Ásia, África e América Latina e outras regiões formam o Terceiro Mundo. Os países desenvolvidos entre estes dois formam o Segundo Mundo (…) A China pertence ao Terceiro Mundo (…) Estamos convencidos de que se os países e povos do Terceiro Mundo fortalecerem a sua unidade… ficarão aptos a arrancar incessantemente novas vitórias»83. Pequim hostilizava, simultaneamente, os EUA e a URSS e lançava um repto revolucionário contra as duas superpotências, mas era a última que representava, agora, a principal ameaça para a RPChina.

Com a destituição de Kruschev por alegadas “razões de saúde”, em Outubro de 1964, a hostilidade sino-soviética parecia poder abrandar84: a ruptura era, porém, demasiado profunda. O sucessor L. Brejnev impôs o “comunismo de nomenklatura” e repôs os mecanismos de centralização económica e política mas, na análise chinesa, desenvolveu-se dentro da URSS uma “nova burguesia”. Foi, em grande medida, para evitar um desvio semelhante que Mao lançou a Grande Revolução Cultural Proletária (1966-1976), alegada expressão da vontade das massas populares contra a superstrutura aburguesada e que colocou a China à beira da anarquia, naturalmente, muito criticada por Moscovo. As relações diplomáticas nunca foram oficialmente suspensas, mas a RPC e a URSS reforçaram os respectivos dispositivos militares junto à vasta fronteira comum, com os soviéticos a deslocarem também forças para a Mongólia ao abrigo do Tratado de Segurança mútuo celebrado em 1966. Em 1967, os “Guardas Vermelhos” maoístas chegaram a atacar a Embaixada Soviética em Pequim, no mesmo ano em que a China Popular fazia explodir a sua bomba H, enquanto a URSS e os EUA criavam o Tratado de Não Proliferação Nuclear. No ano seguinte, o alarme anti-soviético passou a soar mais alto na RPChina, em virtude da intervenção do Pacto de Varsóvia na Checoslováquia e da proclamação da Doutrina

Brejnev, apelidada por Mao, tal como por Tito, de “Doutrina da Soberania Limitada”.

As tensões junto à fronteira comum escalariam mesmo para o conflito militar directo: entre Março e Setembro de 1969, forças soviéticas e chinesas envolveram-se em confrontos – nomeadamente, em torno de uma ilha apelidada de Zhenbao pelos chineses e de

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Deng Xiaoping, 1974. Embora enunciada por Mao desde o início dos anos 1960, o texto mais conhecido sobre a “Teoria dos Três Mundos” chinesa é, de facto, este discurso de Deng Xiaoping perante a Assembleia-Geral da ONU, em 10 de Abril de 1974, enquanto Chefe da Delegação da RPChina.

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Por exemplo, logo no mês seguinte, Zhou Enlai (Primeiro-Ministro chinês) deslocou-se a Moscovo e, em Fevereiro de 1965, foi Kossyguine (Primeiro-Ministro soviético) a Pequim.

Damansky pelos soviéticos, disputada no Rio Ussuri - que terão provocado dezenas de mortos dos dois lados. A China Popular e a União Soviética encontram-se, então, à beira de uma verdadeira guerra e Moscovo elaborou mesmo planos para levar a cabo ataques nucleares tácticos (Yahuda, 1996: 62; Alagappa, 1998: 93). A crise militar só terminou após a passagem do PM Soviético Kossyguine por Pequim, em Setembro desse ano, no regresso do funeral de Ho Chi Minh: o clima de confrontação manteve-se, porém.

O conflito sino-soviético fragmentou o “mundo comunista”, disputando Moscovo e Pequim “clientelas” tanto de governos como das várias guerrilhas e partidos comunistas: a “dissidência” aberta da RPChina seria, por exemplo, encarnada na Europa pela minúscula e estalinista Albânia de Enver Hodja ou na Indochina pelos Khmers Vermelhos de Pol Pol, bem como por uma série de pequenos partidos e associações de intelectuais e estudantes espalhados por todo o mundo.

A confrontação sino-soviética não podia deixar de interessar aos Estados Unidos. Contudo, as Administrações Eisenhower, Kennedy e Johnston não a exploraram e só com o advento da Administração Nixon é que os EUA tiraram partido do conflito entre as duas potências comunistas, conectando a aproximação à RPChina à disputa bipolar e também à situação na Indochina.

A tarefa de libertar os EUA do “pântano do Vietname” foi assumida como prioritária pela Administração Nixon85, eleita em 1968: a Guerra Fria e a política de Containment tinham empurrado os Estados Unidos para um envolvimento universal em nome do anti-comunismo e era esta estratégia que precisava de ser reconsiderada à luz do trauma do Vietname. Por isso, o novo Presidente Americano apressou-se a enunciar, em Julho de 1969, na base naval de Guam, no Pacífico, os novos critérios que pautariam o envolvimento americano, naquilo que ficaria conhecido por “Doutrina Nixon”86. Sem abandonar o Containment mas

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De facto, esta Administração Americana procurou, incessantemente, uma saída menos humilhante do Vietname através de um compromisso político. Em Julho de 1969, o próprio Presidente Nixon enviou uma carta a Ho Chi Minh apelando à resolução do conflito sem, todavia, obter uma resposta positiva do líder norte- vietnamita que, entretanto, morreria no mês de Setembro seguinte. Os esforços da Administração Americana conduziriam mesmo aos Acordos de Paz de Paris, em Janeiro de 1973 (negociados desde 1969 e que valeriam, inclusivamente, o Prémio Nobel da Paz a Kissinger e Le Duc Tho, negociador e membro do Politburo vietnamita que, todavia, se recusaria a receber o Prémio), se bem que a guerra ainda se tenha prolongado por mais dois anos.

86 Reflectindo sobre os envolvimentos militares dos EUA desde o fim da II Guerra Mundial e a situação no

Vietname, Nixon (1969) estipulou «três princípios orientadores para a futura política americana na Ásia: - Primeiro, os EUA manteriam todos os compromissos assumidos;

- Segundo, providenciaremos um escudo se uma potência nuclear ameaçar a liberdade de uma nação nossa aliada ou de uma nação cuja sobrevivência considerarmos vital para a nossa segurança;

-Terceiro, nos casos envolvendo outros tipos de agressão, nós forneceremos a assistência militar e económica quando solicitada de acordo com os nossos compromissos nos tratados. Mas esperamos que seja a nação directamente ameaçada a assumir a responsabilidade primordial de dar os meios humanos para a sua defesa». Evidentemente, à luz deste terceiro critério, a ideia de substituir no Vietname os militares americanos pelos muito frágeis “meios humanos” vietnamitas, ficando os EUA na “retaguarda”, só poderia conduzir à retirada

recusando o espírito de cruzada anti-comunista e baseada na mais pura realpolitik, esta Administração assumiu o “interesse nacional” como preceito orientador da política externa e de segurança dos EUA e também como principal critério para julgar os adversários desenvolvendo, consequentemente, a política de “Articulação” (Linkage) na direcção da URSS: «A ideia era enfatizar as áreas em que a cooperação era possível e usar essa

cooperação como alavanca para modificar o comportamento soviético em áreas em que os dois países se encontrassem em conflito» (Kissinger, 1996: 622). Na visão Nixon-Kissinger

seria crucial, então, arranjar um incentivo forte para a moderação soviética, sob pena da “articulação”, baseada nos respectivos interesses, conduzir apenas à expansão da URSS. Esse extraordinário incentivo encontrou a Administração Nixon na aproximação à RPChina: «Excluir das opções diplomáticas da América um país com a dimensão da China significava

que a América estava a agir internacionalmente com uma mão presa atrás das costas. Estávamos convencidos de que o aumento das opções da política externa da América abrandaria, em vez de endurecer, a posição de Moscovo» (ibid.: 629). O desanuviamento

com Moscovo e a abertura a Pequim eram, portanto, as duas faces da mesma moeda, fazendo Washington explicitamente um convite a cada uma das grandes potências comunistas para se moderarem e melhorarem as suas relações com os Estados Unidos87. A Administração Nixon toma, então, uma série de iniciativas unilaterais para demonstrar a mudança de atitude dos EUA em relação à China Popular: por exemplo, abandonando a retórica hostil anti-Pequim, levantando a proibição dos americanos viajarem para a RPC e uma série de restrições comerciais e iniciando contactos bilaterais “oficiosos”. Em Julho de 1971, o então National Security Advisor e depois Secretário de Estado H. Kissinger deslocou-se, secretamente, a Pequim – “desaparecendo” durante uma visita oficial ao Paquistão - para promover as relações bilaterais e negociar a “substituição” de Taipé por Pequim nas Nações Unidas. A aproximação à RPC implicava, necessariamente, começar a abrir mão de Taiwan e, em 25 de Outubro de 1971, a AGNU aprovava a Resolução 2758 pela qual a RPChina se tornava na “única representante legal da China na ONU”88. O