Os ídolos surgiram como objetos e/ou seres de adoração, ou seja, eles apareceram como formas materiais ligando o homem a formas sobrenaturais e até hoje se constituem como um elo entre o mundo das coisas e o mundo dos sonhos.
Francis Bacon (1979) foi o autor de um dos mais conhecidos estudos sobre a idolatria. Ele analisou o fenômeno por intermédio do que designou como Teoria dos Ídolos, relacionando esses seres aos seguintes espaços sociais: caverna, tribo, foro e teatro. Bacon conceituou os ídolos como fantasmas, preconcepções e fontes de erro. Sendo esses seres para ele manifestações emocionais que obstaculavam o caminho do conhecimento, onde a emoção seria um problema, pois contrariava os postulados da razão.
Porém, como demonstramos anteriormente, houve uma mudança nesse olhar contemplativo e esse mundo das representações imaginárias e simbólicas deixou de ser visto unicamente como a esfera das demências.
O imaginário do qual faz parte a idolatria é acionado por meio de vivências, percepções e instintos passados, fatores estes que são cotidianamente modificados por novas experiências temporais e atemporais. E é dessa forma que as tecnologias midiáticas reaproximaram os ídolos das pessoas comuns por meio de um movimento semiodiscursivo que nos remete ao olimpo grego e seus deuses humanizados.
Porém, o imaginário também é a experiência da novidade, isso porque, junto à mídia, ele ajuda a definir os novos perfis culturais.
[…] a tecnologia comunicativa é um traço fundamental para a constituição de uma dada cultura, inclusive a cultura contemporânea. Assim, como a introdução da escrita forjou a cultura da escrita, a tipografia a cultura tipográfica e a eletricidade a cultura dos meios de massa, o digital forja uma nova cultura […] é a cultura da velocidade, da extrema interação entre indivíduos e circuitos informativos, da não linearidade, da instantaneidade, da quebra das fronteiras geográficas, da ausência das figuras de emissor e receptor, da virtualidade e virtualização, da integração e convergência (AGUIAR, 2010, p. 85).
E é nessa esfera de convergências que o fluxo midiático e orgânico das construções mentais se liga diretamente ao concreto, acionando a vida objetiva por meio do imaginário. Sendo este último pertencente a uma dimensão atmosférica e ambiental onde encontraremos uma constante e contínua proximidade entre ambiência e fantasia.
Maffesoli (2001, p. 76) destaca que “Nesse sentido, pode-se dizer que o imaginário é a cultura de um grupo. Contudo, se voltarmos ao que foi dito, veremos que o imaginário é, ao
mesmo tempo, mais do que essa cultura: é a aura que a ultrapassa e alimenta”.
Essa aura imaginária pode ser caracterizada ainda pela necessidade que o homem tem de sonhar e mistificar. Neste sentido, acreditamos que a sociedade contemporânea se constitui essencialmente idólatra, porém, nossos ídolos são de carne, sangue e imperfeição - e é assim que tomamos esses seres como expressões arquetípicas de nossas próprias qualidades e/ou defeitos. Com isso, a
[...] identificação do sujeito com o objeto-imagem está na base da constituição da comunidade midiática da fama (...) A pulsão fusional da personalidade real com personagens midiáticos é coletiva e gera imagens capazes de desbordar até mesmo valores relativos a espetáculos tradicionais (SODRÉ e PAIVA, 2004, p. 138).
E é através do bios da fama que esses ídolos se aproximam e se distanciam do cotidiano das pessoas não famosas.
[...] a fama se impõe como motivação profunda da ação. Fama é fortíssimo sujeito de poder e objeto de desejo [...] Às presumíveis relações diretas e indiretas entre globalização neoliberal, urbanização segregacionista e violência urbana, acrescentando-se a celebridade, vetorizada por uma matriz de ilusões e identificações projetivas chamada “mídia”. A abóbora que, no conto de fadas, transforma-se em carruagem para Cinderela é confirmada no real-histórico pelo ‘jornalismo de abobrinhas’. Mitologias simulativas e vida ‘off-mídia’ confundem- se, como no texto de uma telenovela (SODRÉ e PAIVA, 2004, p. 15).
Dessa forma, os ídolos da mídia são os heróis e os mitos da sociedade contemporânea. Eles conduzem seus discípulos num contínuo religare entre realidade e ficção e suas várias nomeações caminham para variados significados.
Por meio de uma existência mítica e humanizada, essas personalidades midiáticas são os deuses do olimpo contemporâneo e servem como fonte de identificação para os telespectadores, espectadores, leitores e navegadores pós-modernos. Tal qual ressaltamos, é no olimpo contemporâneo se concentram os principais arquétipos para a idolatria da beleza ideal: as celebridades.
3.1.1 Imagens e Nomes da Idolatria
Na afirmação de Maffesoli (1996, p. 125) “Admite-se hoje em dia, que a aparência, a superficialidade, 'a profundidade da superfície' estão na ordem do dia”. Dessa forma, as imagens exibidas pela mídia podem ser vistas como fontes de idolatria com status de
atemporal e eterno, mas com uma existência quase sempre limitada.
Mirzoeff, por sua vez, nos diz que “[...] a cultura visual se interessa por eventos visuais nos quais informação, significado e prazer são procurados pelo consumidor” (MIRZOEFF apud SHAW, 2003, p. 197). Isso nos induz a pensar ainda que as imagens que observamos na mídia fazem parte de um complexo e articulado hipertexto cultural, social e comunicacional, ou seja, são imagens que aos poucos se desvinculam do corpo para ganhar autonomia simbólica de olimpiano.
Além do exibicionismo por meio da imagem fragmentada dos corpos dessas celebridades, a mídia também as exibe por efeito da fragmentação de discursos e falas em torno desses corpos. Todas as notícias envolvendo olimpianos têm o nome dessas personalidades como um dos seus mais importantes instrumentos persuasivos.
Da mesma forma que a celebridade é rebaixada pelo uso do nome, ele também pode servir como autoridade para dar conselhos sentimentais e morais. De acordo com Morin (1989, p.57), as celebridades são consultadas “[...] sobre todos os problemas, simples ou extraordinários, e as respostas que dão servem de guia para os crentes nos caminhos espinhosos da vida”.
O uso do nome das celebridades nos discursos midiáticos pode ser analisado do ponto de vista da retórica como argumento ad verecundiam, também conhecido como “apelo à autoridade”. Citações, frases de efeito ou conselhos ditos por olimpianos em sua existência extraordinária são constantemente repetidos por sujeitos não famosos na vida cotidiana. É como se com isso os anônimos evocassem para si a autoridade dessas celebridades.
Essa autoridade a qual nos referimos nem precisa ser necessariamente eficiente naquilo que diz, basta que seja eminente, famosa, respeitada e que goze de estima. Vemos a todo tempo olimpianos expressando suas opiniões sobre os mais variados assuntos: política, religião, educação, sexo, psicologia. Eles não precisam ser cientistas sociais, teólogos ou psicólogos. Suas falas são embasadas pela conhecida prática da doxa, isto é, pelo senso comum.
Entendemos com isso que o nome é a interpelação básica em qualquer produção discursiva, ou seja, ele é um fator fundamental na passagem do biológico para o humano, pois é a partir dele que o sujeito é materializado. É o nome que assegura as trocas simbólicas de reconhecer e ser reconhecido. Assim, o uso do nome de alguns olimpianos pode servir como referência nas trocas comunicacionais cotidianas e no processo de construção das fofocas em torno dessas personalidades.