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PN-junctions and Solid-state Solar Cells

2.2 Photovoltaic cells

2.2.1 PN-junctions and Solid-state Solar Cells

Em A Ilha Fantástica a personagem mais destacada é porta-voz do narrador (autodiegético, segundo a terminologia de Genette) e de várias figuras que exprimem vários aspetos sociais e culturais de um tempo mitificado em que “o mundo todo resumia-se à ilha da Boa Vista” (EC:9).

A propósito do estudo da personagem, Michel Zéraffa diz: “[...] le personnage est le porte-parole d’un narrateur exprimant par une écriture les multiples aspetcts de sa conscience, et ceux de son statut dans une société, une civilisation, une culture.” (1971:22). O narrador-personagem assinala que naquele tempo tinha 9 anos, daí que se tome em consideração o caráter autobiográfico de A Iha Fantástica e a identificação entre a voz narradora e o autor que diz: “[...] eu tinha apenas nove anos, Titide já tinha feito os onze e suas pernas eram muito mais compridas que as minhas.” (IF:70). O protagonista rememora e introduz várias histórias da sua infância fragmentadas dentro da espacialização diegética.

Assim, várias personagens são introduzidas ao longo da narração e assumem no texto narrativo uma síntese de traços semânticos recuperadores e reconstrutores de valores culturais e éticos que restauram um novo ciclo étnico que tem como função a reconstrução ideológica e mesmo a sua consolidação no devir temporal. As diversas micronarrativas contadas pelo narrador das personagens são de tipo anafórico cultural, constituem memórias que revitalizam o passado de uma tradição oral existente no espaço da ilha da Boa Vista.

A personagem que está na função do narrador-personagem, repensa a tradição e é portador de diferentes vozes que projetam uma cultura típica de um espaço geosocial, não só da infância do protagonista, mas também da especificidade do homem cabo- verdiano. Segundo Yves Reuter, uma das suas funções é […] testemunhal ou modalizante […]” (1991:62) que exprime a relação que o narrador tem com a história que ele reconta. As personagens romanescas das diferentes micronarrativas são narratologicamente construídas in praesentia na acção e projetam o devir temporal da diegese e cabe ao narrador-personagem (autodiegético) o papel organizador de todas as histórias vividas e ouvidas. A sua participação obedece a uma “autonomia diferencial” (Philippe Hamon:1977:155), destacando as várias figuras individuais que estão encadeadas nas diversas ações da narrativa. A sequencialização de histórias na narrativa

obedece à técnica de encaixe proposto por Todorov (1979:87) numa dispersão sequencial.

É um narrador que funciona como personagem principal que, por vezes, com a função de regência, participa na acção, como se exemplifica no episódio relativo às suas vivências educacionais na escola primária, como ajudante da professora Odália que lhe conferiu o estatuto “[...] de ensinar e tomar a lição aos alunos mais atrasados da classe.” (IF:69).

Outras vezes é uma testemunha ouvinte de histórias e ocular que não participa na ação, mas que presencia e testemunha os factos: ”Mas um dia chegou na aula do quintal com um pedaço de um espelho e disse que íamos ver a cor das cuequinhas da Maria do Céu. Assim, quando viu a Maria do Céu de pé, aproximou-se sorrateiro e meteu-lhe o espelho por baixo.” (IF:68).

A personagem Nhô Quirino, tracejada pelo porta-voz do narrador na primeira pessoa, apresenta como traço diferenciador a arte de contar façanhas épicas em crioulo e português. É caracterizado em idade de velho, talentoso, de aspeto físico de “[...] queixinho pontiagudo por causa da boca motcha [...]” (IF:51), vigoroso “[…] quando começava as suas histórias, as palavras escorrendo-lhe da boca e leves ou rápidas [...] em crioulo [...]” (IF:51), versátil, ator ”[…] mas quando chegava a certas passagens mais emocionantes mudava automaticamente para português, falando rapidamente, derramando sobre nós as belas tiradas que tinha decorado.” (IF:51).

Ele é apreciador e contador erudito de elevados feitos históricos épicos, como a leitura da História de Carlos Magno e os Doze Pares de França, entusiasmado pelas grandes gestas e seus heróis, projetando no ouvinte todo um universo de fantasia e de surrealidade de instantes épicos, “E víamos as lanças quebradas ao primeiro embate, o lume saltando das espadas, os cavalos empinados, quando Nhô Quirino dizia: Pelejavam tão valorosomente, que centelhas de fogo saíam pelas armas e não se conhecia vantagem!” (IF:52).

É uma leitura que relembra-se La Chanson de Roland em que a base histórica do poema é uma batalha real ocorrida em 15 de agosto de 778 entre a retaguarda do exército de Carlos Magno, sob o comando de Rolando, um dos Doze Pares de França. Germano Almeida no ensaio Literatura oral e tradicional informa:

Pelo início das noites de luar, depois de um dia de trabalho, as gentes, familiares e vizinhos próximos, juntavam-se à porta de uma das suas casa e contadores de estórias especialmente convidados debitavam por longas horas as estórias mais diversas, desde os romances de cavalaria onde ganhava grande relevo a História de Carlos Magno e os 12 pares da França, até às mais diversas lendas de prodigiosas bruxas, pateados, maçãos e outras criaturas que pela noite adentro perseguiam os viventes que se atreviam a sair das suas casas. (2014:73).

Ainda a luta travada entre Oliveiro e Ferrabrás:

[…] a mais bela entre todas e na qual o então “malferido” Oliveiro respondia ao desafio para duelo em campo aberto do turco Ferrabrás, são e possante e bem tratado. Mesmo doente e de cama, Oliveiro, contra tudo que lhe era aconselhado pelos demais pares, Roldão mesmo oferecendo-se insistentemente para lutar em seu lugar, não recusa o desafio. (IF:51).9

Nhô Quirino10 é uma figura mimética e tradutora do cultural e social que se identifica com o narrador no que diz respeito à tradição e à redimensão humana do homem cabo-verdiano da Boa Vista também ao incorporar na sua arte de contar o português juntamente com o crioulo, as histórias estão preservadas de uma cultura crioula, própria da tradição oral que faz parte do imaginário e da memória do narrador adulto que a escrita de Germano Almeida rememora e revitaliza.

O teórico Philippe Lejeune relembra: “[...] c’est la voix du narrateur adulte qui domine et organize le texte [...] l’enfance n’apparaît qu’à travers la mémoire de l’adulte.” (1980:10). É a voz da personagem adulta na primeira pessoa, que seleciona as

9 Referência à batalha de Oliveiros com Ferrabrás, de Leandro Gomes de Barros.

10 A personagem Hhô Quirino volta a aparecer na narrativa Regresso ao Paraíso. Transcreve-se um

excerto:

[…] muitos e muitos anos depois fomos ouvindo como estórias tão perfeitamente intemporais que entravam nos nossos ouvidos e cabeças exatamente iguais àquelas de Carlos Magno e dos Doze Pares da França que nho Quirino nos contava pela boca da noite, ou então das almas do outro mundo, mas que com o tempo, de uma forma ou de outra acabávamos por situar em pessoas com as quais convivíamos diariamente, que nunca nos tinham parecido capazes de matar uma mosca e que no entanto, de repente, por uma frase inconfidente ouvida ao acaso das conversas de adultos, descobríamos maravilhados serem heróis ou as heroínas de feitos que de há muito preenchiam a nossa imaginação. (2015:129).

narrativas mais marcantes e representativas da memória coletiva do povo cabo-verdiano da Boa Vista. A visão do protagonista, conferida pela forma convincente do contador de histórias de cavaleiros corajosos, mantem-se no seu espaço onírico.

Ti Maninho Carol, homem “[…] pequenino e desbocado […]” (IF:41), morava na Estância de Baixo, alegre, grande dançarino, apreciava o sexo feminino, a morna e contava já mais de 60 anos. Morreu velho, “[…] da mesma forma festiva como sempre tinha vivido, pastor de muitas cabras e de muitas mulheres, um dos melhores bebedores de grogue da ilha.” (IF:43). Foi chorado pelas gentes de toda a ilha.

Mano Teteia, falador, não direto nos assuntos, falava bem, “[…] era homem de muitas leituras,[…]” (IF:50), frequentara um ano ou dois o liceu em S. Vicente, professor primário, […] falava um português arrevesado e cheio de palavras de dicionário, […]” (IF:50).

Lela, “ancião cego”, descontente em relação ao passado da ilha, é vítima da febre amarela, doença que mata Maria Patingole, filha de um inglês que vivia na ilha. Esta personagem repete-se intertextualmente em Estórias Contadas como símbolos representativos da ilha.

Ti Júlia é supersticiosa, acredita em crendices populares e tem preocupações com o parto “[...] porque naquele tempo a primeira preocupação a ter com um recém-nascido era contra as bruxas [...] comedoras de tenros bebés.” (IF:21); a presença do gato que mia e Ti Júlia afasta o animal com “[...] o polegar entre outros quatro dedos e apontado na direcção do miau enquanto os presentes gritavam ‘figa canhota, tocha camarocha, merda de gato preto [...]” (IF:17). A personagem é descrita com certo humor em relação ao seu papel de depositária das tradições e ainda como figura representativa do fantástico.

A este respeito o teórico Tzvetan Todorov diz: “Le fantastique, c’est l’hésitation éprouvée par un être qui connaît que les lois naturelles face à un événement en apparence surnaturel” (1970:29). Tia Júlia representa essa hesitação com o sentido de ambiguidade entre o empirismo e a crença. Christian Dours em Personne, personnage Les fictions de l’identité personnelle informa: “Le fantastique naît de la reencontre oppositive, contradictoire, de l’ensemble des lois de la nature et d’un événement qui se situe au-delà de ces lois.” (2003:113). Bella Josef aponta que as narrativas que

boliviano Renato Prada Oropeza defende a presença do insólito no fantástico, como elemento necessário e essencial para a consecução da narrativa fantástica contemporânea. Ele diz:

[...] en la narración fantástica se hacer vidente una “ruptura” en la codificatión realista que el mismo “lo extraño”, lo que no cuadra com la coherencia realista, y le confere su valor próprio, contrario a la lógica aristotélica-racionalista. De este modo, en el seno mismo del universo racional de las cosas surge lo “incoerente” com esse reino, lo que llamos insólito. (2006:5).

Igualmente Ti Maia apresenta situações insólitas passadas em sua casa que “[...] ficava um tanto fora da vila e por isso muitas pessoas juram ter visto, nas noites de luar, homens de outro mundo passeando pela casa.” (IF:24) e há “[...] os gongons, as nelinhas, os catchorronas, sem já falar dos pateados que durante as noites de lua cheia passeavam a ilha de ponta a ponta montados em belos cavalos brancos.” (IF:21). Ti Maia é velha, toda esburacada, cheia de ninhos de pardais e pombos também misteriosa.

A presença das superstições na personagem Moriçona, estende-se a Pepa e um pouco a Djonga.

Pepa é movido pela crença em relação ao elemento tambor como indispensável no casamento, como já foi dito, Djonga ligado ao ritual do funeral e à história do espelho: “[...] Mas em resumo era isso: o povo acreditava que se houvesse um espelho na porta da casa depois da morte de uma pessoa era possível ver-se a sua alma a atravessar o espelho. Não que ele Djonga acreditasse! Mas!” (IF:194). Ele era católico praticante. Volta-se a Tzvetan Todorov:

Le fantastique, nous l’avons vu, ne dure que le temps d’une hésitation commune au lecteur et au personnage, qui doivent décider si ce qu’ils perçoivent relève ou non de la “réalité”, telle qu’elle existe pour l’opinion commune [...]. Le fantastique implique donc une intégration du lecteur au monde des personnages; il se définit par la perception ambigue qu’a le lecteur même des événements rapportés. (1970:46).

É o tempo da hesitação que é partilhada pela personagem e que marca o fantástico.

Algumas situações oferecidas pelas personagens já apontadas são representativas da contradição entre dois mundos, o do real empírico e o do fantástico da crença e até

do maravilhoso, num momento de espera e de reflexão se o passado está morto ou se persiste, mesmo talvez sob outras formas e adquire corpo na cultura do povo cabo- verdiano. O fantástico, como manifestação do insólito ficcional, instaura uma nova ordem destoante da ordem vigente, rompendo com as convenções aceites ou defendidas pelo padrão social em dado espaço e tempo.

Contudo, as vivências sobrenaturais ou fantásticas oferecidas pelas personagens Ti Júlia e Ti Maia expressam a preservação dessa cultura de superstição na ilha da Boa Vista. Sobre esta matéria alguns teóricos, como Franz Roth e Uslar Pietri dão o nome de realismo mágico, um tipo de ficção muito presente na prosa de Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez e outros escritores da literatura hispano-americana.

João Manco,

versado em literatura e poesia obscena que recitava de braços alevantados [...] um dos melhores fazedores de discursos de casamento da ilha, solicitado por isso por todos os padrinhos para lhes escrever o brinde, o que ele fazia ora em verso ora em prosa conforme a inspiração do momento misturando versos de Camões e Bocage [...] transcrevendo pedaços de discursos recolhidos do livro A Arte de Falar em Público.” (IF:55).

A personagem evidencia gosto pela cultura e também nutre um sentimento telúrico, porque a sua vocação “[...] era claramente para a agricultura de batatas e de tâmaras da Boa Vista e defendia que as melhores batatas que existiam eram as ‘batatas choncha’ da ribeira de Rabil.” (IF:55).

A defesa dos valores da ilha estão muito acentuados nas frases: “E para melhor demonstrar quão boas elas eram e quanto as amava, exemplificava: Assei duas batatas choncha preta, daquelas bem boas, pus um prato de cachupa bem enchido, uma boa caneca de café…” (IF:56).

João Manco é ciumento em relação a Tujinho porque este é um homem viajado, conhece o Rio de Janeiro, Argentina e outros países da América.

Ainda o namoro de João Manco com Mari Bijome, visto com uma linguagem que projeta certa comicidade e que diz respeito ao dialogismo que se estabelece entre o português e o crioulo:

Ele chamou-me, eu não queria acudir…Porquê que não correste, perguntou Tio Tone. Ele é manco, tu corres mais do que ele. [...] Ele meteu-me no leio de uns tarafes, deitou-me na areia e pegou em mim e depois começou a dizer: Bijome, bijome! Foi à força! Ele pegou em mim. (IF:61).

Convém observar: é uma personagem que, pelos traços apresentados, mostra gosto pela cultura nacional, amante das letras, dotado de eloquência discursiva, destacada no casamento do compadre Bento de Estância de Baixo e que para além dos dotes de saber falar em público, também tem consciência dos valores telúricos.

Outro traço importante na personagem é a contínua ausência do falar crioulo, interrogação essa que é posta em relação ao futuro da língua crioula: “Em toda a sua vida, uma única vez João Manco foi ouvido a falar crioulo e foi justamente da circunstância de que lhe adveio a alcunha de ‘Manco’.” (IF:56).

Bento de Estância de Baixo é contra as tradições e tinha escolhido casar com a Maria Concha, uma garota do Rabil que vivia fora da ilha. Ela é a voz representativa de uma nova consciência social que deseja superar mudanças no plano social e ideológico.

Odália, professora primária, exigente, atenta aos alunos que continua com os métodos antigos. O ensino é memorizado “[...] todos os mapas com todos os rios e serras de Portugal” (IF:67), incute o medo, o rigor em sala de aula e pune com os castigos como “A orelha-de-burro”: “[...] aprender à força de vara [...] palmatória de cinco buracos [...]” (IF:67). A relação entre a professora e a infância do narrador, embora sentisse um medo: “[...] dela que pelava” (IF:69), mas é ajudante da professora e tem o direito de castigar. O ensino conservador, tradicional e a defesa de métodos rígidos aplicados pela professora. Este tipo de aprendizagem é consequente da presença ideológica do sistema colonial que imperava nas ilhas de Cabo Verde. Esta personagem é também relembrada pelo autor na narrativa “Cabo Verde é o centro do mundo” em Estórias Contadas.

O padre Higgino é uma referência de valores e divulgação de ideais religiosos de uma instituição, a Igreja, mas também a valorização e o respeito pela autonomia ideológica nacional.

Pela voz de Lela, o padre “[...] era o que poderia ser chamado um padre decente porque baptizou de borla todas as crianças da ilha, casou todas as pessoas que quiseram

casar-se, chamando a atenção sobretudo para as consequências temporais do laço do casamento.” (IF:88).

No discurso narrativo, esta figura é tracejada como apreciadora de diferentes aspetos culturais: “Gostava de jogar à bola, tocava gaita de beiços e em pouco tempo já se entendia em crioulo com as pessoas. [...] nunca ameaçava as pessoas com castigos divinos. Nos seus sermões aposta no Novo Testamento e no Evangelho segundo S. João [...]” (IF:88). É bondoso e protegia os pobres: “ “[...] todas as vezes que se deslocou a Roma trouxe grandes quantidades de remédios e roupas [...]” (IF:88).

O memorialista fala da sua relação de infância com Higgino, ajuda-o nas missas, nas suas relações com Deus que estão “[...] baseadas no medo que eu tinha de ofender nhô padre. Ele oferece-lhe ‘uma bonita gaita de boca da Itália’ (IF:89), dá passeios com ele à beira-mar e oferece-lhe rebuçados. Esta personagem retorna em Estórias Contadas.

João Mateus é um português, “[...] deportado, velho e manco [...]” (IF:203), dedicado, amigo de sua família e trabalhador. Ele tem oitenta anos, vive com Maria Antónia, de cerca de 18 anos e bonita e estabelece com ela uma relação “[...] de avô, professor e amante e a quem não apenas faz dois filhos como também ensina a ler e escrever e a fazer doce de batata e abóbora que [...] vendia em pequenas forminhas de alumínio por dois tostões e cinco tostões.” (IF:203).

O Sr.Administrador tem a função de pôr ordem no povo, causa a desgraça de Estância de Baixo e de Justina. Ele revela-se um hipócrita.

A figura feminina é focada de maneira conservadora, visto que uma boa mulher é aquela que dispõe das obrigatórias qualidades de dona de casa: “Conhecia-se, aliás, a boa dona de casa pela forma como fazia a sua cama, se a deixava sem rugas, até porque a cama principal da casa era um objecto de sala de visitas, à vista portanto de quem chegasse.” (IF:70).

E essa mesma presença continua na figura de Justina que no seu parto, a sua mãe nha Maria Santa-Bruxa, interpreta-o como uma providência do destino. Cita-se uma passagem textual: “Mas a verdade é que Justina estava grávida e ninguém sabia de certeza certa quem era o pai, especulando-se apenas que devia ser aquele capresta do administrador.” (IF:77). A mulher é encarada como sofredora pela pressão de um

Contrariamente Pepa, abandonada pelos seus filhos e molestada pelo povo, tem uma posição revolucionária, desmacara a crueldade, mostra a desvalorização e pressão social e ainda o tratamento dado pelo administrador aos operários:

Mas em compensação quem não se lembrava daquele outro administrador que ia ver se os trabalhadores das obras do Estado iam mesmo fazer pupu quando pediam licença! E se achava que um deles tinha um pupu demorado, cortava-lhe logo um dia de trabalho na folha. (IF:79).

Como é observado Germano Almeida traça esteticamente as personagens criadas em A Ilha Fantástica e, neste caso, José Luís Hopffer Almada sublinha a importância dessa narrativa que [...] se vivifica de um telurismo típico dos meios pequenos, como o é a ilha da Boa Vista. Telurismo que em si conjuga a realidade comezinha dos dias de sobrevivência ao fantástico que percorre o imaginário da criança narradora e personagem omnipresente. (1998b:177).

Em primeiro lugar, verifica-se que a personagem-narrador relata e intervem nas curtas narrativas que perseguem o seu espaço onírico e que ele assume como plausíveis, negando imediatamente essa veracidade dos acontecimentos, visto que à distância ele recria e reconstitui uma nova ilha da Boa Vista que não existe no presente, mas talvez no seu imaginário ainda da infância: “Mas quando recordo os dias da minha infância, o que mais vejo são festas, sejam religiosas, sejam pagãs.” (IF:39).

As memórias de infância do autor são animadas por personagens ficcionadas de identidade pessoal e referenciais (Philippe Hamon,1977:96), visto que relatam costumes e tradições de um tempo rememorado pelo “eu” discursivo e que fazem parte da cultura crioula cabo-verdiana dessa ilha.

A proliferação de traços de diversas personagens representativas de vivências sociais que convergem na memória coletiva do povo e do narrador-personagem de Estância de Baixo, surge com o objetivo de construir uma lógica globalizadora em que o jogo construtivo é feito por ajustes e desajustes de ideias, de situações insólitas e partilhas culturais.

Ainda outras figuras como o Sr. Barbosa,”[…] homem de respeito e amizade para