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Seria interessante remarcar que, apesar de Orides FONTELA ter iniciado suas publicações na década de 60, o mundo contemporâneo, com seus signos evocadores da tecnologia e da rapidez, não está presente na sua obra. Os objetos e expressões não se manifestam nem no vocabulário nem tampouco nos elementos integrantes da constituição das metáforas. A imaginação poética tem o seu substrato na maior fonte geradora de imagens: a natureza e sua dinâmica. Desse modo, ao lidar com imagens sedimentadas no imaginário, o poeta alcança um nível mais amplo de universalidade, pois as imagens ressoam um acento do que é reconhecível no lugar onde a poesia é produzida, como também alhures.

Os paradigmas que servem de substrato imagético para a elaboração da metáfora assentam-se quase sempre sobre elementos da natureza ou de coisas triviais, circundantes, que são de qualquer pessoa ainda capaz de ter uma atitude poética, ou seja, o reconhecimento da dinâmica contida na presença dos seres, dos objetos, na vida de todos os dias, capazes ainda de despertar surpresas e novidades, mesmo sendo mais do que prosaicos.

De outra parte, a metáfora não se limita apenas ao signo verbal que será apreendido pelo leitor numa leitura oral ou silenciosa, mas também contempla o signo verbal escrito e a maneira como ele está disposto no espaço em branco da página. Enfim, a autora manuseia signos verbais e não-verbais, provocando com esse procedimento uma eficácia imagética mais acentuada e tornando a forma simbólica embutida ou explícita na metáfora não apenas passível de ser compreendida pelo leitor, mas também capaz de ser absorvida com mais intensidade, na medida em que está organizada esteticamente.

A arquitetura do poema assim disposta resulta em um signo poético de grande força sugestiva e potencializador de múltiplos sentidos, com alta voltagem estética. As formas simbólicas encontram um meio de se manifestarem que não somente as torna evidentes, mas capazes de serem contempladas e fruídas também por meio de uma vestimenta estética.

Como parte do caráter metalingüístico dos poemas, ocorre o desvelamento da poesia não só como uma forma a mais de elaborar o discurso através da linguagem verbal, mas chega o ponto de demonstrar como se procede o engendramento de uma metáfora, quer dizer, não com um caráter enigmático ou algo secreto e sagrado, no qual apenas alguns eleitos têm acesso e domínio acerca do que o senso comum ainda considera arcanos do fazer poético.

ELEGIA (I)29

Mas para que serve o pássaro? Nós o contemplamos inerte.

Nós o tocamos no mágico fulgor das penas. De que serve o pássaro se

desnaturado o possuímos? O que era vôo e eis

que é concreção letal e cor paralisada, íris silente, nítido, o que era infinito e eis

que é peso e forma, verbo fixado, lúdico o que era pássaro e é

o objeto: jogo

de uma inocência que o contempla e revive — criança que tateia no pássaro um esquema de distâncias —

mas para que serve o pássaro? O pássaro não serve. Arrítmicas brandas asas repousam.

O poema, na primeira estrofe, ilustra admiravelmente o que acima referimos. O que é visto, contemplado, não passa de objeto-forma em sua performance de animal – ave - pertencente ao universo da natureza, domínio desde sempre submetido aos homens, já que somos capazes de imperar sobre ele, pois o “possuímos”. A segunda e a terceira estrofes introduzem o pássaro empírico, transfigurado em signo verbal, em palavra poética, num jogo lúdico que desencadeia a metáfora do vôo, que, por sua vez, evoca o fugir, evadir-se (“distâncias”). Não é de graça a associação da inocência ao poeta e ao menino (“criança que tateia”), pois ambos se estão num ângulo de visão que possibilita a nominação ou inauguração do novo. Destarte, o pássaro é desmascarado como signo da cultura, pleno de evocações líricas, e passa a ser o que realmente é: uma forma como outra qualquer, desprovida de possibilidades outras; em si, não é grande coisa (“O pássaro não serve. Arritímicas / brandas asas repousam”). A importância e o valor atribuídos ao pássaro são um construto social, um arbítrio simbólico, repousando sua beleza, quando transformado em palavra poética, em metáfora, em frases (“verbo fixado”) que compõem versos, configurando um ritmo que, por sua vez, plasmará eventuais sentidos30.

De resto, o clássico topos do pássaro, temática bastante condizente com a forma elegia, na medida em que esta tradicionalmente discorre acerca das mudanças das coisas (podemos lembrar a impermanência das aves migratórias, por exemplo). Muito bem, mas não

30 Lembramos que nesse poema o signo pássaro não detém o valor de arquétipo ou de invariante cultural; serve

como pretexto para desvelar os procedimentos usados na elaboração de uma metáfora artística. A palavra, sozinha, conforma um verso. Normalmente são os substantivos que estão em evidência, como a suscitar no leitor a busca de contemplá-los no fundo branco no papel. Esse isolamento da substantivação dá uma carnadura viril ao poema, porém sem resquícios de agressividade, numa contemplação que não se quer lacrimogênica ou sentimental, mas grave, e com sabor de permanência e sabedoria.

parece ser disso que trata o poema. O pássaro funciona como puro pretexto para se apontar a fragilidade escamoteada numa metáfora recorrente na história da lírica. O pássaro, tanto pode ser a capacidade de se evadir da realidade como a poesia quando materializada numa forma buscando alar-se num vôo metafórico, transportando-nos para oura dimensão, para uma realidade distante e etérea, quando, na verdade, não passa de algo concreto, um objeto quedado no mundo, como outro qualquer, constituído de elementos reconhecíveis e banais (penas, cor, peso, silhueta, asas). O que era “pássaro”, projeções ou sublimações (ou, ainda, a procura do sublime) do que poderia/deveria ser o humano, quando visto em sua natureza, não passa de simples objeto, palpável, trivial e reconhecível, sem a necessidade de vir a ser símbolo. Enfim, a poeta faz saber da arbitrariedade da metáfora, sendo somente uma simples convenção, pois, diferente da metonímia, a metáfora não carece de motivação, de algo concreto para que se proceda à aproximação de dois objetos postos lado a lado para efeito de comparação. Ainda sobre o aspecto gramatical do poema, constatamos uma reiteração vocabular, sintática, modulada em variações diversas, configurando um ritmo que só aparentemente é repetitivo; na verdade, cria uma expectativa, para arrematar na estância final. As reiteradas questões sobre o pássaro acarretam um ritmo um pouco angustiante; sobretudo se manifestam através da adversativa “mas”, como contundente pausa, conclamando o leitor à reflexão, não se deixar enganar pelas aparências ou pelos arbítrios tidos desde sempre como “naturais”.