Começaremos com as discussões propostas por Piaget (1953-54/1994) acerca de valores, que deriva de seus estudos sobre Psicologia da afetividade. Esse autor propõe que o desenvolvimento da afetividade tem uma correspondência com o desenvolvimento da inteligência, funcionando como motivação para as ações, sendo a energética dos comportamentos. Há, de sua parte, um interesse em entender não os valores em si, mas como o ser humano constrói uma escala de valores a partir de seu nascimento. É importante termos em mente a noção de escala de valores, pois é por ela que o indivíduo escolhe suas prioridades morais e fundamenta sua construção de personalidade moral, definindo que valores serão centrais e quais serão periféricos em sua constituição. Assim, compreender qual valor vem antes, numa escala, permite sabermos por quais caminhos e princípios são guiados os comportamentos do sujeito. O valor é dado pela relação afetiva entre a pessoa e o objeto,
ou seja, é a afetividade que define o valor das situações. A afetividade possui dois reguladores definidos: o primeiro refere-se às regulações energéticas, à quantidade e à intensidade das forças empreendidas; e o segundo diz respeito ao sistema de valores e é qualitativo. Enquanto o primeiro relaciona-se ao custo da ação, o segundo aponta à qualidade da ação. “El valor es lo que va a determinar las energias que deberán emplearse em la acción (PIAGET, 1953- 54/1994, p.245). Isso é interessante pelo fato de que nem sempre se elege as condutas menos custosas, pois tal eleição depende do que é valorizado. Existem ações mais difíceis e dispendiosas do ponto de vista da energia, porém mais valorizadas para o sujeito. Assim os valores
[...] são construídos na experiência significativa que o sujeito estabelece com o mundo. Essa construção depende diretamente dos valores implícitos nos conteúdos com o que o sujeito interage no dia a dia, e da qualidade das relações interpessoais estabelecidas entre o sujeito e a fonte de valores (ARAUJO, 2002, p. 215).
Dessa forma, desde pequeno o ser humano desenvolve relações de trocas com o mundo, assimilando seus esquemas e constituindo sistemas de valorações sobre os objetos. Assim, temos funções psicológicas que são cognitivas, afetivas e morais. No processo de desenvolvimento da afetividade, o sistema de valores se constituirá de maneira a permitir que apareçam valores intraindividuais - sensório-motor - e interindividuais, atribuindo, assim, valor às próprias ações e às dos demais, e esse processo de valoração pode ser tanto no sentido da valorização quanto no da desvalorização. “El valor como uma dimensión general da afectividad” (PIAGET, 1953-54/1994, p. 229) funciona como um sistema de regulação. Desse modo, no sensório-motor o valor ainda é flexível e não instituído, porém já no período das representações aparece alguma conservação de valores, que determina as ações. No pré- operatório os sentimentos são ainda seminormativos, demarcado pelo respeito unilateral e obediência ao outro, quando já é possível desenvolver classe de valores, ou seja, a união de pessoas que possuem uma escala comum de valores.
É também nesse momento de desenvolvimento de atribuição de valores aos demais que se estabelecem os sentimentos de simpatia e antipatia e, consequentemente, os sentimentos morais de respeito e dever (PIAGET, 1953-54/1994). Com o desenvolvimento cognitivo paralelamente se desenvolvem os sentimentos normativos, mas é somente no estágio operatório que falamos, de fato, em conservação de valores, em sentimento moral, todos eles derivados das relações cooperativas, como se pode constar da citação a seguir:
Estos valores atribuídos a lãs personas serán el punto de partida de los sentimientos morales, cuyas formas elementales son lãs de La simpatia y de La antipatia, y que constituirán poco a poco um sistema más amplio y a La vez más estable que el de lãs regulaciones energéticas (PIAGET, 1953- 54/1994, p.229-230).
Se é a simpatia e a antipatia o ponto de partida dos sentimentos morais, é justamente o deslocamento dos sentimentos pelas pessoas para princípios que garantirá a passagem para uma moral mais desenvolvida. Na adolescência, com o ganho qualitativo do pensamento e a capacidade de pensar segundo hipóteses, o sujeito amplia sua noção e descobre os valores ideais coletivos. Sobre isso, Freitas (2003, p.105) escreve:
[...] ele realiza uma descoberta afetiva de que existe uma „coletividade mais geral que tem seus próprios valores, os quais são distintos daqueles do eu, da família, da cidade e das realidades visíveis ou concretas‟ (Piaget, 1951/1977, p. 291). Estão dadas as condições para que o ser humano construa o que Piaget chamou de valores ideais coletivos. [...] as pessoas mediatizam valores ideais, tais como a justiça, a solidariedade, a paz, a liberdade [...].
Vemos uma ampliação significativa dos valores, e que ganham em qualidade ética, uma vez que passam a assumir ideais coletivos, podendo conjugá-los justamente na elaboração de uma personalidade ética. Será justamente a capacidade cognitiva, somada à autonomia moral, a constituição de uma escala de valores e é a força de vontade que garantirá, para Piaget (1953-54/1994), os aspectos necessários para a constituição de uma personalidade. Quando temos, idealmente, todos esses aspectos envolvidos, podemos dizer que estamos diante da possibilidade de um sujeito que pode esboçar um projeto de vida que inclua o outro em sua dimensão tanto quanto inclui a si mesmo. É, pois, a incapacidade de incluir os demais em nossos projetos de vida e de projetar a própria vida que demarca um dos motivos das crises de valores da atualidade (FREITAS, 2003; TOGNETTA, 2009), auxiliando na inauteração e/ou manutenção da cultura do tédio, discutida no primeiro capítulo.
Essas ideias são expressas por Cortella e La Taille (2005) em diálogo no livro Labirintos da Moral, no qual Cortella discute o quanto as políticas de tolerância ao outro são contraditórias, uma vez que tolerar é suportar e não incluir o outro na relação com o mesmo grau de valor: “no meu entender deveria se trabalhar de fato com políticas de acolhimento em que o „outro‟ tem o mesmo status que eu” (CORTELLA, 2005, p. 29). A noção de tolerância não permite assumir valores ideais coletivos, e nem incluir o outro em nossos projetos de vida, “porque se eu apenas tolero uma pessoa, ela não está inclusa no „nós‟ e, assim, sua opinião não me importa muito” (LA TAILLE, 2005, p. 30). A escala de valores que
desenvolvemos e especificamente a capacidade de desenvolver uma escala de valores ideais coletivos demarca nosso posicionamento social no mundo bem como que rumos daremos às nossas vidas. Os vínculos afetivos quando caminham de relações coercitivas para relações cooperativas permitem que o respeito unilateral se torne mútuo, mas para isso é necessário que haja um valor equivalente nas relações. É interessante lembrarmos que a economia solidária trabalha com princípios e não com regras, e que, para seu contento, as pessoas precisam desenvolver ideais coletivos e incluí-los à frente em seu rol dentro da escala de valores; necessitam, portanto, atribuir igual valor às pessoas com as quais se relacionam, posicionando–se de forma cooperativa e descentrada.