Kapittel 3. Kunnskapsgrunnlag
3.8 Plastens utbredelse i de aktuelle fiskeriene
Transpor as ideias anteriormente apresentadas a cerca das tradições inventadas no âmbito dos Estados Nacionais devidamente contextualizados em termos históricos e culturais para o contexto das cidades não é tarefa fácil, uma vez que sempre haverá tendência ao anacronismo. Entretanto, recorro à distinção ontológica lukacsiana para justificar o tratamento da invenção das tradições na cidade como fenômeno distinto, porém, imerso na essência das tradições inventadas cunhadas por Eric Hobsbawm, bem como seu emprego para compreender a ‘vocação cultural’ atribuída a Cataguases-MG.
Lessa (2001) destaca que durante um longo período, desde os Gregos até Hegel, a essência foi tida como o verdadeiro ser, concentrando em si um quantum maior de ser que os fenômenos, sendo a existência destes condicionada à ocorrência primordial da essência. Segundo Lukács (1978), Marx modifica por completo a relação entre fenômeno e essência ao tratá-las como categorias que possuem o mesmo estatuto ontológico, sendo igualmente existentes e necessárias à ocorrência de todo e qualquer processo.
145 O processo aqui entendido é a passagem de uma situação à outra, caracterizado por elementos que distinguem os dois momentos, entretanto, apresentando também elementos de continuidade que permeiem a todos, como as determinações históricas comuns. Dessa forma, configuram-se duas determinações fundamentais para que ocorra o processo: “os elementos de continuidade que articulam cada um dos seus momentos singulares em um único processo, e os elementos que consubstanciam a diferença dos momentos entre si e, portanto, do ponto de partida do processo do seu ponto de chegada” (LESSA, 2001, p. 93). É nessa continuidade e distinção que está a diferença entre essência e fenômeno em Marx, segundo Lukács (1978), de forma que os elementos de continuidade consubstanciam a essência, e os elementos de singularização (distinção), a esfera fenomênica, sendo tanto essência quanto fenômeno determinações inerente à história, categorias absolutamente processuais.
O termo ‘tradições inventadas’ não tem sido recorrente nos estudos de áreas que adotam a cidade e suas transformações como objeto de estudo, como é o caso da geografia, sociologia, arquitetura e urbanismo, tampouco na Administração. Entretanto, são diversos os estudos que tratam de fenômenos que podem ser analisados à luz destas invenções, destacando-se as abordagens que voltam sua lente para os aspectos da territorialidade, da formação identitária, dos processos de retradicionalização e reinvenção espacial através das festas, da monumentalidade arquitetônica, da literatura, dentre outras manifestações culturais num sentido antropológico (POLLICE, 2010; SANTOS e KINN, 2009; BEZERRA, 2008; SERPA, 2007).
Motivado pela transformação do rural para o urbano e pelas respectivas mudanças na França, particularmente em Paris, a partir das ideias do Barão Haussmann52, Lefebvre (2009) destaca a distinção entre lugares da cidade transformados e aqueles símbolos de uma resistência urbanística (apoiada nos interesses de grupos que detém algum poder) que conciliam o monumental e a vida urbana. Entretanto, para sustentar esta relação torna-se cada vez mais freqüente o duplo papel: lugar de consumo e consumo de lugar. Rompe-se a apropriação dos
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Georges-Eugène Haussmann, conhecido como Barão Haussmann, foi responsável pelo remodelamento de Paris no século XIX, sob ordens de Napoleão III. Seu projeto simboliza a expulsão da classe operária para além do Boulevard Périphérique, tornando a cidade segura e eficaz aos olhos da classe dominante. Seu projeto urbanístico foi fortemente de cunho higienista, sob o argumento sanitário de reduzir a incidência de doenças que atingiam Paris naquele período, adotando, para isso, a abertura dos grandes boulevards, e a cidade recortada rua e avenidas que se entrecruzam, representativas do exercício de poder. São exceções o Marais e o Quartier Latin, símbolos da resistência ao projeto Haussmanniano.
146 lugares da cidade enquanto valor de uso e incorpora-se cada vez mais seu peso enquanto valor de troca.
Para Lefebvre (1969) esta é uma característica do assalto da cidade pela industrialização. A intersecção entre a determinação do capital na produção da cidade e as tradições inventadas pode ser vista no caráter ‘espontâneo’, ‘natural’ e ‘sem intenção’ destas ações, retirando da elite sua autoria. Contudo, destaca Lefebvre (1969, p. 18-19), são agentes ativos neste processo as
classes ou frações de classes dirigentes, que possuem o capital (os meios de produção) e que geram não apenas emprego econômico do capital e os investimentos produtivos, como também a sociedade inteira, com o emprego de uma parte das riquezas produzidas na ‘cultura’, na arte, no conhecimento, na ideologia.
Não se trata de negar em algum momento histórico a existência da diferença de classes. Sua presença se faz sentir em diversos momentos. É também nesta disfunção que a cidade se constitui, a partir da relação entre pessoas e grupos que a compõem, metamorfoseando-se por meio dos embates. Todavia, a cidade, a partir das intervenções, se situa entre o que Lefebvre (2009) classifica como ordem próxima (relações dos indivíduos em grupos mais ou menos amplos, mais ou menos organizados e estruturados, relações entre esses grupos) e a ordem
distante, a ordem da sociedade regida por instituições de poder, amparadas ou não num
aparato jurídico formalizado, por uma cultura e por conjuntos significantes. O caráter determinante se verifica no poder da ordem distante, “abstrata, formal, suprassensível, e transcendente na aparência”, inconcebível fora de um aparato ideológico. A cidade torna-se então a mediação entre as mediações; sustenta as relações de produção de propriedade; torna- se o local de sua reprodução (LEFEBVRE, 2009), na qual o conflito se torna marginal enquanto se intenta instaurar o consenso e o equilíbrio social (DELLE DONNE, 1990).
Delle Donne (1990, p. 156) destaca que a relação dissonante de poder entre classes na cidade é, de certa forma, regida por famílias dominantes que organizam uma rede social densa e manipuladora – dos papéis desempenhados no sistema produtivo à socialização das novas gerações, a partir do gerenciamento dos “meios de comunicação de massa e da instituição pública, e adotando uma política de marginalização relativamente as forças intelectuais”.
147 todavia, implicando sobremaneira a dinâmica da cidade. Na relação com o capital são projetadas ideias que indicam a investida em se criar na cidade o sentido unitário que Lefebvre resgata nos Estados-Nações. Pereira (2008), em estudo sobre a atuação empresarial frente à cidade, ressalta que a coexistência de empresas e/ou organizações com ‘investidas’ no controle social implica em disputas por controle social, materializados na definição de seus lugares de poder. Tem-se revogado o direito da cidade e dos citadinos sobre a definição de suas demandas, reconfiguradas a partir de arranjos sociais definidos pelas organizações, incoerente à própria concepção de cultura como dimensão superior da autonomia e da realização humana (MARCUSE, 2004). As marcas do projeto progressista do passado compõem o cenário atual da cidade, demarcando, pelo menos fisicamente, a presença simbólica do aparente legado industrial. Sobre as marcas do passado e suas heranças, Corrêa (1996) afirma que a paisagem cultural se prolonga no tempo, sendo reflexos das ações passadas e presentes, compostas de elementos simbólicos e funcionais.
A cidade como elaboração simbólica e lugar de sociabilidade é também retratada por Pereira (2008), de forma que sua história abra o leque das transformações sociais existentes. Mesmo sob a égide de uma cultura encomendada, a heterogenia, em alguma instância, se encontra instaurada no conjunto de normas, valores e símbolos da população, suscitando a necessidade de investigar as imbricações despojadas nesse caldeirão: de um lado a definição da ‘cidade de vocação cultural’, defronte, a cultura cotidiana citadina. Aquela, a cidade da cultura, que parece estar cada vez mais distante da cultura da cidade. Nesta seara que envolve a produção determinada da cultura e sua produção cotidiana concomitante ao uso, as mediações culturais que reduzem este hiato se apóiam em paliativos culturais, quiçá, como tentativa de re- construir a cultura dos citadinos. Tornam-se constantes, neste caso, as ações culturais e mediadoras das organizações que, para Adorno e Horkheimer (1985), mantinham uma atmosfera de camaradagem pela produção da cultura, apaziguadora das relações de trabalho, servindo para domar os instintos revolucionários.