O construcionismo pode ser compreendido como um movimento de contestação à ortodoxia da ciência, cuja emergência só foi possível num contexto de reflexividade científica a partir do que Spink (2010) denomina Modernidade Tardia, Ulrich Beck (1993) chama de Modernidade Reflexiva, enquanto outros nomeiam como pós-modernidade. Ela justifica sua nomeação para enfatizar o caráter processual desse momento no qual ainda não há uma ruptura tão nítida entre a modernidade clássica e as mudanças que estamos vivenciando. Esse processo é marcado por continuidades e rupturas como Lupicínio Iniguez-Ruerda (2012, p. 113) busca definir “[...] nem chega a ser um movimento, uma época, uma trajetória, um
sistema, ou um nada, mas uma emergência, uma segregação dos processos culturais, políticos, científicos, de cidadania, etc”.
Três características da Modernidade Reflexiva são apontadas por Spink (2010) como fundamentais para o argumento construcionista: globalização, individualização e reflexividade. Dentre eles, ela destacou a reflexividade como sendo a principal ponte para compreender o construcionismo.
A reflexividade tem dupla face: de um lado é uma atitude intrínseca à própria ciência que começa a olhar para si mesma e a quebrar certas hegemonias. Abre-se, por exemplo, o debate metodológico. É imperativo haver método único para todas as ciências? [...]” (SPINK, 2010, p. 7).
Esses e outros questionamentos vêm problematizar o que Ibáñez (1991) denominou de ‘retórica da verdade’. No que concerne a produção de conhecimento algumas das principais características discursivas da pós-modernidade estão relacionadas à crítica à racionalidade e à emergência do relativismo epistemológico. A razão não é mais vista como emancipadora e sim como totalizante, pois na medida em que legitima “a Verdade”, a objetividade e o conhecimento fundamentado, esconde e exclui interesses de outros grupos e coletividades. O relativismo epistemológico defende que não há realidade que seja independente da maneira pela qual nos referimos a ela. Esse posicionamento é resultado de uma série de contribuições teóricas, tais como a de Karl Popper com a crítica ao “verificacionismo” que se opõe à ideia de que algumas experiências, provas, experimentos são suficientes para apontar a resposta sobre a totalidade de determinado fato e a de Thomas Kunh (1970) que enfatiza o papel dos fatores sociais na produção do conhecimento (sociologia do conhecimento) (INIGUEZ- RUERDA, 2012).
A segunda face da reflexividade é externa, emerge ‘de fora’ da ciência, a partir da crítica aos produtos da ciência e desempenha um papel importante na emergência da preocupação com as questões éticas da pesquisa. “Por muito tempo tivemos uma ciência desenvolvida como prática ensimesmada, uma prática que não abria as portas do laboratório à inspeção pública. Bastava entregar ao público o resultado final da pesquisa: um novo medicamento, uma nova vacina, uma nova tecnologia” (SPINK, 2010, p. 8). Agora, tudo pode ser inspecionado e questionado, principalmente devido ao avanço da tecnologia da informação e aos órgãos de regulação. Assim, o processo metodológico na produção do conhecimento precisa ser explicitado, não apenas por uma noção de rigor, mas principalmente por questões éticas.
O construcionismo na psicologia surge como crítica a alguns aspectos que Tomás Ibáñez (2001) chama de ingenuidades perigosas, ingenuidades por serem adaptações dos preceitos e métodos das ciências naturais ao próprio objeto de estudo da psicologia e de perigosas pelo seu efeito de torná-la um dispositivo autoritário. As duas ingenuidades que ele aponta como crítica à Psicologia Tradicional são: a crença da existência de uma realidade independente do nosso modo de acessá-la (dimensão ontológica/epistemológica) e a defesa de que existe um modo de acesso privilegiado capaz de conduzirmos, graças a objetividade, à realidade tal como é (dimensão metodológica).
Olharemos brevemente para o percurso histórico da Psicologia Social a fim de situar a produção de sentidos. O sonho da Psicologia Científica, compreendida como método que possibilitasse a demonstração e generalização de resultados, predominava no desenvolvimento dessa área de conhecimento, constituindo uma Psicologia Social experimental e individualista. Especialmente a partir de meados dos anos 70 uma reação a esse paradigma dominante começou a desenhar-se através de duas principais correntes: a valorização da observação dos comportamentos em seu ambiente natural (LORENZ; TINBERGEN, 1966 e BOLWBY, 1988) e o estudo do comportamento em seu ambiente natural (GOFFMAN, 1959,1963 e MOSCOVICI, 1961).
Esse período se caracterizou por uma virada metodológica contra a psicologia de laboratório que teve implicações sobre a definição do objeto da Psicologia Social. Surgiram importantes reflexões críticas enfocando: a naturalização dos fenômenos psicológicos, que nos leva a desconsiderar que as teorias e conceitos são frutos de processos socioculturais que os constituem e legitimam; e a despolitização da disciplina, que faz negligenciar o poder legitimador de um campo de saber (ISRAEL; TAJFEL, 1972; ARMISTEAD, 1974; HEATHER, 1976 e BARÓ, 1989).
A proposta do estudo da Produção de Sentidos por meio das Práticas Discursivas se apoia na perspectiva da Psicologia Social Crítica que emerge como fruto dessas reflexões, virada metodológica e redefinição do objeto de estudo da Psicologia Social e também da influência do construcionismo social.
Um dos precursores dessa discussão sobre o construcionismo é Kenneth Gergen, que em 1985 publicou o artigo intitulado “O Movimento Construcionista Social na Psicologia Moderna” que se tornou clássico como texto introdutório à postura construcionista na Psicologia. Nesse texto, afirma que “a investigação construcionista preocupa-se com a explicitação dos processos por meio dos quais as pessoas descrevem e explicam o mundo em que vivem” (GERGEN, 1985 apud SPINK, 2010, p. 9). Esse autor usa o termo galáxia
construcionista para definir o fenômeno do Construcionismo como algo amplo, generalizado, heterogêneo ao redor de um conjunto de preocupações e formulações comuns que se situa em uma posição de ruptura com boa parte dos pressupostos que configuram o que chamamos de “ciência normal” (GERGEN, 1985 apud RIBEIRO, 2011). Discutiremos abaixo as principais características do construcionismo.
A postura epistemológica adotada pelo construcionismo opõe-se às escolas empiristas e racionalistas, que compreendem o conhecimento como algo pré-existente, pronto para ser descoberto, e como algo produzido dentro da mente das pessoas. Na perspectiva construcionista o conhecimento é:
[...] algo que as pessoas fazem juntas. Consequentemente, resulta numa socialização do conhecimento que passa a ser algo que construímos juntos por meio de nossas práticas sociais e não algo que apreendo do mundo. Talvez seja por isso que essa vertente do conhecimento suscita tanto interesse na Psicologia Social, pois se trata fundamentalmente de uma teoria social do conhecimento (SPINK, 2010, p. 9).
O conhecimento é resultado de uma construção coletiva, nossas explicações de como são as coisas não se encontram nas mentes individuais ou nas estruturas sociais, mas sim nos processos interativos dos quais participamos cotidianamente.
Ibáñez afirma que na inversão construcionista tanto o objeto como o sujeito são tomados como construções sociais. Sendo o conhecimento uma construção social, é o conhecimento socialmente produzido que constrói ambos, o sujeito e o objeto (SPINK, 2010, p.10).
A concepção ontológica do construcionismo parte da relação indissociável entre sujeito- objeto. “[...]. Um objeto só passa a ser realidade para nós quando passamos a nos relacionar com ele, ou seja, “não há nenhuma realidade independente do acesso que temos a ela” (INIGUEZ-RUERDA, 2012, p. 120) e isso sempre é permeado pela linguagem, nas convenções sociais que definem aquele objeto.
[...] o Construcionismo traz para a pesquisa uma postura desreificante, desnaturalizante, desessencializadora que radicaliza ao máximo a natureza social do nosso mundo vivido e a historicidade de nossas práticas. Em suma, Ibáñez propõe que o que tomamos como objetos naturais são objetivações decorrentes de nossas construções, de nossas práticas. [...] (SPINK, 2010, p. 10).
O construcionismo social é antiessencialista, ou seja, defende que nem o mundo, nem as pessoas têm uma natureza determinada a priori. Nesse caso, a concepção de indivíduo e de consciência individual e mesmo de subjetividade é problematizada.