Fonte: Recortes dos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Edições veiculadas no período de 29/8 a 11/9/2012. Elaboração: Josiane Moraes (2012)
Agnes Heller48 trabalha o cotidiano da vida social, mas nos permite pensar e explorar o cotidiano de trabalho do assistente social. ―O espaço privilegiado da intervenção profissional é o cotidiano, o ‗mundo da vida‘, o ‗todo dia‘ do trabalho, que se revela como o ambiente no qual emergem exigências imediatas e são desenvolvidos esforços para satisfazê-las‖. (BAPTISTA, 1995, p. 111).
De acordo com Heller (2008, p. 17) a vida cotidiana,
É a vida de todo homem [...]. A vida cotidiana é a vida do homem inteiro; ou seja, o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade. Nela, colocam-se “em funcionamento” todos os seus sentidos, todas as suas capacidades intelectuais, suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, paixões, ideias, ideologias. O
48Agnes Heller nasceu em Budapeste, em 1929. Estudou Filosofia na Universidade Eötvös
Loránd. Foi aluna de György Lukács, de quem se tornou assistente, seguidora e colaboradora intelectual. Foi pesquisadora do Instituto Sociológico de Budapeste e deixou a Hungria, por motivos políticos, em 1978. Lecionou na Austrália e atualmente integra o corpo de professores e pesquisadores da New School for Social Research, em Nova York. Um dos principais problemas abordados por Agnes Heller em sua atividade intelectual é aquele das relações entre a ética e a vida social. (PATTO, 1993, p. 121) (HELLER, 1972, p. IX). Os escritos de Heller utilizados neste trabalho correspondem à sua produção de base teórico-marxista, a qual se estendeu de 1956 a 1978.
fato de que todas as suas capacidades se coloquem em funcionamento determina também, naturalmente, que nenhuma delas possa realizar-se, nem de longe, em toda sua intensidade. [...] (destaques nossos).
As falas dos sujeitos da pesquisa trouxeram densamente os fatos elementares da vida cotidiana, as forças, as tendências, as legalidades que explicitam a alienação e a reificação do trabalho. Trouxeram as demandas que aparecem despidas de mediações, mas aparecem pedindo mediações imediatas que se constroem na relação profissional, com os usuários e com a rede de serviços. Segundo Patrícia Shimabukuro (depoimento colhido em outubro de 2012), o cotidiano do assistente social:
[...] é muito corrido, temos muita gente para atender, naquela
dinâmica louca o assistente social precisa lançar no sistema porque,
se você não lançar, tem um prazo no mês para lançar, sabe essas coisas? E aí, muitas vezes, a pessoa não tem tempo de parar e
refletir (destaques nossos).
Patrícia Shimabukuro (depoimento colhido em outubro de 2012) diz ainda:
Às vezes, conseguimos preparar, às vezes não, essa é outra angústia do cotidiano, não temos tempo, isso é fato. As
demandas que temos no Cras, pela quantidade de profissionais que tem, não permite fazermos um planejamento como deveria, quando conseguimos sentar e preparar, numa semana que foi menos corrida, ou que teve menos contratempo de atendimento de emergência, consegue-se ver a diferença do grupo [socioeducativo], o grupo se desenvolve de outra forma e na semana que não tem essa condição de preparar como deveria acaba, às vezes, em casa preparando. Porque eu me preocupo, sabe, o que eu vou fazer no grupo essa semana? Não dá para não preparar. Mas essa preparação é com menor qualidade, porque, às vezes, não se conseguiu tempo para discutir ali com a equipe (destaque nosso).
O cotidiano profissional, conforme expressa Patrícia nos depoimentos acima, não está desconectado das determinações fundamentais que permeiam a vida cotidiana, de acordo com Lukács (1978) e Heller (1972) tais determinações se referem à heterogeneidade49, à imediaticidade e à
49 Segundo Netto (2011, p. 67) a heterogeneidade – refere-se à ―intersecção das atividades
que compõem o conjunto das objetivações do ser social, o caráter heteróclito da vida cotidiana constitui um universo em que, simultaneamente, se movimentam fenômenos e processos de natureza compósita (linguagem, trabalho, interação, jogo, vida política e vida privada)‖.
superficialidade extensiva50. O assistente social, assim como toda a equipe profissional, possui diariamente nas instituições um exaustivo número de usuários para atender, em contrapartida, nem sempre há tempo51, condições físicas e humanas apropriadas para a reflexão, o planejamento e a execução das intervenções. É como se o trabalho tivesse que ser desenvolvido no formato do ―aqui e agora‖ sem o tempo devido para pensá-lo e projetá-lo. É a imediaticidade, um dos determinantes da vida cotidiana, presente no cotidiano profissional. De acordo com Netto (2011, p. 67), trata-se
[...] do agir imediato do homem, é o padrão do comportamento da cotidianidade, é a relação direta entre o pensamento e a ação. A partir da imediaticidade as ações espontâneas e automáticas são realizadas. O caráter imediato da vida cotidiana vincula-se às necessidades inelimináveis do dia a dia e à organização das relações de produção e reprodução do ser social.
De acordo com Lukács (2002, p. 21), a vida cotidiana é a forma imediata da generecidade humana e ―aparece como a base de todas as reações espontâneas dos homens em relação ao seu ambiente social, onde o homem parece atuar frequentemente de forma caótica‖. A intervenção imediata é requerida quase que constantemente, pelas instituições que contratam a força de trabalho do assistente social, e, portanto, uma possibilidade presente o tempo todo nas intervenções dos profissionais, porém, uma intervenção que oculta a real essência do fenômeno, ―[...] na vida cotidiana os fenômenos frequentemente ocultam a essência do seu próprio ser, ao invés de iluminá-la‖ (LUKÁCS, 1979, p. 25).
Terezinha Rodrigues (depoimento colhido em outubro de 2012) faz referência ao cotidiano profissional como um espaço altamente alienante, no
50 A superficialidade extensiva ―a vida cotidiana mobiliza em cada homem todas as atenções e
todas as forças, mas não toda a atenção e toda a força; a sua heterogeneidade e imediaticidade implicam que o indivíduo responda levando em conta o somatório dos fenômenos que comparecem em cada situação precisa, sem considerar as relações que os vinculam‖. (NETTO, 2011, p. 67)
51 Assim como são necessários os meios de trabalho, os objetos de trabalho e a força de
trabalho, para o processo de trabalho subentende-se que tenha disposição também de um espaço de tempo que permita materializar o trabalho humano. Tempo de trabalho significa a fração de tempo que é despendida pelos trabalhadores no processo produtivo.A quantidade de trabalho, que determina o valor de uma mercadoria, é medida pelo tempo de duração desse trabalho, ―[...] e o tempo de trabalho possui, por sua vez, sua unidade de medida nas determinadas frações de tempo, como hora, dia, etc.‖ (MARX, 1983, p. 47). Para melhor compreender o ―valor trabalho‖, ―tempo de trabalho e tempo de trabalho socialmente necessário‖ ver: KARL, Marx. A mercadoria. In: O capital: critica da economia politica. Trad. Reginaldo Sant'Anna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. p. 57-105.
qual prevalecem as atividades técnico-burocráticas, em que a preocupação com a ação profissional prevalece sobre cobranças quantitativas em vez de qualitativas.
É o campo da alienação aí desse cotidiano e isso está muito presente também, sem discussões de culpabilizações, não é por aí, mas uma condição dada, muito presente desse cotidiano das instituições altamente alienante, onde a cobrança é sobre os números, quantos foram atendidos, de que forma foi atendido, o mais rápido possível, é para atender o mais depressa possível, para limpar o espaço rapidamente.
Diante da dinâmica do cotidiano institucional o profissional, é forçado predominantemente a responder rapidamente aos desafios que lhe são colocados, nesse sentido, Eliane Nicoletti (depoimento colhido em outubro de 2012) pontua que o profissional não está isento de realizar intervenções imediatistas.
[...] eu não estou isenta de reproduzir isso [imediatismos] de vez em quando, eu tenho certeza de que muitas vezes eu fiz isso também, mas eu não faço como um padrão, eu sei o que eu estou fazendo, muitas vezes até, pelo próprio movimento do cotidiano de dar respostas imediatas, porque, às vezes, você não aguenta, precisamos disso, mas de um modo geral isso não me absorve enquanto uma forma de prática de trabalho [...]. (destaque nosso).
Aurea Fuziwara (depoimento colhido em setembro de 2012) traz outras situações em que as respostas profissionais recorrem, inevitavelmente, ao imediatismo.
[...] assim como situações de emergência, há situações, por exemplo, as de calamidade pública, em que o assistente social é chamado para situações imediatas, assistencialistas sim, isso é coisa básica do ser humano, é abrigo, que está no relento.
Mesmo reconhecendo que o cotidiano coloca para aos profissionais desafios que, frequentemente, os forçam às respostas imediatas, ante as determinações conjunturais, estruturais da sociedade, que impõe comportamentos de manipulação daquilo que é aparente, restringindo a possibilidade de uma reflexão mais aprofundada, Baptista (1995, p. 114) sinaliza que:
[...] temos que considerar que essa resposta, mesmo a mais imediata e cotidiana, contém em si uma referência à consciência: é sempre um ato no qual a intencionalidade precede (como uma síntese e como
um ponto de partida), objetiva e cronologicamente a intervenção, muito embora isto nem sempre fique claro para quem o pratique.
Ainda segundo Baptista (p. 113) o profissional ―se coloca por inteiro, põe em funcionamento todos os seus sentidos, suas habilidades, seus conhecimentos, suas ideologias‖, mas, conforme nos traz Heller (1972, p. 27), para ultrapassar a cotidianidade e se elevar ao humano-genérico (homogeneização52), é necessário se colocar inteiramente na intervenção que se realiza. Não é algo fácil de realizar, visto as contradições da sociedade capitalista e das exigências tão efêmeras do mundo moderno, já nos alerta Heller (1972, p. 32) ―as ideias necessárias à cotidianidade jamais se elevam ao plano da teoria, do mesmo modo como a atividade cotidiana não é práxis‖.
O trabalho53 – ponto de partida da humanização do homem54, mas também de sua alienação – se objetiva em um processo de autoconstrução do ser social através do qual os seres sociais desenvolvem mediações/capacidades essenciais, as quais os diferenciam dos seres da natureza e desenvolvem suas capacidades humano-genéricas, trata-se,
52 Homogeneização significa, por um lado, que concentramos toda nossa atenção sobre uma
única questão e ―suspenderemos‖ qualquer outra atividade durante a execução da anterior tarefa e, por outro lado, que empregamos nossa inteira individualidade humana na resolução dessa tarefa. Transformemo-nos assim em ―homem inteiramente‖ (Menschenganz). E significa que esse processo não se pode realizar arbitrariamente, mas tão somente de modo tal que nossa particularidade individual se dissipe na atividade humano-genérica que escolhemos consciente e autonomamente, isto é, enquanto indivíduos. (HELLER, 1972, p. 27).
53 Trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser
humano com sua própria ação impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e submete ao seu domínio o jogo das forças naturais. (MARX, 1983, p. 149, destaque nosso).
54O ser social
— em seu conjunto e em cada um dos seus processos singulares — pressupõe o ser da natureza inorgânica e orgânica. Não se pode considerar o ser social como independente do ser da natureza, como antíteses que se excluem, o que é feito por grande parte da filosofia burguesa quando se refere aos chamados "domínios do espírito". Mas, de modo igualmente nítido, a ontologia marxiana do ser social exclui a transposição simplista, materialista vulgar, das leis naturais para a sociedade, como era moda, por exemplo, na época do "darwinismo social". As formas de objetividade do ser social se desenvolvem à medida que surge e se explicita a práxis social, a partir do ser natural, tornando-se cada vez mais claramente sociais. Esse desenvolvimento, porém, é um processo dialético, que começa com um salto, com o pôr teleológico do trabalho, não podendo ter nenhuma analogia na natureza. O fato de que esse processo, na realidade, seja bastante longo, com inúmeras formas intermediárias, não anula a existência do salto ontológico. Com o ato da posição teleológica do trabalho, temos em-si o ser social. (LUKÁCS, 1979, p. 17).
portanto, da sociabilidade55, da consciência (é o agir teleológico necessário às objetivações humana), da universalidade (o ser social tende a se universalizar; todo indivíduo singular tem a dimensão de pertencer à espécie humana) e da liberdade (não é um valor abstrato, antes de ser valor, a liberdade é condição objetiva posta primariamente pelo trabalho, diz respeito às alternativas concretas de escolhas concretas realizadas pelo homem), tais mediações estão postas na relação homem/natureza, na relação de criação e recriação de novas formas de satisfação de suas necessidades. ―Sem as quais a práxis não se realiza com suas potencialidades emancipatórias‖ (BARROCO, 2005, p. 28). ―As formas de objetividade do ser social se desenvolvem, à medida que surge e se explicita a práxis social, a partir do ser natural, tornando-se cada vez mais claramente sociais.‖ (LUKÁCS, 1979, p. 17).
Marx afirmou nas teses sobre Feuerbach (1978, p. 52) que ―toda vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que conduzem ao misticismo encontram sua solução racional na práxis humana e na compreensão dessa práxis‖. Desse modo ―a atividade prática do individuo só se eleva ao nível da práxis quando é atividade humano-genérica consciente‖. Barroco (2009, p. 169) com base em Lukács afirma que:
O agir consciente supõe a capacidade de transformar respostas em novas perguntas e as necessidades em novas formas de satisfação. Só o homem é capaz de agir teleologicamente, projetando a sua ação com base em escolhas de valor, de modo que o produto de sua ação possa materializar sua autoconsciência como sujeito da práxis. Ao desenvolver sua consciência, o homem evidencia o caráter decisório de sua natureza racional. Como diz Lukács (1978, p. 6), todas as atividades sociais e individuais exigem escolhas e decisões: ―todo individuo singular, sempre faz algo, deve decidir se o faz ou não. Todo ato social, portanto, surge de uma decisão entre alternativas acerca de posições teleológicas futuras‖ (destaques nossos).
É a capacidade e possibilidade do homem viver inteiramente colocando em movimento, livremente, suas forças, suas habilidades e sua criação. A busca pelo humano-genérico exige iniciativas e procedimentos que tendam, na
55A sociabilidade é imanente à totalidade das suas objetivações: para transformar a natureza
reproduzindo a sua existência através do trabalho, é necessário agir em cooperação, estabelecendo formas de comunicação, como a linguagem, os modos de intercâmbio e de reciprocidade social, que tornam possível o reconhecimento dos homens entre si, como seres de uma mesma espécie, que partilham uma atividade e dependem uns dos outros para realizar determinadas finalidades. (BARROCO, 2009, p. 169).
atual sociabilidade, para além da sociabilidade burguesa (HELLER, 1972, p. 32), num movimento de desconstrução das formas de alienação e construção de novas relações sociais.
O trabalho como práxis56 - pressupõe a atividade teleológica, que jamais é orientada para o ―eu‖, mas para o ―nós57‖. O agir consciente do trabalho é a capacidade que o profissional tem de projetar a sua intervenção antes de realizá-la. De acordo com Konder (1992, p. 115-116):
A práxis é a atividade concreta pela qual os sujeitos humanos se afirmam no mundo, modificando a realidade objetiva, e para poderem alterá-la, transformando-se a si mesmos. É ação que, para se aprofundar de maneira mais consequente, precisa da reflexão, do autoquestionamento, da teoria, e é a teoria que remete a ação, que enfrenta o desafio de verificar seus acertos e desacertos, cotejando- os com a prática.
Esclarece Lukács (1979, p. 52) que:
[...] toda práxis, mesmo a mais imediata e a mais cotidiana, contém em si essa referência ao ato de julgar, à consciência, etc., visto que é sempre um ato teleológico, no qual a posição da finalidade precede, objetiva e cronologicamente, a realização. Isso não quer dizer, porém, que seja sempre possível saber quais serão as consequências sociais de cada ação singular [...].
Há duas formas fundantes de práxis, a material/econômica – implica a produção material, esse produto material implica também a produção de subjetividades, mas o produto final é concreto (exemplo: produziu-se um armário, uma casa, uma mesa, entre outros objetos concretos). Quer dizer que a práxis material/econômica visa a uma relação entre o homem e a natureza, cujo resultado será o produto concreto. A outra forma de práxis é aquela cujo produto não é um produto material, mas visa interferir na realidade para influir no comportamento dos homens entre si. Nessa práxis, a relação é entre sujeito e sujeito e o produto, é a produção de valores, de ideias, de comportamentos, é esta a intenção, a finalidade desse tipo de práxis.
56 Destaca-se que toda práxis é atividade, mas nem toda atividade é práxis. O que as distingue
é o fato de a práxis ser uma atividade específica: uma atividade teórico-prática, nem somente teórica, nem somente prática. Isso significa que a práxis possui um lado ideal-teórico e um lado material, propriamente prático, que só se separam por um processo de abstração, conforme aponta o método de Marx. (VASQUEZ, 2011).
Certamente, não se trata de um produto puramente subjetivo, mas a partir da mobilização de ideias podem-se produzir ações concretas58. A ética, a moral, está localizada aí, conforme trabalharemos no terceiro capítulo. Netto e Braz (2006, p. 43-44) distinguem essas duas formas de práxis como a
[...] práxis voltada para o controle e a exploração da natureza e formas voltadas para influir no comportamento e na ação dos homens. No primeiro caso, que é o do trabalho, o homem é o sujeito e a natureza é o objeto; no segundo caso, trata-se de relações de sujeito a sujeito, daquelas formas de práxis que o homem atua sobre si mesmo (como na práxis educativa e na práxis política); Os produtos e obras resultantes da práxis podem objetivar-se materialmente e/ou idealmente: no caso do trabalho, sua objetivação é necessariamente algo material; mas há objetivações (por exemplo, os valores éticos) que se realizam sem operar transformações numa estrutura material qualquer.
É oportuno trazer depoimento da Patrícia Shimabukuro (colhido em outubro de 2012) que retrata esse segundo modo de práxis. São resultados concretos na vida de uma mulher, usuária do Cras, a qual participava dos encontros do grupo socioeducativo organizado e ministrado por Patrícia e pela estagiária de Serviço Social.
[...] ela disse que vivia numa relação com o marido e que ela não achava justo com ela, porque ele vinha quando queria ter relação sexual. A fala dela dizia assim: “Eu me sujeitava a isso mesmo porque eu achava que não tinha direito de querer outra coisa”. Porque, querendo ou não, tem uma dependência da pensão, uma relação que se torna autoritária, da relação do homem com a mulher [...]. Ela me falou assim: “Ah, eu me sujeitava” e nos atendimentos individuais em que colocou que estava gostando de participar [do grupo socioeducativo], que a participação na atividade estava sendo bom para ela e deu esse exemplo. Ela disse ainda: “Aí, eu percebi que eu podia me valorizar, que eu podia me posicionar de outra forma e aí eu falei que relação assim eu não queria mais. Que eu podia me valorizar como mulher e que eu não precisava me sujeitar àquilo com ele”. [...] Aquilo para mim é um resultado de que a gente cumpriu o nosso papel de trabalhar essa questão da valorização [da mulher, do seu corpo] e trabalhar também a questão da autoestima [...]. Trabalhar como um direito, como cidadã, que ela deve ser respeitada pelo que é, como ser humano, independentemente das condições de vida dela [...].
Portanto, a práxis não se esgota no trabalho, embora seja a sua forma primária,
Não tem como objeto somente a matéria; também supõe formas de interação cultural entre os homens. Para transformar a realidade produzindo um mundo histórico-social, os homens interagem entre si e tendem a influir uns sobre os outros, buscando produzir finalidades coletivas. A práxis interativa, por exemplo, emerge como necessidade posta pelo desenvolvimento da sociabilidade; sua especificidade está no fato de objetivar uma transformação da realidade em sua dimensão consciente, valorativa, cognoscitiva, teleológica. Nesse sentido, a vida social se constitui a partir de várias formas de práxis, cuja base ontológica primária é dada pela práxis produtiva objetivada pelo trabalho. (BARROCO, 2005, p. 30, destaques nossos).
O Serviço Social interfere profundamente na vida cotidiana do usuário, pois a profissão está presente nas várias expressões das esferas da vida: saúde, educação, lazer, habitação, família, previdência, assistência social, entre outras.
[...] o exercício profissional sob a órbita do Estado, das empresas capitalistas e de entidades privadas não lucrativas tem efeitos e significados distintos no processo de reprodução das relações sociais, porque o trabalho se realiza na relação com sujeitos sociais específicos. (IAMAMOTO, 2010, p. 425).
Na prática profissional, ―as mediações entre a elaboração teórica, a