Pilotundersøkelse i Oslo høsten 2019
Del 1. Planlegging, gjennomføring og observasjon
Como poderiam ser diferentes as propriedades da matéria portadoras do futuro? Não há verdadeiro realismo sem a verdadeira dimensão dessa abertura.
Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2005, p. 234)
As referências iniciais do materialismo, em Bloch (2008), estavam no diálogo com Aristóteles e a esquerda aristotélica (Aristotelische Linke). Essa é essencialmente a abordagem adotada em Avicenne et la gauche Aristotélicienne, obra em que Bloch discute a originalidade do materialismo que viria a nascer na Idade Média, a partir do pensamento de Aristóteles e converge para aquela que foi ―a convicção fundamental‖ do Iluminismo: se cultivar a razão, o homem não precisaria de qualquer outra fé (BLOCH, 2008, p. 20).
A denominação de esquerda aristotélica nasce do fato de Avicena trazer o pensamento materialista de Aristóteles para a Terra, contrariando a visão oficial da Igreja. A visão terrena do ser-em-potência aristotélico, como forma (―causa final, forma final‖) é que, embora parece ser uma expressão não contemporânea do medievo, fez, segundo Bloch (2008, p. 25), surgir a ideia de esquerda. Concerne a ―influência da esquerda aristotélica sobre a anti-Igreja‖ no que concerne à doutrina da criação, à teoria religiosa e ao espírito ativo do homem, que se projetaria para os séculos XVII e XVIII (BLOCH, 2008, p. 43-53).
Foi Aristóteles quem definiu a ―matéria mecânica‖, inerte, resistente à transformação, mas também foi quem elaborou o conceito de possibilidade-real-objetiva, que faz da possibilidade de mudança uma ―tendência no seu percurso‖ (BLOCH, 2005, p. 204). Em outros termos, Aristóteles considerou a matéria como ser-em-possiblidade (dynámei ôn), o ser fecundo, origem das transformações do mundo. Mas Aristóteles definiu essa categoria
principal da sua filosofia como elemento passivo, vindo da sua forma não do interior da matéria.
A mudança aconteceu com Avicenna32 que, na Idade Média, opunha-se ao aristotelismo conservador de Tomás de Aquino. Considerando a matéria como universal e dinâmica, vendo a matéria em possibilidade como a vontade criadora, Bloch (2005) entendeu que o movimento era interior à matéria e não apenas fruto das circunstâncias. Avicenna e a esquerda aristotélica defendiam que a sociedade, os comerciantes que percorriam o mundo e a liberdade de pensamento eram os termômetros para verificar a extensão do confronto entre o bem e o mal, o confronto entre o povo, os religiosos e a aristocracia islâmica (BLOCH, 2008, p. 11-13). Com isso, recusavam o pensamento estático, recusa essa que só ganharia grande dimensão muito depois, com a dialética real de Hegel, e pregavam o conceito categorial ―possibilidade‖ ―quase inteiramente em terra virgem‖ (BLOCH, 2005, p. 239).
Fugindo à concepção de que o homem existia para servir a Deus, Avicenna desenvolveu ―materialismo original e vivo ao extremo‖, à margem do cristianismo, que serviria de fonte ao Iluminismo (BLOCH, 2008, p. 9). Com Aristóteles, que cita quase tão frequentemente quanto Goethe e Marx em O Princípio Esperança, Bloch encontra, igualmente, Averróes e Avicèbron, renovadores do pensamento aristotélico. Um, Averróes, por considerar que o homem não precisava de deus algum; o outro, Avicèbron, por divisar, na matéria, categoria universal.
Entendia Avicenna que ―a mais alta encarnação do espìrito humano‖ não era o profeta Maomé, mas Aristóteles, sendo que a iluminação do profeta não significa a iluminação original ou razão e se confundia com as formas iniciais de educação dos mitos e parábolas (BLOCH, 2008, p. 14). Bloch, além de Avicenna, absorve Aristóteles também na ideia da possibilidade, ―não como abstração vazia da reflexão-em-si, e igualmente como um movimento-em-si da realidade‖, uma realidade real, totalmente envolvida pela ―realidade já constituìda‖ (BLOCH, 2005, p. 242).
Avicenna desejava intervir na gênese do futuro. Na visão de Bloch, Aristóteles, contudo, já considerava que a luz, como a matéria, ―muda de cores efetivamente‖ e via também a matéria em possibilidade que se conformaria de acordo com as condições do
32 Avicenna é o nome em latim de Abu Ali al-Husayn ibn Abd Allah Ibn Sina. Rica, a família iniciou-o nos estudos de aritmética, geometria, lógica e astronomia. Nascido em 980, em Afshana, perto de Bukhara, frequentou a Universidade de Bagdá, onde estudou filosofia e medicina, começou a carreira, como médico, aos dezoito anos. Escreveu noventa textos, sendo o principal, Kitab al-Shifa, o livro da cura, tratado de lógica, psicologia, física, matemática e metafísica. Foi médico-filósofo, não monge; naturalista, não um teólogo e absorveu a liberdade de que desfrutava a sociedade árabe que, à época, corria a Europa para trocar mercadorias. Viveu até 1037. Lutou contra a ortodoxia do clero e frequentou a sociedade Irmãos da Pureza, erudita, fundada em 950, para repelir o misticismo, o ―ópio do povo‖ (BLOCH, 2008, p. 16).
percurso (BLOCH, 2008, p. 66). Não era passiva, mas o lugar de novas esperanças, pois era determinada não pela ―matéria bruta‖ (a potencialidade), mas pela ―forma‖, a realidade (a atualidade).
A transfusão feita pelo aristotelismo de esquerda foi a ativação dessa possibilidade, que, mais tarde, influenciaria Leibniz (a matéria ―dotada de forte vitalidade‖), Schelling (a matéria como natureza, ―força viva que se autoproduz‖) e Hegel (a natureza como o reino da matéria, como objetivação da ―ideia perfeita e completa em si mesmo‖) (PASTOR, 1986, p. 168). No processo da história, a matéria foi também colhida por Marx, Engels e Lenin, tendo o materialismo dialético como ponto mais elevado.
Assim, independente das nuanças que, teoricamente, possam separar Aristóteles da esquerda aristotélica, surgiu uma matéria muito diferente da mecanicista, a matéria do materialismo dialético, para a qual o ―frio‖ e o ―calor‖ são lados interligados da análise rìgida e do entusiasmo. É nesse campo que germinam simultaneamente teoria e prática. Contra a mera matéria, que tudo absorve, contra os sistemas fechados que oprimem o pensamento e a ação, a possibilidade de ter a luz original e, esse sujeito, na visão do aristotelismo de esquerda, encontrava-se no homem que toma o lugar de Deus e se transforma no criador.
Sob esse princípio, o aristotelismo de esquerda irá superar, no medievo, a escolástica de Tomás de Aquino e se opor à sociedade feudal de classes e sua teologia. Aquino buscou subordinar o homem às formas de um corpo e uma alma separadas do mundo, em função de um céu onde estariam livres e de unidade dogmática entre Aristóteles, a Bíblia e o dogma religioso (Agostinho não tinha lugar nessa conjugação).
Avicenna e os aristotelistas de esquerda pregavam o inverso, explicando o mundo pela vida terrena e o tempo, recusando a doutrina de Criação (BLOCH, 2008, p. 36-45). Argumentavam que se a matéria fosse mecânica, estática, como pretendia a escolástica, não haveria metamorfoses. Daí, Bloch (2008, p. 57), considerar as formas primeiras da matéria como ―formas essencialmente vivas‖. No fermentar da esquerda aristotélica, Bloch encontra a utopia da matéria: se nela existem possibilidades reais de mudança, a matéria deixa, também, de ser ―uma utopia abstrata‖ (BLOCH, 2008, p. 61). O trabalho do homem é feito dessa mesma argamassa: é forma na aparência, mas criação em sua realidade.
O realmente possível principia como germe em que foi disposto o vindouro. O que nele está pré-formado procura desdobrar-se, todavia não como se anteriormente não existisse, comprimido no espaço possível. O próprio ―germe‖ ainda se encontra diante de muitos saltos; no próprio desdobramento, a ―disposição‖ desdobra-se em pontos de partida sempre renovados e mais precisos de sua potentia-possibilitas. Logo o possível real no germe e na disposição nunca é algo pronto de modo estanque, que, como algo existente em forma diminuta, apenas tivesse de concluir o crescimento. Ao contrário, ele preserva sua abertura como desdobramento que realmente significa evolução, não como mero despejamento ou evacuação. A potentia-
possibilitas reiteradamente faz com que a raiz original e a origo, fenômeno em processo permanente, tornem-se originárias num novo nível, com conteúdo latente renovado (BLOCH, 2005, p. 235).
O ―ainda-não‖ é a medida blochiana da realidade e aponta para as possibilidades reais do futuro. A epistemologia blochiana permitiria abandonar a perspectiva burguesa de reduzir a superestrutura à infraestrutura para que se mantenham os privilégios de classe e superar a fratura expressas pela produção capitalista. Bloch (2006b) relativiza a ideia romântica de que a sociedade é determinada pelas ideias, destaca a autonomia da superestrutura que procura fazer prevalecer os interesses da classe dominante, volta-se para as interações mediadoras que promovem mudanças na superestrutura e possibilitam o surgimento de nova superestrutura, tal como aconteceu com o ocaso do feudalismo e com a Revolução Francesa.
É fácil ver que muita página ainda pode ser virada. Um ainda-não existe em toda a parte; tanta coisa ainda não está consciente para o homem, tanta coisa ainda não chegou à existência do mundo. Mas não haveria nenhum dos dois, se eles não pudessem mover-se e voltar-se para o caráter aberto (BLOCH, 2005, p. 238).
Desse modo, mais do que expressão de ideias, a filosofia entra frequentemente em conflito com os modos de produção e as relações de produção, desmascarando contradições reais e abrindo novas possibilidades para a existência. Como adverte Bloch (2006b, p. 102-3), neste caso, ―o sujeito é como revestido com os elementos do prado, da mata, de montanhas azuladas, das roças e dos povoados, da cidade rica em miniaturas, da correnteza e dos tesouros remotos que traz consigo‖. Seu olhar sobre as coisas mudam e o ―eu‖ recomeça de maneira renovada.
É no recomeço que Bloch deseja chegar com o conceito do ainda-não-consciente, o eixo do seu pensamento. O ainda-não (Nicht-Noch) é imanente ao mundo. O ―não‖ (Nicht) é o princípio do movimento em direção ao objeto, o fator de progresso mediante sua utilização dialética – a história em movimento. Segundo Bloch (2005, p. 283), é por causa do ―não‖ que se ―sente que se vive‖, o que corresponde ao conteúdo do recém-vivido, ainda não consciente,
ainda não percebido. Se o ―não‖ constitui a origem, o ―ainda-não‖ prenuncia um grande avanço, identifica o processo da história como opção do homem. Caracteriza a ―tendência no processo material‖, mas esse espaço aberto ainda não cobra do homem o seu ser verdadeiro, não se situa no ―ponto zero do inìcio do mundo‖ (BLOCH, 2005, p. 283).
O inìcio do mundo novo irá surgir na forma do ―ainda-não-consciente‖ que seria o último degrau do novo, não como o tudo (Alles), mas como totalidade (All). Não como ―tudo‖ porque a libertação do homem não se dá em oposição ao nada, nem acena com a concretização imediata dos sonhos acordados. Mas se reveste da superação das experiências, abolindo a dicotomia trabalho-mercadoria, libertando-a, pela sua vontade, da ―mera fixação onìrica romântica‖ (BLOCH, 2006a, p. 308-10). O tudo não é uma experimentação temporária, uma ruptura permanente. Então se teria uma nova ontologia do ser, se teria a similitude do ―homem que caiu em si com o seu mundo‖ e tornou-se exitoso com a utopia, deixando o seu espaço transitório e passando a ter estado duradouro (BLOCH, 2005, p. 307).
Nada pode ocorrer no plano abstrato, mas no plano real. Quando o homem olha ao redor, encontra sempre a possibilidade de transformar o conteúdo da sociedade, e esse limiar pode ser traduzido pelo que já foi realizado em toda parte, o que Bloch (2006a, p. 23) chama de esperança no despertar da ―consciência utópica afiada‖. Na órbita desse conceito, abre-se o solo fértil para a mediação das categorias, tais como: práxis utópica, sonho acordado, sonho dormindo, desejo, vontade utópica, felicidade, imanência, latência, mediação e processo. Ou, no dizer de Bloch (2005, p. 238-9), a ―categoria do possìvel‖, tão falada quanto indefinida pela filosofia, mas que, remontando ao aristotelismo de esquerda, não deixa de ser ―possìvel real‖, uma ―possibilidade em aberto‖.
Bloch (2005), em O Princípio Esperança, passa a conceber a práxis como a ação, com a finalidade da mudança da sociedade pela elevação da consciência revolucionária. Existe, segundo ele, uma tendência histórica de relegar a ―categoria do possìvel‖ a um plano secundário: ―O tempo todo parece que se quer evitar refletir sobre o viçoso, o vindouro. Até mesmo os sofistas, para quem tudo o que era firme tornou-se intelectualmente oscilante, não extraíram do possìvel, além do escárnio‖, de tal modo que poderia existir ―tanto o tudo‖ quanto o ―nada‖ (BLOCH, 2005, p. 240).
Mas a matéria é a própria possibilidade. Leibniz, segundo Belaval (2005, p. 281-5), considerava a matéria "incompatível" com a "inércia", mas entendia que na sua forma e substância necessitava de direção para que a alma e o corpo se unissem e se tornassem realidade inteligível. Como a Dinâmica não poderia ser separada da Metafísica, lembra Belaval (2005, p. 286-90), é preciso engendrar a ação, transformando-a em "impetuosidade ou
força viva" da criação. Não que a matéria necessitasse dessa união para existir, mas sem esta não teria a unidade da organização.
Para melhor se fazer entender, Belaval (2005, p. 314), cita um pensamento de Epicuro: "Os pés não são feitos para marchar, mas os homens marcham por que têm pés". Por analogia, Leibniz colhe na matéria a reserva de autodeterminação do homem que, pela ação, exprime sua forma imanente de transformar a vida e da possibilidade de criar uma única humanidade. Esse efeito não é alcançado porque o homem vive imerso na sensação de que o mundo é um caos, ignorando suas forças, mas que, na visão de Leibniz, segundo Belaval (1996, p. 332): o mundo é uma "grande ordem" cósmica, acondicionado em uma "pequena desordem".
Transposta para a vida, a ideia de Leibniz é que o homem pode "encontrar prazer" com a "felicidade do outro" e encontrar "virtudes da filosofia" no ―direito‖ e no ―dever moral‖ (BELAVAL, 2005, p. 336). Para Schelling (2012, p. 86-7), a matéria, ―força original‖ do ser e ―hostil a limitações‖, era dotada de ―movimento eterno‖. Corpo e matéria eram conceitos ―confusos‖, mas ―vivos‖ e ―independentes‖ que caracterizavam, no homem, a ―mais alta expressão vital (SCHELLING, 2012, p. 225).
Schelling, na análise de Markus Gabriel (2013, p. 36), que concebe o homem como Deus, pertencente ao interior e não ao exterior de Deus, mas na qualidade de criador voltado para o bem e não para o mal, "porque Deus é a vida e não somente um ser". A esperança da utopia blochiana segue por esta rota: a ideia do futuro como poder-ser (Sein-Können) e antecipação da eternidade.
Mas a visão da imobilidade da matéria teima em ser a regra. Pensadores como Aristóteles e os aristotelistas de esquerda, bem como Leibniz, ―o único grande pensador do possìvel desde Aristóteles‖, são exceções porque romperam com a concepção estática da matéria (BLOCH, 2005, p. 240). Mudaram essa concepção com a ideia do ser em movimento, com a interpretação do real como possibilidade de mudança, tal como faz Ovídio nas Metamorfoses (BLOCH, 2005, p. 240).33 Mas na filosofia não deixou de existir temor e cautela quanto às categorias possibilidade, realidade e necessidade do ideal histórico (BLOCH, 2005, p. 241).
33 Ovídio, 43. a. C-17 ou 18 d. C.
1.2 DIONISO-APOLO, INCÓGNITA AINDA INSOLÚVEL NA INCOMPLETUD E