O terceiro grupo de narrativas é formado por 58 narrativas (64,4% do corpus), com 9 estruturas diferentes (estruturas ‘d’ a ‘m’, Tabela 3.2). Dessas 9 estruturas, 3 não apresentam o estágio Coda (d, f, h); as demais, com todos os estágios, diferem quanto ao número de estágios de Avaliação: algumas apresentam um único estágio de Avaliação (d, e, f, g), outras apresentam dois estágios (h, i, m) e outras mais de dois estágios (j, l). As narrativas que não apresentam o estágio de Coda predominam na turma 8U, com 5 ocorrências. As que apresentam um único estágio de Avaliação predominam nas turmas da EU, com 11 ocorrências na 5U e 10 na 8U. As narrativas que apresentam dois estágios de Avaliação predominam nas turmas de 8ª série, com 9 ocorrências na 8U e 13 ocorrências na 8P. E, por último, as narrativas com mais de dois estágios de Avaliação apareceram somente na turma 8P, com duas ocorrências. Nesse grupo, as narrativas que menos apareceram foram as da turma 5P.
Por questões operacionais e pela semelhança entre os textos, vejamos exemplos apenas do subgrupo de narrativas que apresentaram mais de dois estágios de Avaliação, que foram as que chamaram mais a nossa atenção nesse terceiro grupo.
• Narrativas com mais de dois estágios de Avaliação
Nesse subgrupo aparecem narrativas da EP. São textos de alunos na faixa etária adequada para a série e que demonstraram conhecer a estrutura da narrativa, saber se posicionar no texto, além de bom nível de desenvolvimento textual. Vamos aos exemplos:
Exemplo 8 (8P7 – 15 anos) Exemplo 9 (8P15 – 15 anos)
A lenda do açaí
ORIENTAÇÃO
Há lenda aconteceu na tribo dos Caiapós, onde lá os índios estavam passando por um momento de grande miséria, começou a complica, porque a tribo estava aumentando cada vez mais,
AVALIAÇÃO para que tan-
to índio se não havia nem comida, COMPLICAÇÃO
então o caci
que Tupi resolveu impôr uma lei, toda índia que resolvesse engravidar e dar a luz a uma criança que nascesse morreria o tupi o mataria, mas sua filha Iaça estava gravida para que seu pai não matasse seu filho ela resolveu fugir para a mata, passado alguns dias duas índias, Jacira e Jandiram deram a luz a duas crianças, só que o cacique ha- via avisado que toda a criança que nascesse morreria, então elas levaram seus filhos ao cacique,
AVALIAÇÃO
apesar de Jacira e Jandira terem
implorado Cacique não teve piedade, matou
seus filhos, COMPLICAÇÃO
Enquanto isso lá na mata Iaçá
deu a luz ao seu filho, que se chamo Tubira- çá, passado alguns meses, Iaçá resolveu voltar
para, sua tribo porém voltou com medo mostrar
seu filho aos indios e ao seu pai ela come- çou a implorar pela vida dele,
AVALIAÇÃO só que seu
pai não teve piedade matou a criança RESOLUÇÃO
Iaça chorou a morte de seu filho por sete dias e sete noites, todos os dias ela ia ao tumulo do seu filho, porque houvia choro de uma criança porém quando ia ao
seu tumulo não via ninguém certo dia ela resolveu pedir ao seu deus Tupã para que devolvesse seu filho de volta tupã aten- deu ao seu pedido, um dia Iaçá viu uma luz brilhante dentro de uma oca lá estava seu filho, quando ela pegou seu filho no colo seus pés começaram a virar raizes e ela começou a se transforma numa palmera seu filho se transformou num belo fruto,
CODA
No dia seguinte todos viram
aquela bela árvore, bonita era um novo
A historia de iaça ou açaí
ORIENTAÇÃO
Na tribo dos caiapos estava havendo um aumento muito grande pessoas ou seja as indias estavam tendo muitos bebês e paravam de engravidar, e para complicar mais os indios estavam acontecen-
do falta de comida e de água, na tribo.
COMPLICAÇÃO
O caci-
que tupi vendo tudo aquilo acontecendo resolveu decretar uma ordem o velho falou que ia matar todas as crianças que nascessem aparti daquele momento,
AVALIAÇÃO
e nu é que o velho cumpriu o dito cujo matou dois filhos de duas indias.
COMPLICAÇÃO
A filha do cacique Iaça, para emrolar mais a parada teve um filho chamado tubiraça, sabendo
que o velho falou que ia matar todas as crianças nascessem fugiu para mata com o seu filho passou dois meses no mato.
AVALIAÇÃO
So que iaça resolveu
voltar que foi um erro muito grande, ta voltou, COMPLICAÇÃO
chegou com seu pai o cacique e emplorou para que o cacique não mata-se seu neto
AVALIAÇÃO
sim porque o filho de iaça era neto do cacique, mais o incrível que pareça o velho matou o seu proprio neto não teve conversar o velho nem quis saber passou o macha- do no moleque.
RESOLUÇÃO
Sua filha iaça chorou 7 dias e 7 noites sempre ao pé do tumulo de tubiraça seu filho mais muitas vezes ela escutava um chorou e quan-
do se aproximava do tumulo o choro parava. Iaça desespero emplorou para o deus tupã para que revive-se o seu filho rezou com todas as
forças
AVALIAÇÃO
e nu é que a danada conseguiu RESOLUÇÃO
o deus tupã atendeu ao seu pedido
reviveu o moleque tubiraça, a índia quando vinha voltando para sua tribo viu seu filho na porta da oca correu para abraçar seu filho
AVALIAÇÃO
essa história tinha tudo para acabar por aqui RESOLUÇÃO
mais quando abraçou filho, em suas pernas começou a se formar um pe de palmeira e
alimento o pagé da tribo disse que aquele fruto era Iaçá e seu filho, e deram o nome aquela planta de Açai que de tráz para frente significa Iaça.
seu filho os frutos,
CODA
quando os indios sairam
de suas ocas viram uma palmeira grande e boni- ta.
Em ambos os textos (exemplos 8 e 9), os alunos produziram mais de dois estágios de Avaliação. Em 8, logo após contextualizar a história, o participante introduz um questionamento: “para que tanto índio se não havia nem comida”; demonstrando sensibilidade diante do problema enfrentado pela tribo. Em 9, o participante avalia mais e, várias vezes, mostra seu ponto de vista no decorrer do texto, por meio de ponderações acerca dos acontecimentos, como em: “e nu é que o velho cumpriu o dito cujo matou dois filhos de duas indias.”, mostrando admiração frente a atitude do cacique; “So que iaça resolveu voltar que foi um erro muito grande, ta voltou,”, julgando imprudente a atitude de Iaçá; “sim porque o filho de iaça era neto do cacique, mais o incrível que pareça o velho matou o seu proprio neto não teve conversar o velho nem quis saber passou o macha-do no moleque.”, julgando o cacique como alguém imparcial; “e nu é que a danada conseguiu”, apreciando a conquista de Iaçá”; e em “essa história tinha tudo para acabar por aqui”, fazendo uma apreciação sobre toda a história.
Vê-se, pelos exemplos, que estrutura e conteúdo se desdobram nos textos de forma coerente, pois os eventos vão sendo dispostos em uma seqüência cronológica, típica de narrativas, pelo uso de nexos coesivos (então, enquanto isso, no dia seguinte, apesar de, só que) – exemplo 8; (na tribo, e nu é que, só que, sim porque, e nu é que, mais quando, quando) – exemplo 9.
Vale salientar, contudo, que há uma diferença marcante entre os dois textos acima: trata-se da questão da modalidade de linguagem empregada por um e por outro participante. No exemplo 8, podemos dizer que o participante fez uso de uma linguagem mais formal. Isso fica mais claro quando observamos o tipo de linguagem empregado pelo participante, no exemplo 9, tipicamente da modalidade oral, coloquial. Nota-se que há expressões que nos levam a ter indícios do contexto desse participante como: “o velho falou”; “o velho cumpriu o dito cujo”; “para emrolar mais a parada”; “mais o incrível que pareça o velho matou o seu proprio neto não teve conversar o velho nem quis
saber passou o machado no moleque.”; “e nu é que a danada conseguiu”, expressões típicas de contextos socialmente marginalizados.
Sintetizando, nos textos desse grupo observamos que não há diferenças pontuais quanto à estrutura, a não ser pela presença de mais ou menos estágios de Avaliação. Os resultados nos levam a crer que os alunos de 5ª série apresentaram pouca ou quase nenhuma avaliação em seus textos pela inexperiência em se posicionar, em expressar opiniões no texto, aspecto este que deve ser trabalhado pela escola, pois segundo os PCNs (2000:108-110), o aluno do Ensino Fundamental deve adquirir valores, normas e atitudes, desenvolvendo sua capacidade de ouvir e de manifestar sentimentos, experiências, idéias e opiniões.
Quanto ao conteúdo, os alunos de 8ª série demonstraram maior desenvolvimento textual que os de 5ª série, e os desta série demonstraram ter dificuldades em construir parágrafos, principalmente os da turma 5P. Em termos de escrita, os problemas se repetem em todas as turmas (falta de pontuação, inadequações ortográficas, de acentuação, segmentação de palavras), sendo que os aprendizes de 5ª série apresentaram esses problemas em maior escala.
A nosso ver, essas questões devem ser privilegiadas pela escola. Kato (2004:134) salienta que “um professor sensível ao tipo de dificuldades lexicais e estruturais que os alunos enfrentam (...) poderá provê-los de algumas atividades que lhes dêem maior traquejo e versatilidade lingüística”.
Em síntese, uma das hipóteses iniciais deste trabalho era de que os alunos da EP apresentariam textos mais simples, estrutural e léxico- gramaticalmente, e as turmas da EU, ao contrário, textos mais complexos. Contudo, pela análise até aqui empreendida parece que isso não se confirma neste trabalho. Então, como explicar que alunos de um contexto desfavorecido socialmente (periferia) tenham produzido textos mais complexos que seus colegas da área urbana? Será que o ensino da escola da periferia está à frente do ensino da escola urbana? Em termos de quê?
Vejamos na seção seguinte a análise da coesão conjuntiva no corpus, procurando observar se os resultados obtidos nesta seção se repetem entre séries e escolas, em relação ao aspecto que será tratado.