A nossa vida ainda se regra por certas dicotomias inultrapassáveis, invioláveis, dicotomias as quais as nossas instituições ainda não tiveram coragem de dissipar. Estas dicotomias são oposições que tomamos como dadas à partida: por exemplo, entre espaço público e espaço privado, entre espaço familiar e espaço social, entre espaço cultural e espaço útil, entre espaço de lazer e espaço de trabalho. Todas estas oposições se mantêm devido à presença oculta do sagrado.113
113 Michel Foucault (1967); “De Outros Espaços”, consultado em 19/02/2015, disponível em http://www.virose.pt/vector/periferia/foucault_pt.html.
3.1. Narrativa, Ritual, Satisfações de Substituição,
Heterotopia
Se no capítulo anterior se explorou a ligação entre performance e identidade, no sentido em que o espaço tem a propriedade de as enquadrar, vejamos agora essa questão de um modo mais completo, através das noções de narrativa, ritual e heterotopia. A análise que se fará a estas ideias pretende demonstrar o quão ampla e poderosa pode ser a acção (pós)arquitectónica, se as incorporar. No fundo, quer-se viabilizar a criação de “guiões” para espaços – e para as performances dos indivíduos neles.
Neste primeiro ponto deste capítulo será elencado um conjunto de conceitos fundamentais para o entendimento narrativo da
arquitectura. É importante tê-los em conta quando se passar para a fase de tornar a narrativa prática, no contexto do projecto arquitectónico, em
3.3.
HETEROTOPIA
A obra monumental de Bachelard e as descrições dos fenomenologistas demonstraram-nos que não habitamos um espaço homogéneo e vazio, mas, pelo contrário, um espaço que está totalmente carregado de qualidades, um espaço que, pode dizer-se, assombrado de fantasmas. 114
Em “De espaços-outros”115, Michel Foucault introduz o conceito de Heterotopia. Mas antes de o definir, faz referência ao facto de que todos os espaços nos quais vivemos estão “carregados de qualidades”, como se pudessem estar assombrados de “fantasmas”116. São espaços que possuem uma carga imaginária, que se sente e que se vive. E esta carga imaginária pode ser perspectivada como um dos elementos que compõe os discursos de cada espaço.
Há também, provavelmente em todas as culturas, em todas as civilizações, lugares reais, lugares efectivos, lugares que existem e que são formados na
114 Ibid.
115 “Des Espaces Autres” é frequentemente traduzido para português como “De Outros Espaços”. No entanto, utilizar-se-á aqui a tradução “De Espaços Outros”, pelo facto se considerar que as heterotopias não são apenas outros espaços – espaços sem ser os que estão em questão – mas sim espaços-outros – uma categoria particular de
espaço. Na minha opinião, juntar as palavras espaços e outros define melhor o que é a heterotopia.
116 Foucault referir-se-á certamente ao fantasmático. Em psicologia, o termo francês “fantasme” é utilizado para fazer referência a uma fixação mental ou a uma crença irracional; é uma entidade mental imaginada. Tanto fantasma como fantasia têm a sua origem etimológica no termo grego“Phantazein”, que significa tornar visível, e está
ligada ao termo “phos”, que significa luz.
O espaço fenomenológico, povoado de fantasmas.
própria fundação da sociedade, que são como contra-sítios, espécies de utopias realizadas nas quais todos os sítios reais, todos os outros sítios reais dessa dada cultura podem ser encontrados, e nas quais são, simultaneamente, representados, contestados e invertidos. Este tipo de lugares está fora de todos os lugares, ainda que sejam efectivamente localizáveis. Estes lugares, por serem absolutamente outros do que os sítios que eles reflectem e dos quais falam, chamar-lhes-ei, por oposição às utopias, heterotopias.117
Uma Heterotopia é um lugar que está incorporado numa rede de relações com outros lugares, mas que “suspende, neutraliza ou inverte” essas mesmas relações. São locais que apesar de estarem ligados com outros, os contradizem. Como o nome indica, são contra-espaços, ou espaços-outros. Foucault disse que as crianças as conheciam bem: são o fundo do jardim, o sótão ou a tenda de índio.118 São lugares reais fora de todos os lugares; são, paradoxalmente, como utopias com lugar e tempo definido. Existem em todas as sociedades do mundo, e “São contestações míticas e reais dos espaços onde vivemos” (negrito
meu)119. Fundamentalmente são locais onde a rede de discursos de todos os locais se distorce e transforma; locais solitários, que vivem pelas suas próprias leis, por assim dizer.
Façamos então uma lista onde se expliquem os seis princípios da heterotopia, tal como Foucault os define em “De Espaços Outros”120. 1- O primeiro princípio é que “provavelmente não há uma única cultura no mundo que não constitua heterotopias. É uma constante de todo o grupo humano”.
2- O segundo princípio é que, à medida que os séculos e a História se desenrolam, as heterotopias e as suas funções mudam.
3- O terceiro princípio postula que a heterotopia “é capaz de justapor num único lugar real, múltiplos espaços, múltiplas localizações que são, em si mesmos, incompatíveis”. O que estes espaços colocam em cena é uma configuração particular de relações de poder; são espaços com narrativas, discursos e performances próprios.
4- O quarto princípio diz que as heterotopias têm também um carácter heterocrónico, ou seja, têm os seus próprios tempos, ou tempos-outros. “A heterotopia começa a funcionar em pleno quando os Homens chegam a um tipo de ruptura absoluta com o seu tempo tradicional”. Por exemplo, o cemitério é a casa para a vida eterna; o museu e a biblioteca locais onde se condensam e acumulam diferentes tempos.
117 Ibid.
118 Michel Foucault; "Les hétérotopies" et "L'utopie du corps" duas conferências transmitidas pela estação cultural da
Radio France, a 7 e a 11 de Dezembro de 1966, como parte do programa “Culture Française” de Robert. Consultado a 19/02/2015; disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lxOruDUO4p8 (2:27)
119 ibid.
120 ibid. Espaço- outro
Os princípios da heterotopia
5- O quinto princípio afirma que as heterotopias “pressupõem um sistema de abertura e encerramento que as isola e as torna penetráveis ao mesmo tempo”. Isto verifica-se nas igrejas, com o rito da bênção com água benta que se localiza às suas entradas, ou nas discotecas onde se é submetido ao escrutínio e validação do RP ou do segurança que comummente está à porta.
6- “Sexto princípio. A última característica das heterotopias é que elas têm uma função em relação a todo o espaço restante. Esta função desdobra-se entre dois extremos. Ou o seu papel é criar um espaço de ilusão que expõe todo o espaço real, todos as localizações no interior das quais a vida humana está particionada (...) ou então, pelo contrário, o seu papel é criar um espaço que é outro, outro espaço real, tão perfeito, tão meticuloso e tão bem arranjado quanto o nosso é desarrumado, mal construído e misturado. Este último tipo seria a heterotopia não da ilusão mas da compensação(...).
São estes os seis princípios que definem a heterotopia, segundo Foucault. A heterotopologia121, ou por outras palavras, a ciência que estuda os espaços-outros é fundamental para o que se pretende fazer com a pós-arquitectura. As possibilidades criativas que são desencadeadas pela heterotopologia demonstram que é possível idealizar outras coisas, através do espaço.
121 Michel Foucault; "Les hétérotopies" et "L'utopie du corps" duas conferências transmitidas pela estação cultural da
Radio France, a 7 e a 11 de Dezembro de 1966, como parte do programa “Culture Française” de Robert. Consultado a 19/02/2015; disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lxOruDUO4p8 (4:22)
RITUAL
Por ritual entender-se-ão duas coisas numa: por um lado, uma actividade levada a cabo ritualmente é uma que é repetida invariavelmente por alguém – pode dizer-se que, para aqueles que o fazem, tomar o pequeno almoço todos os dias em casa é um comportamento que se torna um ritual pela sua quotidiana repetição; por outro lado, um ritual é uma actividade que carrega consigo uma carga cerimonial, solene, com um conjunto de normas de etiqueta definidas. Quer uma celebração religiosa quer um jantar de gala podem ser, assim, considerados rituais. 122 Mircea Eliade, historiador de religião, tem o seguinte a dizer acerca da dimensão ritual do acto de “entrar” num espaço:
Uma similar função ritual recai na soleira da habitação humana, e é por esta razão que a soleira é um objecto de grande importância. Numerosos ritos acompanham a passagem do limiar doméstico – uma vénia, uma prostração, um piedoso toque de mão, e por aí em diante. O limiar tem os seus guardiões – deuses e espíritos que proíbem a entrada tanto a inimigos humanos como a demónios e ao poder da pestilência. É no limiar [soleira] que se oferecem sacrifícios às divindades guardiãs. Também aqui certas culturas Paleo- Orientais (Babilónia, Egipto, Israel) situavam o lugar de julgamento. O limiar, a porta mostram a solução da continuidade do espaço imediata e concretamente; daí a sua grande importância religiosa, porque eles são símbolos e ao mesmo tempo veículos de passagem de um espaço para o outro. 123
Existe então uma carga imaginária e até mesmo espiritual associada, neste caso, ao ritual da entrada num espaço; e em diferentes culturas ao longo dos tempos é possível encontrar exemplos de rituais. Ou seja, a questão do ritual não é, historicamente, alheia à Arquitectura – e será
fundamental também na Pós-Arquitectura.
122 As práticas-de-si mencionadas no capítulo anterior são como que rituais que, no seu conjunto, contribuem para uma contínua auto-simbiose (no contexto do regime individualista dos espaços egosféricos). As egotecnologias prefiguram, assim, rituais.
123 Mircea Eliade, The Sacred and the Profane; the Nature of Religion. Nova Iorque: Harcourt, Brace, 1959. “A similar ritual function falls to the threshold of the human habitation, and it is for this reason that the threshold is an object of great importance. Numerous rites accompany passing the domestic threshold – a bow, a prostration, a pious touch of the hand, and so on. The threshold has its guardians – gods and spirits who forbid entrance both to human enemies and to demons and the power of pestilence. It is on the threshold that sacrifices to the guardian divinities are offered. Here too certain paleo-oriental cultures (Babylon, Egypt, Israel) situated the judgment place. The threshold, the door show the solution of continuity in space immediately and concretely; hence their great religious importance, for they are symbols and at the same time vehicles passage from one space to another.” Página 25