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4. Resultat

4.3. Resultat frå utvalde kommunar i Rogaland

4.4.3. Planforslaget

Tomo as palavras de Ramos (2011, p. 30-31) para esclarecer o uso da “memória”. O autor diferencia conhecimento histórico de memória, quando afirma que

O conhecimento histórico pressupõe um trabalho teoricamente orientado e constantemente submetido a critérios publicamente discutidos e constantemente passíveis de crítica e autocrítica. A memória é algo muito mais abrangente, vincula- se ao modo pelo qual as culturas fazem relações entre passado, presente e futuro. Enquanto a história criou o hábito de pensar sobre suas fontes e suas considerações, a memória encarrega-se de lembrar, com a crença de trazer ao presente o que se passou ou ainda se passa, a partir de certos valores que podem, ou não, reivindicar validade universal. A história, sobretudo nas últimas décadas, trata a memória como objeto de estudo, como fonte de reflexões sobre o modo pelo qual as sociedades lembram, como documento sobre o papel das recordações nas várias dimensões da vida cotidiana, como a religião, a política, a família, a festa etc. O contrário não se dá, ou seja, a memória não estuda a história.

Busco, pois, dialogar com vários autores que tratam do assunto, no sentido de entender aspectos da memória a partir de entrevistas dos sujeitos, que se vinculam a uma época e, neste estudo, estão relacionadas às experiências educativas no contexto da RFFSA, em Fortaleza-Ceará, no início da década de 1970.

Em Confissões, de Santo Agostinho (354-430), a memória é um tema presente, em especial no Livro X (8, 12-13), no qual aponta a interação da memória com os sentidos, referindo-se aos “vastos palácios da memória”, nos quais os sentidos são as “portas” através dos quais são captadas as imagens, as sensações e as percepções.

8. Chego aos campos e vastos palácios da memória onde estão tesouros de inumeráveis imagens trazidos por percepções de toda espécie. Aí está também escondido tudo o que pensamos, quer aumentando quer diminuindo ou até variando de qualquer modo os objetos que os sentidos atingiram. Enfim, jaz aí tudo o que se lhes entregou e depôs, se é que o esquecimento ainda não absorveu e sepultou. [...]

12.Quando lá entro mando comparecer diante de mim todas as imagens que quero. [...].

13. [...]. O grande receptáculo da memória – sinuosidades secretas e inefáveis, onde tudo entra pelas portas respectivas e se aloja sem confusão – recebe todas as impressões, para as recordar e revistar quando for necessário. Todavia, não são os próprios objetos que entram, mas as suas imagens: imagens das coisas sensíveis, sempre prestes a oferecer-se ao pensamento que as recorda. (SANTO AGOSTINHO, 1996, p. 266-267).

Paul Ricoeur (2007), na sua obra História, Memória e Esquecimento, trata da Memória Pessoal e Memória Coletiva, partindo dos escritos de Santo Agostinho, sendo a primeira direcionada para a tradição do olhar interior, ao passo que, no sentido contrário, apresenta-se a segunda voltada para o sentido do olhar exterior.

Cunha (2013, p. 187), em estudo acerca da mesma obra de Paul Ricouer, afirma que “a memória é, em certa medida, luta contra o esquecimento”. No caso dos sujeitos que se

dispuseram a participar da pesquisa, resgatar suas memórias também representa a “luta contra o esquecimento” de uma geração que teve suas vidas marcadas pela presença da ferrovia e pelo que ela representou, em especial para as mulheres que como professoras também se fizeram ferroviárias, em um espaço majoritariamente ocupado por homens.

Entre idas e vindas das falas que relatavam os fatos, percebo repetições, lapsos, falas fragmentadas e não lineares no exercício de resgate de trajetórias pessoais de uma geração de trabalhadores(as) ferroviários(as) idosos(as). Fosse quem fosse, independente dos cargos que ocupavam, eram todos os sujeitos ferroviários(as).

Os lapsos de memória (o não lembrar ou lembrar momentaneamente em sucessivos atos de esquecimentos) também estiveram presentes em alguns depoimentos. Na fisionomia, tais momentos eram refletidos com um semblante de tristeza, por algo que se vai “esvaindo” no decorrer dos anos.

Oh, meu Deus! Eu me lembrei tanto ontem. Era pra eu ter escrito isso... [Estava] me lembrando ontem...(Baronesa)

Dia desses eu estava com o nome deles aqui [gesto apontando para a cabeça], [dos] que eu dei aula. Lembro até de alguns que morreram.(Maria Fumaça). Algumas resistências também se fizeram perceber após assumir o compromisso de participação na pesquisa. Talvez fosse melhor que o vivido tivesse ficado retraído e guardado “no fundo do baú”, como ela mesma enfatiza.

Você quer gravar? Eu não lembro quase nada, não. [...]

[Acerca das lembranças da vida] às vezes de noite, eu fico pensando... às vezes eu digo: “meu Deus, isso não é certo, eu relatar minha vida assim... Por que eu tenho isso? Às vezes eu até sonho. Até palavras e palavras... Eu não queria isso, não”. Não [queria ficar rememorando], porque não é bom... porque eu acho que não é [bom].(Baronesa).

O ato de rememorar as diversas fases da vida dos seis sujeitos algumas vezes foi expresso como “alegria” (c=10) ou “dor” (c=17). O sentido de “dor” neste estudo está relacionado à “vontade de esquecer” ou ao “não lembrar”, uma vez que tais memórias pareciam estar relacionadas às lembranças negativas ou aos sentimentos de perda. Pão de Forma foi quem mais expressou isso, ao passo que em nenhum momento Baronesa afirmou ter prazer nesse exercício de rememorar. Muito pelo contrário!

O resgate das memórias para alguns dos sujeitos não se apresentou tão fácil em alguns momentos, seja para homens e mulheres para quem a ferrovia representou parte da história de suas vidas pessoais, acadêmicas e profissionais.

Lembrar é trabalho árduo. Lembrar, a pedidos, provoca surpresa, indagações, recusa, suspeita, timidez, evasivas, ansiedades, medo, vaidade... Enfim, um repertório inesgotável de sentimentos que definem a condição humana e fazem das histórias que se contam um veículo precioso para cruzar o tempo, intercambiando experiências. (ZANATTA, 1991, p. 143).

Rememorar às vezes reflete a saudade, as lutas, as marcas das pessoas que passaram pela vida e aquilo que deixou marcas... Alguns depoimentos evidenciam que as relações no interior da instituição estavam permeadas de conflitos de interesses entre os ferroviários nos seus diversos níveis hierárquicos.

[Diante de outro personagem]me dá um arrepio![...]

Tinha o [...] que tem raiva de mim até hoje. Não sei que mal eu fiz [...]. [Esse] eu me lembro. [...] porque são coisas que a gente não esquece. [...] A minha vida tá toda aqui [nas memórias escritas do sujeito]. [...] Sofri pra caramba pra chegar aqui. (Pão de Forma).

A "dor" se apresenta mais fortemente na ausência institucional e física da ferrovia. A sensação de abandono, desprestígio e descaso expressada na fala do sujeito ganha força diante do que a ferrovia representou, principalmente através da arquitetura ferroviária e dos lugares que demarcaram suas trajetórias profissionais e sociais. “A ferrovia, como rede de poder institucionalizada, definindo ações e estratégias, assumiu uma totalidade abstrata, construindo um mundo centrado em determinados sujeitos e determinadas imagens e representações.” (POSSAS, 2001, p. 237). “Às vezes eu fico assim, espiando... onde era o depósito e nosso dormitório... tudo esculhambado! [...] Tudo abandonado! Dá vontade é de chorar!”(Cachoeirinha).

Zanatta (1991), ao refazer a trajetória de Roberto Mange na construção do Senai, recorre também às lembranças dos que viveram o período e também utiliza-se da metáfora da imagem na pintura cubista.

E quando – como no caso de Roberto Mange e o SENAI – buscamos reconstituir a ação de uma personagem na arquitetura de uma instituição, as versões multiplicam- se e a imagem refletida assume a dimensão de uma pintura cubista.

Criações contínuas, as instituições parecem não ter idade. Sabe-se apenas que houve um dia em que elas começaram a funcionar. É possível saber exatamente o marco original, mas sua existência não está lá e sim na recriação constante, o que vai muito além da simples comemoração reforçada da tradição. Função da memória, portanto, esse atravessar do tempo pode servir-se de muitos veículos. Depende de onde se quer chegar. Assim, a história institucional começa quando tem início sua reconstituição; quando a memória vira projeto e as pessoas vão sendo envolvidas na ação da lembrança. (ZANATTA, 1991, p. 143).

No caso de Maria Fumaça, o documentário a que se refere “O último apito”, ao mesmo tempo em que retrata a trajetória e o fim da ferrovia no Ceará, também a eterniza. “Você assistiu o documentário? Sobre o que a ferrovia fez em prol do povo, principalmente o pessoal do interior. A gente fica assim pensando: como uma coisa dessas se acabou?”(Maria Fumaça).

Para Baronesa, resgatar essas memórias não se configurou um ato prazeroso. A “dor” reflete os percalços vivenciados para a inserção no quadro efetivo da RFFSA, as dúvidas advindas da extinção do cargo de professor do ensino primário e as perdas financeiras

significativas quando da aposentadoria. “A [entrada na empresa] RFFSA foi nesse concurso. Como eu estou te dizendo... nem gosto muito de me lembrar!” (Baronesa).

Araújo e Santos (2007), ao tratarem das implicações políticas da história, memória e esquecimento, atualizam as ideias de Paul Ricouer (2007), quando afirmam que lidar com o passado não se faz de forma neutra, mas há interesses, poder e exclusões. As atividades da memória, apesar de cumprir papel social relevante, deparam com questões políticas que envolvem a decisão do que deve ser lembrado, situando casos relacionados aos momentos de dominação e violência, principalmente de governos totalitários e repressivos, casos em que o esquecimento tem sido utilizado como estratégia de controle.

Nesse sentido, as autoras defendem o resgate das provas do passado, inclusive das memórias das vítimas desses governos, através de relatos e outros artefatos utilizados para formação e preservação dos arquivos, visto que fazem parte da construção necessária da “justa memória”. As autoras defendem também que não se pode desconsiderar a subjetividade, no entanto reiteram que esta não pode servir para a dominação.

Sobre as ferrovias no Ceará, Almeida (2009) apresenta uma época mais recente, em estudo denominado “Os ferroviários na cartografia de Fortaleza: rebeldes pelos caminhos de ferro”. Analisa as narrativas e documentos, abordando as dificuldades e os conflitos no contexto político das ferrovias cearenses no período da ditadura militar; retrata as materialidades e as subjetividades (dramas, dores, perseguições e conflitos) presentes nas histórias de vida dos trabalhadores e de suas famílias, favorecendo a compreensão dessa realidade, contribuindo para compor a história operária do Ceará. Baseado nos estudos de Lemenhe (1991) e Silva (1992 apud ALMEIDA, 2009, p. 28), resgata aspectos do cenário de dificuldades relacionados às consequências da situação climática na constituição dos caminhos dos trilhos no Ceará; em especial em Fortaleza, situando as questões políticas e sociais, que fizeram tantas vítimas do descaso histórico dos governos para com o Nordeste.

Afinal, a gênese de sua formação como classe vem desde o tempo dos retirantes, durante as secas do final do século XIX, quando homens famintos eram transformados em operários para construir a infraestrutura capaz de conferir a Fortaleza a hegemonia no Ceará (LEMENHE, 1991 apud ALMEIDA, 2009, p. 28), [...] atendendo de outro modo às exigências da nova Divisão Internacional do Trabalho. (SILVA, 1992 apud ALMEIDA, 2009, p. 28).

Os estudos de Bosi (1994, p. 37), apoiados na fenomenologia da lembrança de Bergson, em Halbwachs, Barlett, Stern (memória), Beauvoir (velhice) e Benjamin (processo narrativo) “dá voz” aos trabalhadores de São Paulo, a partir das memórias de velhos, tendo significado relevante na literatura acadêmica brasileira, intitulado Memórias e Sociedade:

lembranças de velhos. A obra tem como objetivo a análise de memórias de homens e mulheres a partir das memórias pessoal, social, familiar e grupal, sem a preocupação com os erros e lapsos que porventura pudessem ocorrer por ocasião dos fatos narrados pelos sujeitos, pois o “interesse está no que foi lembrado, no que foi escolhido para perpetuar-se na história de sua vida.”

A autora situa a velhice na sociedade industrial como uma categoria social e, biologicamente, considera natural e progressivo o declínio da natureza física do homem, um destino [comunidade de destino], diante do qual, contingencialmente, as sociedades lidam de forma diferenciada.

A velhice, que é fator natural como a cor da pele, é tomada preconceituosamente pelo outro. [...]. O velho sente-se um indivíduo diminuído, que luta para continuar sendo um homem. O coeficiente de adversidades das coisas cresce: as escadas ficam mais duras de subir [...]. A noção que temos de velhice decorre mais da luta de classes que do conflito de gerações. É preciso mudar a vida, recriar tudo, refazer as relações humanas doentes para que os velhos trabalhadores não sejam uma espécie estrangeira.. [...]. A mulher, o negro, combatem pelos seus direitos, mas o velho não tem armas. Nós é que temos de lutar por ele. (BOSI, 1994, p. 79-81).

O declínio não passa despercebido por membros da Associação dos Aposentados, provavelmente uma das poucas referências de uma categoria anteriormente das mais organizadas. Tentam ainda lutar pelos direitos, mas também são solidários nas lutas derradeiras da vida.

[Sobre alguns alunos do curso de alfabetização da época da Baronesa, citado por Cachoeirinha] Clodomiro Rosa, já faleceu. [...]

[Um dos Serafins] É... mas o Serafim que anda aqui, um magrinho, ele realmente foi maquinista. É uma pessoa legal, sabe? Bem legal mesmo. [...]

Tem muitos deles [maquinistas] que vão envelhecendo, [vão] ficando assim, com mobilidade reduzida e deixam de vir aqui. [...]

A gente toma conhecimento [quando algum dos maquinistas falece], inclusive eu, como diretora de comunicação social, eu sempre vou ao velório. Às vezes, a gente sabe que já é no período da missa de 7º dia. Dependendo do local, eu vou, sabe? No Panamericano, não sei aonde. Lá na Cidade dos Funcionários, em todo o canto, missa de sétimo dia. Às vezes, a gente vai ao velório. Quando o sepultamento é no São João Batista aí é fácil ir. Até forma um grupo aqui e vai, é fácil ir porque é perto. (Litorina).

Ao incluir, pois, entre os sujeitos da minha pesquisa as mulheres, professoras ferroviárias, e suas memórias, tomo emprestadas as palavras de Possas para expressar, tal como ela o fez, ao pesquisar sobre a presença das mulheres na ferrovia, o que representou estar inserida no campo da minha pesquisa como mulher e trabalhadora do magistério.

E, como mulher inserida neste presente, não fiquei insensível às suas lutas e à condição feminina do passado, quando os ruídos e as experiências esparsas em durações simultâneas e múltiplas forneciam indícios reveladores sobre o ser e estar mulher no campo da ferrovia. (POSSAS, 2001, p. 31-32).

Algumas vezes as narrativas dos sujeitos recorreram a registros diversos, tais como artigos de jornais, fotos, livros e diários de viagem, como que para desencadear o encontro com os “elos” do passado, tendo tais registros contribuído para trazer as lembranças do tempo passado para o tempo presente e satisfazendo a necessidade de mostrar e manter o registro “físico” das memórias, como se garantisse que as experiências vividas não se perdessem com o tempo, no desejo de eternizá-las.

Eita! Aqui tem toda a minha vida... Escrevendo minha vida de estudante. Isso aqui é minha vida de estudante... [...] Aqui é o diário que eu fazia na viagem! [...]

Pra reconstituir depois pela memória. Tudo é memória.[...]. Dá uma saudade... [...] isso aqui, não é pra jogar fora. Meu medo é esse... [...].(Pão de Forma).

O falar sobre a vida parece também ser uma necessidade. O pesquisador coloca-se como “ouvidos” pacientes que se colocam à disposição para ouvir a história “duzentas vezes” já contada, como se fosse a primeira vez. A disposição para narrar torna o tempo exíguo diante do prazer de falar sobre a experiência vivida na ferrovia: “Se eu vou contar tudo do começo, que eu não contei... um dia é pouco [risos]”. (Cachoeirinha).

O ato de rememorar traz à tona o que é inexorável na vida: a finitude do tempo de vida das coisas, dos homens, das instituições, de um tempo que não volta. A revolta, a tristeza, a perda do referencial do vínculo institucional e de onde está agora se a ferrovia não existe mais e que o tempo passou.

Vanderillo é que era o chefe do treinamento, meu amigo, grande amigo meu, muito amigo meu. Saudosa memória.[...].

Eu sabia o nome deles tudinho, o nome deles... mas é porque o tempo passa. (Pão de Forma).

Era [vinculado à esfera] federal. Aí saí pra RFFSA. E hoje eu não sei mais onde é que nós tamo [estamos]. Porque acabou-se a RFFSA.(Cachoeirinha.).

Possas (2001) expressa bem o que representou o “acesso” às memórias, comparando-as a “relicários” e expressando com suavidade a experiência “de estar sendo” pesquisadora em meio às mulheres e aos trilhos.

Finalmente, por se tratar de mulheres, trens e trilhos, fui aproximando-me delas, por meio da memória individual e coletiva, verdadeiros relicários de lembranças e guardados, fontes de identidade das subjetividades, garantindo as origens de cada uma delas. Tendo acesso a esse passado, tive condições de conduzir e ampliar a minha análise percebendo as particularidades, desocultando as diferenças e apreendendo o vivido das mulheres e da ferrovia nos remanescentes emitidos pelos lugares da memória de que elas são depositárias. (POSSAS, 2001, p. 35).

Considerando a extinção da RFFSA, defendo a necessidade de preservação da memória ferroviária, não somente no que se refere ao acervo material, mas dos trabalhadores

ferroviários, que no âmbito das suas individualidades e como coletividade, representam uma geração que tem muitas histórias de “lutas” para contar: lutas políticas, lutas pela sobrevivência, lutas pelos direitos, enfim...

Nesse sentido, vale alertar para o que Freitas (1992, p.17) afirma, “É preciso preservar a memória física e espacial, como também descobrir e valorizar a memória do homem. A memória pode ser a memória de muitos, possibilitando a evidência dos fatos coletivos.”

Resgatar as memórias dos ferroviários, a meu ver, apresenta-se urgente, visto que são testemunhas vivas e já se encontram na velhice, alguns com a saúde já debilitada. Usando uma metáfora para retratar esses sujeitos, considero-os “baús” enquanto vivem, no sentido de que suas memórias são como “repositórios de lembranças e acontecimentos”, guardados onde Santo Agostinho (1996) denomina “Palácios da Memória”. Inquieta-me o fato de que as memórias guardadas no fundo desses “baús” não sejam resgatadas a tempo; antes que a terra ou a senilidade as consuma de uma vez por todas, ou que a incapacidade física os torne impotentes para transmitir os saberes da experiência, tal como ilustra Bosi (1994, p. 79, grifos do autor) ao realizar sua pesquisa com velhos:

Para a comunicação com os seus semelhantes precisa de artefatos: próteses, lentes, aparelhos acústicos, cânulas. Os que não podem comprar esses aparelhos ficam privados da comunicação. Um dos velhos que entrevistei escreve estes versos: A mão tremula é incapaz de ensinar o aprendido.

É a impotência de transmitir a experiência, quando os meios de comunicação com o mundo falham. Ele não pode mais ensinar aquilo que sabe e que custou toda uma vida para aprender.

Tudo considero importante, tal como o cronista de Walter Benjamin, citado por Chauí (1994, p. 18) ao apresentar a obra Memória e sociedade: lembranças de velhos, de Ecléa Bosi: “[...] Eis por que, recuperando a figura do cronista contra a do cientista da história, Benjamin afirma que o segundo é uma voz despencando no vazio, enquanto o primeiro crê que tudo é importante contar e merece ser contado, pois todo dia é o último dia. E o último dia é hoje”. Apresento, pois, esta produção escrita que, a partir das memórias dos sujeitos contempla aspectos da vida e das lutas dos ferroviários.

2.3 As Teorias Clássicas da Administração e da Teoria do Capital Humano no “lastro”