• No results found

Planforhold

In document GAMLE HUS DA OG NÅ (sider 78-84)

Aqui no Ceará, trarei o exemplo do Festival Internacional de Trovadores e Repentistas,20 que está na sua quarta edição e nas duas últimas passou para o comando do cantador Geraldo Amâncio. Este festival foi idealizado pelo cineasta Rosemberg Cariry com o intuito de promover “o intercâmbio entre os povos de regiões que têm como tradição secular a cantoria e a tradição trovadoresca, matrizes da poética sertaneja, nordestina e brasileira” 21 e desde 2007 está sob a coordenação do referido cantador.

20 Ver vídeo institucional do III Festival Internacional de Trovadores e Repentistas no CD que acompanha a TESE. 21 Trecho extraído do encarte do II Festival Internacional de Trovadores e Repentistas. Fortaleza, s/d.

Figura 5 - CantadoresZé Cardoso e Moacir Laurentino

À frente desse importante evento da cantoria de viola nordestina, Geraldo Amâncio tem trabalhado em todas as etapas, desde a captação de recursos junto aos editais e leis de incentivo à cultura dos governos Municipal, Estadual e Federal, até a programação do mesmo, que tem como peça principal o cantador repentista do Brasil e de outros países. Agrega também demais poetas ligados à poesia oral, como emboladores, cordelistas, declamadores, xilógrafos, além dos grupos populares tradicionais como: reisados, bois, orquestras de rabecas, cantores de bendito, brincantes do coco de praia, etc., e outros artistas nacionais convidados a fazerem parte do evento.

As duas primeiras edições aconteceram nas cidades de Quixadá e Quixeramobim, sertão central cearense. A terceira edição aconteceu nas cidades de Senador Pompeu (Sertão Central) e Farias Brito (Cariri cearense), a quarta edição mudou-se definitivamente, segundo Geraldo Amâncio, para Limoeiro do Norte, cidade do Vale do Jaguaribe, também conhecido como “Vale das violas”, por aglutinar grandes cantadores e um grande público da cantoria em nosso estado.

Figura 6 – Cantadores Sílvio Granjeiro e Mocinha de Passira

O festival engloba uma programação diversificada que se distribui em: seminários, oficinas, feira de artesanato e cultura popular e a programação musical. No seminário são abordados temas relacionados às reflexões sobre as culturas populares; as oficinas procuram incentivar o conhecimento e a prática acerca do cordel, da cantoria e da xilogravura. A feira de artesanato aproveita as vocações dos artesãos da região onde o evento ocorre para incentivar a exposição e venda de seus produtos, além dos próprios cantadores, xilógrafos, cordelistas e declamadores, também exporem e venderem seus trabalhos. Cria-se, além de inúmeros empregos diretos e indiretos, um importante mercado em torno do evento.

A programação musical tem como principal atração as apresentações de cantadores e desde que Geraldo Amâncio assumiu tornou-se uma mostra de talentos, e já não é mais competitiva. Todos os cantadores são agraciados com troféus e cachês. Além deles, há ainda os grupos populares, recital de poesia, aboios e emboladas, atrações nacionais e as internacionais que podem ser payadores paraguaios, argentinos, chilenos, cantoras indianas, cantores chineses, cubanos, enfim uma variedade de vozes que, dispersas no mundo da oralidade, encontram-se aqui no Ceará para celebrar vida longa para a poesia oral, como bem pensou Rosemberg Cariry.

Dessa experiência no Ceará pontuo algo importante a ser considerado: nos sete últimos anos houve um grande incentivo governamental, seja em nível municipal, estadual ou federal, às expressões das culturas populares, através da criação de políticas públicas, leis de incentivo fiscal, editais e programas culturais voltados para o incremento dessas expressões.

Em nosso estado, principalmente no governo de Lúcio Alcântara (2003-2006), por meio da secretaria de cultura, foram criadas importantes iniciativas de valorização das culturas populares, desenvolvidas pela titular da pasta, a Secretária da Cultura Cláudia Leitão. Em sua gestão foi criada a LEI 13.351, de 22.08.03 (DO 25.08.03) que instituiu o registro dos mestres da cultura tradicional popular. Além disso, a Secretaria da Cultura trabalhou com a descentralização, levando projetos de desenvolvimento cultural para as diferentes regiões do estado cearense incentivando as vocações culturais de cada uma delas.

Dentro dessas vocações surgiram os “eventos estruturantes” criando um calendário cultural no Estado, através da realização de festivais, encontros, mostras, feiras em diferentes épocas do ano e obedecendo as especificidades culturais das macrorregiões: Região Metropolitana de Fortaleza, Litoral Leste/Jaguaribe, Sobral/Ibiapaba, Baturité, Sertão Central, Litoral Oeste, Sertão dos Inhamuns, Cariri Centro Sul. E o Festival de

Internacional de Trovadores e Repentistas foi criando dentro desse contexto, tornando-se o

evento estrutural do Sertão Central.

Para a realização do Festival é necessária a captação de recursos. No caso do referido Festival, os recursos têm vindo principalmente por meio de projetos submetidos a editais públicos ou de empresas privadas. Nas duas últimas edições, os principais patrocinadores foram a Petrobrás, a Chesf e o Banco do Nordeste.

Por ter acompanhado de perto todas as etapas do Festival nas duas últimas edições, vejo que, mesmo após o projeto aceito, é preciso uma ação continuada junto às empresas para que os recursos possam ser liberados via Lei Rouanet. E, nesse aspecto, considero que a desenvoltura do proponente do projeto faz grande diferença na hora de conquistar o patrocínio dessas empresas. Assim, o cantador que estiver à frente de um projeto dessa natureza, como é o caso de Geraldo Amâncio, precisa saber estabelecer relações eficientes com os diretores financeiros dessas empresas, convencê-los de que seu projeto trará retorno tanto em termos de propaganda quanto social.

No caso específico de Geraldo Amâncio, pude presenciar várias vezes em que ele e o produtor viajaram à Brasília para conversarem com os responsáveis pela liberação dos recursos nas empresas que aceitaram patrocinar o evento.

Ainda assim, por duas vezes foi preciso mudar a data do evento devido a não liberação dos recursos em tempo hábil. Fato que ocorreu nas duas últimas edições do Festival, nas quais eu fazia parte da curadoria.

Vejo aqui também, portanto, outro exemplo dessa participação e atuação dos cantadores frente às novas demandas que foram sendo criadas diante dos projetos políticos, culturais e turísticos dos poderes governamentais. De alguma forma, eles estão criando alternativas para não ficarem de fora dessa “nova onda” que está privilegiando, como em nenhum outro momento da história desse país, os artistas tidos como “populares” e suas expressões.

Mas isto de maneira nenhuma é uma regra no mundo da cantoria. Muitos também são os festivais que não se realizam por falta de apoio financeiro e outros se realizam por intermédio de alternativas que passam longe de recursos públicos ou privados via leis de incentivo fiscal.

As associações de cantadores, e mais especificamente a de Fortaleza, funciona sem apoio e recursos governamentais. Em 2008, por exemplo, a Associação dos Cantadores do Nordeste não conseguiu recursos financeiros, nem diretamente nem via projetos culturais, para a realização do já costumeiro Festival de Violeiros que ocorria todo ano no mês de julho. O cantador Dimas Mateus, seu presidente, até recorreu a vários órgãos públicos e empresas privadas, mas não obteve êxito, depois vieram alguns problemas de saúde, e neste ano para sua tristeza, dos ouvintes e dos cantadores não se realizou o festival.

De qualquer forma, mudanças podem ser percebidas, estratégias estão sendo criadas e a cantoria tem alçado vôos bem maiores ao longo de sua existência histórica e cultural. E os próprios cantadores relatam essas mudanças e acentuam esses novos tempos para sua arte. Claro que esta é um a luta constante e que nem sempre eles saem ganhando, nem muito menos suas estratégias são as mais adequadas ou eficazes para garantir-lhes sempre conquistas satisfatórias. O que vemos na verdade é um embate de forças desiguais, mas necessário para fazer os avanços e recuos que toda arte e seus atores necessitam.

Ao refletir sobre o popular e sua atuação Canclini sugere que ele entra em cena com “o sentido contraditório e ambíguo dos que padecem a história e ao mesmo tempo lutam nela, dos que vão elaborando, como em toda tragicomédia, os passos intermediários, as astúcias dramáticas, os jogos paródicos que permitem aos que não têm possibilidade de mudar radicalmente o curso da obra, manejar os interstícios com parcial criatividade e benefício próprio”. 22

Assim têm feito os cantadores, agindo nos interstícios, nas brechas que as novas tecnologias e a “modernidade” deixam ao longo de seus percursos, de seus deslocamentos permanentes, dos seus vai-e-vem entre sertão e cidade, tradição e modernidade, oralidade e escrita, entre ontem e hoje.

O cantador Zilmar do Horizonte sobre a evolução tecnológica que vivemos hoje e os espaços que a cantoria vem conquistando:

(...) significa o maior salto que a sociedade deu, que a cantoria saltou junto com a sociedade. Digamos, a sociedade abriu as portas, o colégio, a rádio, a televisão, as gravadoras, as gráficas abriram as portas mais ou menos e o cantador não perdeu tempo, saltou do trem. O trem vem, eu vou com ele, né? 23

Zilmar traduz em sua fala o movimento que cantadores têm empreendido em direção às mudanças. Eles não pretendem ficar no meio do caminho, embora nem sempre seja possível “pular do trem ou para o trem”, mas os cantadores estão buscando as aberturas, os interstícios, “as portas mais ou menos abertas” que a sociedade por vezes deixa à mostra. E eles têm sabido, na medida de suas possibilidades, adentrarem essas portas e agirem em “benefício próprio”.

In document GAMLE HUS DA OG NÅ (sider 78-84)