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Pipeline Shore Crossing Design for Arctic Subsea Pipelines

4. Features of Construction and Operation of Underwater Pipelines in the Arctic Shelf

4.6. Pipeline Shore Crossing Design for Arctic Subsea Pipelines

O projeto Casa de Farinha Comunitária do Lameirão também surge permeado por divergências internas, apesar de não ter uma grande latência. Evidenciar como se deu a concepção do projeto ajuda a começar esboçar o cenário político interno atual dos Tremembé de Almofala.

O edital da Carteira Indígena chegou através da rede de colaboradores. Como afirma o cacique:

Olha, a gente tem muita referência hoje, né? Muitos amigos, muitas instituições que conhece a gente. E quando eles sabem, às vezes, que tá transmitindo esses projetos, eles comunicam a gente pelo telefone. Às vezes mandam saber que tá acontecendo isso, assim e assim. Dependendo do órg̃o t́ funcionando tais projetos. Dizem: ‘vocês tem interesse de participar, de se inserir?’. Á a gente vai e se inscreve, ń? (cacique João Venâncio, comunidade Praia, 2013).

Segundo Zé Fué, alguns indígenas queriam um projeto de artesanato, mas ele quis um projeto de casa de farinha porque “serviria para todos”. Poŕm, a etnografia evidencia que somente alguns se utilizam da casa de farinha do projeto. Além disso, a escolha do enfoque do projeto gerou pequenos embates.

Zé Fué argumenta que anualmente os indígenas sofriam com a pouca opção de casas de farinha – o que comprometia a produção visto que em alguns casos a farinhada deveria ser realizada pouco tempo depois da colheita. Porém, seu discurso evidencia a sua preocupação em aprovar um projeto que o beneficiasse: “o pessoal que fizeram o projeto... A gente fez o projeto,

39 O conceito de conflito aqui analisado tem por base a concepção de conflito simmeliana (1983), onde o conflito

é visto como categoria construtora de relações sociais que findam na criação de traços de sociabilidade e identidades.

92 né? aí o pessoal queria uma coisa e eu não aceitei as coisas que eles queriam porque tinha muita coisa aqui que não cabia, pra mim não dava certo, né?”.

Dessas “outras coisas que eles queriam” a que se confrontou mais visivelmente com a ideia do projeto da casa de farinha foi a expectativa de alguns na criação de um projeto de artesanato. Maria Jorge Gabriel, uma das lideranças indígenas local (Saquinho, Curral do Peixe e Lameirão), foi uma dos que ansiava o projeto de artesanato.

Em algumas conversas que tivemos, ela aponta os motivos para a não escolha do projeto. Perguntada se havia pessoas interessadas no projeto de artesanato, ela responde: “tinha, mas o pessoal só faz falar, mas num enfrenta as coisas direito do jeito que tem que ser [...]”.

Na sua fala, faz alusão, mesmo que nas entrelinhas, aos arranjos sociais e embates locais no processo de escolha dos projetos. O enfrentamento citado significaria se opor aos interesses da liderança local de maior influência dentro da hierarquia de poder do CITA, Zé Fué.

A análise dos bastidores do projeto me permitiu compreender melhor os seus arranjos sociais e a dinâmica política interna dos Tremembé de Almofala. O esquema básico de poder40

entre eles segue a seguinte hierarquia, tendo como suporte o CITA: 1) cacique e pajé; 2) delegados; 3) lideranças indígenas; 4) comunidade indígena.

Segundo Zé Fué, existem 11 delegacias indígenas e, consequentemente, 11 delegados indígenas. Já lideranças indígenas seriam 26 ao todo. Ele é o delegado representante das comunidades Saquinho, Curral do Peixe e Lameirão. Maria Jorge Gabriel é uma liderança indígena, porém, ocupa um lugar mais abaixo na escala básica hierárquica em comparação a Zé Fué. Daí a necessidade do tal enfrentamento.

Apesar de dizer muitas vezes que a comunidade decide o que é melhor para ela, é constante a existência de discursos contraditórios. Mesmo com boa parte da comunidade interessada em outros projetos, acabou sendo decidido por Zé Fué que o projeto seria o de uma casa de farinha, evidenciando, entre outras coisas, a concentração de poder.

Ah, o negócio do artesanato, né? Muita gente sabe fazer, aí servia pra uns e outros não. Uma embarcação, como meu primo fez, o João – o cacique – aí eu não queria. A granja, porque tinha uns que queria criar galinha, fazer a granja. A horta, do mesmo jeito. Aí pra mim eu achava melhor essa casa de farinha porque a gente tinha... sempre todos anos a gente perdia muita roça por aqui esperando por casa de farinha dos outros, que fica lá na Camboa, a outra fica lá no Lameirão. E aqui [Saquinho] a gente faz

40 As hierarquias e os processos relacionais que dizem respeito à configuração de poder nas respectivas

comunidades podem ser melhor apreendidos quando observadas as contribuições de Foucault acerca das relações de poder e das suas formas de efetivação. Para um melhor aprofundamento: FOUCAULT, Michel. A história da

93 direito [...]. Aí eu achei que pra comunidade, como a gente faz parte da comunidade, aí eu como um líder da comunidade – que foi eles que me colocaram; que todo projeto que passa por aqui tem que eu assinar, né? – aí meu primo [cacique João Venâncio] me chamou e disse que a decisão ia ser a minha (Zé Fué, comunidade Saquinho, 2013).

Zé Fué teve dificuldades em reunir pessoas da comunidade indígena para assinar o projeto e executá-lo. Em posse da cópia do projeto, fui atrás das pessoas que assinaram. A conversa com eles evidenciou que parte das 20 pessoas [e seus núcleos familiares] que tinham assinado o projeto não fazem e nem fizeram farinhadas na casa de farinha do projeto. Inclusive, Maria Jorge Gabriel que, junto com Zé Fué, assinou o projeto como responsável. Dentre os motivos alegados estavam a seca que assolava a região e a distância de suas casas para a casa de farinha. Outros não disseram de forma clara o motivo da não utilização do engenho. Porém, acredito que o descontentamento com a figura do Zé Fué seria um dos motivos ocultados por alguns.

Na prática, basicamente só quem realiza farinhada na casa de farinha do projeto são os núcleos familiares ligados consanguineamente a Zé Fué: núcleos familiares de seus tios, irmãos, filhos, dentre outros. Além deles, não-indígenas também utilizam a casa de farinha do projeto, pagando o dobro do valor pago pelos indígenas (que possuem a carteirinha de associado do CITA).

A casa de farinha do projeto possui grande importância para algumas famílias locais, porém, a existência de outras casas de farinha e a conturbada imagem do responsável pelo projeto, Zé Fué, limitam sobremaneira os interesses que orientam a política desses projetos.