10 D ESCRIPTION OF THE SOLUTION FINALLY USED
10.5 C ONTROL ALGORITHMS
10.5.6 PID CONTROL
No que se refere à escuta das crianças, foram utilizadas técnicas específicas que superam a lógica “adultocêntrica” e, ao mesmo tempo, valorizam suas linguagens. Desse modo, com o mesmo objetivo da entrevista semiestruturada, os procedimentos científicos propostos foram Histórias para Completar e Desenhos com Histórias, como meio de iniciar e manter um diálogo com as crianças sobre o seu processo de transição para o 1º ano do Ensino Fundamental.
Os referidos procedimentos procuraram apreender os sentimentos e as expectativas das crianças em relação às suas atuais experiências na Educação Infantil e em relação ao momento posterior, quando já estarão inseridas no Ensino Fundamental.
Escutar as crianças foi, sem dúvida, importante, por considerar que elas são competentes para expressar seu ponto de vista, assim como por permitir conhecer suas percepções e, consequentemente, melhor compreender o fenômeno estudado, porque vivenciaram diretamente a transição entre a EI e o EF.
A escolha das crianças para participar da entrevista considerou alguns critérios: gênero, expressão oral (ser comunicativa), o consentimento dos pais31 e das crianças para participar da pesquisa. O momento da pesquisa destinado à observação na sala do agrupamento Infantil V possibilitou um contato mais próximo com as crianças, conhecê-las e saber quais delas mais se expressam oralmente. No entanto, isso se mostrou uma tarefa difícil, pois, como será apresentada nos capítulos seguintes, a expressão oral das crianças foi pouco estimulada no contexto escolar, inibindo as possibilidades de maior interação entre as crianças e entre elas e os adultos. Mesmo diante desse fato, foi pertinente ter realizado a escolha das crianças após esse contato
31
47 inicial, até mesmo para que elas se sentissem mais seguras em relação a minha presença. Com base nesses critérios e com o auxílio da professora, foi realizada a escolha das crianças, a fim de formar dois grupos, cada um com quatro crianças, com número igual de meninos e meninas. Das 21 (vinte e uma) crianças matriculadas nessa turma, apenas 13 (treze) obtiveram o consentimento da família para participar da pesquisa. Dessas, apenas oito crianças participaram da entrevista coletiva devido à composição dos dois grupos com quatro crianças em cada um. Além da consulta aos pais, as crianças também foram consultadas sobre o desejo de participação.
2.3.1. Histórias para completar
O procedimento Histórias para Completar consistiu na utilização de inícios de histórias que envolvem aspectos da realidade das crianças sobre a sua transição para o Ensino Fundamental. Essas narrativas foram utilizadas como mote para que as crianças se expressassem após ouvir a história contada, seguida de perguntas norteadoras dos depoimentos das crianças acerca da transição da criança para o EF (ver as histórias utilizadas no apêndice D).
Para a aplicação desse procedimento, foram organizados dois grupos, com quatro crianças cada. Foram necessárias duas sessões com cada grupo devido ao conteúdo das histórias expressarem perspectivas diferenciadas em relação à transição da criança. O primeiro bloco de histórias procura apreender as expectativas positivas em relação à transição escolar; e o segundo bloco enfoca os temores, dúvidas e receios das crianças frente ao ingresso no EF.
Wallon, ao caracterizar o pensamento pré-categorial da criança em seus estudos sociogenéticos, fornece pistas que tornam desaconselhável solicitar, de modo concomitante, à criança a expressão de sentimentos diferenciados acerca de suas experiências. Isto porque uma das características do pensamento infantil é a perseveração, que leva a criança a fixar-se numa ideia ou palavra e continuar a responder em função de uma pergunta anterior e não da nova pergunta (DANTAS, 1990, p.39). Assim, é preferível que a tentativa de apreender as expectativas positivas da criança aconteça em dia diferente do que se procurará conhecer os seus possíveis temores em relação ao ingresso no EF.
Para o registro dessas quatro sessões de entrevistas coletivas, foram utilizados: gravador de voz, diário de campo e filmadora. Também foram utilizadas ilustrações
48 referentes a cada início das histórias para completar, com o intuito de manter maior concentração das crianças, envolvendo-as na história32. A entrevista aconteceu numa sala de 1º ano, situada no andar superior da escola.
2.3.2. Desenhos com Histórias
Esse procedimento é uma adaptação do procedimento “Desenhos-Estórias”, criado por Walter Trinca, em 1972, para utilização na Psicologia Clínica. Tal procedimento é considerado um marco histórico no avanço do diagnóstico psicológico do tipo compreensivo, em oposição aos testes psicológicos tradicionais sustentados em padrões de avaliação e precisão dos resultados (psicologia positivista). A Psicologia Clínica é renovada pelo desenvolvimento de um instrumento que valoriza a relação humana e funda a nova identidade do psicólogo (TRINCA, 1997).
Contudo, a utilização desse procedimento na área educacional, possui objetivos diferenciados de suas intenções originais na Psicologia – estudo da personalidade. O que é mais interessante para a pesquisa na educação e com crianças é que esse procedimento mostra-se como uma forma de entrevista que, segundo Ana Trinca (in: TRINCA, 2007, p.40):
[...] minimiza uma situação angustiante de ser entrevistado e de ter que se expor. Em vez de lhe perguntarmos diretamente sobre os fatos de sua vida diária e de sua história de vida, deixamos que se expresse, à sua maneira, por intermédio de desenhos e histórias.
Além de deixar a criança mais à vontade, o procedimento lhe permite usar as suas “cem linguagens33” como ponto de partida para a expressão de seus sentimentos.
Em contextos educacionais, Cruz (1987, citada por TRINCA, 1997), foi a primeira pesquisadora a utilizar esse instrumento com crianças, tendo por objetivo investigar a transformação da representação de escola que ocorria nelas desde antes a sua entrada na escola e durante o seu primeiro ano nesse espaço institucional. A pesquisadora utilizou o procedimento “Desenho-Estória”, realizando uma adaptação na aplicação do instrumento, sugerindo à criança um tema específico para o desenho, centrando-se no objeto da pesquisa. Neste estudo, o tema do comando “Desenho-
32 Procedimento utilizado na pesquisa realizada por Cruz (1997) após constatar que as crianças possuíam
dificuldade de concentração.
33 Termo utilizado por Loris Malaguzzi para enfatizar as múltiplas formas de comunicação e expressão
49 Estória” centrou-se em dois personagens que possuem características das crianças focadas na pesquisa: idade, fase e rotina escolar - passagem da EI para o EF.
Nesta pesquisa, a aplicação de uma parte desse instrumento foi realizada no mesmo dia da aplicação do instrumento Histórias para Completar, permanecendo a mesma organização dos agrupamentos (dois grupos de quatro crianças cada). No primeiro encontro, foram focalizadas as expectativas positivas das crianças em relação à transição para o EF, e, no dia seguinte, concentraram nos possíveis anseios, temores, ou seja, nas suas expectativas negativas em relação à transição para o novo ano no EF.
Na primeira sessão, após a aplicação do instrumento Histórias para Completar, as crianças foram convidadas a desenharem algo relacionado à escola que gostariam que tivesse no 1º ano do Ensino Fundamental. Após concluírem o desenho, elas foram incentivadas, no grupo, a contarem uma história sobre a sua produção. O referido instrumento objetivou coletar dados acerca dos desejos, sentimentos e percepções positivas das crianças sobre a escola que frequentavam e dos aspectos que faziam parte do seu cotidiano na EI que gostariam que permanecesse no EF.
Já na segunda sessão, um dia após a primeira, as crianças foram convidas a desenharem algo relacionado à escola que não gostariam que tivesse no 1º ano do Ensino Fundamental. Após concluírem o desenho, elas foram novamente incentivadas a contarem uma história sobre a sua produção. Por sua vez, este instrumento visou apreender as possíveis expectativas negativas das crianças sobre a passagem para o EF.
Ao final das duas sessões, dezesseis desenhos foram produzidos, duas produções de cada criança. Para a aplicação de tal instrumento, foram utilizadas folhas, canetas coloridas e gizes de cera. Como forma de registro, foi realizada filmagem casada com gravação de áudio, pelo fato de a escola ser bastante barulhenta - os gritos das crianças ecoavam no prédio, que não possui boa acústica. Isso permitiu que pudesse ficar atenta às manifestações das crianças quanto às questões da pesquisa e incentivá-las a se expressarem mais, quando necessário.
50 2.4. Questionário
O questionário de pesquisa foi utilizado para obter informações sobre a vida profissional da professora, da coordenadora e da diretora, tais como: tempo em que atua na educação infantil, ano de ingresso na rede, cargo de origem, curso superior, instituição formadora, etc.
Isso possibilitou conhecer melhor a trajetória profissional delas sem ser necessário fazer essas perguntas no ato da entrevista, o que tomaria bastante tempo, cansaria o entrevistado e não focaria no objeto da pesquisa. Portanto, esse instrumento auxiliou na caracterização da professora e do núcleo gestor.