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Ainda no cerne da mesma pergunta referente à denominação do curso e a analogia com o que ocorreu na prática do curso, há três estudantes que perceberam algo a mais na operacionalização do curso, que os anteriores não revelaram, trata-se da presença da interdisciplinaridade em algumas disciplinas, conforme os relatos abaixo:

É de Integrado [...] Lembro que na matemática junto com culturas industriais, teve um trabalho de interdisciplinaridade [...] fazer um trabalho com tudo, o português correto, com a história daquela cultura, a geografia dela, a física que ela tem em si, a química. (ALUNO 1. TURMA A, grifo nosso).

De integrado porque concilia o ensino médio com o curso técnico [...] tem uma interdisciplinaridade. [...] Os professores tentam relacionar muito biologia, matemática, química, física com a agropecuária, sempre buscando isso. [...] fazem o diálogo com o técnico, sempre tem. Os técnicos com o médio encaixam um no outro. (ALUNA 4. TURMA C, grifo nosso).

[...] Justamente integrar o ensino médio com o técnico, pois uma coisa é totalmente dependente da outra, se eu não conhecer Trigonometria da Matemática que é do médio, vai ser difícil eu medir uma área, fazer cálculo de desenho técnico da construção rural. [...] É muito focada na interdisciplinaridade, esse aspecto foi o que mais alavancou o estudo da técnica. (ALUNA 5. TURMA C, grifo nosso).

Nestas três falas a palavra interdisciplinaridade aparece e os alunos a associam com a integração entre as disciplinas do curso. Identificam esta operacionalização com o desenvolvimento de aulas compartilhadas em atividades envolvendo várias disciplinas, onde se verificou a tentativa de diálogos entre elas.

Observa-se nestes relatos que a interdisciplinaridade aparece enquanto estratégia adotada no curso por alguns professores de algumas disciplinas como matemática, língua

portuguesa, biologia, química, física, história, geografia, inglês e culturas industriais. Neste caso, é uma forma de articular os conhecimentos da área comum e específica. Esta articulação realizada pelos professores nas estratégias de ensino é entendida pelo aluno como interdisciplinaridade.

Embora o aluno tenha dificuldade de sistematizar o aspecto conceitual referente ao sentido epistemológico da proposta de Ensino Médio Integrado anunciado por Ramos (2009), observa-se que eles conseguem formular algumas idéias, com base no que vivenciaram no curso, reveladoras de um entendimento sobre esta proposta que se aproxima da proposta de Ensino Médio Integrado conforme o anunciado na literatura da área e no Documento Base do MEC, quando este destaca a presença da interdisciplinaridade.

[...] Necessidade e, portanto, como princípio organizador do currículo e como método de ensino-aprendizagem, pois os conceitos de diversas disciplinas seriam relacionados à luz das questões concretas que se pretende compreender. Isso, por sua vez, não compromete a identidade epistemológica das diversas disciplinas, posto que o respectivo aprofundamento científico seja requerido sempre que a compreensão de um conceito exigir a relação com conceitos de um mesmo campo disciplinar. Com essas questões salientamos que a integração de conhecimentos no currículo depende de uma postura epistemológica, cada qual de seu lugar, mas construindo permanente relação com o outro (BRASIL, 2007, p. 34).

Segundo o Documento norteador da proposta de Ensino Médio Integrado o conhecimento interdisciplinar é visto enquanto uma metodologia de ensino que possibilita relacionar a parte do conhecimento à totalidade social.

Henrique, Silva & Baracho (2011), corroboram com estes dados, pois também identificam que os professores e alunos tomam a interdisciplinaridade como elemento facilitador do Ensino Integrado. Entretanto estes estudiosos esclarecem que a interdisciplinaridade é um dos princípios do EMI, mas não o único, outros princípios são centrais na concepção de formação humana integral, [...] como são o trabalho como princípio educativo, o todo como síntese das múltiplas relações, e homens e mulheres como seres histórico-sociais (p. 465).

Entendendo-se com isto que a interdisciplinaridade é pressuposto e não finalidade da Educação Integrada, pois se assim for o conteúdo da proposta de Ensino Médio Integrado ficaria reduzido apenas à dimensão interdisciplinar. Ressalta-se que a interdisciplinaridade pode ser apresentada como um uma estratégia metodológica que tem como objetivo integrar as áreas de conhecimento e o mundo do trabalho. Os estudantes dizem que a integração das

disciplinas do básico com as do técnico foi efetivada por alguns professores no curso de Técnico em Agropecuária Integrado.

Entretanto, a compreensão de Araujo e Rodrigues (2011) possibilita visualizar aspectos que vão além deste aspecto aparente percebido pelos estudantes, para estes autores a questão da integração não se resume a uma atitude de apenas compor o saber técnico e geral num único curso através da organização do currículo, se assim acontecesse, o Ensino Médio Integrado ficaria reduzido à questão curricular, ou seja, a realização da integração do ensino não depende única e exclusivamente da organização curricular. Para estes autores, a implementação do projeto de ensino integrado:

[...] Depende muito mais do posicionamento que a instituição e o profissional da educação assumem frente à realidade do que dos procedimentos didáticos que são pautados pela organização do curso e que serão utilizados pelos docentes. Estes serão necessários, mas não suficientes para que as práticas discursivas sobre a educação crítica e transformadora passem a ser, de fato, convertida em ações pedagógicas (p.12)

A proposta de formação integrada orientada pelas idéias de Escola Unitária e de Politecnia esta para além da junção de currículos num só curso. Apesar de requerer a postura do professor, do esforço em fazer a interdisciplinaridade através de suas disciplinas, não se limita a esta iniciativa individual do docente.

Destes resultados deduz-se que a proposta de Ensino médio Integrado no curso de Técnico em Agropecuária, se revelou na tentativa de efetivação de diálogos entre docentes e disciplinas, capazes de promover a articulação de diversos saberes, orientada pela idéia de interdisciplinaridade. Os depoimentos dos discentes evidenciam que as tentativas de práticas interdisciplinares foram operacionalizadas por alguns professores, o que revela que esta estratégia ainda não é regra no curso. Isto aparece quando expressam que professores de algumas disciplinas tentaram fazer a integração de suas respectivas disciplinas mediante a utilização de práticas interdisciplinares.

A evidência deste aspecto revela que a proposta de integração do ensino ainda encontra dificuldades em sua implementação. Outro depoimento a seguir evidencia que ainda são apenas alguns professores que buscam adotar em suas disciplinas a integração do ensino.

Nas culturas industriais também fizemos um trabalho integrado com todas as disciplinas do médio, exemplo a cultura da pimenta-do-reino, ali trabalha tudo, ver onde enquadrava as matérias. Onde a matemática entrava a geografia, o português, à sociologia, o nosso trabalho era identificar onde elas entravam. [...] Acho que aí a gente teve uma verdadeira integração entre

as matérias, mas não entre os professores, até porque cada um com uma atividade diferente. (ALUNA 8. TURMA C, grifo nosso).

Os relatos da aluna acerca da disciplina Culturas Industriais revelam uma tentativa de integração, contudo, novamente observa-se que ocorreu de maneira parcial e isolada, seu depoimento comprova a afirmativa de que a operacionalização de estratégias de integração do ensino são exceções e não a regra do curso.

É neste sentido que se compreende que as tentativas de integração no IFPA/Castanhal por meio do curso de Técnico em Agropecuária Integrado, ocorreram de forma parcial, dependendo da iniciativa de alguns professores e não do coletivo de professores do curso. De qualquer modo houve ações efetivas que evidenciam tentativas de ensino integrado.