Tinha sido Ahmed, que conhecera no quiosque onde trabalhava Ibtissam, que me levara a ver um dos primeiros apartamentos que procurei na cidade de Essaouira. Depois disso, convidou-me para ir a sua casa, e no seu tom e atitude respeitáveis, avisou-me de antemão que a sua mãe estaria presente. Ahmed jamais me iria convidar para estarmos os dois sozinhos em sua casa. Esta era a maneira respeitável de conversarmos os dois e Ahmed, tendo estudado Filosofia, interessava-se pelo meu estudo em Marrocos. Originário de Casablanca, tinha-se fixado em Essaouira, onde geria e era proprietário de diversos pequenos negócios. A mãe era viúva e passava a maior parte do tempo com as irmãs e irmãos em Casablanca mas, por vezes, vinha cuidar do filho que vivia sozinho.
Um dia, depois deste encontro, Ahmed pediu-me para se encontrar comigo em
Bāb Marraquexe (uma das portas de entrada da cidade velha). Aí contou-me que
gostava de uma rapariga há algum tempo, Kaoutar, e que lhe tinha pedido o número de telefone, tendo ela recusado dar-lho. Ahmed queria agora visitar Kaoutar na loja onde trabalhava e ter a oportunidade de falar com ela. Precisava de uma desculpa para o fazer, e eu, vinda de fora e não partilhando as preocupações de outras mulheres, poderia fazê-lo melhor do que ninguém. Aceitei acompanhá-lo até à loja, onde faria o papel de turista enquanto Ahmed conversaria com Kaoutar. Acabada de chegar, o meu árabe
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dialectal ainda era frágil, o que aumentava as possibilidades de não compreender a conversa, uma outra vantagem para Ahmed, que poderia conversar «a sós» com a Kaoutar.
Foi esta a oportunidade que Ahmed soube aproveitar, utilizando a perícia em rentabilizar recursos e contactos, de uma forma que a mim sempre me surpreendeu. Depois deste encontro, Ahmed começou a visitar regularmente Kaoutar na sua loja e também eu soube rentabilizar esta introdução inusitada; queria desesperadamente sentir- me em casa e conhecer pessoas. Era fundamental inserir-me na vida social da cidade e isto teria que ser feito através das mulheres. Nada ganhava se me agarrasse aos contactos que tinha com os jovens marroquinos que trabalhavam nas lojas de artesanato, cujas intenções considerei, na maior parte dos casos, dúbias ou duvidosas, e que entabulavam conversa com qualquer estrangeiro que vissem passar, sobretudo mulheres sozinhas. Numa cidade pequena como Essaouira, essas relações limitavam-me a entrada a outros meandros da vida social, sobretudo os femininos, e embora considerasse qualquer contacto importante, sabia que as companhias masculinas poderiam fechar-me portas que queria tanto abrir.
Acompanhei então Ahmed até à loja onde, enquanto eu contemplava os objectos de moderno artesanato marroquino nos mostruários, entabulava uma conversa com Kaoutar. Saímos os dois juntos e Ahmed perguntou-me imediatamente o que tinha achado dela. Apesar de não poder ter grande opinião, eu tinha gostado da Kaoutar. Depois de algum silêncio, Ahmed retorquiu que ela era mais velha do que ele e que isso não era bem visto na sociedade marroquina, uma mulher mais velha casada com um homem mais novo. Respondi-lhe que isso era preconceito e que também o profeta Mohammed tinha casado com uma mulher mais velha (Khadija). O seu exemplo deveria desmontar esse tipo de retóricas, sobretudo quando se tratava de decidir e discutir possibilidades de casamentos.
Depois disso comecei a visitar Kaoutar na loja. Ultrapassado o receio inicial da sua parte – temia que Ahmed me tivesse encarregado de a conhecer melhor e saber mais coisas sobre ela – passámos horas a conversar sobre vários temas, enquanto esperávamos clientes que, em alguns dias e em determinadas épocas do ano, podiam nem sequer entrar na loja. Kaoutar era uma mulher sensível e inteligente, pertencente a uma família prestigiada de Essaouira, o que de alguma forma lhe limitava muito os movimentos. Encontrávamo-nos quase exclusivamente na loja. Continuava a estudar aos 30 anos e não ambicionava desesperadamente casar-se, como as demais raparigas
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que conhecia. Isso fazia com que se sentisse diferente da maior parte das mulheres da sua idade e por isso tantas vezes me perguntava a opinião sobre determinados temas e questões, e como as coisas eram feitas na «Europa». Ahmed, por seu lado, insistia em visitá-la, e cruzávamo-nos na loja.
Durante algum tempo fui também conselheira de ambos, que me perguntavam informações e opiniões sobre o outro e contavam-me situações que tinham partilhado. Kaoutar contava-me mais do que Ahmed, porque nos encontrávamos no ambiente intimista da loja e finalmente porque éramos mulheres e da mesma idade. A Ahmed, apenas o encontrava na rua, onde vendia óculos de sol, e aí, ele nem sempre gostava de tocar em determinados temas, temendo que os outros vendedores ouvissem coisas da sua vida privada. Cedo compreendi que tinha que ser cuidadosa nas opiniões e nas informações que disponibilizava e tentava fugir a perguntas que me colocassem numa situação de deslealdade que pudesse de alguma forma comprometer a amizade que tinha nutrido por ambos, mas sobretudo por Kaoutar.
Estas diferentes situações demonstram como a situação de exterioridade abriu espaços de sociabilidade que qualquer etnógrafo tem que saber rentabilizar. São os imprevistos que constituem também o nosso campo e são estas situações que indiciam caminhos de pesquisa. Através desta situação fui confrontada com modos de «namorar», de constituir relações entre pessoas, de pensar casamentos e expectativas sobre eles. As diferentes estratégias de aproximação estão, entre outras razões, associadas ao facto de as relações entre géneros serem muito vigiadas em Marrocos. Eu própria não fugi a essa vigilância, mas a minha condição de estrangeira permitia que pudesse romper esses limites de forma menos arriscada, e portanto, circular entre universos masculinos e femininos.
Muito embora tenha vivenciado o dia-a-dia diferentemente com homens e mulheres, foi precisamente essa circulação que evitou que este trabalho se focalizasse apenas nas realidades femininas. Numa sociedade onde a segregação de género é tão evidente, foi inevitável que as minhas relações se desenvolvessem sobretudo com mulheres. Foram elas que me levaram para o tema de pesquisa que vim a desenvolver. Mas o contacto com os homens permitiu-me relativizar o facilitismo dicotómico que coloca as mulheres como sujeitos submissos e os homens como sujeitos dominantes, um discurso também ele muito alimentado pelos marroquinos. Ao ouvir e ver o que os homens faziam e como faziam, comecei a perguntar-me se os homens e as mulheres não
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são concomitantemente sujeitos submissos e dominantes num contexto onde as complexidades históricas e sociais não podem ser reduzidas à noção de patriarcado.