2.5 Nanotechnology and Microfabrication
2.5.1 Photolithography
Em Portimão, o Porto do Algarve, por muitos considerada a capital financeira da região, comecemos por atentar no seminário “Do ZOO à prisão: Reabilitação Urbana no Algarve entre Tapumes e Gruas”- patrocinado pela “Secção Regional do Sul” da “Ordem dos Arquitectos” Portugueses -, que decorreu a 26 de Março de 2011 num espaço privado sito à Alameda da República. Neste, tendo sido efectuadas algumas apresentações internacionais sob o encantatório signo “holístico” - para aparente deleite de um público essencialmente composto por estudantes de Arquitectura -, dos projectos de Njiric + arhitekti em Zagreb ao hotel-museu Norueguês “Turbine City”, cortesia de João Vieira Costa/ Context Architects, destaque para a contundência de Ricardo Camacho - arquitecto co-organizador e mediador do evento - face à Universidade do Algarve (UAlg). Isto porque, segundo Camacho, a UAlg “nada trouxe a este território” [Algarve], o ideal passando por “questionar os arquitectos Municipais” e “confrontar os reguladores”. Considerando que destes agentes, a título próprio, nada se ouviu, podemos depreender que ou estavam sub-representados ou não representados de todo.
Além da crítica ao sector público e das exposições conceptuais, a reabilitação urbana conforme arquitectada pelos mencionados e hiperligados colectivos271 não pareceu ligar muito, se algo, ao que ao fim e ao cabo se propunha abordar, em termos localizadores. Se à falta de actos se somou a falta de palavras sobre o vernacular de terra do Algarve, ou de qualquer reabilitação baseada na sua recolecção, para o caso, de sobra registamos a omissão.
Recordando, por outro lado, o dizer do Padre José Gonçalves Vieira - que de S. Lourenço da Barrosa272, «a Oeste de Portimão e rumo a Alvor, terreno de argila
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«Corruptela de amaldiçoado, usada como praga ou imprecação contra alguém. Muito frequente na zona de Portimão.» (Gonçalves:126)
271
http://algarveoa-srs.blogs.sapo.pt/14971.html
272
vermelha, barro», mais adiantando que «à flor do solo descobrem-se alicerces de alvenaria...» (Vieira:16) – para constatar que nos falta hoje o jeito de perceber se de taipa a alvenaria em causa, vale-nos ainda a resiliência toponímica para, pelo menos, localizar, em Portimão, o Sítio das Taipas, entretanto revolucionariamente planificado ao pormenor273 (e aí está a ‘arquitectura municipal’).
Mobilizando o exemplo da Declaração Ambiental do Plano de Pormenor do Sítio das Taipas um alinhamento entitário composto pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), pelo IGESPAR e pela CCDR Algarve274, além da “intervenção controlada num sítio arqueológico” e da “criação de economias de aglomeração à escala sub-regional” enquanto pressupostos benefícios directos gerados pela ordenação pormenorizada do sítio, se plenamente concretizada, destaque construtivo para o “reequilíbrio do perímetro urbano de Portimão, com atenuação da pressão sobre a faixa litoral” e “o reequilíbrio do parque habitacional e diversificação da oferta residencial local (dado o enfoque na tipologia moradia)”.
Neste processo de concretização das “perspectivas de ocupação de um espaço desadequado em termos de usos previstos no PDM”, escusado será dizer que de taipas só o topónimo se poderá ainda remontar – a não ser que, na “afectação de cerca de um terço da área a intervencionar a espaços verdes”, aquelas possam surgir como que por geração espontânea.
Não que a taipa como processo construtivo seja estranha ao município, visto que lhe reserva o direito a menção nas visitas guiadas que propõe, creditando-a até árabe-
273
“Plano de Pormenor das Taipas revoluciona entrada de Portimão”, registava o jornal o Barlavento em linha a 22 de Setembro de 2009 (www.barlavento.pt/index.php/noticia?id=36193), controvérsia política digna de registo e decerto merecedora de aturado traçado de rede, de que apenas listamos um par de agências como exemplo, tipo o CDS-PP de Portimão e a Acral batendo-se contra “a instalação de outra grande superfície comercial” (artigo citado), algo que, então, fonte da CMP citada no artigo do Barlavento negou, dizendo que «o que foi aprovado, através do Plano de Pormenor, foi uma área de comércio», a distinção tendo que ver com o facto de esta ter que ser sujeita à aprovação da Direcção Regional de Economia.
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Alinhamento por sua vez inscrito num ‘quadro de referência estratégico’ composto pelo PROT Algarve, PROF Algarve, PBH Ribeiras do Algarve, PDM de Portimão e Plano Operacional Regional do Algarve 2007-
islamicamente. Tal rotulação, porém, remete-a para uma ideia de tradição e ruralidade que a cidade em si, moderna, não pretende senão poder visitar em dias feriados.
Logo na introdução de seus “Passeios Culturais – Património e paisagens”275, da civilização ‘árabe’ se diz que teve “um papel relevante na arquitectura tradicional, nomeadamente no uso da taipa que foi, durante anos, o material eleito pelos locais para a construção das paredes das suas casas rurais”, por locais especificando os nativos da Mexilhoeira Grande.
Se nos “engenhos de água – noras, cisternas e açudes” - e nas “ancestrais técnicas agrícolas” identifica “ainda hoje prova da passagem dos árabes por aqui” e mais afiança que “da cultura islâmica persistem, ainda, alguns topónimos”, no “passeio cultural” que o município de Portimão sugere pela Mexilhoeira Grande, a “especial atenção ao património arquitectónico vernáculo e popular” destaca “o casario branco com barras coloridas ao redor das janelas e a típica chaminé algarvia” e remete de volta para a taipa e para a cal como tecnologias construtivas de eleição. Ainda que o passado narrativo indique a descontinuidade presente, mormente no que à taipa e cal respeita, esta não se explicita e antes implicitamente se reclama ainda na glorificação de um “cariz essencialmente rural [que] mantém vivas tradições e costumes bem patentes nas vivências quotidianas dos mexilhoeirenses”.
Projectando na Mexilhoeira o rural-tradicional e adivinhando-o religável árabe- islamicamente, é sobretudo no Alvor que o município de Portimão reivindica sua herança islâmica, posicionando-se no nicho turístico da especialidade. No “passeio cultural” subordinado, precisamente, ao “Alvor Islâmico”, diz-se que «a arquitectura das casas mantém a influência árabe, especialmente nas açoteias que substituem os telhados, nas platibandas que decoram as fachadas, na cal branca das paredes e nas rendilhadas chaminés», descrevendo-se qual “arquitectura religiosa” os morabitos («ermidas destinadas ao culto e homenagem aos homens santos muçulmanos ou “Santões”»), tidos como «os únicos templos islâmicos que chegaram aos nossos dias»
275
http://www.cm-portimao.pt/portal_autarquico/portimao/v_pt- PT/menu_municipe/publicacoes_municipais/Passeios_Culturais/
na região – e apresentando ainda, no Museu Etnográfico local, “...um vasto leque de peças que contam toda a história da Vila e suas memórias árabes: as casas com as açoteias, a aldeã a fazer a palma (obtida através da palmeira anã), o olho de medusa e a estrela desenhados nos barcos, o alcatruz utilizado pelo pescador da vila para apanhar o polvo...”
Vernacularizada na Mexilhoeira e no Alvor, a taipa em Portimão não se enquadra no que possa ser discutido como vernacular. Do ‘passeio cultural’ pela “Cidade muralhada”, por exemplo, o que se salienta, “já fora de muralhas”, são “as casas com portas baixas, características das comunidades piscatórias”, romanticamente comparadas a “uma versão do Portugal dos Pequenitos”. Da apologética modernista à beira rio -
«para quem tem acompanhado a requalificação do espaço urbano, é com orgulho que vê a faixa costeira, [sic] modernizada e potencializados os recursos paisagísticos»
(Portimão – “Passeios à beira rio”) –
à sugestão de deslumbramento com o Convento de São Francisco, “construção nobre e imponente até na sua ruína”276, o ‘passeio cultural’ pelas “Paisagens urbanas” remete- nos para um elenco de largos, praças e jardins277 que vale tanto pelo que lista - o Largo da Estação, a Alameda da [Praça da] República [antigo Largo do Pelourinho (“o velho rossio”)], o Largo 1º de Dezembro278 e as Praças 1º de Maio, Manuel Teixeira Gomes e Visconde de Bívar (Jardim) – como pelo que deixa por listar, apesar de registar fotograficamente - o Largo D. João II (da mó) – e pelo que notoriamente omite (Largo Gil Eanes) pela dificuldade em legendar no tom aprazível tido como bom prospecto turístico, não obstante ser das maiores ‘zonas verdes’ da cidade.
276
No termo do passeio dedicado às “Marcas do Manuelino”: «Por fim, e se para além de curioso for corajoso, saiba que nas ruínas da Igreja do Convento de São Francisco se encontra um Pórtico Manuelino de algum interesse.»
277
Definidos como “lugares para fazer negócios e política, testemunhas de acontecimentos de âmbito público e privado, contribuindo desde sempre para a sociabilidade das pessoas que habitam os centros urbanos”.
278
Arte Nova, 1931; fotografia recente da frente do Teatro Municipal de Portimão (TEMPO), sito no Palacete Sárrea Garfias, tirada do Largo (Jardim) em si, sintomaticamente ocultando-o, decerto por não
Pois precisamente partindo da envolvente do Largo Gil Eanes como zona de contacto quotidiano e adiante, em digressão implicada em alguns do ‘passeios culturais’ propostos pelo Município, prendemo-nos sobretudo com a negociação táctica de fronteiras (Clifford:211) no domínio do devoluto, especulando sobre a questão das boas maneiras de construir que Latour credita diplomaticamente na adversativa da tese racionalista da modernidade. (Latour 2002:40,41) Afinal, se é certo que a “arquitectura sempre ofereceu o protótipo da peça de arte que é recebida num estado de distracção e através do colectivo” (W. Benjamin in Highmore:123), não suscitam suas ruínas mais ou menos vernaculares escalas outras de ausência?
Remontando situações de contacto específicas, propomos em anexo um curto- circuito que fomente o debate da arquitectura e do vernacular ante a fragmentação globalista de mercado que oblitera o barro da memória, evocando as possibilidades de subversão e reciprocidade como condição negocial. (cf. Clifford:194;197;199)
Fig. 3.9 – Destaque da envolvente do Largo Gil Eanes, à margem dos ‘passeios culturais’ da cidade, de onde lançámos nossa demanda campal – ver Anexo C
Fig. 3.10 – Vernáculo devoluto faz de esquina de contacto entre ruas, à Alameda da República - in Anexo C:19