Para avançar na compreensão do trabalho docente e sua amplitude como centralidade na vida, faz-se necessário resgatar o conceito de objetivação humana pelo trabalho emitido por Marx e analisado por Lukács (1981).
Em Marx, o ponto de partida não é dado nem pelo átomo (como nos velhos materialistas), nem pelo simples ser abstrato (como em Hegel). Aqui, no plano ontológico, não existe nada análogo. Todo existente deve ser sempre objetivo, ou seja, deve ser sempre parte (movente e movida) de um complexo concreto. Isso conduz a duas consequências fundamentais. Em primeiro lugar, o ser em seu conjunto é visto como um processo histórico; em segundo, as categorias não são tidas como enunciados sobre algo que é ou que se torna, mas sim como formas moventes e movidas da própria matéria: "formas do existir, determinações da existência". (LUKÁCS, 1969, p. 2).
Os relatos oferecidos pelos docentes, na pesquisa que alimenta de dados empíricos essa tese, demonstram a centralidade do trabalho na vida humana, convergindo a história, mesclando os fatos, dominando os sentimentos e propósitos de toda uma existência, tanto na objetivação do docente quanto da instituição de ensino.
Aqui está apresentada, como parte da reflexão crítica do trabalho docente na UFU, a história vivida por uma participante que diz não conseguir dissociar sua vida pessoal da própria UFU. A docente valoriza a Instituição como sua casa e relata sua história de vida, suas realizações pessoais, os fatos que a representam como ser humano, referenciada no percurso histórico da UFU, “movente e movida”, parte de um todo concreto e objetivo.
Só de UFU eu tenho 41 anos. Faço agora em julho. Eu, antes disso já era professora. Comecei no Pré-primário, dei aula no Conservatório porque eu formei em Música e formei em História. Então eu fui convidada... primeiro eu fiz um concurso, naquela época, no
Conservatório, já estava na Faculdade de Música e fui professora no Conservatório, de História da Arte, História da Música, Folclore e era muito feliz. Porque eu tinha uma experiência da História e era um formato, para a época, na década de 1970, muito aberto. Os alunos sentavam no chão em almofadas, dançávamos, construíamos alegorias... Então, o Conservatório era um lugar de Arte, né? Comecei na Faculdade de Artes não era nem Universidade ainda. Não era federalizada. A MINHA VIDA FOI DENTRO DA UFU. Eu fiz “Normal”. Em 1970 eu entrei na UFU e nunca mais saí. Primeiro com aluna, me formei em 1973 e, comecei em 1976 a dar aula. Nesse intervalo eu dei aula no Colégio das Freiras e no Conservatório e, como eu te falei, passei do Pré-primário ao Segundo Grau. E, também de 5ª a 8ª série no Colégio das Freiras, que é um Colégio muito duro. E eu acho que até hoje é ainda muito ríspido com o professor... era um tormento! Na época, eu vinha da História, na época da ditadura e... você queria se abrir e era impossível! As freiras eram controladoras demais e filhas, mulheres das famílias ricas, proeminentes da sociedade. Então, só para você ter uma ideia, eu estava dando aula sobre Renascimento e levei uns slides, naquela época, sobre o Renascimento. No outro dia eu cheguei e tinha umas mães sentadas, de óculos escuros, a Madre me chamou: “filha, vem cá! Nós ficamos sabendo que você está ensinando pornografia!” Eu falei: “o que?” Ela falou: “Você não passou uma fotografia de um homem nu?” Eu disse: “mas é o David de Michelangelo... é uma estátua! Eu estou ensinando Arte!” Então foi preciso eu me acomodar um pouco, como eu tenho um gênio que não é muito fácil também, né? Assim que houve a oportunidade e que me convidaram para trabalhar na Faculdade de Artes com as mesmas disciplinas que eu trabalhava no Conservatório, eu fui. Eu saí de lá pensando: meu Deus, o que é essa coisa de DE? Então eu fui... [...] Dava aula para a Universidade inteira. EPB era uma porcaria mas tudo bem, eu conheci a Universidade como um todo porque eu dei aula na Medicina, na Engenharia, na Veterinária, Artes. EU CHEGUEI A DAR 24 HORAS/AULA POR SEMANA, DE EPB. Teve uma vez que me chamaram para dizer que eu tinha um total a receber... “que total?” O total era que, o máximo que o professor poderia dar em 40 horas era 20 aulas, naquela época. E eu ganhei um dinheirão! Porque eu dei 4 aulas a mais, toda semana, durante o ano inteiro! Eram pacotes e pacotes de provas para corrigir! E a gente teve uma luta depois disso. Porque na época da ditadura militar era Estudos Sociais. Você não podia falar em Geografia e História. Para implantar o curso de História separado de Geografia, com características, com disciplinas, um método próprio. E nós conseguimos! Então eu vim de um passado, de uma construção do próprio curso de História, da graduação. E, logo em seguida, começaram, os professores chegarem, um ou dois mestres, por acaso. E a gente ficava assim, “mas o quê que é mestrado?” Como é que é isso mesmo? Eu me lembro que eu fiz uma especialização em Belo Horizonte e outra especialização aqui, porque trouxemos professores. NÃO ERA MINHA HORA DE FAZER NEM MESTRADO NEM DOUTORADO. Tinha poucos professores e era assim, se você saísse eu ficava com suas disciplinas para você sair. Então eu fiquei esperando alguns colegas que estavam mais na minha frente e fui fazer os cursos de especialização. Até que eu saí para fazer o mestrado na USP e, logo em seguida eu ia fazer o doutorado. Eu fiz o mestrado de 1985 a 1990, eram cinco anos naquela época. O doutorado eram 5 também. Eram 8 e passou para 5. Aí me falaram: “olha, você vai ter que ficar na Coordenação do CEDIS – Centro de Documentação e Pesquisa durante dois anos PARA DEPOIS VOCÊ SAIR, porque outra pessoa vai sair
no seu lugar”. [...] Logo em seguida eu saí para fazer o doutorado, de 1993 a 1997, em 1998 eu defendi. Quando eu voltei já havia uma ideia de Pós-Graduação, porque nós já tínhamos produção, revista, a graduação estava consolidada e já havia a possibilidade. Já tínhamos 13 professores doutores. Mas era tanta briga e tanta discussão lá dentro! Eu, V. e H. P. nos sentamos e a V. falou: “olha, eu fico na Direção do Departamento, a H. na Coordenação da Graduação e você vai coordenar o projeto. Eu coordenei o projeto de Pós-Graduação, aprovamos da primeira vez com nota 3... ninguém acreditava. O V., que era um Historiador famoso falou para mim: “filha, mas o que você quer de um interior? Tá ótimo!” Quando a gente pleiteou o doutorado ele disse: “para quê? Aqui era um fim do mundo!” Enfim, aprovamos. Começou em 1999 e eu fiquei quatro anos na coordenação. Deixei o Pós com nota 4 e o doutorado implantado. Então... EU NÃO SEI SE TENHO UMA IDENTIDADE FORA DA UFU. EU ACHO QUE A MINHA IDENTIDADE... EU SOU UFU! Eu entrei na graduação com 17 anos. Então, eu fui professora, eu queria ser professora! Eu me encantei pela docência! [...] Se não fosse a Universidade, hoje eu seria uma professora, não desmerecendo, mas eu seria uma professora de primeiro e segundo grau, nunca teria feito pesquisa, nunca teria viajado o Brasil inteiro, nunca teria livro publicado, nunca teria nada! Então eu só posso pensar que essa UFU foi um privilégio para mim. Pode ser meio doida pelo que estou falando... MAS EU VOU ME IDENTIFICAR COM O QUÊ? (H3, UFU, 2017, p.1 - 3).
A docente explicita sua trajetória e confere à UFU o fato de se realizar como docente e como uma pessoa. Quando diz “eu sou UFU”, atribui uma identidade institucional à sua própria identidade pessoal, o que reafirma a captura da vida genérica pela vida produtiva. O processo de objetivação do ser humano que trabalha faz com que ele atribua aos processos de trabalho e aos resultados obtidos a identificação como ser humano, sem que encontre outra maneira para isso. A despersonalização do indivíduo na predominância dos interesses Institucionais, que sobrepujam os interesses pessoais, demonstra que o “trabalhador encerra a sua vida no objeto; agora ela não pertence mais a ele, mas sim ao objeto”. (MARX, 2010, p.81)
3.2 A Saúde dos Servidores na Estrutura da Universidade Federal de Uberlândia.