3. Results and discussion
3.5 Phenols/ chlorophenols, isoproturon and DEHP
Um outro aspecto da dificuldade de conceituar inércia advém da concepção do movimento retilíneo. Para Galileu, o movimento em linha reta dos corpos é absolutamente impossível, isto é, para poder afirmar a tendência dos corpos ao movimento, especificamente em linha reta, sem qualquer suporte para sustentá-los, teria que conceber o movimento de queda como não natural, isto é, seria um movimento violento, tendo como causa uma força externa.21 Isso significa que Galileu teria que levar até o fim o matematicismo de sua filosofia e excluir a gravidade não só da constituição essencial do corpo, mas também da sua constituição efetiva, só que, desta forma, ele estaria muito mais próximo de Descartes, pois estaria reduzindo o ser efetivo de um corpo às suas determinações essenciais; e isso não fará, pois está muito influenciado pelas concepções de Arquimedes, que o afastam efetivamente do conceito de inércia.
Com efeito, observa-se que o caminho de Galileu está praticamente obstruído para levá-lo ao conceito de inércia, porém os resultados obtidos pelo seu método, embora não foram suficientes para dar conta da complexidade do conceito, talvez sejam o seu maior legado à ciência moderna porque recorreu à experimentação, pondo fim à separação entre a teoria e prática, realizando, assim, a união destas duas esferas da atividade humana.
É importante destacar que, para Galileu, a experimentação não se reduz à mera observação, supõe a formulação de uma hipótese matematizada, portanto, uma abstração das relações entre as variáveis do fenômeno estudado. Conforme ele próprio explicitou, os segredos da natureza estão escritos em linguagem matemática, de modo que, sem conhecer essa linguagem, não se conhece o mundo, então, formular uma hipótese é inventar uma idéia preliminar sobre o objeto de estudo. Tal idéia deverá ser expressa em termos matemáticos para ser submetida a um teste empírico. Aqui está, talvez, sua maior dificuldade, pois o conceito de inércia requeria um grau de abstração maior, que Galileu não pôde atingir, criando barreiras intransponíveis para o seu pensamento.
A experiência astronômica do movimento circular dos planetas, mostrando sua naturalidade, aliada à uniformidade das leis e à crença na finitude do universo astral, opunha- se à criação do conceito de inércia por Galileu, para quem a física celeste encontrava-se em perfeito acordo com a física terrestre, que estava baseada na dinâmica da gravidade, origem do movimento e propriedade constitutiva e inadmissível dos seus corpos, assim, não podendo
21 Vale lembrar que até essa época o movimento em linha reta dos projéteis era evidente. Estes só se encurvavam
admitir o caráter privilegiado do movimento em linha reta, uma vez que na física celeste este não ocorria.
O interesse pelo movimento da queda dos corpos motivou as hipóteses e os experimentos realizados por Galileu na ânsia de entender e explicá-los. Isso lhe valeu as descobertas de algumas teorias e o fez entrar para a história como um dos principais representantes da ciência moderna. Seus estudos, porém, chegaram muito próximo do princípio de inércia, mas não o suficiente para estabelecê-lo e os motivos serão analisados a seguir.
Para o historiador da ciência Koyré (1986), por três vezes Galileu chegou muito próximo do princípio, mas por causa de algumas concepções e teorias via-se desviado do caminho. São elas: recusa-se a renunciar inteiramente à idéia de cosmos, ou seja, de um mundo bem ordenado; e a admitir francamente a infinidade do espaço e, por fim, é incapaz de conceber o corpo físico privado do caráter constitutivo de gravidade.
No que se refere à primeira recusa, Galileu não conseguiu libertar-se totalmente da física aristotélica, a idéia de um cosmo com uma certa ordem não está definitivamente descartada, até mesmo por falta de provas.
Quanto à infinidade do espaço, o argumento anterior também é válido, o universo galilaico ainda é finito. O interessante é que Galileu já tem conhecimento das obras de Giordano Bruno22, porém, não se sabe o motivo por que ele as recusa.
Quanto à gravidade, é pelo fato de não saber o que ela é realmente. Sabe abstrair-se de qualquer teoria do peso, como fez de forma espetacular, porém não da gravidade, dado imediato e do senso comum. Galileu não consegue explicá-la e é possível dizer que em sua época já existe uma teoria física da gravidade diferente da de Arquimedes que, não sabendo o que era, via-se obrigado a admiti-la como um fato, ou seja, tem-se a tese de Gilbert, de que a Terra era um grande ímã, que Kepler adota, modificando-a.
22 Giordano Bruno (1548 - 1600) adota o heliocentrismo de Copérnico (1473 – 1543) a partir do qual concebe
um universo infinito e infinitamente ocupado por outros mundos. O copernicanismo de Bruno é exposto em seu livro A Ceia das Cinzas, publicado em 1584, que desde o título denuncia seu caráter teológico ao mencionar a última Ceia e portanto o dogma da eucaristia. Nessa perspectiva, converteu uma teoria astronômica numa doutrina religiosa. A adoção de uma filosofia natural que reivindicava o heliocentrismo copernicano era apenas, para Bruno, um passo anterior a uma proposta de reforma radical da teologia, ética, sociedade e política. Assim, rejeitou o dogmatismo da teologia católica e a ditadura de suas instituições e optou pela liberdade de uma filosofia que a Igreja não poderia aceitar. Carente de seguidores e de pessoas influentes a apoiá-lo, sem recursos financeiros próprios nem a proteção de mecenas, acabou por ser considerado um perigoso subversivo e toda a Europa Cristã o abandonou à sua própria sorte. Dessa forma, em 1592, foi acusado de blasfêmia e heresia pela Inquisição e, na hora de seu julgamento, seu copernicanismo teve um peso moderado face as suas opiniões heréticas sobre teologia católica. Recusando a se retratar perante a Igreja Católica foi condenado à fogueira em 1600.
Galileu Galilei não a utiliza, apesar de conhecê-la e aceitá-la, simplesmente porque a natureza magnética da gravidade não é matemática, nem sequer matematizável. Embora admirador de Gilbert, pois aceita a idéia do grande ímã, Galileu não a utiliza, porque para aquele a atração da Terra é uma força animada, pois crê nas almas dos astros, enquanto para Kepler23 não é, embora do seu passado animista conserve a faculdade da Terra poder dirigir- se por si própria para o seu objeto, sabendo onde deve ir, onde está o corpo que precisa atrair. Tudo isso são mistérios para Galileu, que não conseguiu explicar, esclarecer, matematizar, enfim, utilizar, não chegando, assim, a formular o princípio de inércia.
Analisando e explicando melhor os três momentos em que Galileu está muito próximo do conceito, é forçoso admitir que, por alguns detalhes em seu pensamento, não foi capaz de conceituar a inércia. Evidentemente, toda sua teoria serviu de suporte para os outros grandes cientistas, seus sucessores, que identificaram no método galilaico um caminho indispensável para a nova ciência. Observem-se mais alguns detalhes em que Galileu no limite da inércia, acaba recuando.
No primeiro momento, o debate se dá com Ptolomeu24, em relação ao princípio do movimento circular. Para este, o movimento circular da Terra não era possível, pois geraria uma força centrífuga tão forte que faria as coisas voarem; até a própria Terra.
Desta tese, Galileu defende-se, argumentando que o movimento é quase nulo e imperceptível para as coisas que dele participam em conjunto, por isso o movimento de
23 Johannes Kepler (1571 – 1630) - homem ainda ligado à Idade Média, filosoficamente está mais perto de
Aristóteles do que de Galileu e Descartes. Para ele, os corpos têm uma tendência natural ao repouso, pois todo movimento requer uma causa. Assim, o repouso e a paragem são naturais. Não mais admite o lugar natural dos corpos, ou seja, seu lugar natural é o espaço, assim como o de Bruno. Os corpos só mudam de lugar neste espaço homogêneo, se uma força os expulsar de lá. Para Kepler, a força magnética de atração da Terra faz com que os corpos se encontrem ligados a ela como por laços ou correntes formando um sistema ou unidade real. Essa força de atração substitui o movimento natural dos corpos que Copérnico invocara.
24 Claudius Ptolomeus (83 – 161 d.C) - o nome deste astrônomo alexandrino sugere que tenha origem grega, mas
pouco se sabe de sua vida. Viveu na época da dominação romana. Em seu modelo geocêntrico, retoma e aperfeiçoa o Sistema Deferente-Epiciclo, proposto pelos astrônomos por volta de 300 anos antes de Cristo. Deferente: é um círculo imaginário em volta da Terra, em cuja periferia se movem aparentemente os astros. Epiciclo: é o círculo em que um planeta se move e cujo centro se desloca ao mesmo tempo sobre a circunferência de um círculo maior. O centro do círculo não coincide com a Terra. A velocidade angular é constante em relação a outro ponto chamado equante. O sistema de esferas giratórias torna-se mais complexo com a adição do equante e de um número ainda maior de pequenos círculos giratórios. Este sistema possui, portanto, três pontos mais significativos: o Centro geométrico do deferente circular, que não coincide com a Terra; a própria Terra, que está fora do centro do deferente e o Equante, ponto ao redor do qual a velocidade angular do deferente é constante. O equante foi uma das principais objeções de Copérnico ao sistema ptolomaico, pois introduzia uma variação artificial na regularidade do movimento circular. Porém, para a época, o sistema de Ptolomeu era o mais refinado, aliado a um detalhado ajuste de parâmetros com os novos dados experimentais oriundos de observações astronômicas, pois permitia verificar os movimentos e a luminosidade dos planetas, obtendo um sucesso sem precedentes em suas predições. No que se refere especificamente ao movimento da Terra, Ptolomeu é aristotélico, pois afirmava que não há movimento algum por parte da Terra, porque se isso ocorresse seria um desastre, na medida em que o movimento de rotação expulsaria os corpos, bem como não haveria movimento retilíneo dos mesmos.
rotação da Terra, também, é quase imperceptível, pois o seu diâmetro muito grande a impede de arremessar as coisas e a si própria, porque a velocidade que se deve considerar é a angular. Para chegar a essa conclusão, Galileu realizou inúmeros experimentos com rodas de diversas circunferências, baldes amarrados com cordas para serem girados, com água ou pedra dentro deles, ou seja, embora se saiba hoje que sua tese é falsa, porque confunde velocidade linear com angular, via-se em Galileu a influência decisiva do novo método científico, que rompia definitivamente com a distinção ontológica aristotélica entre o movimento e o repouso, tornando-os relativos, como bem aponta Mariconda e Vasconcelos:
Assim, o movimento não é simplesmente o deslocamento de um corpo de um lugar para outro, mas uma modificação da sua constituição interna, cuja natureza se realiza plenamente quando ele chega ao repouso em seu lugar natural. O movimento é, portanto, um processo que afeta a constituição natural interna das coisas que o sofrem, e o repouso é o termo e a finalidade do movimento. Por isso, o repouso é caracterizado como um estado que só pode ser alterado por violência. A concepção de Galileu, expressa por sua caracterização relativística, é inteiramente diferente. O movimento é totalmente extrínseco à natureza das coisas, porque é definido como simples modificação das relações entre elas, as quais não têm sua constituição natural interna alterada por estarem em movimento ou repouso. Em outros termos, movimento e repouso são simples estados dos corpos, definidos pelas relações espaço-temporais que os corpos mantêm entre si. Ou ainda, para deixar assentado esse importante ponto: movimento e repouso são estados relativos dos corpos (MARICONDA; VASCONCELOS, 2006, pp.139 e 140).
Enfim, quanto a esse primeiro momento, observa-se que Galileu em muito se esforça para demonstrar que, seja qual for a velocidade da Terra, os seus efeitos jamais poderão ser aqueles idealizados por Ptolomeu, pois para este o movimento circular só é natural para os corpos celestes e para as esferas, privadas de gravidade, e de maneira nenhuma é para os corpos graves, enquanto para Galileu são justamente estes que possuem um movimento circular privilegiado.
Com tais reflexões, Galileu revela um fato de suma importância: qualquer impulsão para o movimento se dá em linha reta e o movimento circular dos graves não é mais do que uma resultante de dois movimentos retilíneos. Embora seja uma constatação importante, há erros que Galileu conhecia muito bem. Sabe, por exemplo, que uma dada força pode ser vencida e ultrapassada pela força centrífuga, desde que o movimento de rotação seja rápido. Isso ele não pode admitir, pois teria que admitir a tese ptolomaica.
Desta forma, continua a admitir que os graves possuem uma força natural (peso) que os atrai ou que os empurra para o centro da Terra. A gravidade age natural e constantemente, e vai mais longe, afirmando que para que a força centrífuga a pudesse vencer, o corpo teria que vencer e ultrapassar a si próprio. Isso equivale a dizer que, para Galileu, a gravidade
fundamenta e explica a faculdade que o corpo possui de receber e armazenar o movimento: é o mesmo corpo que, por causa da mesma gravidade, recebe a impulsão linear de rotação terrestre e tende para o centro da Terra.
Assim, para Galileu, o impetus é retilíneo, porém o movimento não, em decorrência da gravidade. Com isso, não reconhece o movimento em linha reta, uma vez que o impetus se dá num instante, porém nenhum movimento se dá no instante. A bala do canhão, o projétil, a pedra, a flecha, devido ao impetus violento, partem em linha reta, mas nunca se movem em linha reta.
Com tal raciocínio, pode-se afirmar que Galileu está próximo do conceito de inércia, na medida em que afirma a impossibilidade do movimento retilíneo, ou seja, nenhum movimento real se dá em linha reta, em virtude da gravidade, a não ser que esse movimento se desse em um corpo privado da gravidade, a saber, um corpo abstrato.
O interessante é que Galileu não vai adiante, não ultrapassa essa linha tênue entre a experiência real e a abstrata e mais uma vez o conceito lhe foge, porque afirmará resolutamente o caráter natural do movimento para baixo dos corpos, sendo incapaz de abstrair o peso. Acrescenta, ainda, que os corpos ao caírem aceleram e que esse movimento se afrouxa quando numa ascendente; e que esses corpos só se movimentarão na horizontal se estiverem submetidos a algum plano; fora deste, cairão. Desta queda, se formará um movimento, composto do horizontal do plano e do naturalmente acelerado da queda, que denominará movimento de projeção (semiparábola).
Vale relembrar que o limiar do princípio da inércia estava evidente porque nesta época, aliás, no mundo arquimediano, ao qual Galileu pertencia, o plano horizontal, no qual o movimento uniforme se dá eternamente, é geométrico infinito e não uma superfície esférica. Isso equivale a dizer que qualquer corpo sendo colocado em movimento neste plano se moverá eternamente, com um movimento retilíneo e uniforme, infinitamente. Mesmo assim, Galileu não se deixou levar por isso, reafirmando que na falta do plano que sustenta os corpos e os leva em linha reta, estes cairão, não mais se movendo retamente.
Hoje se sabe que os corpos estão submetidos à lei da gravidade, no entanto, há ainda para Galileu uma confusão entre gravidade e massa. Para ele, a gravidade não é uma força que age no corpo, é algo a que o corpo está submetido; algo inerente a ele, resultando daí que ele não sofra qualquer variação, nem no tempo, nem no espaço.25
25 Tal concepção advém da tese galilaica da uniformidade das leis, em que aplica aos céus os princípios
estabelecidos para a Terra. O corpo pesa o que pesa, sempre e em qualquer lugar e cai com a mesma velocidade, esteja onde estiver, perto do centro da Terra ou nas estrelas.
No entanto, como já se ressaltou, Galileu conhece a física de Arquimedes, podendo, assim, considerar isoladamente a realidade e desprezar a direção real que a gravidade tem na Terra, utilizando-se da tese arquimediana, cuja lei da queda é uma aproximação da lei real, mais complexa; e o seu mundo é partindo do mundo geométrico, uma primeira aproximação do mundo físico e, por isso, não pode levar a abstração para mais além, porque a gravidade é uma propriedade constitutiva e inseparável do corpo físico. Por isso, pode-se dizer que a física de Galileu é errônea, pois explica aquilo que é (gravidade), por aquilo que não é (massa).
Enfim, Galileu chegou a tocar o conceito de inércia, no entanto a tarefa coube a Descartes, simplesmente porque para aquele o movimento retilíneo era impossível e essa impossibilidade não era exterior aos corpos, ou seja, não podiam mover-se em linhas retas pelos seus próprios pesos e não porque encontravam obstáculos. O movimento para baixo é resultante de seus pesos e, se esses fossem suprimidos, os seus movimentos não seriam recuperados, desapareceriam com o próprio ser físico do corpo. Eis o grande erro galilaico.