Zigmund Bauman, um dos maiores sociólogos da atualidade, em seu livro
Amor Líquido, escreve sobre a modernidade, lançando seu olhar sobre o caráter
tênue dos laços afetivos.
Destaca o cunho volátil que vivenciam as relações entre os sexos, onde homens e mulheres são irrelevantes uns para os outros; as estruturas familiares já não têm o alicerce de antes. Faz a seguinte reflexão:
Se uma súbita rajada de vento viesse afastar a neblina, ninguém sabe ao certo que tipo de margem iria revelar, nem se da névoa emergiria uma terra suficientemente firme para sustentar um lar permanente. Pontes que levam a lugar nenhum, ou a nenhum lugar em particular: quem precisa delas? Para quê? Quem perderia seu tempo e seu bom dinheiro para planejá-las e construí-las? (Bauman, 2004, p.28)
O mundo passa por uma série de modificações em diversas áreas (econômica, cultural, tecnológica, social etc), podemos dizer que é o resultado da globalização, ou como nomeia Bauman (2005) a “modernidade líquida”.
E uma das consequências é a crise de identidade que, segundo Hall, “é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social” (Hall 2006, p.27).
Bauman tratou a questão da modernidade e da individualização de uma forma singular, mostrando como o processo de globalização com suas características tão bem delineadas, que são o aspecto móvel e o dinamismo, pôde trazer uma identidade diferenciada à geração da atualidade. Ele chamou de modernidade líquida as relações onde os laços afetivos se desfazem com muita facilidade, onde já
não se nota mais o interesse por relações duradouras como antes. Ele compara os relacionamentos às ações da bolsa de valores:
Relacionamentos são investimentos como quaisquer outros, mas será que alguma vez lhes ocorreria fazer juras de lealdade às ações que acabou de adquirir? Jurar ser fiel para sempre, nos bons e maus momentos, na riqueza e na pobreza, “até que a morte nos separe”? (…)
A primeira ciosa que os bons acionistas (…) fazem de manhã é abrir os jornais nas páginas sobre mercado de capitais para saber se é hora de manter suas ações ou se desfazer delas. É assim também com outro tipo de ações, os relacionamentos (Bauman, 2005, 15).
O autor revela que já não se tem certeza para onde se está indo, onde se vai chegar ao fim de um relacionamento, chegando a questionar sobre quem seria capaz de investir tempo e dinheiro em seu planejamento e construção. Afirma que
“Formar uma família é como pular de cabeça em águas inexploradas e de
profundidade insondável” (Bauman, 2005, 29). O indivíduo passou a ser visto como mais localizado e “definido” no interior dessas grandes estruturas e formações sustentadoras da sociedade moderna.
Dois importantes eventos contribuíram para articular um conjunto mais amplo de fundamentos conceituais para o sujeito moderno. O primeiro foi a biologia darwiniana, […] o segundo evento foi o surgimento de novas ciências sociais (Hall, 2006, p. 30).
A felicidade para o homem moderno tornou-se uma questão obrigatória, como o próprio ato de respirar. Não é mais concebível uma vida de privações e imposições; o homem é o centro, o elemento mais importante. As obrigações e convicções que a Igreja impunha no passado já não fazem tanto sentido para a maior parte das pessoas. O século das luzes trouxe a concepção de que os prazeres terrenos são permitidos, e com isso formou a ideia de que a felicidade era um modelo a ser perseguido.
O progresso carregou de expectativas o homem moderno; a tecnologia busca resolver problemas e trazer facilidades que mudaram e mudam o rumo da antiga história; os bens materiais podem auxiliar nas tarefas cotidianas e otimizá-las.
Mas, como na vida tudo possui dois lados, um positivo e outro negativo, juntamente ao progresso e à tecnologia vieram alguns prejuízos, como menciona Lipovetsky:
Com início nos séculos XVIII e XIX, as refutações da ideia de progresso ganharam força na sequência das duas grandes guerras mundiais, dos extermínios em massa, do totalitarismo, do perigo atômico e, mais recentemente, da degradação dos ecossistemas e das ameaças biotecnológicas. (Lipovetsky, 2010, p. 287)
O homem moderno começa por vivenciar os reveses que a modernidade carregada de tecnologia traz à humanidade.
Lipovetsky diz que “a fé num futuro necessariamente melhor e mais feliz desvaneceu-se” (2010, p. 287). O homem, agora carregado de um sentimento de insegurança, busca novas formas de mudar o cenário de acúmulo de solidão, angústia e até medo. Podemos dizer que novas patologias surgiram com o advento da modernidade; ouvimos falar de síndromes e sintomas associados à vida moderna, doenças que de fato não se sabe o que são e nem tão pouco de onde vêm e simplesmente os médicos dizem que é uma virose.
Continua a saga atrás de soluções e também em busca da tal felicidade prometida pela modernidade. O consumo cada vez maior faz com que se pense ter obtido o prazer que lhe faltava, a satisfação de que precisava, mas, rapidamente aquilo já não lhe serve mais. E, Lipovetsky, nos põe a pensar com suas interrogativas: Será possível que o caminho seguido pela civilização tecno comercial seja um impasse fatal?
Será possível que o culto moderno do Homo felix seja o instrumento da nossa maior infelicidade? (Lipovetsky, 2010, p. 287)
Tanto Lipovetsky quanto Bauman referem-se ao caráter superficial das relações afetivas e à explosão de consumo em busca da felicidade, como também concordam que o indivíduo que confia a sua felicidade a outro está fadado ao fracasso. Lipovetsky (2010, p. 302) diz que:
o indivíduo está inevitavelmente condenado às decepções e às mágoas da vida. Uma vez que preciso de outros para ser plenamente feliz, a minha felicidade é necessariamente fugaz e instável. Sem o outro não sou nada; com o outro, estou a sua mercê: a felicidade à qual o homem pode aceder só pode ser uma “felicidade frágil”. (Lipovetsky, 2010, p. 302)
O sentimento de impotência diante da realidade inunda cada ser, mas a ilusão ou sonho de alcançar a felicidade pode compensar essa situação e servir para orientar um sentido que ajude a mudar e atingir o almejado objetivo.
Ao mesmo tempo em que o autor nos mostra a realidade de consumo no planeta, mantém um olhar questionador e positivo diante da postura adotada pelos chamados “alter consumidores” que são aqueles que decidem por produtos que diminuem o impacto na natureza. Ele afirma que, “este novo tipo de consumidor empenha-se pessoalmente no seu modo de consumo” (Lipovetsky, 2010, p. 294).
Visa a elucidar o tema em questão sempre nos mostrando duas vertentes; dessa forma, ao falar do que chamou de barbárie moral, expõe que: “São muitos os que levantam a voz contra o naufrágio de uma civilização cada vez mais marcada pelo egoísmo, a primazia do dinheiro, a delinquência, a grande criminalidade econômica e financeira” (Lipovetsky, 2010, p. 306).
Desde os antigos gregos, o ser humano vive em busca do grande segredo da felicidade, na eterna procura do que o fará feliz e satisfeito com a sua vida. Se pensarmos na felicidade associada ao amor, é possível afirmar que em uma
sociedade que não cessa de prestar culto ao ideal amoroso e na qual a verdadeira vida está associada ao que se saboreia a dois, a relação estável e exclusiva constitui ainda um fim ideal. Essa premissa seria facilmente aplicável a tempos passados porém na atualidade já não ocorre da mesma forma.
A relação paradoxal que encontramos nos faz entender como os indivíduos celebram hoje um universo dominado pelo mercado, ao qual nem a esfera da intimidade consegue escapar, numa sociedade onde as necessidades dos cidadãos estão constantemente em observação e são alvo de elaboradas estratégias de mercado. Mas, podemos perceber que esse fato tão comum na atualidade também pode ser notado nas relações do passado; onde pessoas precisam “ter para ser”, é necessário cada vez mais estar à frente, como se vivêssemos em uma competição, é necessário ostentar.
A felicidade, substituída pela satisfação de desejos nunca aplacáveis, jamais é experimentada. O que nos resta é a ansiedade da felicidade. Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, tornar a si mesmo vendável é uma das tarefas mais importantes que as pessoas têm numa sociedade de consumo, além de conquistar a felicidade. Ainda segundo o sociólogo, a felicidade é o principal objetivo da sociedade de consumo, ou seja, os homens vivem para ser felizes por meio das coisas que adquirem, paradoxalmente, e por meio daquilo que descartam.
As compras são o ópio da sociedade que, quanto mais isolada e frustrada com a solidão, tédio do trabalho, fragmentação da mobilidade social, segue buscando o consolo na felicidade imediata proporcionada pelas mercadorias. Ou seja, consumo como forma de fazer transparecer a condição de felicidade propiciada pelas novas experiências.
Há a fragilidade dos vínculos humanos, que são misteriosos, conflitantes e inseguros na medida em que o homem contemporâneo está abandonado à sua própria vontade, de modo que, ao mesmo tempo, possui grande facilidade de conceder e descartar sentido nas “relações amorosas”.
O homem moderno, ávido por relacionar-se, ao mesmo tempo em que busca uma relação, e desta maneira repudia a solidão, não abre mão de sua liberdade, e para manter a liberdade mantêm a relação, entretanto com outra configuração. Desta maneira, temos um novo modelo de relação amorosa: é a relação líquida, frouxa. A felicidade, que é uma parte do paradoxo, prazer-desprazer, satisfaz o homem na medida em que supera um sofrimento. Os fluídos movem-se facilmente, quer dizer: simplesmente “fluem”, “escorrem entre os dedos”, “transbordam”, “vazam”, “preenchem vazios com leveza e fluidez”.
Muitas vezes não são facilmente contidos, como por exemplo, em uma hidrelétrica ou num túnel de metrô, lugar onde se podem observar as goteiras, as rachaduras ou uma pequena gota numa fenda mínima. O mundo é identificado como líquido, em que as relações se estabelecem com extraordinária fluidez, que se movem e escorrem sem muitos obstáculos, marcadas pela ausência de peso, em constante e frenético movimento. O amor também passa a ser vivenciado de uma maneira mais insegura, com dúvidas acrescidas à já irresistível e temerária atração de se unir ao outro.
Quando, com toda justiça, consideramos falho o presente estado de nossa civilização, por atender de forma tão inadequada às nossas exigências de um plano de vida que nos torne felizes, e por permitir a existência de tanto sofrimento, que provavelmente poderia ser evitado; quando, com crítica impiedosa, tentamos pôr à mostra as raízes de sua imperfeição, estamos indubitavelmente exercendo um
direito justo, e não nos mostrando inimigos da civilização. Podemos esperar efetuar, gradativamente, em nossa civilização alterações tais que satisfaçam nossas necessidades e escapem a nossas críticas. Mas talvez possamos também nos familiarizar com a ideia de existirem dificuldades, ligadas à natureza da civilização, que não se submeterão a qualquer tentativa de reforma.