A formação desse grupo – ou desse tecido social – dá elementos para a leitura da “metáfora das relações sociais”: grupo eclético e heterogêneo, sem raízes comuns: alguns da dança, outros do teatro; cada um de um canto do Brasil; origens sócio-econômicas e histórias de vida distintas; faixas-etárias diferentes; crenças distintas.
Nunca houve uma audição, como na maior parte dos grupos de dança. A entrada e a incorporação de novos membros nesse “tecido social” é delicada: têm que ser assimilados, envolvidos – o que exigia muita paciência também dos membros antigos. Sem falar no aspecto financeiro: quanto mais membros, mais os cachês deveriam ser divididos. E, para os integrantes, ser aceito ou convidado a participar da companhia é visto como “uma conquista”; um caminho de persistência6.
[...] então um muito diferente do outro, talentos muito diferentes e cada um tem um gênio diferente e conviveu coma gente de maneira diferente. (ICa) Então essa liberdade para que cada um siga seus caminhos faz com que você, realmente, entenda o valor de estar em uma companhia tão heterogênea e homogênea ao mesmo tempo, né? Porque as pessoas têm uma filosofia de bem-estar para todos, de saúde, bem-estar, mas, ao mesmo tempo, tem uma visão completamente diferente do outro de coisas
6 Por ter surgido em um espaço de “ensino e pesquisa” (o Estúdio Nova Dança), essa forma de constituição do núcleo – a partir da convivência, pessoas eram convidadas a integrar o grupo – causava ruídos. Muitos alunos freqüentavam o Estúdio com o desejo de serem integrantes das companhias ali sediadas. Os que não eram convidados podiam sentir-se segregados, e esse processo, criticado como “pouco claro e transparente, além de muito subjetivo”.
normais. Se você falar de religião lá, por exemplo, fodeu: cada um vai para uma religião, eu vou contra todas, é uma briga geral. (Ice, grifo meu)
Diante de tanta heterogeneidade e mais de dez anos, o que os une? A escolha por um trabalho profundo de pesquisa, “a coragem de ser artista- pesquisador para além da grana”, a improvisação enquanto linguagem, esse pensamento – filosofia em ato, a “característica de quase sonho” de tentar atingir um estado de excelência na cena e, para tanto, das relações internas do grupo. O compromisso – “seriedade” – de construção de uma linguagem que tenha a autonomia dos intérpretes como premissa, com muito trabalho, mas sempre com uma perspectiva de saúde – processos saudáveis.
Mas eu acho que o que une é isso: a pesquisa, o próprio pensamento, a coragem e o amor que essas pessoas têm de estar juntas. Essa afinidade, apesar de cada um ser muito diferente do outro. (ICg, grifo meu)
[o que manteve] é um trabalho que é bom, que a gente conhece o lado bom, que é gostoso de fazer, principalmente agora que a gente vai vendo, cada vez mais, esse resultado, sendo cada vez mais aceito... A gente vai ficando mais forte, ele comunica mais Então o último espetáculo que a gente fez [Festival de Improvisação – Jogando no Quintal – Ago./2007], foi uma surpresa pra gente, muita gente veio falar que se emocionou, que foi tocante, então nossa “existe aí potencial, que ta aí, é real”. E a gente não quer jogar fora, não pode jogar fora. (ICb, grifos meus)
Essa seriedade sempre foi, pra mim, o mais importante de tudo [...] esse caminho que ensina você a pescar, ao invés de te dar o peixe, que eu vi nas aulas do Nova Dança, e ainda com esse acréscimo de ser tudo com uma energia muito boa, saudável, gostosa, foi... o grande diferencial que fez eu me engajar e estar até hoje; que me mostrou um caminho. (ICe, grifos meus)
No começo do grupo, quando não ganhavam nada e ensaiavam muito, era o potencial que enxergavam na Cia. que os mantinha unidos – “acreditar que esse trabalho é muito bom”. E os que chegaram depois do primeiro núcleo formado compartilhavam as mesmas crenças e valores. Descrevem os primeiros anos da Cia. como “muito criativos”, “explosivos”, “de muitas descobertas juntos”. Em algumas entrevistas, havia certa nostalgia no ar, uma vontade de voltar àquele platô de intensidades dos primeiros anos. Ao mesmo tempo, apesar da fase distinta, continuam acreditando na Cia.: é “fonte de alimento e de efervescência”; é onde se “desafiam”, compartilham criações, fazem pesquisas e descobertas. Um “exemplo ímpar” que “traz muito pra cada um que está ali”.
Na companhia mesmo, nos três primeiros anos, o treinamento era muito constante, muito forte, todo dia a gente fazia horas de ideokinesis, de CI, de
movimento-imagem [...] Porque, nessa época, nos três ou quatro primeiros anos do Estúdio e no Prelúdico, isso foi numa densidade que depois foi se diluindo, diluindo [...] nossa, eu tenho muita... Nos meus sonhos, nas minhas meditações eu procuro voltar naquele momento e ainda ta vivo, me alimenta até hoje. (ICc, grifo meu)
E todos entenderam, em algum momento (ou em mais de um momento), que “seu lugar era ali”. Muito recentemente – depois das séries Antropofágicas de 2007 – dizem ter tido a “noção de que a companhia tem um trabalho único” como grupo permanente de improvisação, com uma pesquisa contínua.
Se muitos conflitos já aconteceram – e devem acontecer – são otimistas com relação ao momento atual: buscam (ou buscavam) uma nova dinâmica interna.
A questão agora, do grupo do Cia. Nova Dança 4, é como você consegue se articular... mas, emocionalmente, a gente ta muito feliz. A gente tá em outro lugar... Como agora, essa democracia, esses papéis tão mudando um pouco. Como agora a gente ta diretor, cada um ta... Eu to aprendendo a produzir as coisas, todo mundo ta com mais empenho, se colocando de maneira mais efetiva fora, na estrutura de uma companhia, então a relação ta ficando diferente. Por várias questões, longas até, emocionais, de relação do dinheiro: quanto cada um vale (ou merece ganhar), o valor do trabalho, quanto cada um se coloca efetivamente para construir uma estrutura da Companhia, escrever um projeto [...]. (ICd, grifo meu)
7.3.1.1 Como viver junto
Até hoje, a formação da companhia é estável, fato ímpar na realidade dos grupos de dança, em São Paulo. Desde o começo, ”a convivência de grupo tinha que ter uma coisa muito séria e muito clara na abordagem, um cuidado muito grande na abordagem das relações”; meio uma coisa de “terapia”. Muitos falam da sabedoria da Quito em conduzir mais do que o processo artístico, mas processos humanos: “quando ela põe na mesa, é batata; todo mundo grita, se xinga e vambora trabalhar” (ICc).
Já passaram por muitas dificuldades – um integrante chegou a deixar o grupo por um ano, mas depois retornou, por exemplo – e acham que outras podem voltar, mas sentem-se amadurecidos e fortalecidos – como grupo – para enfrentá-las: isso seria uma “arma” desse grupo. Outra seria o fato de o Contato Improvisação permitir uma abordagem especial das relações.
[...] todo esse assunto começou com essa nossa ligação terapêutica. [...] Mas, enquanto grupo, além de todo esse conhecimento, e de prática, a
gente tem uma grande prática de pensar as relações. E eu diria que essa é uma “arma” e é o trabalho do qual eu mais me orgulho. De entrar em crise, superar uma crise... Porque é dá oportunidade aos sentimentos humanos. Porque quando você fala com clareza das relações, você ta falando com clareza dos sentimentos humanos. E todo trabalho que você for fazer, por mais que ele tenha um ideal, um conceito científico, no fundo, no fundo, você ta falando do homem, né. No fundo, no fundo, é “antropo”. E então, nesse sentido, você vai na miúda da raiva, do amor, da competição, da... tristeza de tudo, da amizade e a verdade é que se você juntou mais que um, mais de uma semana, aperte os cintos porque já começou, né... Não existe qualquer encontro de mais de uma pessoa que não vá permear essas coisas. Então se não estiver sendo razoavelmente resolvida a questão das relações [...]. (ICa, grifos meus)
[...] eu acho que o que junta essas pessoas é isso: todo mundo tem os seus conflitos; eu imagino; eu vejo. Cada um os seus; cada um que você for entrevistar, em algum momento, ou em sua pessoalidade, vai ter seus conflitos... Um, porque, sei lá, qualidade de movimento, mas o lance todo que junta é e de compartilhar esse desafio que é: “se aceita”. (ICf, grifos meus).
E com certeza, outra coisa que mantém, é essa sabedoria da Quito em saber conduzir processos humanos, que a gente já teve nós fodas na companhia, de muita carga, mal resolvidas [...] Muitos diretores não sabem conduzir esses processos e os processo acabam morrendo nas relações humanas extra-processo e a Quito tem muita habilidade de separar, conduzir, trazer à tona... Quito sempre – a Tica também – mas principalmente a Quito, ela é CIRÚRGICA. Quando ela põe na roda, põe na mesa, você diz: é isso mesmo, é batata, é o que ta acontecendo. Todo mundo chora, se xinga, e vambora trabalhar. E é isso, nesse grupo a gente tem vidas muito díspares e eu leio isso como uma coisa produtiva. (ICc, grifos meus).
A inspiração desses modus operandi vem de suas famílias: um empreendimento familiar; uma fraternal companhia de danças & outras andanças. Todos se referem à companhia como uma família, fazem analogias com “casamentos”, “crises familiares”, discorrem sobre “envolvimento emocional familiar”, etc. O grupo tem até uma poupança para emergências, um fundo de reserva comum, para as horas de aperto, como as famílias costumam ter, quando podem. Há quem ache que as relações na companhia sejam mais sinceras e livres do que em suas “famílias de origem” e tentem levar-lhes esse aprendizado.
[...] a companhia é um dos pilares da minha vida... Eu não me mudo porque a companhia é o meu trabalho. Poderia, ah, poderia... Porque eu não tenho filhos, não tenho emprego fixo. Mas não; é a minha família... São meus amigos, meus filhos, meus pais [...]. (ICa, grifo meu)
E aí tive essa conversa, que fora HORAS, porque envolve muitas coisas emocionais. É uma companhia que, praticamente, é uma família, né [...]. (ICg)
[...] eu acho que a gente ainda tem vida longa, porque outros problemas, outros conflitos, ainda vão vir, como em qualquer família, porque é
conjunto... mas a gente ta melhor disso, de reconhecimento de si, de amadurecimento. (ICf, grifo meu)
E eu sinto que, ao longo desses anos, que com as meninas, a Tica e a Quito, todos esses processos criativos, e com a “família”. Porque é um tipo de família: eu tenho mais liberdade pra dizer algumas coisas na CND4 do que com a minha mãe, por exemplo. E ser sincero. Eu to aprendendo também, a levar essa sinceridade pra eles. (ICd, grifo meu)