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Pressupomos o trabalho numa forma em que pertence exclusivamente ao homem. Uma aranha realiza operações semelhantes às do tecelão, e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos favos de suas colmeias. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. No fim do processo de trabalho obtém-se um resultado que já no inicio deste existiu na imaginação do trabalhador, e, portanto, idealmente (LUKÁCS, 2012, p. 7).

Marx (2004) também faz uma comparação entre o trabalho humano e a atividade produtiva animal, afirmando que os animais também produzem, constroem ninhos e habitações, como no caso das abelhas, castores, formigas, etc. Porém, só o estritamente indispensável a si mesmos ou aos filhotes, e em uma única direção, enquanto o homem o faz universalmente. Além do mais os frutos da produção animal pertencem diretamente a seus corpos físicos, ao passo que o homem é livre ante seu produto, e que assim constrói também em conformidade com as leis do belo.

Da mesma forma que a sociabilidade e a linguagem, a imaginação também surge do trabalho, este sendo o modelo de toda práxis social, retratada na constante busca em dar sentido à existência, ao movimento do mundo, e aos fatos da vida individual, inclusive na tentativa de modificar a realidade. Analisando Hartmann, Lukács (2012) conceitua a capacidade de adaptação de um organismo como labilidade. Assim, seguindo a proposta darwinista, comenta sobre o “salto qualitativo” do animal irracional para o homem. Reconhece que a enorme capacidade adaptativa do homem está ligada a seu poder de escolha, praticamente ausente nos outros animais (LUKÁCS, 2012). Salienta que as escolhas darão origem a uma sucessão de fatos em sequência, ao que denomina cadeias de alternativas. Assim, ao tomar uma decisão, deve-se levar em consideração as consequências desse ato, e não apenas o ato em si, e, mesmo escolhendo apenas uma das alternativas possíveis, as demais permanecem como um projeto, uma existência virtual, potencialmente ativa no mundo imaginário.

Relativo aos músicos empresários, esse fato é constatado pela imaginação, ou projeção mental, que o indivíduo faz previamente de seu empreendimento, analisando as consequências de suas escolhas, os riscos. Procurou-se compreender nessa pesquisa em que momento essas abstrações mentais começaram a se concretizar, os fatores que motivaram sua concepção e realização, e como os músicos empresários abordados analisaram pessoalmente as consequências de tais empreendimentos.

Lukács (2012) reconhece a importância do perigo, como fator motivacional pela busca de autossuperação humana, inclusive influenciando na construção de ferramentas e demais instrumentos. Nessa pesquisa tentou-se compreender como o instinto de conservação humano influenciou as escolhas profissionais de músicos, ao ponto de modificar seus padrões convencionais de comportamento, transformando-os em músicos empresários.

Em consonância com o perigo, a necessidade, sendo aquele racionalizado, cria satisfações que devem ser cumpridas. Nesse ponto, surge a dúvida sobre qual seria o conteúdo ontológico essencial do trabalho: a necessidade ou a satisfação? Com relação aos músicos empresários abordados, buscou-se compreender como esses dois conteúdos se relacionaram na produção de seus empreendimentos, até que ponto a necessidade, principalmente financeira, influenciou na escolha do ramo de negócio, e qual a influência do gosto pessoal nesse processo. De igual maneira, tentou-se descobrir se tais músicos sentem-se realizados financeira, psicológica e musicalmente em seus negócios; o grau de dedicação atualmente dado por eles a essas atividades; esclarecer como conciliaram suas ocupações (músicos, professores, empresários) com suas atividades pessoais (família, lazer etc.); saber se a saúde física e mental manteve-se equilibrada ou apresentou algum problema durante e após (se for o caso) o exercício de tais empreendimentos.

Marx (2004) descreve o trabalho alienado como o produto do trabalho não pertencente ao trabalhador, uma força estranha. Desse modo seu trabalho; que agora ontologicamente não é mais dele, pois perdeu o vínculo que os unia; passa a ser uma fonte de satisfação e prazer para outro homem. Assim foi questionado se os músicos empresários da pesquisa foram, em todas as prestações de serviço, “donos” de seu trabalho, ou seja, cientes de que, apesar do intuito em atender a uma demanda motivada por outro (o cliente), não realizaram serviços contrários a sua satisfação pessoal, originando-lhes alguma forma de sofrimento.

Segundo Abreu (2011, p.151), “não são os modelos de profissionalização que determinam o que as pessoas devem se tornar, mas, sobretudo, o potencial delas em detectar pontos favoráveis no local onde estão inseridas”. A autora continua afirmando que “o potencial não vem apenas do sujeito, mas provém, também, dos outros, da situação, ou das oportunidades abertas pela própria situação”. Assim, era interessante saber sobre como esses músicos empresários encaravam as situações vivenciadas por eles (problemas, desafios, sucessos), na condição de empreendedores, e de que forma tais vivências contribuíram para a consolidação de seus produtos/serviços. São as diferentes experiências de vida que auxiliam na formação profissional do indivíduo, e essa construção é permeada por situações não previstas, e logicamente incalculáveis por seus atores, levando-os a criar soluções empíricas para situações novas o que vai ao encontro das ideias de inovação e risco presentes no conceito de empreendedorismo.

Ramalho, Núñez e Gauthiner (2003) entendem a profissionalização docente de duas formas: como “profissionalidade” ou “profissionismo”. Aquela diz respeito às competências próprias da profissão; enquanto esta (profissionismo) é uma construção social, agregando às competências valores morais e culturais. Dessa forma, a prática é condição sine qua non na construção da identidade do professor de música.

Nessa práxis Abreu (2011) destaca, em sua pesquisa sobre a profissionalização de professores de música, a satisfação que estes encontram na aprovação e reconhecimento de suas atuações por parte da direção da escola onde trabalham. Isso mostra o quanto a construção das identidades pessoais e profissionais está vinculada ao comportamento dos outros, especialmente dos que dispõe de meios técnicos para avaliar racionalmente as ações.